Mostrando postagens com marcador Oscarito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oscarito. Mostrar todas as postagens

janeiro 09, 2016

********** GRANDE OTELO: COMÉDIA e TRAGÉDIA

grande otelo em macunaíma
No cinema, teatro ou televisão, ele sabia improvisar. Dono de uma consagrada expressão facial e corporal, seus personagens tinham apelo popular. GRANDE OTELO (1915 - 1993) foi o primeiro artista negro a ocupar espaço de destaque no cinema e na televisão brasileira. Desde a infância vivida em Uberlândia, Minas Gerais, ele tinha atração pelas manifestações populares, como o carnaval e as congadas. A comédia “O Garoto / The Kid” (1921), de Charles Chaplin, apareceu como uma influência decisiva no seu encantamento pela carreira artística. Considerado um menino prodígio, manifestou sua primeira experiência como ator aos sete anos, fazendo uma participação no circo que passava pela sua cidade natal. Na ocasião, Bastiãozinho, como era conhecido, apareceu vestido de mulher interpretando a esposa do palhaço, o que causou enorme comicidade.

Desde muito pequeno, em troca de moedas, cantava e dançava para hóspedes de um hotel. Com o passar do tempo, trocou de família diversas vezes, foi morador de rua e do Abrigo de Menores. Movido por uma extraordinária vocação artística, chegou ao Rio de Janeiro, de onde sua fama se espalharia pelo resto do país, brilhando na atmosfera exuberante do Cassino da Urca, com espetáculos mundialmente famosos; nas hilariantes chanchadas da Atlântida; no Cinema Novo e nas telenovelas da Globo. O teatro, sua primeira paixão, não deixaria de contar com suas marcantes interpretações. Entre 1946 e até o final de sua carreira, o artista participou de inúmeras peças. Entre elas, “O Homem de La Mancha” (1973), ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran, e “Vivaldino, Criado de Dois Patrões (Arlequim)” (1976), com Ary Fontoura e Ítala Nandi. De uma vida intensa e controvertida, muitas vezes tatuada pelos preconceitos, viveu sempre na fronteira entre o profissionalismo e a boêmia - e fez de seu talento uma estratégia de sobrevivência. Mas a tragédia muitas vezes se fez presente na vida real.

Ele nunca conheceu o pai, que morreu esfaqueado em circunstância misteriosa. Quanto completou oito anos de idade, conseguiu um pequeno papel dentro do espetáculo de uma companhia de teatro mambembe que passava por sua cidade. Ao ver a habilidade do garoto diante da plateia, a diretora do grupo, Abigail Parecis, convenceu sua mãe a deixar o filho trabalhar em São Paulo como artista. Devido à sua voz de tenorino, um professor de canto julgou que um dia o menino cresceria e cantaria a ópera "Otelo", de Giuseppe Verdi.  Então, pela estatura pequena (media 1,50 m.), foi apelidado de Pequeno Otelo. Insatisfeito, ele fugiu e passou um período nas ruas e outro sob a tutela do Juizado de Menores. Depois, foi adotado pela família de Antônio de Queiroz, um político influente. Ele o ajudou a se incorporar aos 10 anos de idade na trupe da Companhia Negra de Revistas, regida por Pixinguinha, apresentando-se em Santos, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Em 1935, passou a atuar na Companhia Tro-lo-ló, de Jardel Jércolis, pai do ator Jardel Filho, e um dos pioneiros do teatro de revista.

otelo e carmen miranda
Ainda nesse mesmo ano, já como GRANDE OTELO, estreou no cinema em “Noites Cariocas”, dirigido pelo argentino Enrique Cadícamo para a produtora Cinédia. Curiosamente se cruzaria pela primeira vez com Oscarito nesse filme e mais tarde os dois se tornariam uma das duplas cômicas mais famosas e engraçadas do cinema brasileiro. Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, logo seria adotada como sua cidade. Apreciador da sua vida noturna, foi também um de seus atores, seja na famosa gafieira do Elite, no bar Vermelhinho ou nos bares da Lapa. 

No Rio dormiu em bancos de praça, hospedaria de mil-réis e até em pensão de corda (estabelecimento perto da Central do Brasil). Por sorte, o produtor norte-americano Wallace Dolney, que o conhecia das filmagens de “Noites Cariocas”, o convidou para atuar em “João Ninguém” (1936), com roteiro de João de Barros e direção de Mesquitinha. No mesmo ano, passou a trabalhar no famoso Cassino da Urca, e lá se ficou até o seu fechamento em 1946, nele brilhando com Carmen Miranda e realizando diferentes espetáculos. Mesmo assim, era alvo de discriminação, recebendo salário menor que atores brancos de mesmo destaque e era a única estrela proibida de entrar pela porta de entrada.

joséphine baker
No Cassino da Urca, em 1939, ele contracenou com a famosa cantora e dançarina norte-americana Joséphine Baker, momento citado por ele como um dos mais importantes de sua carreira. Ao longo desta mesma temporada, compôs, em parceria com o amigo Herivelto Martins, o famoso samba “Praça Onze”, que faria muito sucesso no carnaval de 1942. No mesmo ano, o cineasta Orson Welles (famoso por dirigir “Cidadão Kane / Citizen Kane”, 1941) veio ao Brasil rodar o longa-metragem “It´s All True”, conhecendo GRANDE OTELO no Cassino da Urca. Contratou o ator, mas o filme ficou inacabado e diversas cenas filmadas foram destruídas posteriormente.

Nos anos 1940 e 1950, trabalhou em diversos programas de rádio e compôs uma variedade de sambas em parcerias com outros compositores. No cinema, foi uma das estrelas da Atlântida Cinematográfica, tendo protagonizado o primeiro sucesso da produtora, “Moleque Tião. Também na Atlântida, formou, ao lado de Oscarito, a dupla mais famosa e bem sucedida do cinema brasileiro, que estrelou campeões de bilheteria como “Este Mundo é Um Pandeiro” (1946) de Watson Macedo, “Três Vagabundos” (1952) de José Carlos Burle, e “Matar ou Correr”. Ao longo de sua carreira, GRANDE OTELO participou de 118 filmes, 17 filmes deles com Oscarito, embora não fossem amigos na vida real. Em 1949, estrelou “Também Somos Irmãos”, ao lado de Ruth de Souza. O filme denunciou o racismo existente no Brasil e foi considerado o melhor filme nacional do ano pela crítica especializada.

oscarito e grande otelo
Em um momento de “Carnaval no Fogo” (1949), um Romeu bem pouco galante aparece em cena para pedir a presença de sua amada na sacada. Quando ela aparece, é GRANDE OTELO de peruca loura. O que se segue é uma das mais engraçadas cenas do cinema nacional. Nem parece que o ator tinha passado pela pior tragédia de sua vida: dois dias antes, sua mulher havia envenenado o filho de 6 anos e, em seguida, cometido suicídio com um tiro na cabeça. Lúcia Maria, a esposa, com quem ele era casado desde 1941, culpou em bilhete as bebedeiras e o ciúme do ator. Em 1954, ele se casou com Olga Vasconcelos de Souza, com quem teve quatro filhos. Ela morreu em 1983, devido a um acidente doméstico. Após deixar a Atlântida em 1955, o ator participaria de inúmeros filmes, com destaque para o clássico “Rio, Zona Norte”, considerado a obra que inaugurou o Cinema Novo. Na mesma década, passou a atuar na televisão em emissoras como a TV Tupi do Rio e Tv Rio.

Um resumo do cinema brasileiro e do próprio Brasil em um de nossos maiores artistas, GRANDE OTELO também fez sucesso formando dupla com o cômico paulista Ankito e com Vera Regina. Passou alguns anos sem muito destaque. Por volta de 1965, começou a participar de programas humorísticos na Rede Globo, iniciando com “Bairro Feliz”. Em 1969, protagonizou com Paulo José e Dina Sfat, “Macunaíma”, baseado no livro de mesmo nome de Mário de Andrade, e onde interpreta o personagem título, um herói tipicamente brasileiro, ganhando prêmios importantes. Depois do filme, o ator voltou a ser manchete.

grande otelo, werner herzog 
e klaus kinski
Nos anos 1970 participou de diversos longas. Na TV, atuou em telenovelas badaladas como “Bandeira 2”, “Uma Rosa com Amor”, “Shazan Xerife e Cia”, “Bravo”, “Maria, Maria” e “Feijão Maravilha”. Nessa mesma época passou a ter um romance com a atriz Joséphine Hélène e após dez anos de uma relação tumultuada, resolveram selar a união em 1984. Três anos mais tarde, o casal foi parar nas páginas policiais dos jornais, quando numa discussão, Joséphine acabou dando um golpe de faca na barriga do ator. Na década de 1980, continuou sua participação em telenovelas - “Água Viva”, “A Gata Comeu”, “Sinhá Moça”, “Mandala” e “República” -, além do programa humorístico “Chico Anysio Show”. Rodou o internacional “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog. Realizado na selva peruana, GRANDE OTELO se indispôs com o protagonista, o temperamental ator Klaus Kinski.

Em 1985, recebeu do governo francês o título de “Commandeurs de L´Ordre des Arts e Lettres”, que foi entregue pelo ministro da Cultura francesa, Jack Lang. Na década seguinte, continuou fazendo cinema e TV. Participou do filme “Boca de Ouro” (1990), de Walter Avancini, baseado na peça teatral de Nelson Rodrigues, e em 1993 fez seu último trabalho na telenovela global “Renascer”, interpretando Seu Francisco Galvão, pai de Ritinha (Isabel Fillardis). Apesar de inúmeros êxitos, a carreira de GRANDE OTELO foi marcada por altos e baixos. Sua indisciplina e seu gosto pela farra noturna e pela bebida fizeram com que faltasse a ensaios e apresentações, ou fosse trabalhar de ressaca, o que gerou a fama de irresponsável. Ainda em 1993, aos 78 anos de idade, morreu na glória, de um ataque do coração, fulminante, numa escada rolante no Aeroporto Charles de Gaule, em Paris, onde seria homenageado no Festival de Cinema dos Três Continentes, em Nantes. Ano passado, em comemoração ao centenário do ator e a sua importância para a história da cultura nacional, a Caixa Belas Artes, em São Paulo e Rio de Janeiro, promoveu a mostra O Maior Ator do Brasil - 100 Anos de Grande Othelo. A exibição reuniu 23 filmes com a participação genial do notável mineiro.



FONTE
“Grande Otelo - Uma Biografia”, de Sérgio Cabral; “Uma Interpretação do Cinema Brasileiro através de Grande Otelo”, de Luis Felipe Hirano.

grande otelo e oscarito em matar ou correr
FILMOGRAFIA SELECIONADA de GRANDE OTELO

IT'S ALL TRUE
(1942, inacabado)
de Orson Welles

MOLEQUE TIÃO
 (1943)
de José Carlos Burle

MATAR ou CORRER
(1954)
de Carlos Manga

RIO ZONA NORTE
(1957)
de Nelson Pereira dos Santos

ASSALTO ao TREM PAGADOR
(1962)
de Roberto Farias

MACUNAÍMA
(1969)
de Joaquim Pedro de Andrade

A ESTRELA SOBE
(1974)
de Bruno Barreto

LÚCIO FLÁVIO, o PASSAGEIRO da AGONIA
(1977)
de Hector Babenco

Os PASTORES da NOITE
(1979)
de Marcel Camus

FITZCARRALDO
(Idem, 1982)
de Werner Herzog

QUILOMBO
 (1984)
de Carlos Diegues

JUBIABÁ
(1987)
de Nelson Pereira dos Santos

GALERIA de FOTOS


junho 04, 2015

***** NORMA BENGELL: O OCASO de uma MUSA


O cinema francês não se esquece de suas estrelas. Geralmente elas trabalham até idade avançada, envelhecendo com charme nas telas. De cabeça, lembro-me de Catherine Deneuve, Jean-Louis Trintignant, Anouk Aimée, Danielle Darrieux, Michel Piccoli, Jeanne Moreau, Emanuelle Riva, Micheline Presle, entre outras. O mesmo não acontece habitualmente nos Estados Unidos da América, mas os filhos de Tio Sam reverenciam suas antigas glórias através de publicações, documentários, vídeos, retrospectivas, tributos. 

O Brasil, um país sem memória, literalmente apaga o passado. Os novos cineastas raramente convidam para os seus filmes intérpretes que brilharam noutros tempos. Hoje, poucos brasileiros sabem da importância no cenário cinematográfico nacional de intérpretes como Odete Lara, Joffre Soares, Adriana Prieto, Isabel Ribeiro, Paulo César Pereio, Lillian Lemmertz, Paulo José, Irene Stefânia, Hugo Carvana, Tereza Raquel, Glauce Rocha, Jardel Filho, Anecy Rocha, Geraldo D’el Rey, Ítala Nandi, Darlene Glória, Othon Bastos, Ana Maria Magalhães etc.

norma (primeira à direita), odete lara, 
leila dinize outras atrizes na passeata 
dos cem mil contra a censura, 1968
Uma das nossas maravilhas, NORMA BENGELL (1935 – 2013) conseguiu a proeza de num país majoritariamente 'televisivo' ser uma das poucas atrizes que se dedicou principalmente ao cinema e mesmo assim manteve seu sucesso e popularidade. Temperamental, de difícil trato, feminista engajada, artista com convicções políticas, transgressora, mulher à frente do seu tempo, cantora e diretora, de dinâmica carreira, rodou mais de cinquenta filmes. Na longa trajetória, histórias de abortos, estupros, inúmeros casos de amor, brigas, separações, a paixão por uma mulher com quem ela viveu durante anos, o tumultuado relacionamento com Alain Delon, na época considerado o homem mais bonito do mundo. Inquieta, despachada, ousada, libertária, como ela mesmo se definia, fez novelas de televisão, foi amiga do presidente João Goulart e de Glauber Rocha, com quem trabalhou em “A Idade da Terra” (1980). Casos de amor e brigas se alternam na vida da sedutora que se engajou na luta pelos direitos dos atores, e foi uma voz contra preconceitos e a ditadura militar, passando anos de exílio na Europa.

norma com os cantores
tony campello e carlos josé
Fascinava pela sensualidade e personalidade forte. Galãs como Alain Delon, Renato Salvatori e Gabriele Tinti, renderam-se ao charme dessa carioca sex symbol. Premiada muitas vezes, capa de revistas concorridas, polêmica, musa do Cinema Novo, comparada à francesa Jeanne Moreau, NORMA BENGELL nos orgulha, remetendo às boas recordações de um tempo perdido. Nos seus últimos anos de vida, paralítica e sem dinheiro, devendo uma fortuna ao Leão, possuía apenas uma casa, a cada dia mais vazia, porque vendia os móveis e parte do acervo particular para sobreviver. Doente e endividada, a atriz que viveu a glória do cinema nacional, recorreu à ajuda de amigos. Ao escorregar num tapete, sofreu um tombo e precisou operar a coluna e o cotovelo. Daí em diante, só deixou sua residência para ir ao hospital. Entregue a uma cadeira de rodas, doente e à beira da falência, não era nem sombra da atriz sensual e de olhar enigmático cortejada nos anos 1960 e 1970.

norma nos tempos de vedete
O pai era um belga que trabalhava como afinador de piano. A mãe, de família rica, deserdada após o casamento pelo pai integralista que não a queria casada com um imigrante. A infância difícil, em Copacabana. NORMA BENGELL nasceu predestinada a se tornar estrela de cinema. Por volta de 1936, o ator e diretor Raul Roulien, de passagem pelo Rio, ao vê-la passeando no carrinho de bebê, pediu permissão à mãe para filmá-la. Em 1945, seus pais se separaram e ela foi morar com os avós paternos. Levada a um internato de freiras alemãs, não permaneceu por muito tempo, sendo expulsa por indisciplina. Trabalhou algum tempo no comércio. No começo dos anos 1950, manequim da Casa Canadá, seu corpo escultural logo chamou a atenção, passando a atuar no teatro de revista em 1954, como vedete no espetáculo “Fantasia e Fantasias”, apresentado no Copacabana Palace. Trabalhou muitos anos com Carlos Machado nas boates “Casablanca” e “Night and Day”, com temporadas em Montevidéu e Buenos Aires. 

Estreou no cinema em 1959, na chanchada “O Homem de Sputnik”, produção da Atlântica estrelada por Oscarito e Jô Soares. Um mega sucesso, com público estimado em 8 milhões e meio de pagantes. Ela fazia uma sátira à sex-symbol francesa Brigitte Bardot - seu personagem chamava-se justamente B.B. Então, a carreira de NORMA BENGELL no cinema intensificou-se, rodando muitos outros filmes, além de se destacar no teatro dramático na peça “Procura-se uma Rosa”, de Pedro Bloch. Ao atuar no drama urbano “Os Cafajestes”, de produção tumultuada, consagrou-se definitivamente, recebendo o Prêmio Saci de Melhor Atriz. Nessa fita clássica, protagonizou a primeira cena de nu frontal da história cinema brasileiro, que a tornou alvo de perseguição dos setores conservadores, sofrendo ataques da Igreja e da organização “Família, Tradição e Propriedade” (TFP). Em 1962, ao participar de um show de bossa-nova na PUC (RJ), foi impedida pelos padres de cantar, porque se declarou a favor da pílula anticoncepcional. No mesmo ano, chamada por Anselmo Duarte para “O Pagador de Promessas”, brilhou no papel da prostituta Marli. Em seu livro “Adeus, Cinema”, o cineasta afirma ter transado com a atriz para ela “não ir embora” das filmagens. Baixaria à parte, o longa ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e ainda indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, dando a NORMA BENGELL a oportunidade do estrelato internacional.

alberto sordi e norma em o mafioso
Em Cannes, conheceu o produtor Dino di Laurentiis, que a contratou, seguindo para a Itália, onde trabalhou com bons diretores, ficou amiga de Federico Fellini e Luchino Visconti, entre outros intelectuais europeus, teve um affair com o astro francês Alain Delon. No cinema italiano, a atriz é mais lembrada pelos sucessos “O Planeta dos Vampiros / Terrore Nello Spazio” (1965), ficção científica do diretor Mario Bava, e “Os Cruéis / I Crudeli” (1967) um spaghetti western de Sergio Corbucci. Ela contracenou com Alberto Sordi, Jean-Louis Trintignant, Renato Salvatori, Catherine Deneuve, Jean Sorel, Enrico Maria Salerno, Nino Manfredi e outros. “Quando o meu marido, o Gabrielle Tinti, viajava, eu saía muito com o Pasolini. Ia dançar com ele naqueles botecos de Roma. O prédio em que eu morava era uma loucura. A gente não podia abrir as janelas porque sempre tinha paparazzi nos telhados. Lá moravam a Brigitte Bardot, o Rod Steiger, a Cyd Charisse. Era na Via Vecchiarelli 38, um prédio dos anos 600 que a princesa alugava”, recordou a atriz. 

Em 1964, aos 30 anos de idade e no auge da beleza, voltou ao Brasil para filmar a obra-prima do diretor Walter Hugo Khouri, “Noite Vazia”, um dos melhores filmes da carreira dela. Nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz ela se casou com o italiano Gabriele Tinti (belíssimo e de filmografia inexpressiva, morreu em 1991, aos 59 anos), seu parceiro no filme, e a união durou até 1969. “Na minha carreira, trabalhei em lugares fantásticos e conheci pessoas fantásticas, mas minha vida privada era confusa. Passei por muitos amores e decepções”, confessou a atriz numa entrevista.

gabrielle tinti, o marido, 
e norma
Teve uma experiência em Hollywood, estrelando o episódio “To Kill a Priest” (1966), com direção de Boris Sagal, da primeira temporada da famosa série “T.H.E. Cats” (Paramount / NBC), gravando para a trilha as canções “Água de Beber” e “Garota de Ipanema”, ambas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Levando cantadas e perseguida nas ruas, ela, certa vez, precisou se esconder em um hotel. Ao longo da carreira atuou pouco no teatro, brilhando em 1968 com a peça “Cordélia Brasil”, de Antônio Bivar, dirigida por Emilio di Biasi, um dos seus maiores sucessos, mas acabou por ser levada por três homens do DOI-CODI, sendo interrogada por cinco horas sobre “a subversão na classe teatral”. Com o passar dos anos, optou cada vez mais por personagens altamente dramáticas, o que a elevou a um patamar distinto entre as atrizes da época, como se vê no seu trabalho desenvolvido durante os anos 1970. 

Em 1971, ela fez uma de suas melhores participações no cinema, no premiado “A Casa Assassinada”, de Paulo Cesar Saraceni. Por sua brilhante interpretação recebeu o Troféu de Melhor Atriz da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), prêmio que ainda receberia outras duas vezes por “Mar de Rosas” (1978) e “Eros, o Deus do Amor” (1981). Na época, decidiu se auto-exilar em Paris, onde continuou atuando no cinema e também na televisão e no teatro, trabalhando com o diretor Patrice Chéreau - um dos grandes intelectuais do teatro na França - em duas ocasiões: na peça “La Dispute”, de Marivaux, em 1973, e “Les Paraventes”, de Jean Genet, em 1983, que marcou sua despedida dos palcos franceses.

norma e jardel filho 
em antes, verão
De volta, continuou filmando. Ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Veneza por sua atuação em “A Idade da Terra” (1980). Mais uma vez no terreno do escândalo, em 1984, NORMA BENGELL afirmou ter feito 16 abortos. No mesmo ano, rodou com Mick Jagger o videoclipe da música “She's the Boss”. No início dos anos 1990, o cinema brasileiro ficou bastante prejudicado e quase paralisado com a extinção da Embrafilme pelo governo Fernando Collor de Mello, e durante essa época ela se engajou politicamente na luta pela retomada do nosso cinema, fazendo várias viagens à Brasília, onde aconteceu o famoso beijo no então presidente Itamar Franco que deu o que falar. Em 2010, seu nome veio a tona durante a campanha da pré-candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff, resultando em acusação da atriz de uso indevido de imagem por parte da candidata. Após a fase mágica, finda a mocidade, batalhou para não ser apenas um objeto do desejo, dirigindo e assinando o roteiro de “Eternamente Pagu” (1988), protagonizado por Carla Camuratti, e “O Guarani” (1996), baseado na obra de José de Alencar, entre outros. “O Guarani” foi um fracasso de público e crítica, que lhe rendeu um massacre na imprensa. Ela brigou com uma das roteiristas do filme e com críticos que deram avaliações negativas.

gloria menezes, norma e leonardo vilar
Seu primeiro LP, o bossa-novista “Ooooooh! Norma”, lançado em 1959, tem canções de Tom Jobim e João Gilberto. Em 1960, gravou “Tristeza”, incluída na trilha sonora da comédia Copacabana Palace, uma co-produção ítalo-franco-brasileira. Fez sucesso com “A Lua de Mel na Lua e “E se tens Coração”, da trilha de “Mulheres e Milhões”. Realizou shows no Club 36 e no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, ao lado da turma da bossa nova (Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes, Baden Powell e Roberto Menescal, entre outros), sendo uma das primeiras cantoras a gravar composições inéditas de Tom Jobim. 

Após anos gravando participações em trilhas sonoras e discos de outros artistas, lançou seu segundo LP em 1977, “Norma Canta Mulheres”. Apresentou, dirigida por Abelardo Figueiredo, um programa semanal de música popular brasileira na tevê Tupi, no qual recebia convidados especiais com os quais cantava em dueto. Participou, também, do programa “Carrossel” (TV Rio), apresentando-se semanalmente, e do programa “Noite de Gala” (TV Rio), ao lado de vários artistas. Mais tarde, contratada pela Globo, comandou o programa “Shell em Show Maior”, ao lado de Chico Buarque. Porém, o cantor só participou do primeiro programa, em função de sua timidez. Mais adiante ela fez parte do elenco das telenovelas “Os Adolescentes” e “Os Imigrantes”, na Rede Bandeirantes; da minissérie “Parabéns pra Você”, de Bráulio Pedroso; das telenovelas “Partido Alto”, de Aguinaldo Silva e Glória Perez, e “O Sexo dos Anjos”, de Ivani Ribeiro.


Poucos meses antes de morrer, sem filhos, a senhora que foi uma das deusas do Brasil, presente na música, no teatro, na tevê e, sobretudo, no cinema, passava semanas sem sair de casa, sem uma fonte de renda regular e sem poder saldar as dívidas acumuladas. Segundo a atriz, teria sido enganada por seu advogado e, por conta disso, estaria devendo cerca de R$ 4 milhões à Receita Federal em imposto de renda. Às voltas com as contas cotidianas e mais as despesas médicas, não sabia o que fazer. As pernas inchadas e o tempo agindo sobre seu corpo, somente nos raros sorrisos e no olhar – ainda enigmático – se notavam vestígios da NORMA BENGELL de décadas atrás.

Por causa das pendências judiciais geradas com a produção de “O Guarani” seus bens e contas bancárias ficaram indisponíveis. Na época, ela usou leis de renúncia fiscal para levantar R$ 2,99 milhões. O Ministério da Cultura e o Tribunal de Contas da União identificaram irregularidades na prestação de contas e o caso parou na Justiça, gerando processos. “Chegaram a me acusar de não ter terminado o trabalho. Como podem dizer isso se o filme foi apresentado em horário nobre na Rede Globo para milhões de pessoas?”. Para piorar a situação, sua companheira de 25 anos (viviam sob o mesmo teto), Sonia Nercessian, fotógrafa e produtora, morreu em 2007 após um demorado sofrimento decorrente de câncer.

camila amado e norna em vestido de noiva,
de nelson rodrigues, 1976
Instalada numa enorme casa de quatro quartos, duas salas e uma bela piscina, em um dos bairros mais nobres do Rio, ela nem pensava em vender o imóvel, onde vivia há dez anos. “Nem pensar. Minhas lembranças estão todas aqui”, rechaçava. Tinha toda razão. Sobre alguém que cogitou levá-la para o Retiro dos Artistas, ela se referiu como um “estúpido”. Além de passar um bom tempo à frente da telinha, NORMA BENGELL preenchia seu dia fazendo sessões de fisioterapia, ouvindo música clássica, vendo filmes em DVD e fumando um maço de cigarros. Gastava horas ao celular com amigos como Ney Latorraca e Miguel Falabella. Otimista, três anos antes de morrer voltou aos palcos com a peça “Dias Felizes”, de Samuel Beckett, direção de Emílo di Biasi, na história de Winnie, uma mulher oprimida pelo mundo e pelo marido que tenta sobreviver em meio às suas lembranças e sonhos. Seu último trabalho na televisão foi como Deise Coturno na série humorística da Tv Globo “Toma Lá, Dá Cá” (2008/2009).

Depois de gravar depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som, no Rio, dando testemunho franco sobre o que viveu, organizou seu acervo pessoal (filmes, fotos, revistas, cartas etc.), que foi doado para a Cinemateca Brasileira, e finalizou um livro de memórias que preparava há décadas, “Norma - Coisas Que Vivi”. Além disso, sonhava em dirigir “Tudo por Amor”, sobre sua trajetória, que tinha roteiro pronto. Ela pensava em Alinne Moraes para interpretá-la. Seus últimos filmes como atriz foram o longa “Vagas para Moças de Fino Trato” (1992), de Paulo Thiago, e o curta “Banquete” (2002), de Marcelo Lafitte. Recebeu uma homenagem emocionante na 10ª edição do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro, realizado no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, levando um troféu das mãos da atriz Marieta Severo. “Minha vida foi muito bonita, e ainda é”, disse numa entrevista, sem disfarçar o tom melancólico e os olhos cheios d’água. A atriz se queixava da solidão e do abandono dos amigos, e estava bastante doente. Faleceu em 2013, aos 78 de idade, no Rio de Janeiro.

De sex-symbol à atriz séria, dramática. NORMA BENGELL construiu uma carreira belíssima, invejável, que poucas conterrâneas também alcançaram. Considerava-se “uma operária, uma trabalhadora do cinema”. Seu nome estará para sempre unido aos acontecimentos da cultura brasileira na segunda metade do último século. Foi o cinema que me fez conhecer o mundo inteiro, foi o cinema que me deu de comer, que me fez ser amada e odiada. Então, esse cinema é a minha vida”. Teve uma vida que não foi um “mar de rosas”, só para citar o filme de Ana Carolina que fez quando voltou do exílio, com Cristina Pereira e Hugo Carvana, e sobre o qual ela falava com carinho. No papel de uma mãe em desesperada trajetória em direção ao Rio de Janeiro, com a filha como num surto, uma explosão, um delírio, o filme é bem ilustrativo dela mesma, de seu caminho, inclassificável estrela.

Fontes:
“Enciclopédia do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, Ed. Senac/São Paulo; “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1929/1988”, de Salvyano Cavalcanti de Paiva)

odete lara e norma em noite vazia
BENGELL em DEZ FILMES

(1961)
MULHERES e MILHÕES
direção de Jorge Ileli
com Jece Valadão, Odete Lara, Glauce Rocha
Mário Benvenutti e Daniel Filho

(1962)
O PAGADOR de PROMESSAS
direção de Anselmo Duarte
com Leonardo Villar, Glória Menezes, Geraldo d’el Rey
e Othon Bastos

(1962)
Os CAFAJESTES
direção de Ruy Guerra
com Jece Valadão, Daniel Filho, Glauce Rocha
e Hugo Carvana

(1962)
O MAFIOSO
direção de Alberto Lattuada
com Alberto Sordi

(1964)
NOITE VAZIA
direção de Walter Hugo Khouri
com Odete Lara, Mário Benvenutti e Gabriele Tinti

(1968)
EDU, CORAÇÃO de OURO
direção de Domingos de Oliveira
com Paulo José, Leila Diniz, Joana Fomm
e Ziembinski

(1970)
Os DEUSES e os MORTOS
direção de Ruy Guerra
com: Othon Bastos, Ítala Nandi e Nelson Xavier

(1971)
A CASA ASSASSINADA
direção de Paulo César Saraceni
com Carlos Kroeber e Tetê Medina

(1980)
MAR de ROSAS
direção de Ana Carolina
com Otávio Augusto, Myrian Muniz e Hugo Carvana

(1981)
EROS, o DEUS do AMOR
direção de Walter Hugo Khouri
com Dina Sfat, Renée de Vielmond, Lillian Lemmertz
Christiane Torloni e Selma Egrei

GALERIA de FOTOS