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junho 04, 2015

***** NORMA BENGELL: O OCASO de uma MUSA


O cinema francês não se esquece de suas estrelas. Geralmente elas trabalham até idade avançada, envelhecendo com charme nas telas. De cabeça, lembro-me de Catherine Deneuve, Jean-Louis Trintignant, Anouk Aimée, Danielle Darrieux, Michel Piccoli, Jeanne Moreau, Emanuelle Riva, Micheline Presle, entre outras. O mesmo não acontece habitualmente nos Estados Unidos da América, mas os filhos de Tio Sam reverenciam suas antigas glórias através de publicações, documentários, vídeos, retrospectivas, tributos. 

O Brasil, um país sem memória, literalmente apaga o passado. Os novos cineastas raramente convidam para os seus filmes intérpretes que brilharam noutros tempos. Hoje, poucos brasileiros sabem da importância no cenário cinematográfico nacional de intérpretes como Odete Lara, Joffre Soares, Adriana Prieto, Isabel Ribeiro, Paulo César Pereio, Lillian Lemmertz, Paulo José, Irene Stefânia, Hugo Carvana, Tereza Raquel, Glauce Rocha, Jardel Filho, Anecy Rocha, Geraldo D’el Rey, Ítala Nandi, Darlene Glória, Othon Bastos, Ana Maria Magalhães etc.

norma (primeira à direita), odete lara, 
leila dinize outras atrizes na passeata 
dos cem mil contra a censura, 1968
Uma das nossas maravilhas, NORMA BENGELL (1935 – 2013) conseguiu a proeza de num país majoritariamente 'televisivo' ser uma das poucas atrizes que se dedicou principalmente ao cinema e mesmo assim manteve seu sucesso e popularidade. Temperamental, de difícil trato, feminista engajada, artista com convicções políticas, transgressora, mulher à frente do seu tempo, cantora e diretora, de dinâmica carreira, rodou mais de cinquenta filmes. Na longa trajetória, histórias de abortos, estupros, inúmeros casos de amor, brigas, separações, a paixão por uma mulher com quem ela viveu durante anos, o tumultuado relacionamento com Alain Delon, na época considerado o homem mais bonito do mundo. Inquieta, despachada, ousada, libertária, como ela mesmo se definia, fez novelas de televisão, foi amiga do presidente João Goulart e de Glauber Rocha, com quem trabalhou em “A Idade da Terra” (1980). Casos de amor e brigas se alternam na vida da sedutora que se engajou na luta pelos direitos dos atores, e foi uma voz contra preconceitos e a ditadura militar, passando anos de exílio na Europa.

norma com os cantores
tony campello e carlos josé
Fascinava pela sensualidade e personalidade forte. Galãs como Alain Delon, Renato Salvatori e Gabriele Tinti, renderam-se ao charme dessa carioca sex symbol. Premiada muitas vezes, capa de revistas concorridas, polêmica, musa do Cinema Novo, comparada à francesa Jeanne Moreau, NORMA BENGELL nos orgulha, remetendo às boas recordações de um tempo perdido. Nos seus últimos anos de vida, paralítica e sem dinheiro, devendo uma fortuna ao Leão, possuía apenas uma casa, a cada dia mais vazia, porque vendia os móveis e parte do acervo particular para sobreviver. Doente e endividada, a atriz que viveu a glória do cinema nacional, recorreu à ajuda de amigos. Ao escorregar num tapete, sofreu um tombo e precisou operar a coluna e o cotovelo. Daí em diante, só deixou sua residência para ir ao hospital. Entregue a uma cadeira de rodas, doente e à beira da falência, não era nem sombra da atriz sensual e de olhar enigmático cortejada nos anos 1960 e 1970.

norma nos tempos de vedete
O pai era um belga que trabalhava como afinador de piano. A mãe, de família rica, deserdada após o casamento pelo pai integralista que não a queria casada com um imigrante. A infância difícil, em Copacabana. NORMA BENGELL nasceu predestinada a se tornar estrela de cinema. Por volta de 1936, o ator e diretor Raul Roulien, de passagem pelo Rio, ao vê-la passeando no carrinho de bebê, pediu permissão à mãe para filmá-la. Em 1945, seus pais se separaram e ela foi morar com os avós paternos. Levada a um internato de freiras alemãs, não permaneceu por muito tempo, sendo expulsa por indisciplina. Trabalhou algum tempo no comércio. No começo dos anos 1950, manequim da Casa Canadá, seu corpo escultural logo chamou a atenção, passando a atuar no teatro de revista em 1954, como vedete no espetáculo “Fantasia e Fantasias”, apresentado no Copacabana Palace. Trabalhou muitos anos com Carlos Machado nas boates “Casablanca” e “Night and Day”, com temporadas em Montevidéu e Buenos Aires. 

Estreou no cinema em 1959, na chanchada “O Homem de Sputnik”, produção da Atlântica estrelada por Oscarito e Jô Soares. Um mega sucesso, com público estimado em 8 milhões e meio de pagantes. Ela fazia uma sátira à sex-symbol francesa Brigitte Bardot - seu personagem chamava-se justamente B.B. Então, a carreira de NORMA BENGELL no cinema intensificou-se, rodando muitos outros filmes, além de se destacar no teatro dramático na peça “Procura-se uma Rosa”, de Pedro Bloch. Ao atuar no drama urbano “Os Cafajestes”, de produção tumultuada, consagrou-se definitivamente, recebendo o Prêmio Saci de Melhor Atriz. Nessa fita clássica, protagonizou a primeira cena de nu frontal da história cinema brasileiro, que a tornou alvo de perseguição dos setores conservadores, sofrendo ataques da Igreja e da organização “Família, Tradição e Propriedade” (TFP). Em 1962, ao participar de um show de bossa-nova na PUC (RJ), foi impedida pelos padres de cantar, porque se declarou a favor da pílula anticoncepcional. No mesmo ano, chamada por Anselmo Duarte para “O Pagador de Promessas”, brilhou no papel da prostituta Marli. Em seu livro “Adeus, Cinema”, o cineasta afirma ter transado com a atriz para ela “não ir embora” das filmagens. Baixaria à parte, o longa ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e ainda indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, dando a NORMA BENGELL a oportunidade do estrelato internacional.

alberto sordi e norma em o mafioso
Em Cannes, conheceu o produtor Dino di Laurentiis, que a contratou, seguindo para a Itália, onde trabalhou com bons diretores, ficou amiga de Federico Fellini e Luchino Visconti, entre outros intelectuais europeus, teve um affair com o astro francês Alain Delon. No cinema italiano, a atriz é mais lembrada pelos sucessos “O Planeta dos Vampiros / Terrore Nello Spazio” (1965), ficção científica do diretor Mario Bava, e “Os Cruéis / I Crudeli” (1967) um spaghetti western de Sergio Corbucci. Ela contracenou com Alberto Sordi, Jean-Louis Trintignant, Renato Salvatori, Catherine Deneuve, Jean Sorel, Enrico Maria Salerno, Nino Manfredi e outros. “Quando o meu marido, o Gabrielle Tinti, viajava, eu saía muito com o Pasolini. Ia dançar com ele naqueles botecos de Roma. O prédio em que eu morava era uma loucura. A gente não podia abrir as janelas porque sempre tinha paparazzi nos telhados. Lá moravam a Brigitte Bardot, o Rod Steiger, a Cyd Charisse. Era na Via Vecchiarelli 38, um prédio dos anos 600 que a princesa alugava”, recordou a atriz. 

Em 1964, aos 30 anos de idade e no auge da beleza, voltou ao Brasil para filmar a obra-prima do diretor Walter Hugo Khouri, “Noite Vazia”, um dos melhores filmes da carreira dela. Nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz ela se casou com o italiano Gabriele Tinti (belíssimo e de filmografia inexpressiva, morreu em 1991, aos 59 anos), seu parceiro no filme, e a união durou até 1969. “Na minha carreira, trabalhei em lugares fantásticos e conheci pessoas fantásticas, mas minha vida privada era confusa. Passei por muitos amores e decepções”, confessou a atriz numa entrevista.

gabrielle tinti, o marido, 
e norma
Teve uma experiência em Hollywood, estrelando o episódio “To Kill a Priest” (1966), com direção de Boris Sagal, da primeira temporada da famosa série “T.H.E. Cats” (Paramount / NBC), gravando para a trilha as canções “Água de Beber” e “Garota de Ipanema”, ambas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Levando cantadas e perseguida nas ruas, ela, certa vez, precisou se esconder em um hotel. Ao longo da carreira atuou pouco no teatro, brilhando em 1968 com a peça “Cordélia Brasil”, de Antônio Bivar, dirigida por Emilio di Biasi, um dos seus maiores sucessos, mas acabou por ser levada por três homens do DOI-CODI, sendo interrogada por cinco horas sobre “a subversão na classe teatral”. Com o passar dos anos, optou cada vez mais por personagens altamente dramáticas, o que a elevou a um patamar distinto entre as atrizes da época, como se vê no seu trabalho desenvolvido durante os anos 1970. 

Em 1971, ela fez uma de suas melhores participações no cinema, no premiado “A Casa Assassinada”, de Paulo Cesar Saraceni. Por sua brilhante interpretação recebeu o Troféu de Melhor Atriz da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), prêmio que ainda receberia outras duas vezes por “Mar de Rosas” (1978) e “Eros, o Deus do Amor” (1981). Na época, decidiu se auto-exilar em Paris, onde continuou atuando no cinema e também na televisão e no teatro, trabalhando com o diretor Patrice Chéreau - um dos grandes intelectuais do teatro na França - em duas ocasiões: na peça “La Dispute”, de Marivaux, em 1973, e “Les Paraventes”, de Jean Genet, em 1983, que marcou sua despedida dos palcos franceses.

norma e jardel filho 
em antes, verão
De volta, continuou filmando. Ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Veneza por sua atuação em “A Idade da Terra” (1980). Mais uma vez no terreno do escândalo, em 1984, NORMA BENGELL afirmou ter feito 16 abortos. No mesmo ano, rodou com Mick Jagger o videoclipe da música “She's the Boss”. No início dos anos 1990, o cinema brasileiro ficou bastante prejudicado e quase paralisado com a extinção da Embrafilme pelo governo Fernando Collor de Mello, e durante essa época ela se engajou politicamente na luta pela retomada do nosso cinema, fazendo várias viagens à Brasília, onde aconteceu o famoso beijo no então presidente Itamar Franco que deu o que falar. Em 2010, seu nome veio a tona durante a campanha da pré-candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff, resultando em acusação da atriz de uso indevido de imagem por parte da candidata. Após a fase mágica, finda a mocidade, batalhou para não ser apenas um objeto do desejo, dirigindo e assinando o roteiro de “Eternamente Pagu” (1988), protagonizado por Carla Camuratti, e “O Guarani” (1996), baseado na obra de José de Alencar, entre outros. “O Guarani” foi um fracasso de público e crítica, que lhe rendeu um massacre na imprensa. Ela brigou com uma das roteiristas do filme e com críticos que deram avaliações negativas.

gloria menezes, norma e leonardo vilar
Seu primeiro LP, o bossa-novista “Ooooooh! Norma”, lançado em 1959, tem canções de Tom Jobim e João Gilberto. Em 1960, gravou “Tristeza”, incluída na trilha sonora da comédia Copacabana Palace, uma co-produção ítalo-franco-brasileira. Fez sucesso com “A Lua de Mel na Lua e “E se tens Coração”, da trilha de “Mulheres e Milhões”. Realizou shows no Club 36 e no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, ao lado da turma da bossa nova (Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes, Baden Powell e Roberto Menescal, entre outros), sendo uma das primeiras cantoras a gravar composições inéditas de Tom Jobim. 

Após anos gravando participações em trilhas sonoras e discos de outros artistas, lançou seu segundo LP em 1977, “Norma Canta Mulheres”. Apresentou, dirigida por Abelardo Figueiredo, um programa semanal de música popular brasileira na tevê Tupi, no qual recebia convidados especiais com os quais cantava em dueto. Participou, também, do programa “Carrossel” (TV Rio), apresentando-se semanalmente, e do programa “Noite de Gala” (TV Rio), ao lado de vários artistas. Mais tarde, contratada pela Globo, comandou o programa “Shell em Show Maior”, ao lado de Chico Buarque. Porém, o cantor só participou do primeiro programa, em função de sua timidez. Mais adiante ela fez parte do elenco das telenovelas “Os Adolescentes” e “Os Imigrantes”, na Rede Bandeirantes; da minissérie “Parabéns pra Você”, de Bráulio Pedroso; das telenovelas “Partido Alto”, de Aguinaldo Silva e Glória Perez, e “O Sexo dos Anjos”, de Ivani Ribeiro.


Poucos meses antes de morrer, sem filhos, a senhora que foi uma das deusas do Brasil, presente na música, no teatro, na tevê e, sobretudo, no cinema, passava semanas sem sair de casa, sem uma fonte de renda regular e sem poder saldar as dívidas acumuladas. Segundo a atriz, teria sido enganada por seu advogado e, por conta disso, estaria devendo cerca de R$ 4 milhões à Receita Federal em imposto de renda. Às voltas com as contas cotidianas e mais as despesas médicas, não sabia o que fazer. As pernas inchadas e o tempo agindo sobre seu corpo, somente nos raros sorrisos e no olhar – ainda enigmático – se notavam vestígios da NORMA BENGELL de décadas atrás.

Por causa das pendências judiciais geradas com a produção de “O Guarani” seus bens e contas bancárias ficaram indisponíveis. Na época, ela usou leis de renúncia fiscal para levantar R$ 2,99 milhões. O Ministério da Cultura e o Tribunal de Contas da União identificaram irregularidades na prestação de contas e o caso parou na Justiça, gerando processos. “Chegaram a me acusar de não ter terminado o trabalho. Como podem dizer isso se o filme foi apresentado em horário nobre na Rede Globo para milhões de pessoas?”. Para piorar a situação, sua companheira de 25 anos (viviam sob o mesmo teto), Sonia Nercessian, fotógrafa e produtora, morreu em 2007 após um demorado sofrimento decorrente de câncer.

camila amado e norna em vestido de noiva,
de nelson rodrigues, 1976
Instalada numa enorme casa de quatro quartos, duas salas e uma bela piscina, em um dos bairros mais nobres do Rio, ela nem pensava em vender o imóvel, onde vivia há dez anos. “Nem pensar. Minhas lembranças estão todas aqui”, rechaçava. Tinha toda razão. Sobre alguém que cogitou levá-la para o Retiro dos Artistas, ela se referiu como um “estúpido”. Além de passar um bom tempo à frente da telinha, NORMA BENGELL preenchia seu dia fazendo sessões de fisioterapia, ouvindo música clássica, vendo filmes em DVD e fumando um maço de cigarros. Gastava horas ao celular com amigos como Ney Latorraca e Miguel Falabella. Otimista, três anos antes de morrer voltou aos palcos com a peça “Dias Felizes”, de Samuel Beckett, direção de Emílo di Biasi, na história de Winnie, uma mulher oprimida pelo mundo e pelo marido que tenta sobreviver em meio às suas lembranças e sonhos. Seu último trabalho na televisão foi como Deise Coturno na série humorística da Tv Globo “Toma Lá, Dá Cá” (2008/2009).

Depois de gravar depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som, no Rio, dando testemunho franco sobre o que viveu, organizou seu acervo pessoal (filmes, fotos, revistas, cartas etc.), que foi doado para a Cinemateca Brasileira, e finalizou um livro de memórias que preparava há décadas, “Norma - Coisas Que Vivi”. Além disso, sonhava em dirigir “Tudo por Amor”, sobre sua trajetória, que tinha roteiro pronto. Ela pensava em Alinne Moraes para interpretá-la. Seus últimos filmes como atriz foram o longa “Vagas para Moças de Fino Trato” (1992), de Paulo Thiago, e o curta “Banquete” (2002), de Marcelo Lafitte. Recebeu uma homenagem emocionante na 10ª edição do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro, realizado no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, levando um troféu das mãos da atriz Marieta Severo. “Minha vida foi muito bonita, e ainda é”, disse numa entrevista, sem disfarçar o tom melancólico e os olhos cheios d’água. A atriz se queixava da solidão e do abandono dos amigos, e estava bastante doente. Faleceu em 2013, aos 78 de idade, no Rio de Janeiro.

De sex-symbol à atriz séria, dramática. NORMA BENGELL construiu uma carreira belíssima, invejável, que poucas conterrâneas também alcançaram. Considerava-se “uma operária, uma trabalhadora do cinema”. Seu nome estará para sempre unido aos acontecimentos da cultura brasileira na segunda metade do último século. Foi o cinema que me fez conhecer o mundo inteiro, foi o cinema que me deu de comer, que me fez ser amada e odiada. Então, esse cinema é a minha vida”. Teve uma vida que não foi um “mar de rosas”, só para citar o filme de Ana Carolina que fez quando voltou do exílio, com Cristina Pereira e Hugo Carvana, e sobre o qual ela falava com carinho. No papel de uma mãe em desesperada trajetória em direção ao Rio de Janeiro, com a filha como num surto, uma explosão, um delírio, o filme é bem ilustrativo dela mesma, de seu caminho, inclassificável estrela.

Fontes:
“Enciclopédia do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, Ed. Senac/São Paulo; “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1929/1988”, de Salvyano Cavalcanti de Paiva)

odete lara e norma em noite vazia
BENGELL em DEZ FILMES

(1961)
MULHERES e MILHÕES
direção de Jorge Ileli
com Jece Valadão, Odete Lara, Glauce Rocha
Mário Benvenutti e Daniel Filho

(1962)
O PAGADOR de PROMESSAS
direção de Anselmo Duarte
com Leonardo Villar, Glória Menezes, Geraldo d’el Rey
e Othon Bastos

(1962)
Os CAFAJESTES
direção de Ruy Guerra
com Jece Valadão, Daniel Filho, Glauce Rocha
e Hugo Carvana

(1962)
O MAFIOSO
direção de Alberto Lattuada
com Alberto Sordi

(1964)
NOITE VAZIA
direção de Walter Hugo Khouri
com Odete Lara, Mário Benvenutti e Gabriele Tinti

(1968)
EDU, CORAÇÃO de OURO
direção de Domingos de Oliveira
com Paulo José, Leila Diniz, Joana Fomm
e Ziembinski

(1970)
Os DEUSES e os MORTOS
direção de Ruy Guerra
com: Othon Bastos, Ítala Nandi e Nelson Xavier

(1971)
A CASA ASSASSINADA
direção de Paulo César Saraceni
com Carlos Kroeber e Tetê Medina

(1980)
MAR de ROSAS
direção de Ana Carolina
com Otávio Augusto, Myrian Muniz e Hugo Carvana

(1981)
EROS, o DEUS do AMOR
direção de Walter Hugo Khouri
com Dina Sfat, Renée de Vielmond, Lillian Lemmertz
Christiane Torloni e Selma Egrei

GALERIA de FOTOS

 
 
 

setembro 01, 2011

********** VERA CRUZ: AMBIÇÃO E DECLÍNIO



Um dos mais importantes estúdios cinematográficos brasileiros, fundado em 1949 por Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho, a Companhia Cinematográfica VERA CRUZ existiu durante cinco anos e realizou 21 filmes de longa-metragem. Seus estúdios de mais de 100.000 m² ocuparam o que antes era uma granja da família Matarazzo, em São Bernardo do Campo (SP), e receberam material técnico de primeira qualidade, bem como profissionais do exterior. "Produção Brasileira de Padrão Internacional" era o seu slogan, dando mostras da ambição de atingir padrões internacionais. No entanto, o sonho durou pouco e, em 1954, entrou em declínio. Entre os motivos da decadência, a ausência de um sistema próprio de distribuição - os distribuidores e os exibidores ficavam com mais de 60% da arrecadação de bilheteria. Havia ainda a dificuldade de colocar o filme nacional no competitivo mercado internacional. A companhia foi prejudicada também pela concorrência desigual com os filmes estrangeiros exibidos no Brasil. Apesar do pouco tempo de atividade, formou uma geração de notáveis profissionais e a qualidade técnica-artística de seus filmes marcou uma época, mostrando a viabilidade do cinema brasileiro.

Muitos dos filmes da VERA CRUZ adquiriram prestigio nacional e internacional, fazendo hoje parte integrante da historia do cinema brasileiro. Essa fábrica cinematográfica, que procurou atender a todos os gostos (adaptações literárias, dramas, comédias, policiais, romances históricos, aventuras, documentários), legou dois subgêneros: os filmes de cangaço - que até o Cinema Novo iria beber na fonte - e os chamados “caipiras”, criados como veículos para o fantástico comediante Mazzaropi. Ele, assim como outros atores do elenco do estúdio, são um capítulo à parte. Provenientes do que de melhor tínhamos em nosso teatro, tinha no seu cast valores preciosos como Jardel Filho, Nicete Bruno, Eva Wilma, Paulo Autran, John Herbert, Tonia Carrero, Anselmo Duarte, Ruth de Souza, Cleide Yáconis, Ilka Soares, Maria Fernanda etc. Que inesquecível constelação! Para quem desconhece esse nosso passado recente, listei dez filmes representativos da VERA CRUZ, resultando numa viagem de sensíveis imagens, canções populares, memória e paixão daqueles que construíram essa saga do nosso cinema.

CAIÇARA (1950), de Adolfo Celi. Com Eliane Lage, Carlos Vergueiro, Mário Sérgio, Célia Biar e Renato Consorte.

eliane lage
Primeiro filme da VERA CRUZ. Uma jovem filha de leprosos apaixona-se por um marinheiro. As qualidades técnicas inegáveis não superam a fragilidade do enredo e a falsidade dos desempenhos. A estrela Eliane Lage, nascida na França, fez apenas cinco filmes, terminando por morar numa fazenda em Góias. De olhos verdes, corpo atlético e rosto desenhado, Mário Sérgio foi descoberto numa praia de Santos pelo diretor gay Alberto Cavalcanti. Fez sucesso como galã, mas largou o cinema em 1958 para viver num sítio no Paraná.

CANDINHO (1954), de Abílio Pereira de Almeida. Com Mazzaropi, Marisa Prado, Ruth de Souza, Adoniran Barbosa e John Herbert.
Caipira tem um namorico com a filha de um coronel e acaba expulso da fazenda em que vive. Vai para São Paulo, iniciando uma busca incansável pela mãe que o abandonou. Depois desse fracasso comercial, Mazzaropi criou sua própria produtora, ganhando muito dinheiro e popularidade por mais duas décadas. No elenco, a lendária Ruth de Souza, que abriu caminho para o artista negro no Brasil.

O CANGACEIRO (1953), de Lima Barreto. Com Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton Ribeiro e Vanja Orico.
Premiado no Festival de Cannes, o tema, para a época, era absolutamente original: em meio à luta com as tropas organizadas por voluntários em busca de defesa de seus vilarejos, o conflito entre dois cangaceiros por conta de uma professora raptada a quem um deles liberta por amor. Mistura de faroeste nordestino, drama romântico, épico e histórico, tornou-se um clássico do cinema nacional. Com diálogos da escritora Rachel de Queiroz, foi o primeiro filme brasileiro a ganhar repercussão internacional. Vanja Orico começou sua carreira cantando no primeiro filme de Federico Fellini, “Mulheres e Luzes/Luci del Varietà” (1950).

FLORADAS NA SERRA (1954), de Luciano Salce. Com Cacilda Becker, Jardel Filho, Ilka Soares, John Herbert, Célia Helena, Miro Cerni e Lola Brah.

cacilda becker
Baseado em romance homônimo de Dinah Silveira de Queiroz. Cansada dos prazeres mundanos, uma moça rica se refugia em Campos do Jordão. Porém, numa consulta médica, descobre que está com tuberculose. Mesmo não suportando o tratamento na clínica, adia à volta a capital paulista quando se enamora de outro paciente, um rapaz pobre e com pretensões de se tornar escritor. Rara oportunidade de conhecer o talento de Cacilda Becker, um dos mitos do teatro brasileiro. Grande sucesso de crítica, sendo considerado o melhor filme da VERA CRUZ.

LUZ APAGADA (1953), de Carlos Thiré. Com Mário Sérgio, Maria Fernanda, Fernando Pereira e Sérgio Hingst.
Numa pequena cidade do litoral, um farol é o centro de uma rede de contrabandos, enquanto a filha do faroleiro se divide entre o amor de nativo e de ajudante da administração portuária. O belo Fernando Pereira, galã de muitos filmes, abandonaria o cinema para enriquecer com a corretagem de imóveis. Atriz excepcional, Maria Fernanda é filha da poeta Cecília Meirelles.

NA SENDA DO CRIME (1954), de Flaminio Bollini Cerri. Com Miro Cerni, Cleide Yáconis, Silvia Fernanda e Renato Consorte.
Bancário leva uma vida perdulária freqüentando casas noturnas suspeitas e namorando uma sofisticada vedete do teatro de revista. Endividando, se envolve com marginais e planeja roubos. Melodrama criminal com muita ação e excelente atuação do versátil Miro Cerni. Ele deixou o cinema em 1956, casando-se e indo morar numa fazenda no interior do Rio de Janeiro. Irmã de Cacilda Becker, Cleyde Yáconis é uma das maiores atrizes do Brasil e, ainda hoje, aos 88 anos de idade, faz teatro e televisão. Recentemente interpretou Brígida Gouveia na telenovela “Passione”.  

SINHÁ MOÇA (1953), de Tom Payne. Com Anselmo Duarte, Eliane Lage, Ruth de Souza, Eugênio Kusnet e Marina Freire.

ruth de souza
No século 19, a filha de um coronel latifundiário chega de São Paulo à fazenda familiar com idéias abolicionistas. Enamora-se de um rapaz, embora rejeite sua ideologia escravagista. Suntuosa produção que levou o Urso de Prata no Festival de Berlim e o Leão de Bronze em Veneza. Um dos maiores galãs do cinema brasileiro, Anselmo Duarte ficou famoso também pela direção de “O Pagador de Promessas” (1962), que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

TERRA É SEMPRE TERRA (1951), de Tom Payne. Com Marisa Prado, Mário Sérgio, Abílio Pereira de Almeida, Ruth de Souza, Eliane Lage e Célia Biar.
Rígido capataz despreza sua mulher, muito mais jovem. Ambicioso, rouba na colheita de café da patroa, que manda seu filho inspecionar a fazenda. Mulherengo e jogador, o rapaz perde todo o dinheiro no carteado, ficando endividado. O empregado se oferece para comprar a fazenda e, assim, liquidar sua dívida de jogo. A bela Marisa Prado filmou na França e na Espanha, deixando o cinema depois de se casar com um milionário libanês.

TICO-TICO NO FUBÁ (1952), de Adolfo Celi. Com Anselmo Duarte, Tônia Carrero, Marisa Prado, Marina Freire, Ziembinski e Modesto de Souza.
Cinebiografia do compositor Zequinha de Abreu. Ele se apaixona por uma artista de circo, compondo um chorinho em sua homenagem. A beleza de Tônia Carrero pasmou os europeus no Festival de Cannes. Já Anselmo ganhava o maior salário da VERA CRUZ.

UMA PULGA NA BALANCA (1953), de Luciano Salce. Com Waldemar Wey, Gildo Nery, Paulo Autran, Lola Brah, John Herbert e Eva Wilma.
Um ladrão organiza extorsões contra famílias ricas, fazendo-se passar por amigo de um dos seus parentes recentemente falecido. Comédia sofisticada de largo apelo popular. Estréia de Eva Wilma, aos 20 anos. Dois anos depois, ela se casaria com John Herbert, formando o principal casal da televisão brasileira dos anos 50 e 60.

(Fonte: “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros 1929-1988”, de Salvyano Cavalcanti de Paiva; e “Projeto Memória Vera Cruz”)

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CONFIDENCIAL

LÍDA BAAROVÁ


Uma das atrizes mais célebres da Checoslováquia nos anos trinta, trabalhou também em filmes alemães, italianos e espanhóis, conquistando maior popularidade no período em que atuou como contratada da companhia cinematográfica alemã UFA. Porém, Lída Baarová (1014-2000) ficou mais conhecida por sua vida fora das telas, como amante de Joseph Goebbels, o poderoso Ministro da Propaganda e Informação do regime hitlerista. Ela estreou em 1931, aos 17 anos, quando convidada para fazer “Kariéra Pavla Camrdy”, dirigido por Miroslav Krnansky. Em 1935, aceitou a oferta da UFA para protagonizar o filme “Barcarola/Barcarole”, que se converteu num sucesso de bilheteria. O destino da jovem e bela atriz poderia ter sido diferente se ela não tivesse encontrado Joseph Goebbels, quando este acompanhava Hitler numa visita aos estúdios da UFA. Goebbels ficou fascinado por ela. Um dos personagens mais sinistros da Segunda Guerra Mundial, ele tinha um corpo franzino, pequena estatura e um pé aleijado. Casado e já pai de três filhos, começou o seu plano de conquistar Lída, convidando-a para reuniões sociais e durante meses assediando-a implacavelmente. Em 1937, ela recusou uma proposta vantajosa da Metro-Goldwyn-Mayer, decisão da qual se lamentaria anos mais tarde: “Eu poderia ter sido tão famosa quanto Marlene Dietrich”. Goebbels não a deixou abandonar a UFA para fazer cinema em Hollywood e ela se conformou. A atriz terminou por sucumbiu ao charme do braço direito de Hitler e os dois passaram a se encontrar secretamente. Os rumores deste relacionamento chegaram até Magda, esposa de Goebbels, que, revoltada, desabafou com Hitler. Ele reprovou a conduta do seu Ministro, mas Goebbels se mostrou determinado a renunciar à sua carreira no partido nazista, oferecendo seus serviços como cônsul em Tóquio, para onde estava disposto a viajar na companhia da amante. Indignado, Hitler rechaçou a idéia e ordenou que ele nunca mais voltasse a vê-la. Logo Lída foi chamada para uma delegacia de polícia, onde foi intimidada e proibida de trabalhar nos estúdios cinematográficos da Alemanha ou de participar de qualquer ato social. Em março de 1941, desobedecendo às ordens de permanecer no país, ela deixou Berlim, regressando para Praga e participando de alguns filmes checos e peças teatrais. Com a ocupação alemã na sua pátria, foi novamente proibida de trabalhar e então viajou para a Itália, a fim de continuar sua carreira, vindo futuramente a fazer um filme com Fellini, “Os Boas-Vidas/I Vitelloni”, em 1953. Lída viu Goebbels pela última vez no Festival de Veneza de 1942. Segundo o que escreveu em suas memórias – “A Doce Amargura de Minha Vida”, publicada postumamente – ele, ao vê-la, não lhe deu a menor atenção. No final da guerra, quando os russos estavam se aproximando, ao eliminar a sua correspondência e certos documentos pessoais, Goebbels encontrou fotos da ex-amante e teria dito: “Aqui está uma mulher de beleza perfeita”. Em 1945, a atriz foi presa pelos norte-americanos e brevemente encarcerada por colaboração. Sua mãe teve uma crise cardíaca no curso do interrogatório. A irmã, Zorka Janú, que também era atriz, se suicidou em 1946. Goebbels e sua esposa ficaram com Hitler no bunker, tirando suas próprias vidas e as de seus seis filhos. Lída Baarová terminou seus dias na Áustria, na propriedade que herdou de seu marido. Atuou em 63 filmes. O último deles em 1959, o italiano “Il Cielo Brucia”.