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março 24, 2019

************ REGIME MILITAR no BRASIL: FILMES

caio blat em “batismo de sangue”

REGIME MILITAR vai de 1964 a 1985, período em que o país esteve sob controle das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Nesta época, os chefes de Estado, ministros e medalhões instalados nas principais posições do aparelho estatal pertenciam à hierarquia militar, sendo que todos os presidentes eram generais do exército. O cenário político do início dos anos 60 era corrupto, viciado e alheio às necessidades do país. O movimento militar surgiu para sanear a vida social, econômica e política, livrando a nação da ameaça comunista e trazendo de volta a ordem e a legalidade. 
jardel filho em “terra em transe”

A esquerda vende o peixe como anos de chumbo, caracterizados pela restrição à liberdade, predomínio da censura e da perseguição. Distante do submundo comunista-socialista, as recordações dos nossos familiares e conhecidos são bem diferentes. A propaganda institucional mapeava o país com os slogans “Ninguém segura este país” ou “Brasil, ame-o ou deixe-o”; a dupla Don e Ravel fazia sucesso em rádios e programas de televisão com o refrão: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, ninguém segura a juventude do Brasil”; nas escolas, cantava-se “Este é um país que vai pra frente”; e o hino da Copa de 1970 emocionava com “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”. Já a narrativa propagada por artistas, escritores e jornalistas é um show de invencionices e oportunismo.

Ao longo dos séculos, a arte sempre foi arma de arremesso contra o obscurantismo, tornando-se um grande catalisador da força da consciência. Precisamente, contrariando essa linha de pensamento, surgiram diversos filmes panfletários, tendenciosos, distorcendo os fatos e atacando o REGIME MILITAR. São longas com viés ideológico de esquerda. Alguns retratam eventos e/ou personagens reais mitificados; outros, ficção, mas ambos pregam inverdades.

Selecionei uma ampla filmografia que tematiza o REGIME MILITAR BRASILEIRO. Vi a maioria, filtrei, refleti, pesquisei. Alguns foram difíceis de assistir, amparam-se unicamente no doutrinamento vermelho, mas considero válidos como documento de uma Nação sabotada por comunistas-socialistas.

O DESAFIO
(1964)

direção de Paulo César Saraceni
elenco: Isabella, Oduvaldo Vianna Filho e Luiz Linhares

Melodrama da perplexidade da burguesia intelectual face ao regime militar instalado no Brasil, em 1964. Narra o romance entre a esposa de um rico industrial e um inconsequente estudante de esquerda. Provocou controvérsias e fracassou nas bilheterias.

A DERROTA
(1966)

direção de Mário Fiorani
elenco: Luiz Linhares, Glauce Rocha e Ítalo Rossi

Conta a história de um preso torturado por causa de uma confissão que se nega a prestar. Invertendo a situação de vítima, ele procura desesperadamente liquidar o bando que o aprisiona. Sucesso de crítica bem interpretado. Estreia do diretor.

TERRA em TRANSE
(1967)

direção de Glauber Rocha
elenco: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy
e Glauce Rocha

Narra as desventuras políticas e existenciais de um poeta e político de esquerda, em crise por perceber tardiamente que sempre havia servido a políticos traidores e oportunistas. As poderosas imagens alegóricas, textos desencontrados, idas e vindas no tempo cronológico, a falta de preocupação em contar uma trama realista e linear, compõem uma espécie de ópera barroca sobre o Brasil.

JARDIM de GUERRA
(1968)

direção de Neville d’Almeida
elenco: Joel Barcellos, Hugo Carvana, Dina Sfat
e Glauce Rocha

Jovem amargurado e sem perspectivas se apaixona por uma cineasta e é injustamente acusado de ser terrorista por uma organização que o prende, interroga e o tortura.

A VIDA PROVISÓRIA
(1968)

direção de Maurício Gomes Leite
elenco: Paulo José, Dina Sfat e Joana Fomm

Jornalista vai à Brasília entrevistar um ministro, entregando a um membro do governo documentos comprometedores. Seguido e ferido, agoniza, recordando as mulheres que amou. Roteiro confuso e bons atores em cena.

O BOM BURGUÊS
(1979)

direção de Oswaldo Caldeira
elenco: José Wilker, Betty Faria, Christiane Torloni,
Jofre Soares, Nelson Xavier e Jardel Filho

Filme policial que retraa a luta armada no Brasil, inspirando-se livremente em personagem real. Na década de 1960, usando de artifícios contábeis, um bancário desvia cerca de dois milhões de dólares para a guerrilha que enfrenta o regime militar. Ele ficou conhecido na imprensa e entre os terroristas como “o bom burguês”.

PAULA – a HISTÓRIA de uma SUBVERSIVA
(1980)

direção de Francisco Ramalho Júnior
elenco: Armando Bogus, Marlene França e Helber Rangel

Um arquiteto é informado pela ex-esposa do desaparecimento da filha. O policial designado para as investigações anos antes efetuara a prisão do arquiteto e da sua amante, líder estudantil que optara pela luta armada. Banida do país, ela retorna e morre em um confronto com a polícia. O arquiteto faz um balanço da geração que pensou um dia transformar o país em uma ditadura comunista.

PRA FRENTE, BRASIL
(1982)

direção de Roberto Farias
elenco: Reginaldo Farias, Antônio Fagundes, Natália do Valle
e Elizabeth Savalla

Durante a Copa do Mundo de 1970, um trabalhador comum é confundido com um ativista político e desaparece. Sua família tenta encontrá-lo.  Ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado.

CABRA MARCADO para MORRER
(1984)

direção de Eduardo Coutinho

No início da década de 1960, um líder camponês é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos próprios camponeses, foram interrompidas pelo regime militar de 1964. Dezessete anos depois, o diretor retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus dez filhos. O tema principal passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar.

NUNCA FOMOS tão FELIZES
(1984)

direção de Murilo Salles
elenco: Cláudio Marzo, Roberto Bataglin e Suzana Vieira

Rodado no último ano do regime militar, fala de um rapaz retirado de um colégio interno por seu pai, que estava na prisão, após oito anos de estudos. Ele investiga o mistério que o cerca, em busca de uma identidade e descobre que o pai é um perseguido político.

CORPO em DELITO
(1989)

direção de Nuno César Abreu
elenco: Lima Duarte, Regina Dourado e Dira Paes

Um médico legista frio e solitário, que presta serviços aos órgãos do regime forjando laudos de morte natural para vítimas de tortura, apaixona-se por uma garota que trabalha numa casa noturna.

QUE BOM te ver VIVA
(1989)

direção de Lúcia Murat
elenco: Irene Ravache

Misturando delírios e fantasias de uma personagem anônima com os depoimentos de oito ex-presas políticas que viveram situações de tortura. Para diferenciar a ficção do documentário, optou-se por gravar depoimentos reais em vídeo, com o enquadramento semelhante ao de retratos 3x4.

LAMARCA
(1994)

direção de Sérgio Rezende
elenco: Paulo Betti, Carla Camurati e Selton Mello

Crônica dos últimos anos de vida do capitão do exército Carlos Lamarca. Ele desertou das forças armadas e passou a fazer oposição, tornando-se um dos mais conhecidos líderes da luta clandestina. Boa atuação de Paulo Betti.

O QUE é ISSO, COMPANHEIRO?
(1997)

direção de Bruno Barreto
elenco: Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso,
Cláudia Abreu e Selton Mello

Grupo terrorista MR-8 elabora um plano para sequestrar embaixador norte-americano, planejando trocá-lo por presos políticos. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

AÇÃO entre AMIGOS
(1998)

direção de Beto Brandt
elenco: Leonardo Villar, Zécarlos Machado e Cacá Amaral

Em 1971, quatro amigos participam da luta armada contra o regime militar e acabam sendo presos quando tentam assaltar um banco. São torturados, sendo que a namorada de um deles, que estava grávida, morre quando seus algozes colocam nela uma ‘coroa de cristo’ até estourar seu cérebro. Vinte e cinco anos depois, eles ainda se veem e em uma pescaria um deles mostra uma foto de um encontro político em São Paulo, afirmando que uma das pessoas fotografadas foi o homem que os torturou. Decidem então sequestrá-lo e matá-lo. Ao ser capturado, o torturador faz uma revelação surpreendente que muda os planos.

DOIS CÓRREGOS – VERDADES SUBMERSAS no TEMPO
(1999)

direção de Carlos Reichenbach
elenco: Carlos Alberto Riccelli,  Beth Goulart e Ingra Liberato

Duas adolescentes burguesas passam uma temporada numa fazenda e acabam convivendo com o tio de uma delas, um homem misterioso, clandestino no país.

CABRA-CEGA
(2004)

direção de Toni Venturi
elenco: Leonardo Medeiros, Débora Duboc e Jonas Bloch

Dois jovens militantes da luta armada sonham com uma revolução comunista no Brasil. Após ser ferido por um tiro, em uma emboscada feita pela polícia, um deles precisa se esconder na casa de um arquiteto simpatizante da causa. O fugitivo é o comandante de uma organização de esquerda, que está no momento debilitada e prepara um retorno à luta política. Ganhou cinco Candangos no Festival de Brasília, entre eles, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Roteiro.

BATISMO de SANGUE
(2006)

direção de Helvécio Ratton
elenco: Caio Blat, Daniel de Oliveira e Cássio Gabus Mendes

No final dos anos 60, um grupo de frades dominicanos decide apoiar a luta armada contra o regime militar. Na mira das autoridades policiais, são presos, passando por torturas. Um deles é mandado para exílio na França, onde comete suicídio. Melhor Diretor e Melhor Fotografia no Festival de Brasília. Interpretações expressivas.

O ANO em que MEUS PAIS SAIRAM de FÉRIAS
(2006)

direção de Cao Hamburger
elenco: Michel Joelsas, Simone Spoladore, Caio Blat
e Paulo Autran

Em 1970, um garoto de 12 anos tem como maior sonho ver o Brasil tricampeão mundial de futebol. De repente, separado dos pais comunistas e obrigado a se adaptar a uma comunidade – o Bom Retiro, bairro de São Paulo, que abriga judeus, italianos, entre outras culturas. Cuidado pelo avô, que morre, o garoto se integra à comunidade judaica, além de conhecer militantes. Melhor Filme no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

ZUZU ANGEL
(2006)

direção de Sérgio Rezende
elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira e Leandra Leal

Estilista de projeção internacional trava uma batalha contra as autoridades militares em busca do corpo do filho que participava da luta armada e foi morto. Excelentes atuações de Pillar e Daniel de Oliveira.

SONHOS e DESEJOS
(2006)

direção de Marcelo Santiago
elenco: Felipe Camargo, Mel Lisboa e Sérgio Morrone

Uma estudante, um professor de literatura e um guerrilheiro ferido - sempre com o rosto coberto - são militantes confinados em um apartamento em Belo Horizonte. Eles confrontam suas opções afetivas e políticas, envolvendo ideologia, lealdade, traição e desejo.

HOJE
(2011)

direção de Tata Amaral
elenco: Denise Fraga e César Troncoso

Ex-militante recebe indenização do governo pelo desaparecimento do marido. Com o dinheiro, ela pode comprar o tão sonhado apartamento próprio e libertar-se desta condição de suspensão em que viveu durante décadas, período em que não era sequer reconhecida oficialmente como viúva. No momento da mudança para o novo lar, porém, surge uma visita que a obriga a rever toda sua trajetória.

TATUAGEM
(2013)

direção de Hilton Lacerda
elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia

Brasil, 1978. O regime militar, ainda atuante, mostra sinais de esgotamento. Em um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com espetáculos e interferências públicas. Uma trupe conhecida como Chão de Estrelas, juntamente com intelectuais e artistas, resiste através do deboche e da anarquia.

FONTES
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1029-1988”, de Salvyano Cavalcanti de Paiva; “Enciclopédia do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda; e “O Discurso Cinematográfico”, de Ismail Xavier.

janeiro 14, 2015

***** GLAUCE ROCHA: ILUMINANDO o CINEMA NOVO


Talvez esta seja uma oportunidade para muita gente conhecer o valioso trabalho desta que foi, sem dúvida, uma das mais célebres, ousadas, criativas e produtivas atrizes nascidas no Brasil. Intensa, com alta dose de dramaticidade e emoção à flor da pele, GLAUCE ROCHA (Campo Grande, MT, 1930 - São Paulo, SP, 1971) marcou época. Poucas viveram com tamanha grandeza seu ofício. Uma vida curta, vigorosa e expressiva, entregue à criação artística e a construção de uma sociedade mais justa. Militante política sem filiação partidária, vivia em permanente luta em defesa da liberdade de expressão e dos valores democráticos. Morreu jovem, aos 41 anos de idade, em meio às gravações da telenovela “O Hospital” (TV Tupi). 

Deixou na história a marca de uma atriz inigualável. Uma das maiores do cinema brasileiro. Morena, expressão dramática, transmitia uma extraordinária emoção - e ao longo de duas décadas de carreira atuou em dezenas de montagens teatrais, inúmeras participações na televisão (infelizmente, pouco ou quase nada mais resta) e em 24 filmes - alguns dos quais básicos do CINEMA NOVO. Numa entrevista ao jornal Zero Hora, em 1970, a atriz disse: “O cinema não vale a pena monetariamente, o teatro vale um pouco mais e a televisão mais ainda. Mas, quando a gente morre, pelo menos os filmes ficam. Não tive um filho, não escrevi um livro e não plantei uma árvore. Ao menos me lembrarão pelos meus filmes”.

Na década de 1950, as chanchadas eram, como o carnaval e o futebol, sinônimo de Brasil. O primeiro filme a citar GLAUCE ROCHA nos créditos foi justamente a chanchada “Uma Aventura no Rio” (1952), co-produção com o México estrelada pela famosa cubana Ninón Sevilla. Depois faria “Rua sem Sol”, de 1954, de Alex Viany, com toques do cinema neo-realista. Sua carreira no cinema teria destaque maior no ano seguinte, ao interpretar a namorada grávida de um fuzileiro naval (Roberto Bataglin) em “Rio, 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos - o precursor do Cinema Novo, que iria eclodir anos depois, e com um outro filme referencial: “Cinco Vezes Favela” (1962), produzido pelo CPC-UNE. A atriz participa do episódio dirigido por Leon Hirzman, “Pedreira de São Diogo”, com imagens eisensteineanas. Em 1962, no papel de uma prostituta, aparecia logo nas primeiras sequências do polemico “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra, outro filme-marco. Em “Sol Sobre a Lama”, também de 1962, mostrou ser uma atriz à frente de seu tempo, aparecendo inteiramente nua na tela.


“Rio, 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos, e “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, colocaram GLAUCE ROCHA no epicentro do chamado CINEMA NOVO. O primeiro foi proibido em todo o território nacional pelo conteúdo supostamente “comunista”, “ideologia contrária aos padrões de valores culturais coletivamente aceitos pelo país” e de “conter uma tônica violenta e comportar libertinagem e práticas de lesbianismo”. Ficou popular uma frase da atriz dita ao coronel Menezes Cortes, responsável pela proibição da obra: “Olha, o senhor me dá licença de acreditar na natureza humana?”. Liberado mais tarde e escolhido para representar o Brasil no Festival de Cannes, tornou-se um marco na história do cinema brasileiro, revelando o talento fundamental de Nelson Pereira dos Santos.

com clarice lispector em passeata contra a censura
A atriz tem sua mais lendária atuação cinematográfica em “Navalha na Carne”, de 1969. Segundo a crítica Mariângela Alves de Lima, GLAUCE ROCHA atinge, na interpretação da prostituta Neusa Sueli, uma “singular construção reducionista”, economizando na configuração do trágico: “É incapaz de esboçar gestos à altura das violências que a atingem. O rosto, encoberto pelo cabelo em desalinho e a voz que não tem força para o grito, que, ao contrário, se reduz a um murmúrio quando o sofrimento se intensifica, reforçam a ideia de que há sempre um degrau mais baixo nesse calvário de humilhação. Glauce percorre, enfim, o caminho inverso ao da progressão dramática, retirando camadas de vitalidade da sua personagem até conduzi-la ao impressionante mutismo final”

Em outros filmes - mesmo os mais fracos - a presença da atriz sempre foi vigorosa, um toque de classe e qualidade, com atuações marcantes. Sua última aparição no cinema aconteceu na comédia “Cassy Jones, o Magnífico Sedutor” (1972), produção acima da média, mesmo aproveitando a onda de ressurgimento comercial do cinema brasileiro através das pornochanchadas.


Ela se fez atriz numa época politicamente difícil do Brasil, em plena ditadura Getúlio Vargas, quando as atrizes eram consideradas, oficialmente, prostitutas e recebiam, dos órgãos do governo, a mesma “carteirinha” de identificação. GLAUCE ROCHA foi uma das primeiras a lutar pelo reconhecimento da sua profissão. O pai, tenente, morreu assassinado quando ela ainda era criança, marcando-a para sempre. Ela viveu intensamente. De gênio forte, sem papas na língua, ainda é uma personalidade viva, dona de uma estrela que reluz até os dias atuais. Viveu como uma predestinada. Sobre sua existência, a atriz confessou: “Gostaria de morrer jovem. Mas, se Deus me permitir, quero partir para a outra vida com a mocidade e a glória da minha arte”

“Eu me identifico na fixação pela luta, mesmo com tudo adverso ao meu redor. Não desanimo nunca, não me deixo dominar pelos reverses sofridos ou pelos obstáculos encontrados”, disse também. Ela gostava dos cineastas Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Akira Kurosawa, François Truffaut e Jean-Luc Godard. Entre as atrizes prediletas, Anna Magnani, Geraldine Page, Alida Valli, Melina Mercouri, Jeanne Moreau, Cacilda Becker, Natália Thimberg, Fernanda Montenegro e Lilli Palmer. Atores, James Mason, Charles Laughton, Anthony Perkins, Laurence Olivier, Toshiro Mifune e Jean-Paul Belmondo. Time da melhor qualidade, como se vê.


com rubens de falco em “o exercício”
Deu vida a textos teatrais escritos por Garson Kanin, Eugène Ionesco, Jean Cocteau, Anton Tchecov, Tennessee Williams, Sófocles, Bertolt Brecht, Nelson Rodrigues, Molière, Samuel Taylor, William Gibson, Truman Capote, Ariano Suassuna e Eugene O`Neill, entre outros. Musa por seu estilo e personagens que interpretava, GLAUCE ROCHA atravessou duas gerações de criadores. Trabalhou sob a direção dos renovadores dos anos 1950 - Ziembinski, Flamínio Bollini Cerri, Adolfo Celi, Luís de Lima, Henriette Morineau - e se engajou no projeto dos novos encenadores – Rubens Correa, Ademar Guerra, Antunes Filho, Antônio Abujamra, Fauzi Arap, Joao das Neves, B. de Paiva. Com forte consistência intelectual, a profissão de atriz não lhe supre inteiramente, levando-a a desenvolver a direção, a produção, a dramaturgia e a crítica em sua vida artística. 

Começou a carreira em 1950, fazendo peças infantis. Estreia oficialmente em “Abertura de Um Testamento”, em 1951. Em 1952, ingressa no Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno. Seu desempenho em “João Sem Terra”, de Hermilo Borba Filho, lhe vale uma carta entusiasmada do diretor de teatro Renato Viana, que exalta seu talento. Em 1960, atua como protagonista de “Doce Pássaro da Juventude”, de Tennessee Williams, direção de Ademar Guerra, pelo qual recebe o prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCT).

como electra
Participa de montagens do Grupo Decisão, com direção de Antônio Abujamra - “Terror e Miséria no III Reich”, de 1963; e “Electra”, 1965. O crítico Yan Michalski observa, a respeito de seu desempenho na cena em que a protagonista trágica recebe a urna contendo as cinzas do irmão, que “a atriz atinge um nível de inspiração excepcionalmente elevado e projeta sua emoção para a plateia com um impacto impressionante”. Em 1964 é dirigida por Rubens Corrêa em “Além do Horizonte”, de Eugene O'Neill; e “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams. 

Para GLAUCE ROCHA, o papel mais difícil que viveu foi o de GH, extraído do romance de Clarice Lispector, “A Paixão Segundo GH”, no espetáculo “Perto do Coração Selvagem”, primeira direção de Fauzi Arap, em 1965. Em suas encenações a entrega era tanta que, ao final de alguns espetáculos, deixava o palco febril. Em 1968, ganha o Prêmio Molière de Melhor Atriz. Em 1969, atua em “O Exercício”, de Lewis John Carlino, direção B. de Paiva, ao lado de Rubens de Falco. Segundo o crítico Sábato Magaldi, um “magnífico desempenho”, conquistando em São Paulo o Prêmio Governador do Estado.

com vanda lacerda em “as três irmãs”
Teve também presença marcante na TV brasileira. Entre 1952 e 1971 participou de 64 teleteatros, especiais e telenovelas, na Tupi, Rio e Globo. Atuou com destaque em “Passos dos Ventos” (Janete Clair, 1968), “A Última Valsa” (Glória Magadan, 1969), “Véu de Noiva” (Janete Clair, 1969), “Irmãos Coragem” (Janete Clair, 1969) e “O Hospital” (Benjamin Cattan, 1971). GLAUCE ROCHA era uma das prediletas da célebre escritora Janete Clair, que sempre a escalava. 

Conhecida no meio artístico pela incrível capacidade de trabalho, a atriz passava o dia inteiro na TV, à noite no teatro e ainda conseguia tempo para fazer cinema, lutar politicamente pela regulamentação da carreira de ator e contra a censura (que tanto na ditadura de Getúlio quanto na ditadura militar campeava solta). Acontece que para fazer tudo isso, tomava remédios para dormir e remédios para acordar. Fumava muitíssimo. Engravidou nove vezes, mas nunca teve filhos, numa maternidade negada que a deixava frustrada. 



Também não era feliz no amor. Casou-se com o ator cearense Milton Moraes, em 1952, vivendo apenas seis meses com ele. Juntos, trabalharam em duas peças: “Madame San Gene” (1952) e “Dona Xepa” (1953). Moraes, para quem não se lembra, tem carreira longa e importante, destacando-se em cerca de 30 filmes como “Gimba, Presidente dos Valentes” (1963), “Os Senhores da Terra” (1970) e “Sagarana, o Duelo” (1973). Morreu em 1993, aos 63 anos. Glauce teve outros companheiros. O ator Jardel Filho foi um deles. Começaram em 1966, quando juntos fizeram a peça “Tartufo”, mas terminariam definitivamente durante as filmagens de “Terra em Transe”

Ela trabalhava demais. A televisão não poupava seus profissionais. Trabalhar no veículo era verdadeira maratona, sem descanso. GLAUCE ROCHA incorporou o ritmo, mas seu corpo logo cedeu. Em seus últimos anos de vida, chegou a passar doze horas gravando para TV, vestida em quentes roupas de veludo. Depois seguia direto para o teatro, onde encarava mais duas horas de espetáculo, e de madrugada fazia cinema. Nunca dava a mínima importância ao dinheiro. Mal remunerada, muitas vezes trabalhando de graça (principalmente no cinema), sempre ajudava a todo mundo, sem olhar a quem.

antonio abujamra, glauce e jardel filho
Nos últimos anos de vida, consagrada, vivia freneticamente. Além da intensa atuação política, não relutava em abrir mão do sono das madrugadas para trabalhar. Adorava ler, de Clarice Lispector a Guimaraes Rosa, passando por Jorge Amado. Gostava de MPB e música clássica. Era carinhosa, inclusive com os animais. Não fazia pose, não se importava em ser conhecida. Sorria pouco, quase sempre calada e seca. Franqueza, lealdade e generosidade são as características mais lembradas por seus amigos. Sempre que podia visitava no Rio de Janeiro, o Retiro dos Artistas, casa de abrigo a atores aposentados. Depois do seu falecimento, o jardim do lugar passou a ser chamado “Jardim Glauce Rocha”

O fim da censura foi uma de suas maiores lutas. Viveu de perto o drama de ter de ficar em silêncio vendo seu trabalho proibido. No seu camarim, havia um bocado de remédios, entre calmantes e excitantes, que tomava regularmente. Morre precocemente, de súbito enfarte, aos 41 anos de idade (ou 38, como alguns afirmam), em 1971, recebendo um Prêmio Molière póstumo, pelo conjunto de trabalhos. GLAUCE ROCHA, mais do que uma atriz, foi um marco na dramaturgia brasileira. Atriz maravilhosa, um dos maiores símbolos de um país sem memória, sempre perfeita em todos os papéis, hoje pouco lembrada.


FILMOGRAFIA COMPLETA

1952
UMA AVENTURA NO RIO
de Alberto Gout
Produção mexicana com exteriores no Brasil e estrelada pela estonteante rumbeira Ninon Sevilla. Glauce passou oito dias filmando, resultando quinze minutos em cena.

1954
RUA SEM SOL
de Alex Viany
Um dos melhores críticos cinematográficos do país, este foi o segundo longa-metragem de Viany. Glauce faz Marta, um papel de grande dramaticidade, uma mulher digna e corajosa que se vê obrigada a trabalhar num sórdido cabaré por problemas financeiros. Foi muito elogiada, ganhando o seu primeiro premio, o de Melhor Atriz no Festival de Cinema do Distrito Federal. O filme foi mal assimilado pelo público e pulverizado pela crítica.

1955
RIO, 40 GRAUS
de Nelson Pereira dos Santos
Uma mistura de drama, comédia, melodrama e chanchada, com interpretações musicais e toque neo-realista, contando várias histórias interligadas umas nas outras, tendo como ponto de referencia os meninos que descem dos morros cariocas para vender amendoim torrado em locais turísticos. Feito em regime cooperativo e com precárias condições materiais. Glauce personifica Rosa, a nordestina seduzida pelo fuzileiro naval (Roberto Bataglin), formando o par amoroso desde filme preocupado com a realidade urbana das grandes cidades, com o qual nascia o cinema brasileiro de ideias, como instrumento de avanço cultural. No elenco, o mítico Jece Valadão.

1957
O NOIVO DA GIRAFA
de Victor Lima
A história das confusões vividas por Aparício Boamorte (Amácio Mazzaropi) que trabalha no Jardim Zoológico e tem uma girafa como confidente para desabafar as broncas que leva de todas as pessoas com quem se relaciona. Glauce faz Inesita.

1958
TRAFICANTES DO CRIME
de Mario Latini
Policial com Glauce como Marina, uma moça que é assassinada, por engano, pelo chefe de uma quadrilha de traficantes de drogas.

1959
UM CASO DE POLÍCIA
de Carla Civelli
Comédia baseada numa história de Dias Gomes. Com Sebastião Vasconcelos. Glauce faz Belinha.

1961
 MULHERES E MILHÕES
de Jorge Ileli
Depois de assalto a agencia bancária, bandidos são perseguidos pela polícia. Com diálogos adicionais de Nelson Rodrigues, é um policial eficiente com abordagem social e temperatura tensa. Com as divas Norma Bengell e Odete Lara. Num papel coadjuvante, como a irmã de Jece Valadão, Glauce ganhou vários prêmios, entre eles, o Governador do Estado (SP) e o Saci.

1962
OS CAFAJESTES
de Rui Guerra
Moderno e audacioso, com nítidas influencias da Nouvelle Vague, centra-se no comportamento estúpido de personagens desocupados da classe média. Num papel bastante expressivo no prólogo do filme, faz uma prostituta, sendo premiada como Melhor Atriz Coadjuvante pela Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos. Censurado na época, tem no elenco Jece Valadão e Norma Bengell.

1962
CINCO VEZES FAVELA
Episódio “Pedreira de São Diego”, de Leon Hirszman
Um dos primeiros ícones do Cinema Novo. Soma de esforços, divide-se em cinco episódios passados em favelas. Revelou grandes diretores, principalmente Joaquin Pedro de Andrade e Leon Hirszman. No episódio de Glauce, Sadi Cabral, Joel Barcellos e Zózimo Bulbul.

1962
QUATRO MULHERES PARA UM HERÓI
(Homenaje a la Hora de la Siesta)
de Leopoldo Torre Nilson
Co-produção franco-argentina protagonizada pela estrela italiana Alida Valli. Repórter francês assiste a uma homenagem em honra de quatro protestantes assassinados por indígenas. Glauce é uma das viúvas, Berenice Bellington. Nunca foi exibido comercialmente no Brasil.

1963
MARAFA
de Adolfo Celi
Baseia-se numa história de Marques Rebelo. Roteiro de Millôr Fernandes. Não chegou a ser concluído, filmaram apenas uns dez minutos. Glauce Rocha e Agildo Ribeiro eram os protagonistas. Foram rodadas cenas durante o carnaval do Rio de Janeiro, no centro da cidade, com Glauce pegando fogo pela rua afora, que era justamente a última sequencia do filme.

1963
SOL SOBRE A LAMA
de Alex Viany
Tendo como cenário a feira de Água de Meninos, em Salvador, conta a história de dois feirantes líderes interpretados por Geraldo Del Rey (Valente) e Roberto Ferreira (Vadu). O primeiro defendendo uma política de não violência contra os métodos agressivos do segundo. Glauce vive Pureza, a explosiva namorada de Valente, vendedora de carimã. No elenco de luxo, Othon Bastos, Teresa Rachel, Antonio Pitanga e Jurema Penna.

1965
O BEIJO
de Flávio Tambellini
Adaptação da peça “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues. O drama de um homem (Reginaldo Faria) que, assistindo a um moribundo, recém-atropelado, atende-lhe ao pedido de um beijo, provocando uma reviravolta em sua vida. Glauce faz uma dona de boate, uma mulher misteriosa e cheia de sabedoria. O filme gerou muita polemica.

1966
ENGRAÇADINHA DEPOIS DOS TRINTA
de J. B. Tanko
No segundo semestre de 1959, os leitores do jornal Última Hora se deliciaram e se escandalizaram diariamente com as aventuras dos personagens de “Asfalto Selvagem”. O folhetim de Nelson Rodrigues tinha sexo, violência e adultérios saindo pelo ladrão. Nesta adaptação, revela-se essa rede de relações perigosas. Há mesmo uma sugestão de atração homossexual disfarçada de violência, o que leva a história para as páginas policiais. 

Pode ser visto também como uma espécie de crônica do Rio de Janeiro dos anos 1960, na visão do grande dramaturgo moralista. As cenas de abertura, com o calçadão de Copacabana e o trem chegando a Vaz Lobo, fazem a cartografia das classes sociais. A Barra da Tijuca, ainda bastante inexplorada, era o território da evasão e do pecado. O Centro da cidade, com suas lojas e redações de jornal, era onde se dava o comércio de desejos. 

No papel de Engraçadinha, está Irma Álvarez, uma das musas do cinema brasileiro de então. Nascida na Argentina, Irma foi vedete de Carlos Machado e uma das “Certinhas do Lalau”, concurso de beleza promovido pelo escritor Stanislau Ponte Preta na década de 50. Foi uma atriz dada a ousadias, como protagonizar a primeira fotonovela brasileira, desfilar de biquíni no Copacabana Palace e raspar completamente a cabeça para filmar com Ruy Guerra o inacabado “Cavalo de Oxumaré”. Irma faleceu em 2007, aos 73 anos. A voz de Engraçadinha, no entanto, não é dela, mas de Glauce Rocha, que a dublou (além de atuar no filme).

1967
A DERROTA
de Mario Fiorani
Um homem (Luís Linhares) é aprisionado por um bando, num velho casarão. Procuram-lhe tirar informações. O prisioneiro resiste aos maus tratos e tentativas de persuasão. Sua mulher (Glauce), porém, rende-se às exigências, satisfazendo, inclusive, aos desejos do chefe. O diretor, Fiorani, um italiano radicado no Brasil, era também poeta e escritor. A atmosfera do filme é opressiva e angustiante. Libelo contra a violência e a brutalidade, revela cenas de tortura. Na direção de fotografia, o extraordinário Mário Carneiro. Com Ítalo Rossi e Eugenio Kusnet.

 1967
TERRA EM TRANSE
de Glauber Rocha
Contraditório como a própria realidade espelhada, esse filme barroco brilha no lirismo dos diálogos e na beleza plásticas de suas cenas, refletindo a realidade social e o pensamento politico de um tempo. O inquieto Glauber fala de mazelas e incoerências. Glauce faz Sara, uma líder estudantil apaixonada por um poeta atormentado (Jardel Filho). Ainda no elenco, Paulo Autran, Paulo Gracindo, Jofre Soares e José Lewgoy. Censurado, foi premiado em Cannes e ganhou elogios mundo a fora. Glauce levou o prêmio Governador do Estado (SP) de Melhor Atriz.

1968
NA MIRA DO ASSASSINO
de Mario Latine
Criminal modesto. Baseado no romance de Berliet Jr., conta uma aventura policial algo ingênua. Com Agildo Ribeiro, Milton Gonçalves e Paulo Gracindo. Glauce faz Magricela.

1968
JARDIM DE GUERRA
de Neville D`Almeida
Primeiro longa-metragem do mineiro D`Almeida, inicialmente interditado pela censura federal. Na trama, Edson, sem dinheiro e sem emprego, recorre a um tipo estranho que tem contato com o submundo. Incumbido de missão, termina nas mãos de uma organização criminosa. Glauce interpreta uma interrogadora neste filme politizado e experimental. Fotografia do lendário Dib Lutfi. Com Joel Barcellos e Zózimo Bulbul.

 1969
TEMPO DE VIOLÊNCIA
de Hugo Kusnet
Primeiro filme do argentino Kusnet. Glauce, em participação especial, faz dona Maria da Glória, esposa de um jornalista, que ousada e corajosamente denuncia, através da imprensa, uma quadrilha de contrabandistas e passa a ser perseguido. Fotografia do mestre Ricardo Aronovich. Tônia Carrero é a estrela deste eficiente policial. Por este desempenho, Glauce abiscoitou o Troféu Candango de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Brasília.

 1969
INCRÍVEL, FANTÁSTICO, EXTRAORDINÁRIO
de C. Adolpho Chadler
Quatro episódios baseados no programa radiofônico de Almirante e casos relatados no Jornal O Dia. Com Cyl Farney e Sônia Clara.

1969
NAVALHA NA CARNE
de Braz Chediak
Filme de estreia de Chediak, ficaria nas mãos dos censores durante um ano. Filmado logo após o sucesso da peça teatral de Plínio Marcos, fala da relação conturbada de três marginalizados: um faxineiro gay (Emiliano Queiróz), uma prostituta (Glauce) e seu amante rude (Jece Valadão). Como Norma Sueli, Glauce foi elogiada até pelo prestigioso crítico do New York Times, Vincent Canby: “Ela é soberba, demonstra grande personalidade, controle e disciplina, sustentando o melodrama. Lembra Jeanne Moreau”.

1970
UM HOMEM SEM IMPORTÂNCIA
de Alberto Salvá
Flávio (Oduvaldo Vianna Filho), filho de um mecânico rude, com recortes de anúncios classificados no bolso, percorre diversos escritórios, em busca de melhor colocação. Amargo e humano, o filme cresce nas duas sequencias em que introduz Selma, a desquitada interpretada por Glauce.

1971
DIA MARCADO
de Iberê Cavalcanti
Glauce faz Glória, uma tenente de polícia disfarçada de enfermeira, que se apaixona por um ladrão internado. Fotografia de Jorge Bodansky. Com Leila Diniz.

1972
CASSY JONES, O MAGNÍFICO SEDUTOR
de Luiz Sérgio Person
Comédia colorida onde se enfocam as aventuras de um conquistador inveterado, que promove uma série de trapalhadas. Person cria situações cheias de absurdo e non sense, desenvolvendo uma narrativa intencionalmente marcada pelo descompromisso e pelo humor erótico. Inspira-se nas comédias leves do cinema italiano. Glauce faz a zelosa Frida, cuidando a toda hora da integridade sexual de Clara (Sandra Bréa) contra as investidas do protagonista (Paulo José).


SOBRE GLAUCE ROCHA

ANTUNES FILHO
(Diretor Teatral)
“Eu tenho da Glauce assim uma lembrança extraordinária como atriz, porque toda a minha geração considerava a Glauce, ao lado da Cacilda Becker e da Fernanda Montenegro, as três maiores atrizes do país. Mas o que é fundamental dizer é que a inteligência e a sensibilidade da Glauce Rocha eram uma coisa assim, pra mim, estarrecedora, brilhante mesmo, ela era muito inteligente, muito sensível, discutia qualquer assunto, sabia das coisas.”

BIBI FERREIRA
(Atriz e Diretora Teatral)
“Era uma mulher sem defeitos para representar. Não tinha truques, não usava lugares comuns. Ela era pura, simples, dedicada ao trabalho. Não busca nunca o brilho narcisístico. Tinha uma voz extraordinária e a usava como ninguém, sem rebuscamentos, sem artifícios.”

CLARICE LISPECTOR
(Escritora)
“Como explicar o que aconteceu no palco? (...) A GH surgiu de rosto nu e exposto no palco. A voz falava de uma profundidade que me fez entender então ainda mais o que GH significava para mim. Os gestos de Glauce eram sóbrios, no entanto ela vibrava. E eu, sentada na plateia, fui obrigada a me respeitar: Glauce Rocha tinha feito isso por mim. Ela é uma grande atriz, não só pelo fino talento mas, também, porque é uma grande pessoa.”

glauce, clarice lispector e dirce migliaccio
JOSÉ WILKER
(Ator)
“No Rio dos anos 1960, descobri uma companhia teatral incrível, o Grupo Decisão, dirigido pelo Abujamra, onde vi um dos maiores momentos de teatro da minha vida: Glauce Rocha fazendo Electra! Se não me engano, assisti a esse espetáculo umas 40 vezes! O trabalho dessa mulher foi a maior lição de teatro que aprendi na vida.”

SÁBATO MAGALDI
(Crítico Teatral)
“Tinha a verdade inata das grandes atrizes. Que se distinguia nela? Lembre-se a elegância e a firmeza de seus movimentos no palco. A expressão corporal dava-lhe um domínio raro em cena. O que mais impressionava nela, porém, era a máscara flexível, cheia de personalidade, que registrava com extrema rapidez os mais desencontrados sentimentos. Uma voz de timbre agradável, que se prestava aos diálogos suaves, adquiria uma autoridade exemplar nos momentos dramáticos.”

TÔNIA CARRERO
(Atriz)
“Não sou atriz de talento. Sou uma atriz de trabalho. Tudo que fiz na minha vida foi por determinação. Sei que não nasci tão atriz quanto uma Cacilda Becker ou uma Glauce Rocha.”

YAN MICHALSKI
(Crítico teatral)
“Em talento puro, vibração dramática, força de personalidade, ela podia rivalizar com as nossas melhores atrizes. Em dedicação, seriedade de trabalho, garra, consciência de seu papel social de atriz, ela estava um passo à frente de muitas das suas mais famosas colegas. O desaparecimento de Glauce aos 38 anos, tem algo de particularmente chocante e escandaloso, talvez por sentirmos que aquilo que ela tinha para nos dar era bem mais do que o muito que já nos dera.”


SAIBA mais SOBRE GLAUCE ROCHA

Documentário “A Estrela Anunciada”, de Sônia Garcia. Conta a trajetória da atriz em 51 minutos.

Monólogo “O Belo Indiferente”, de Jean Cocteau, gravado em vinil pela artista em 1967.

Livro “Glauce Rocha, Atriz, Mulher, Guerreira” (1996), de José Octávio Gizzo.