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outubro 18, 2011

*** UM ANO DE BLOG: COM A PALAVRA, O EDITOR


antonio nahud em montagem de darci fonseca

Celebrando o PRIMEIRO ANIVERSÁRIO deste blog, convidei dez blogueiros cinéfilos para um bate-papo informal. Eles perguntam, eu respondo. Estendendo assim as fronteiras de um mero perfil e revelando a influência da identidade cinematográfica em cada coração. Nada mais, nada menos do que isso. (Antonio Nahud)

hunter mcCracken em "a árvore da vida"

ADALBERTO MEIRELLES

Nota-se a exposição de um vasto repertório em “O Falcão Maltês”, seja de fotos ou de informação sobre filmes, diretores e estrelas do cinema. O material é pesquisado apenas na web, ou você tem um arquivo pessoal? Fale mais sobre esse repertório apresentado, sobretudo referente aos filmes e estrelas do passado.

Não deixo de pesquisar na web, Adalberto, mas boa parte do material postado neste blog vem do meu arquivo pessoal. Desde garoto, quando via os primeiros filmes, eu ia para casa rabiscar em cadernos sobre eles, completando essas anotações ingênuas com imagens recortadas em revistas ou jornais. Eu sempre li muito. Desde muito cedo. E comecei a gostar de cinema na mesma época, misturando tudo na minha cabeça. Logo passei a colecionar revistas de cinema, cartazes, figurinhas, livros etc. Até fazia fichas de filmes. Perdi muita coisa nessa minha vida cigana, morando em tantas cidades e países diferentes, mas ainda restou um farto acervo, do qual realmente me orgulho. Preservo uma coleção de cerca de três mil filmes, mais de uma centena de livros sobre cinema, inúmeras revistas e trilhas sonoras, além de pastas-arquivos abarrotadas de recortes.

Comparando-se o cinema de hoje ao do passado, você acredita que ainda há lugar para a arte e a invenção? O que você viu de melhor e de pior no cinema este ano?

Nos últimos anos, como sabemos, a sensibilidade cultural caiu barbaramente, tornando ainda mais difícil a sobrevivência da arte inteligente e sofisticada, predominando o tolo, o perecível. O cinema também mergulhou nessa crise, mas alternativas positivas existem, mesmo com essa aparentemente irreversível decadência cultural. Já não há aquela efervescência cinematográfica em busca de um estilo, um movimento, ou mesmo da “obra perfeita”.  Os cineastas de hoje não estão interessados em qualidade, mas em ganhar dinheiro e fama. São raros os que fogem dessa tendência. O que vale hoje é a cultura da celebridade, da vulgaridade televisiva. A mediocridade domina o mundo. O melhor filme que vi este ano talvez tenha sido “A Árvore da Vida / The Tree of Life” (2011), de Terrence Malick. Fiquei realmente comovido, até chorei, navegando em sensações tarkovskianas. “Melancolia / Melancholia” (2011) também é um belo filme, embora me canse a linguagem chata e neurótica de Von Trier. Gostei especialmente de “Ilha do Medo / Shutter Island” (2010), mas sou suspeito, compartilho a opinião de que todos os filmes de Scorsese são fenomenais. Como já faço uma triagem radical antes de ir ao cinema nos shoppings enfadonhos, posso dizer que os piores filmes que vi este ano não são tão detestáveis: “Meia-Noite em Paris / Midight in Paris” (2011), de Woody Allen; “Além da Vida / Hereafter” (2010), de Clint Eastwood; “Thor / Idem” (2011), de Kenneth Branagh, e “A Rede Social / The Social Network” (2010), de David Fincher.

“O Falcão Maltês” apresenta-se com dinâmica rara e elogiável senso de oportunidade na realização de promoções e elaboração dos textos postados, o que não é comum entre os sites, blogs e revistas eletrônicas que proliferam na web. Gostaria que você refletisse um pouco sobre isso.

Eu levo a sério o trabalho que desenvolvo. Não é um simples passatempo ou terapia. Leio diariamente, pesquiso, troco ideias com gente bem informada. Procuro mostrar, de forma honesta e minimalista, a história de muitos profissionais de talento. Para mim, escreve quem sabe, noticia quem é bem informado, quem lê sobre cinema e vê filmes com olhos atentos, conhecendo a sua trajetória de mais de um século. Mas não é o que geralmente acontece. Existem blogs fantásticos na área cinematográfica – o seu, por exemplo -, mas muitos outros são feitos por gente imatura, que não se relaciona muito bem com as palavras, predominando a pieguice ou a vaidade. No entanto, acredito no potencial da mídia eletrônica como fonte de valorização do universo cinematográfico.

renato salvatori e alain delon em "rocco e seus irmãos"

ANDRÉ SETARO

Considerando a infantilização temática do cinema americano contemporâneo, como você, cultor dos clássicos do pretérito, vê o cinema da atualidade. Se, antigamente, emocionava-me facilmente com um filme, hoje é muito difícil disso acontecer.

Setaro, ainda acredito que é possível a produção de filmes de qualidade, mesmo convicto que o cinema perdeu a aura que tinha antigamente e tenha se vendido integralmente ao mercado, como sempre foi de sua índole. Tenho visto longas maravilhosos: “A Vida dos Outros / Das Leben der Anderen” (2006), do alemão Florian Henckel von Donnersmarc; “Milk – A Voz da Igualdade / Milk” (2008), de Gus Van Sant ; “A Fita Branca / Das Weibe – Eine Deutsche Kindergeschichte” (2009), de Haneke. E também ótimos filmes de Ang Lee, Andre Tèchiné, Tim Burton, Zhang Yimou, Chen Kaige, Almodóvar etc. Portanto, talento e filmes de excelência ainda existem, embora cada vez mais parcos. O problema maior está no cinema norte-americano, que domina 80% do mercado mundial. Ele está mergulhado numa vergonhosa crise. Se até os anos 70 era fácil citar 20 excelentes cineastas em atividade, hoje Hollywood está ressentida desse prestígio. Têm o Scorsese, os Irmãos Coen, o Eastwood, Tim Burton, Paul Thomas Anderson, David Lynch, Christopher Nolan e poucos outros.

Quais os cinco melhores filmes na sua opinião afetiva?

Tenho percebido que sempre que ouso listar os melhores de sempre, os filmes não são os mesmos das listas anteriores. Talvez eu seja meio volúvel, hoje Visconti, amanhã Bergman. Mas vamos lá. Fico com “Rocco e seus Irmãos / Roco e i Suoi Fratelli” (1960), de Luchino Visconti; “Rashomon / Idem” (1950), de Akira Kurosawa; “A Marca da Maldade / Touch of Evil” (1958), de Orson Welles; “Fausto / Faust – Eine Deutsche Volkssage” (1926), de F. W. Murnau; e “O Sétimo Selo / Det Sjunde Inseglet” (1956), de Ingmar Bergman.

E o cinema nacional. Qual a sua opinião?

Continuo tentando me sensibilizar com o cinema nacional. Vi filmes de Humberto Mauro e Mário Peixoto, a fase da Vera Cruz, quase todo o Cinema Novo, o experimentalismo da Boca do Lixo, o cinema baiano etc. Acompanho as novas produções nacionais mais por afeição do que por qualquer outra coisa. O nosso cinema é tosco. Não conheço nenhum filme brasileiro que possa ser considerado uma obra-prima. O Glauber nunca foi gênio, o Nelson Pereira repete falhas primárias, o Cacá Diegues e os Barretos são apenas esforçados artesões. Estamos perdidos entre tiroteios e comédias globais, e ainda não merecemos o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Entretanto, aprecio – e muito – “O Cangaceiro” (1953), “Noite Vazia” (1964), “São Paulo S. A.” (1965), "O Padre e a Moça" (1965), “São Bernardo” (1972), “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (1981), "Cabra Marcado para Morrer" (1984), “A Ostra e o Vento” (1997), “Abril Despedaçado” (2001), “Lavoura Arcaica” (2001), “Amarelo Manga” (2002), "Desmundo" (2003) e outros contados nos dedos.

rodrigo santoro em "abril despedaçado"

CARLA MARINHO

Já pensou em trabalhar diretamente com o cinema, seja ministrando aulas ou botando a mão na massa e fazer filmes?

Teve uma época em que desejei ser roteirista. Escrevi até dois curtas que foram filmados por um cineasta amador português, José Ricardo. Um deles era uma adaptação de um conto de Edgar Allan Poe. Mesmo assim, nunca pensei em me tornar um profissional de cinema, creio que temi a batalha árdua. Eu também não saberia viver outra vez numa metrópole, nesses lugares acelerados onde as coisas acontecem, tenho procurado cada vez mais cidades menores e mais tranqüilas para viver. Quiçá um dia ensine cinema e realize alguns curtas domésticos, sem qualquer pretensão comercial ou artística.

E criar um cineclube clássico? Eu já pensei nessa idéia aqui em Recife. Você já pensou em fazer algo do tipo aí em Natal?

Não descarto esse projeto. Durante um certo tempo, em Barcelona, no Centro de Estudos Brasileiros, selecionei e apresentei filmes brasileiros. Depois de cada sessão acontecia uma conversa informal. Era muito interessante. Porém, atualmente, seria mais instigante coordenar uma mostra clássica anual, celebrando cineastas, atores e técnicos. Recheada com convidados do Brasil e de outros países, workshops, exposições, feira de livros, palestras e exibição de clássicos fundamentais.

Qual o pior cinéfilo, aquele metido a crítico, que observa cada detalhe para somente criticar cada um dele baseado em alguma regra cinematográfica (e ai de você se discordar dele) ou aquele que torce o nariz quando você lhe fala sobre um filme com mais de 10 anos de idade sem nem ao menos pensar se seria uma boa experiência vê-lo?

Eu não entendo o cinéfilo que vive só de modismos ou blockbusters, esnobando o cinema clássico. É o mesmo que gostar de música e não ouvir jazz, bossa-nova, samba canção. Essa desinformação limita, não abre caminhos, não se sustenta. Tampouco compreendo o cinéfilo metido a crítico de cinema, analisando rigorosamente cada filme que vê sem qualquer preparo. Sei que não existe uma escola de crítica, onde se sai crítico de cinema, mas tal profissão não é fácil como muita gente pensa. O crítico deve ter, antes de mais nada, um repertório muito extenso da cinematografia e a capacidade de contextualizar os filmes no universo sócio-político-cultural em que eles se inserem. Ele também precisa investir na inteligência do leitor, despertando o interesse por textos elaborados. O que vejo em abundância nada mais é do que o triunfo da preguiça intelectual, o superficial que não satisfaz.

silvana mangano em "ulisses"

DANIELA CREPALDI CARVALHO

Preciso que me ensine a receita para escrever com tanta regularidade e sobre temas tão variados referentes à Sétima Arte. Quero detalhes, hein (quem sabe eu não aprendo e começo a escrever com mais frequência!).

Dani, eu leio e vejo filmes furiosamente, desde os meus nove, dez anos. Eu sempre vivi cercado de livros e filmes. Com uns quinze anos, já tinha uma biblioteca e pilhas de cadernos onde anotava minhas impressões sobre os filmes vistos, diretores e atores que me seduziam. Comecei com “Amarcord”, de Fellini, que vi num cinema de arte aos doze anos de idade. Nunca mais parei de fazer anotações. Sendo assim, posso dizer que tenho centenas de textos incompletos sobre cinema. Quando desejo postar algo no blog, geralmente influenciado por algum filme visto recentemente, consulto em primeiro lugar o meu arquivo. Ao encontrar aquele velho texto que se situa no que procuro, releio-o algumas vezes, reviso-o, acrescento ou corto trechos, e por aí vai. Além disso, como sempre trabalhei com a palavra, escrevo rápido, tendo também facilidade em condensar um determinado assunto.

Qual é sua primeira memória relacionada ao cinema (é de um ator? um filme?). De que forma isso influenciou sua paixão pela arte?

Não tenho certeza da minha primeira lembrança relacionada ao cinema. Quero acreditar que foi Silvana Mangano como a feiticeira Circe em “Ulisses / Ulisse” (1954) ou a irreverência humorada de “Amarcord / Idem” (1973), de Fellini. De alguma forma, eles me influenciaram. Depois de Silvana passei a cultuar musas cinematográficas, acompanhando religiosamente o trabalho delas. Tive o momento Jennifer Jones, o momento Gene Tierney, o de Jeanne Moreau, o de Merle Oberon, o de Mia Farrow etc. Em relação a “Amarcord”, Fellini nunca me deslumbrou profundamente, mas não posso negar que o impacto dessa obra-prima me levou às estranhas do cinema, fazendo-me compreender que a vida seria mais triste sem ele.

Diga alguns elementos que estabeleceram a sua trajetória como jornalista-viajante-cinéfilo-escritor.

Houve uma época em que imaginava a possibilidade de um mundo sem fronteiras, coroado pela magia da arte. Acima de politicagens, religiosidade, preconceitos e consumismo descartável. Para desfrutar dessa utopia, passei a escrever, ver filmes e viajar. Inocente, acreditei que o jornalismo era a profissão ideal nessa sociedade ilusória. Os anos passaram, li boa parte dos livros desejados e vi quase todos os filmes que me interessam, conheci países que nem imaginava um dia conhecer, aprendi com diferentes costumes e terminei por descobri que o jornalismo é uma profissão banal como outra qualquer. Por fim, percebi que a minha solidão é idêntica a de todos os outros seres humanos, nem maior nem menor. Só que não sou do tipo que cultua amargura ou fobias, encontrando uma certa serenidade nas aventuras intimistas do “jornalista-viajante-cinéfilo-escritor”.

robert ryan e janet leigh em "o preço de um homem"

DARCI FONSECA

Qual seu faroeste preferido (não é o melhor, mas o que você mais gosta de assistir)?

Durante anos enxerguei John Ford como o soberano do gênero western e colocava, como quase todo mundo, “Rastros de Ódio / The Searchers” (1956) no topo dos melhores westerns de todos os tempos. Quando vi “Rio Vermelho / Red River” (1948), de Hawks, fiquei em dúvida, mas continuei fiel a Ford. Ao assistir “Winchester 73 / Idem” (1950), “E o Sangue Semeou a Terra / Bend of the River” (1952) e “O Preço de um Homem / The Naked Spur” (1953) compreendi que o senhor do gênero era outro: Anthony Mann. Hoje tenho convicção de que “O Preço de um Homem” é o melhor western que já assisti. Simplesmente assombroso. Pena que é estrelado por Jimmy Stewart e Janet Leigh, dois atores competentes que não simpatizo. Seria perfeito com Robert Mitchum e Shelley Winters. Felizmente o terrível vilão de Robert Ryan rouba a cena.

Qual cena de um faroeste é inesquecível para você?

O enforcamento em “Consciências Mortas / The Ox-Bow Incident” (1943) é extraordinário, tenso, dramático. Assim como a olímpica e trágica batalha de “Buffalo Bill / Idem” (1944). William A. Wellman, que dirigiu esses dois filmes, é um primoroso e esquecido diretor, e não só de westerns, mas também de obras-primas nos gêneros guerra, aventura, drama e comédia.

Tendo vivido na Europa, o que você acha do spaghetti-western?

Tenho até vergonha de confessar, mas sinceramente não suporto o spaghetti-western, mesmo vendo talento em Giuliano Gemma, Franco Nero, Gian Maria Volonté e em alguns diretores como Sergio Corbucci ou Damiano Damiani. Toda a sua embalagem me parece primária, rude, improvisada, sem verdade ou emoção. Por achar o spaghetti-western tão oportunista e descartável, terminei por separar o Sergio Leone dessa febre cult sem estilo. “Era Uma Vez no Oeste / C’era una Volta Il West” (1968) é uma obra-prima memorável e o Leone, magistral. Ele não merece seguidores tão chinfrins.


DILBERTO LIMA ROSA

Vives do jornalismo cultural ou haveria uma "identidade secreta" para sustentar o herói com aspirações cinematográficas?

Nenhuma “identidade secreta”, caríssimo Dilberto. Nenhuma herança, nenhum casamento rico, nem mesmo sou funcionário público... rs... Vivo do jornalismo cultural, de assessoria de comunicação, uma ou outra ação cultural e alguma sorte. Desde que enveredei por esse caminho, sabia que teria que descartar “o luxo e o lixo” almejado por muitos. Não me arrependo. Sou um abençoado. Não estou rico, mas faço o que gosto. Ficaria contente se o resto de minha vida seguisse no mesmo rumo. Se bem que um dinheirinho a mais seria de grande valia. Por quê? Montaria um centro cultural em louvor ao cinema clássico e todos os anos pegaria um avião direto para os festivais de Veneza e Cannes.

Já participaste (ou almejas participar) de alguma produção da Sétima Arte nacional (como roteirista, por exemplo)?

Nunca, meu caro. E olha que os meus contos são propositalmente cinematográficos e tenho alguns amigos cineastas. Quem sabe um dia alguém leia um deles e resolva filmá-lo... O Babenco, o Andrucha ou o Walter Salles... Seria lindo.

Os textos que publicas no aniversariante "Falcão Maltês" são atuais e produzidos especialmente para o 'blog' ou são reaproveitamentos de textos já existentes de outras publicações tuas?

Como disse acima, a Dani Carvalho, alguns deles são do meu arquivo, inclusive um ou outro já publicado na imprensa. Só que esses "repousavam" como rascunhos, fragmentos, sensações. Eu reescrevi-os. Por exemplo, “Nossas Musas, Nuas” e “Marlene Dietrich, a Vênus Loira” são artigos antigos, de muitos anos, totalmente repaginados, nem parecem os mesmos de antes. Entretanto, os textos publicados no blog, em sua maioria, são novos, sem qualquer vestígio de outros tempos.

alain delon e giancarlo giannini em "a primeira noite de tranquilidade"

KLEY COELHO

Você pensa em dirigir um filme?

Se eu ganhasse na Mega Sena, a primeira coisa que faria seria produzir e dirigir um filme intimista e feminino com o cangaço como pano de fundo, fotografia de Walter Carvalho (ou Affonso Beato) e Selton Mello, Leandra Leal, Murilo Benício, Simone Spoladore, Rodrigo Santoro, Sonia Braga, Irandhir Santos, Odete Lara, Caio Blat, Dira Paes e Fernanda Montenegro como protagonistas. Como não jogo, nunca dirigirei esse filme. Mas planejo realizar alguns vídeos poéticos.

Qual filme você gostaria de ter dirigido?

Vixe... Pergunta de lascar... Nunca pensei nisso... Talvez o bacana e melancólico “A Primeira Noite de Tranqüilidade / La Prima Notte di Quiete” (1972), de Valerio Zurlini.

Cite três filmes que influenciaram a sua vida.

“O Sétimo Selo”, de Bergman, tornou-me consciente da fragilidade da vida e do desequilíbrio humano. “A Felicidade Não se Compra / It’s a Wonderful Life” (1946), de Frank Capra, me fez crer na inocência e na generosidade como bens preciosos e em extinção. “A Noite / La Notte” (1961), de Antonioni, revelou-me que a solidão e a falta de comunicação são estigmas incontornáveis da humanidade.

irene papas

LÊ MAGALHÃES

Você teve a oportunidade de conhecer várias personalidades do cinema e entrevistá-las enquanto morava na Europa. Quais atores e atrizes mais te surpreenderam quando você os conheceu pessoalmente e por quê?

Entrevistei mais de uma centena de atores e diretores nos 12 anos em que vivi na Europa, Lê, mas em sua essência foram entrevistas coletivas, impessoais, com tempo marcado, tradutores, ansiedade, disputa etc. Mesmo assim, vivi momentos mágicos. Lembro que fiquei hipnotizado com a intensidade espiritual da grega Irene Papas; lembro também da informalidade graciosa de Javier Bardem; do charme maduro de Omar Sharif; da simplicidade irreverente de Sophia Loren; da vivacidade sofrida de Roman Polanski; da sexualidade à flor da pele de Ewan McGregor; da inteligência austera de Carlos Saura; do magnetismo dominador de Bernardo Bertolucci; e da aristocracia de Catherine Deneuve. Foram encontros especiais, marcantes.

Mais de 500 seguidores, notas e matérias em jornais e dezenas de comentários em cada post em apenas um ano! A que você atribui tamanho sucesso? Divulgação, sorte, qualidade...?

Talvez paixão. O título já diz tudo, “O Falcão Maltês” é um dos meus filmes preferidos e o policial noir o meu gênero número um. Eu amo cinema. Edito o blog com prazer, escrevendo somente sobre o que me comove, buscando na cabeça temas radiantes, concretos, rastreados em anos de leituras e apreciação de filmes. Creio que o leitor percebe isso, apaixonando-se também pelo blog. Ele entende que não é um veículo superficial, vaidoso, fútil, mas sim um ponto de encontro de amantes do cinema clássico no qual ele é o convidado de honra.

Os primeiros textos eram mais curtos, apresentando uma nota sobre alguém do cinema clássico e uma lista dos filmes do ator / atriz / diretor em questão. Hoje os textos são mais elaborados e o blog ganhou um formato de revista semanal com três artigos. Como você avalia essa evolução? De onde vieram as ideias para mudar o formato e caprichar nos textos?

Criei “O Falcão Maltês” tendo como meta um pequeno círculo de cinéfilos colecionadores, ou seja, o conceito inicial era trocar filmes ou vender cópias da minha coleção por um preço simbólico, apenas cobrindo os gastos com mídia, impressão e correio. Deu certo, troquei e vendi muitos filmes, mas o blog inesperadamente tomou outro rumo, com navegadores de inúmeros países interessados em informações sobre o cinema clássico. Terminei por deixar o projeto inicial de lado, que tomava muito do meu tempo, e transformei o blog numa revista eletrônica semanal, focando com mais intensidade no texto e na imagem, contribuindo de alguma forma para o enriquecimento da memória cinematográfica clássica. Tem sido bacana, pois esse novo formato me aproximou dos leitores, reforçando nossa paixão pelo cinema, num mútuo enriquecimento.

humphrey bogart em "casablanca"

RATO

Se você pudesse ter sido um realizador de cinema qual aquele que escolheria? (Esta pergunta não tem necessariamente a ver sobre o “melhor” realizador para você) E quais as razões?

Possivelmente Max Ophuls. Aprecio seu refinamento, sua inquietação, suas adaptações literárias, o cuidado cenográfico, a importância dada ao roteiro, a escolha acertada de atores, a sensibilidade latente. Só não queria morrer tão jovem como ele.

Diga o filme e a personagem (masculina ou feminina) que você mais gostaria de ter desempenhado no cinema e porquê.

Gosto do Rick Blaine de Humphrey Bogart em “Casablanca / Idem” (1942), mesmo não me interessando muito pelo filme num todo. Acho comovente esse quarentão independente, rebelde, deslocado, solitário, sem esperanças, vivendo num país que não é o seu, percebendo a loucura generalizada e estrangulando-se emocionalmente pela recordação de um amor impossível. Cai como uma luva no meu estilo de vida.

Acredito que o cinema, tal como o conhecemos durante as nossas vidas, tem os dias contados e não vai sobreviver no futuro. Imagine que você dispõe de uma máquina do tempo e pode ir ao ano 5000 dar uma palestra sobre o que era essa coisa da “Sétima Arte” dos séculos 20 e 21. Quais os cinco filmes que você levaria debaixo do braço para exemplificar o que era o Cinema nas suas diversas vertentes? Aqui não precisa explicar as razões, heheh...

Êta, amigo, tá complicado... Contar a história do cinema em cinco filmes não é fácil não... Vamos ver... Começaria com “Tempos Modernos / Modern Times” (1936), de Chaplin. Saltaria para “O Boulevard do Crime / Les Enfants Du Paradis” (1945), de Marcel Carné. Continuaria com o neo-realista “Ladrões de Bicicleta / Ladri di Biciclette” (1948), de Vittorio De Sica. Depois “2001 – Uma Odisséia no Espaço / 2001: A Space Odyssey” (1968), de Kubrick, e por fim, “Apocalipse Now / Idem” (1979), de Coppola.

lana turner

RICARDO LEITNER

Se  você tivesse que usar três substantivos para descrever "cinema"... quais usaria?

Preto-e-branco, coração, memória.

Nós, muitas vezes, temos gostos completamente opostos em questão de atores/atrizes... Explique-me... por que Lana Turner?

A questão da atração/afeição é inexplicável, misteriosa. Cada um tem os seus fetiches e sensações privadas. O mesmo acontece em relação ao universo cinematográfico. Muitas vezes nos encantamos por certos atores/atrizes sem nenhum talento especial e sem qualquer motivo aparente. Por exemplo, gosto demais do Tyrone Power e da Rita Hayworth, dois atores de talento limitado. Já outros - embora tenha consciência da capacidade deles -, não consigo engolir, até incomodam, fico sempre pensando: "Esse personagem ficaria melhor na pele de tal ator. O filme cresceria muito mais". É o que sinto em relação a Jimmy Stewart, Doris Day, Tony Curtis, Julie Andrews, Sidney Poitier, John Wayne, June Allyson, Joan Collins, Dean Martin, Richard Burton, Gina Lollobrigida, Greer Garson, entre outros. A Lana não faz parte do meu círculo de seletos, mas aprecio sua beleza sensual, o porte de diva, a trajetória perene e apaixonada. O autógrafo que tenho dela aconteceu mais por impulso. Ela estava no Festival de San Sebastian e eu a seguia com os olhos, procurando desvendar o mito. De repente, a estrela sorriu para mim, eu me aproximei e timidamente pedi um autógrafo. Na época, meu inglês era limitado e nem deu para confessar como sou fã de alguns de seus filmes.

Uma das minhas memória prediletas... você se lembra da primeira vez que entrou num cinema? Descreva sua sensação...

A primeira vez realmente não me recordo. Nas defasadas matinês do cinema da minha cidade interiorana só exibiam reprises de filmes de Jerry Lewis, Elvis Presley, épicos (Hercules, Maciste etc.) e westerns italianos. Eu ia semanalmente assisti-los como quem ia à missa, bastante entediado. Tudo realmente começou na minha primeira sessão noturna, em um cinema de arte. Eu tinha doze anos e fui com meu pai assistir “Amarcord”. Fiquei enfeitiçado, estarrecido. Ainda mais que não havia nenhuma outra criança presente, somente adultos. Passei o resto da noite sem dormir, literalmente seduzido pela magia do bom cinema.