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março 24, 2019

************ REGIME MILITAR no BRASIL: FILMES

caio blat em “batismo de sangue”

REGIME MILITAR vai de 1964 a 1985, período em que o país esteve sob controle das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Nesta época, os chefes de Estado, ministros e medalhões instalados nas principais posições do aparelho estatal pertenciam à hierarquia militar, sendo que todos os presidentes eram generais do exército. O cenário político do início dos anos 60 era corrupto, viciado e alheio às necessidades do país. O movimento militar surgiu para sanear a vida social, econômica e política, livrando a nação da ameaça comunista e trazendo de volta a ordem e a legalidade. 
jardel filho em “terra em transe”

A esquerda vende o peixe como anos de chumbo, caracterizados pela restrição à liberdade, predomínio da censura e da perseguição. Distante do submundo comunista-socialista, as recordações dos nossos familiares e conhecidos são bem diferentes. A propaganda institucional mapeava o país com os slogans “Ninguém segura este país” ou “Brasil, ame-o ou deixe-o”; a dupla Don e Ravel fazia sucesso em rádios e programas de televisão com o refrão: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, ninguém segura a juventude do Brasil”; nas escolas, cantava-se “Este é um país que vai pra frente”; e o hino da Copa de 1970 emocionava com “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”. Já a narrativa propagada por artistas, escritores e jornalistas é um show de invencionices e oportunismo.

Ao longo dos séculos, a arte sempre foi arma de arremesso contra o obscurantismo, tornando-se um grande catalisador da força da consciência. Precisamente, contrariando essa linha de pensamento, surgiram diversos filmes panfletários, tendenciosos, distorcendo os fatos e atacando o REGIME MILITAR. São longas com viés ideológico de esquerda. Alguns retratam eventos e/ou personagens reais mitificados; outros, ficção, mas ambos pregam inverdades.

Selecionei uma ampla filmografia que tematiza o REGIME MILITAR BRASILEIRO. Vi a maioria, filtrei, refleti, pesquisei. Alguns foram difíceis de assistir, amparam-se unicamente no doutrinamento vermelho, mas considero válidos como documento de uma Nação sabotada por comunistas-socialistas.

O DESAFIO
(1964)

direção de Paulo César Saraceni
elenco: Isabella, Oduvaldo Vianna Filho e Luiz Linhares

Melodrama da perplexidade da burguesia intelectual face ao regime militar instalado no Brasil, em 1964. Narra o romance entre a esposa de um rico industrial e um inconsequente estudante de esquerda. Provocou controvérsias e fracassou nas bilheterias.

A DERROTA
(1966)

direção de Mário Fiorani
elenco: Luiz Linhares, Glauce Rocha e Ítalo Rossi

Conta a história de um preso torturado por causa de uma confissão que se nega a prestar. Invertendo a situação de vítima, ele procura desesperadamente liquidar o bando que o aprisiona. Sucesso de crítica bem interpretado. Estreia do diretor.

TERRA em TRANSE
(1967)

direção de Glauber Rocha
elenco: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy
e Glauce Rocha

Narra as desventuras políticas e existenciais de um poeta e político de esquerda, em crise por perceber tardiamente que sempre havia servido a políticos traidores e oportunistas. As poderosas imagens alegóricas, textos desencontrados, idas e vindas no tempo cronológico, a falta de preocupação em contar uma trama realista e linear, compõem uma espécie de ópera barroca sobre o Brasil.

JARDIM de GUERRA
(1968)

direção de Neville d’Almeida
elenco: Joel Barcellos, Hugo Carvana, Dina Sfat
e Glauce Rocha

Jovem amargurado e sem perspectivas se apaixona por uma cineasta e é injustamente acusado de ser terrorista por uma organização que o prende, interroga e o tortura.

A VIDA PROVISÓRIA
(1968)

direção de Maurício Gomes Leite
elenco: Paulo José, Dina Sfat e Joana Fomm

Jornalista vai à Brasília entrevistar um ministro, entregando a um membro do governo documentos comprometedores. Seguido e ferido, agoniza, recordando as mulheres que amou. Roteiro confuso e bons atores em cena.

O BOM BURGUÊS
(1979)

direção de Oswaldo Caldeira
elenco: José Wilker, Betty Faria, Christiane Torloni,
Jofre Soares, Nelson Xavier e Jardel Filho

Filme policial que retraa a luta armada no Brasil, inspirando-se livremente em personagem real. Na década de 1960, usando de artifícios contábeis, um bancário desvia cerca de dois milhões de dólares para a guerrilha que enfrenta o regime militar. Ele ficou conhecido na imprensa e entre os terroristas como “o bom burguês”.

PAULA – a HISTÓRIA de uma SUBVERSIVA
(1980)

direção de Francisco Ramalho Júnior
elenco: Armando Bogus, Marlene França e Helber Rangel

Um arquiteto é informado pela ex-esposa do desaparecimento da filha. O policial designado para as investigações anos antes efetuara a prisão do arquiteto e da sua amante, líder estudantil que optara pela luta armada. Banida do país, ela retorna e morre em um confronto com a polícia. O arquiteto faz um balanço da geração que pensou um dia transformar o país em uma ditadura comunista.

PRA FRENTE, BRASIL
(1982)

direção de Roberto Farias
elenco: Reginaldo Farias, Antônio Fagundes, Natália do Valle
e Elizabeth Savalla

Durante a Copa do Mundo de 1970, um trabalhador comum é confundido com um ativista político e desaparece. Sua família tenta encontrá-lo.  Ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado.

CABRA MARCADO para MORRER
(1984)

direção de Eduardo Coutinho

No início da década de 1960, um líder camponês é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos próprios camponeses, foram interrompidas pelo regime militar de 1964. Dezessete anos depois, o diretor retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus dez filhos. O tema principal passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar.

NUNCA FOMOS tão FELIZES
(1984)

direção de Murilo Salles
elenco: Cláudio Marzo, Roberto Bataglin e Suzana Vieira

Rodado no último ano do regime militar, fala de um rapaz retirado de um colégio interno por seu pai, que estava na prisão, após oito anos de estudos. Ele investiga o mistério que o cerca, em busca de uma identidade e descobre que o pai é um perseguido político.

CORPO em DELITO
(1989)

direção de Nuno César Abreu
elenco: Lima Duarte, Regina Dourado e Dira Paes

Um médico legista frio e solitário, que presta serviços aos órgãos do regime forjando laudos de morte natural para vítimas de tortura, apaixona-se por uma garota que trabalha numa casa noturna.

QUE BOM te ver VIVA
(1989)

direção de Lúcia Murat
elenco: Irene Ravache

Misturando delírios e fantasias de uma personagem anônima com os depoimentos de oito ex-presas políticas que viveram situações de tortura. Para diferenciar a ficção do documentário, optou-se por gravar depoimentos reais em vídeo, com o enquadramento semelhante ao de retratos 3x4.

LAMARCA
(1994)

direção de Sérgio Rezende
elenco: Paulo Betti, Carla Camurati e Selton Mello

Crônica dos últimos anos de vida do capitão do exército Carlos Lamarca. Ele desertou das forças armadas e passou a fazer oposição, tornando-se um dos mais conhecidos líderes da luta clandestina. Boa atuação de Paulo Betti.

O QUE é ISSO, COMPANHEIRO?
(1997)

direção de Bruno Barreto
elenco: Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso,
Cláudia Abreu e Selton Mello

Grupo terrorista MR-8 elabora um plano para sequestrar embaixador norte-americano, planejando trocá-lo por presos políticos. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

AÇÃO entre AMIGOS
(1998)

direção de Beto Brandt
elenco: Leonardo Villar, Zécarlos Machado e Cacá Amaral

Em 1971, quatro amigos participam da luta armada contra o regime militar e acabam sendo presos quando tentam assaltar um banco. São torturados, sendo que a namorada de um deles, que estava grávida, morre quando seus algozes colocam nela uma ‘coroa de cristo’ até estourar seu cérebro. Vinte e cinco anos depois, eles ainda se veem e em uma pescaria um deles mostra uma foto de um encontro político em São Paulo, afirmando que uma das pessoas fotografadas foi o homem que os torturou. Decidem então sequestrá-lo e matá-lo. Ao ser capturado, o torturador faz uma revelação surpreendente que muda os planos.

DOIS CÓRREGOS – VERDADES SUBMERSAS no TEMPO
(1999)

direção de Carlos Reichenbach
elenco: Carlos Alberto Riccelli,  Beth Goulart e Ingra Liberato

Duas adolescentes burguesas passam uma temporada numa fazenda e acabam convivendo com o tio de uma delas, um homem misterioso, clandestino no país.

CABRA-CEGA
(2004)

direção de Toni Venturi
elenco: Leonardo Medeiros, Débora Duboc e Jonas Bloch

Dois jovens militantes da luta armada sonham com uma revolução comunista no Brasil. Após ser ferido por um tiro, em uma emboscada feita pela polícia, um deles precisa se esconder na casa de um arquiteto simpatizante da causa. O fugitivo é o comandante de uma organização de esquerda, que está no momento debilitada e prepara um retorno à luta política. Ganhou cinco Candangos no Festival de Brasília, entre eles, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Roteiro.

BATISMO de SANGUE
(2006)

direção de Helvécio Ratton
elenco: Caio Blat, Daniel de Oliveira e Cássio Gabus Mendes

No final dos anos 60, um grupo de frades dominicanos decide apoiar a luta armada contra o regime militar. Na mira das autoridades policiais, são presos, passando por torturas. Um deles é mandado para exílio na França, onde comete suicídio. Melhor Diretor e Melhor Fotografia no Festival de Brasília. Interpretações expressivas.

O ANO em que MEUS PAIS SAIRAM de FÉRIAS
(2006)

direção de Cao Hamburger
elenco: Michel Joelsas, Simone Spoladore, Caio Blat
e Paulo Autran

Em 1970, um garoto de 12 anos tem como maior sonho ver o Brasil tricampeão mundial de futebol. De repente, separado dos pais comunistas e obrigado a se adaptar a uma comunidade – o Bom Retiro, bairro de São Paulo, que abriga judeus, italianos, entre outras culturas. Cuidado pelo avô, que morre, o garoto se integra à comunidade judaica, além de conhecer militantes. Melhor Filme no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

ZUZU ANGEL
(2006)

direção de Sérgio Rezende
elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira e Leandra Leal

Estilista de projeção internacional trava uma batalha contra as autoridades militares em busca do corpo do filho que participava da luta armada e foi morto. Excelentes atuações de Pillar e Daniel de Oliveira.

SONHOS e DESEJOS
(2006)

direção de Marcelo Santiago
elenco: Felipe Camargo, Mel Lisboa e Sérgio Morrone

Uma estudante, um professor de literatura e um guerrilheiro ferido - sempre com o rosto coberto - são militantes confinados em um apartamento em Belo Horizonte. Eles confrontam suas opções afetivas e políticas, envolvendo ideologia, lealdade, traição e desejo.

HOJE
(2011)

direção de Tata Amaral
elenco: Denise Fraga e César Troncoso

Ex-militante recebe indenização do governo pelo desaparecimento do marido. Com o dinheiro, ela pode comprar o tão sonhado apartamento próprio e libertar-se desta condição de suspensão em que viveu durante décadas, período em que não era sequer reconhecida oficialmente como viúva. No momento da mudança para o novo lar, porém, surge uma visita que a obriga a rever toda sua trajetória.

TATUAGEM
(2013)

direção de Hilton Lacerda
elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia

Brasil, 1978. O regime militar, ainda atuante, mostra sinais de esgotamento. Em um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com espetáculos e interferências públicas. Uma trupe conhecida como Chão de Estrelas, juntamente com intelectuais e artistas, resiste através do deboche e da anarquia.

FONTES
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1029-1988”, de Salvyano Cavalcanti de Paiva; “Enciclopédia do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda; e “O Discurso Cinematográfico”, de Ismail Xavier.

abril 23, 2017

***** GLAUBER ROCHA - os ÚLTIMOS DIAS de VIDA


Publicado na revista pernambucana Continente Multicultural e no jornal baiano A Tarde.


Talvez ele seja um dos derradeiros expoentes de uma maneira de filmar personalíssima, faísca esta ainda encontrada em um Jean-Luc Godard ou um Xavier Dolan. Aos que nunca assistiram GLAUBER ROCHA (1939 - 1981), há que adverti-los que não se pode aspirar a compreender o cinema brasileiro se não viu uma ou duas criações deste cineasta complexo.

“O problema do espectador na obra de arte é um problema que eu não considero, digo-lhe isto com a maior sinceridade. Porque eu acredito que a obra de arte é um produto da loucura, no sentido em que fala o Fernando Pessoa, que fala o Erasmo, quer dizer, a loucura como a lucidez, a libertação do inconsciente. É por isso que eu não me considero um cineasta profissional, porque se fosse teria que atuar segundo o ritual da indústria cinematográfica. Considero-me um amador, como o Buñuel, alguém que ama o cinema”, disse Glauber pouco antes de morrer, num dos seus arroubos verbais de poderosa vitalidade.

De todos os cineastas surgidos com o movimento Cinema Novo – Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Carlos Diegues, Roberto Santos, etc. -, o mais influente foi o baiano GLAUBER DE ANDRADE ROCHA, especialmente depois do seu segundo longa, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filmado no mesmo ano do Golpe Militar e considerado um dos grandes filmes de todos os tempos pela revista francesa “Cahiers du Cinema”. Ele eclipsou a todos com sua poesia agreste e personalidade contraditória, ganhando visibilidade internacional.

Em poucos anos, filmou vários curtas, publicou livros, lançou o manifesto “A Estética da Fome” com as bases do Cinema Novo, foi preso em 1965 num protesto contra o regime militar, viajou por inúmeros países e realizou duas obras fundamentais, “Terra em Transe” – classificado de “ópera metralhadora” por Jean-Louis Bory, no “Le Nouvel Observateur”, e proibido em todo o território nacional - e o folhetim revolucionário “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, apresentadas no Festival de Cannes e recebendo com a segunda o prêmio de Melhor Diretor. Foi o seu auge, parecia ter o mundo aos seus pés. Na década seguinte, entretanto, sua estrela decairia em consequência da personalidade confusa e do triunfo universal do cinema comercial.

O caráter particularmente dotado de GLAUBER ROCHA para perceber o cinema em toda sua complexidade diluiu-se numa estética alarmante e desconcertante. Radicalizou a ideia de narrar o caos, o caótico sustentando a arte, em um efeito artístico ambíguo. Exilado voluntariamente do Brasil, filmou obras impopulares na África (“O Leão de 7 Cabeças”), Espanha (“Cabezas Cortadas”), Cuba (“História do Brasil”) e Itália (“Claro”). Ele que havia bebido em fontes diversas (Eisenstein, Bergman, Visconti, Rossellini etc.) para compor sua lógica, tentando decifrar o Brasil ao filmar o seu avesso.

Mergulhou de cabeça numa utopia cinematográfica marcada por contradições ideológicas, políticas, espirituais e mitológicas. Recusando uma carreira internacional convencional, passou por graves dificuldades financeiras, foi ridicularizado no Brasil por seus próprios colegas, escreveu para o semanário “O Pasquim” – num idioma particular, com y e k no lugar de i e c –, provocando polêmicas e reações furiosas.

O período que vai de 1969 a 1976, os seis anos em que ficou fora do Brasil, são um quebra-cabeças biográfico e geográfico, com dezenas de viagens, mudanças de endereço, de países, mulheres, amigos. Um périplo romanesco, um nomadismo radical e vital, e centenas de cartas escritas de quartos de hotel, apartamentos provisórios de amigos, produtores e amantes. Em 1979, sua atuação no programa “Abertura”, da TV Tupi, virou referência na tevê brasileira. Falava de política, entrevistando artistas e o povo.

Tornou-se uma espécie de profeta, de intelectual que perdeu a razão, e cruelmente seus colegas contavam seus casos privados para quem quisesse ouvir: ele caminhando na praia de Ipanema, enrolado num cobertor como mendigo, falando sozinho; conversando com as paredes do hotel, em Santiago do Chile, com um microfone na mão: “Aqui é Glauber Rocha, eu sei que a Cia está gravando, e a KGB também”; as brigas irreconciliáveis com diversas pessoas, etc.

ana maria magalhães e tarcísio meira
em “a idade da terra”
Em 1979, num último esforço para sair das trevas, vendeu seu único bem, uma casa, para filmar “A Idade da Terra” em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro com um elenco popular (Norma Bengell, Tarcísio Meira, Antônio Pitanga, Danuza Leão, Ana Maria Magalhães). “Esse filme materializa os símbolos mais representativos do Terceiro Mundo, ou seja: o imperialismo, as forças negras, os índios massacrados, o catolicismo, o militarismo revolucionário, o terrorismo urbano, a prostituição da alta burguesia, a rebelião das mulheres, as prostitutas que se transformam em santas e de santas em revolucionárias. Tudo isso está no filme dentro do grande cenário da História do Brasil”, disse no lançamento.

O público e a crítica rejeitaram a desintegração da sequência narrativa, embora sem a perda do discurso, e o longa foi um fracasso, sendo vaiado no Festival de Veneza. Alucinado e magoado, o cineasta fez passeata, ofendeu o júri e o vencedor - o francês Eric Rohmer -, sempre defendendo sua obra: “Busco um outro cinema. Um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É um novo cinema, antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido”.

jorge amado e glauber
No final de 1980, GLAUBER ROCHA se encontrava em Roma, hospedado no palacete de Luchino Visconti, e por fim, em Paris, acompanhando uma retrospectiva dos seus filmes. Sua câmara havia revelado a essência de um país, fugindo da beleza defunta tipo cartão-postal, e pousando na loucura e desespero, na crueza e mazelas sociais. Mesmo assim, aos 41 anos, as portas estavam fechadas para ele e vivia numa terrível penúria econômica. Tentando colocar a cabeça em ordem, resolveu viver em Sintra, Portugal. “O lugar mais bonito do mundo”, como dizia.

Levou a esposa colombiana, Paula Gaitán, fotógrafa e atriz, e os dois filhos de menos de dois anos de idade, Ava Patria Yndia Yracema Gaitán Rocha e Erik Arouak (seu primeiro casamento também foi com uma atriz, Helena Ignez, e teve um romance intenso com outra atriz, a francesa Juliet Berto, ícone da Nouvelle Vague). Definindo-se como sebastianista e apocalíptico, amargurado, decepcionado, com problemas políticos e de saúde frágil, GLAUBER ROCHA se sentia cansado e doente. Como os mais íntimos conheciam sua antiga mania de doença, nunca levaram a sério a suposta hipocondria.

Quando este espírito independente, conhecido em todo o mundo por sua intransigência e temperamento apaixonado, chegou ao Monte da Lua, era um inverno rigoroso. As névoas cobriam as ruelas de pedra, as montanhas e os jardins. Chovia quase sempre. Sintra, conhecida como um reduto de artistas e pensadores, neste mesmo inverno, recebeu Wim Wenders, que rodou parte de “O Estado das Coisas / Der Stand der Dinge” (1982) na Praia Grande, o chileno Raoul Rouiz e o moçambicano-brasileiro Ruy Guerra, um inimigo de Glauber, que também filmaram nas redondezas.

Sempre reservado, distante do mundano, o diretor finalizava “Revolução do Cinema Novo”, uma antologia de textos críticos produzidos entre 1958 e 1980, que seria publicado poucos dias antes de sua morte, e escrevia o roteiro para um próximo filme, “O Império de Napoleão”, planejando um elenco estelar encabeçado por Jack Nicholson e Jane Fonda, e que já tinha a confirmação de Orson Welles como um dos protagonistas (sem cachê, apenas pediu uma hospedagem confortável e garrafas de uísque).

Diante da paisagem deslumbrante de Sintra, que Eça de Queiroz dizia não há um só recanto que não seja um poema, GLAUBER ROCHA absorveu o paraíso, partindo para a máquina de escrever como se estivesse numa terrível batalha. Muito disciplinado, acordava cedo, tomava o café da manhã e escrevia até as 13 horas os seus textos, roteiro e artigos para jornais, enquanto ouvia Villa-Lobos. Não gostava de visitas, sendo praticamente arrastado por colegas para jantares ou eventos em Lisboa.

Ainda assim, aparecia muita gente: cineastas brasileiros e portugueses, críticos de cinema, os escritores Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, o ator francês Patrick Bauchau, o produtor Luiz Carlos Barreto e até o Presidente (do Brasil) Figueiredo. A maior parte do tempo estava sozinho, em casa. Vez ou outra, passeava pela praça do Castelo, caminhando de mãos dadas com os filhos e lendo jornais no Café Paris. Parecia bem, tranquilo, almoçando nos restaurantes locais, tomando vinho tinto, fumando haxixe. Mas a depressão era uma constante no seu cotidiano. “Vim para morrer em Portugal”, dizia.

Preocupava-se com os problemas financeiros, a política e o cinema brasileiros, e não conseguia esquecer a morte trágica da irmã, a atriz Anecy Rocha (“A Lira do Delírio”, 1978), que caíra no poço de um elevador em 1977. Sentia-se incompreendido e não aceitava a proibição, pela própria família do retratado, do documentário “Di Cavalcanti” (1976), premiado em Cannes. Também tinha saudades da mãe, Lúcia Mendes de Andrade Rocha, escrevendo sempre para ela, numa ligação profunda.

othon bastos em
“deus e o diabo na terra do sol”
O casamento ia mal das pernas. Paula, uma loura sofisticada e inteligente, mais jovem do que ele, desejava voltar ao Brasil, e mesmo admirando o marido, não entendia seus enigmas. Bela e mimada, não se situava completamente na pele de mãe de família, e ainda mais passando dificuldades financeiras. Recebia ajuda dos pais ricos, não acreditava numa suposta enfermidade do companheiro e vivia implicando para que ele superasse suas angústias.

A imprensa portuguesa deu intensa cobertura a temporada de Glauber em Sintra, com manchetes e longas entrevistas. O cineasta, em eterna preocupação com a preservação das cópias dos seus filmes, entusiasmou-se com o ciclo em sua homenagem programado pela Cinemateca Portuguesa, em abril de 1981. No primeiro dia de exibição, a sala de projeções pegou fogo destruindo totalmente a obra do cineasta. Desesperado, viu o incêndio como um sinal do fim. A sua queda foi instantânea.

Logo depois foi internado no Hospital de Sintra com suspeita de uma doença broncopulmonar, talvez uma tuberculose. Esverdeado e abatido, olhos amarelados, foi transferido para o Hospital da CUF, em Lisboa, melhorando a olhos vistos. Lúcido, brincalhão, recebendo visitas, lendo jornais e vendo televisão, gozava das autoridades e políticos que apareciam: “Esses engravatados não me deixam em paz”. Ainda acamado, recebeu os primeiros exemplares de “Revolução do Cinema Novo”, o que o deixou contente. Parecia estar bem, como se tudo não passasse de uma elaborada encenação para ajudá-lo a renascer das cinzas.

Paula Gaitán, que havia mudado com os filhos para um hotel próximo, tirava fotos polaroid do companheiro e de seus amigos, circulava por Lisboa, e não parecia ter consciência da gravidade da enfermidade do marido. Ele próprio não sabia qual era o seu mal. Contraditórios, os médicos não entravam num acordo. Havia rumores não confirmados de um câncer.

No dia 20 de agosto, após uma série de exames rigorosos, GLAUBER ROCHA disse que não gostaria de ficar sozinho naquela noite, pedindo a Paula que o fizesse companhia. Ela recusou, pois não podia deixar os filhos sozinhos no hotel. Ele parecia bem, radiante e conversador como nos seus melhores dias. Na mesma noite entrou em coma. No dia seguinte, levado para o Brasil em estado crítico, morreu logo depois, em 22 de agosto de 1981.

O talento incompreendido, leitor de Nietzsche e Schopenhauer aos 13 anos, foi velado no Parque Lage, no Rio de Janeiro, cenário de “Terra em Transe”, em meio a grande comoção. Poucos dias após, exibiram seus filmes em mostras retrospectivas na Inglaterra (National Film Institute), Estados Unidos (American Film Institute) e França (Instituit Nacional d’Estudes Cinematographiques). A causa da morte ainda hoje é nebulosa, fala-se inclusive em Aids. O mais provável, contaminação ao passar por uma biópsia com equipamento não esterilizado.

Tinha 42 anos. Ele desde adolescente dizia que morreria aos 42 anos, o inverso de 24, idade em que morreu Castro Alves. O poeta fazia aniversário no seu mesmo dia e era o seu favorito. Foi-se subitamente, levando sua mensagem exuberante. Se continuasse filmando possivelmente ainda estaria vivo. A arte seria sua cura. Mas não deixaram. Incomodava demais aos conservadores.

odete lara e joffre soares em “o dragão da maldade contra o santo guerreiro”

FILMOGRAFIA de GLAUBER

CRUZ NA PRAÇA 
(CM, inacabado, 1959)

BARRAVENTO 
(1960)

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL 
(1964)

AMAZONAS AMAZONAS 
(CM, 1965)

MARANHÃO 66
 (CM, 1966)

TERRA EM TRANSE
 (1967)

O CÂNCER 
(1968-72)

O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO
 (1969)

O LEÃO DE SETE CABEÇAS 
(1969)

CABEZAS CORTADAS 
(1970)

HISTÓRIA DO BRASIL 
(1972-74)

AS ARMAS E O POVO 
(MM, 1975)

CLARO 
(1975)

DI CAVALCANTI 
(CM, 1976)

JORGAMADO NO CINEMA 
(MM, 1977)

A IDADE DA TERRA 
(1979)

programa "abertura"
(tv tupi)


caderno cultural do jornal a tarde


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