fevereiro 17, 2011

************* SALA VIP: “CINEMA PARADISO”


philippe noiret e salvatore cascio
CINEMA PARADISO
CINEMA PARADISO
(1988)

País: Itália e França
Gênero: Drama
Duração: 121 mins.
Cor
Produção: Franco Cristaldi (Les Films Ariane/
Cristaldi Film/TF1 Films Productions/RAI/
TER/Forum Picture)
Direção e Roteiro: Giuseppe Tornatore
Fotografia: Blasco Giurato
Edição: Mario Morra
Música: Ennio Morricone
Cenografia: Andrea Crisanti (d.a.); (déc.)
Vestuário: Beatrice Bordone
Elenco:
Philippe Noiret (“Alfredo”), Jacques Perrin
(“Salvatore di Vitto”), Salvatore Cascio (“Totó”),
Antonella Attiu, Enzo Cannavale, Isa Danieli
Leo Gullota, Marco Leonardi (“Totó”)
Puppela Maggio e Leopoldo Trieste

Nota: **** (muito bom)

Prêmios:
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Roteiro, Melhor Ator,
 Melhor Ator Coadjuvante (Cascio) e Melhor Trilha Sonora
Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes
Melhor Ator (Noiret) da Academia Européia de Cinema
David de Donatello de Melhor Trilha Sonora
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo de Críticos
de Cinema de Kansas City

O MEU CINEMA PARADISO

O coração escreve os textos, mas Deus – só pode ser Ele – é quem guia os pensamentos, as idéias. A mente humana é mero artifício da Sua manifestação, além das manifestações das mentes dos nossos ancestrais, dos espíritos que nos cercam e, por fim, do universo. Qualquer ato humano, por mais banal que seja, não pode estar desvinculado dessa máxima, a meu ver.

Em se tratando de obra artística então isso se aprofunda ainda mais. Muitas vezes lemos um livro ou ouvimos uma música e ficamos imaginando como pode um ser criar aquele mundo, aquela linguagem poética, aquele verossímil microcosmo que nos transporta para tão longe.

Não só nessas artes, mas todos nós temos as nossas preferências, as nossas escolhas, as nossas simpatias

Eu, por exemplo, não poderia ficar sem falar o que um senhor chamado Giuseppe Tornatore fez a mim. Ele foi cruel comigo, mesmo sabendo que ele era guiado pelas mãos do Grande Arquiteto do Universo. Esse senhor italiano já me fez chorar, já me fez rir, já me fez desesperar. Já me angustiou até dizer chega, porque ele levou ao meu coração a sua obra-prima: CINEMA PARADISO (1989).

marco leonardi
E no seu filme, ora eu sou Totó, ora eu sou Alfredo. Esses dois personagens, de toda a sétima arte, são os que mais me tocaram, são os dois que mais me emocionaram. É claro que existem muitos filmes bons e, para eu falar isso, posso estar cometendo alguma injustiça ou ignorância. Porém, depois de tentar Fellini, Antonioni, De Sica, Visconti, só para ficar em alguns italianos, ainda não consegui superar a inquietação do pequeno espevitado Totó, nem o melancólico e amoroso Alfredo.

Um filme simples, como deve ser sempre uma grande obra de arte. Metalinguístico (aliás, uma bela homenagem ao cinema!), autobiográfico, bastante acessível e muito longe de ser considerado cult para críticos duros e insensíveis. E que paixão, e que devoção ao cinema, e que dor demonstrada em seus 123 minutos, sem falar da trilha sonora assinada por Ennio Morricone, uma genialidade à parte!

O louco que se acha dono da praça; o napolitano que ganha na loto; a mulher-mãe que perde o marido na guerra e tem que (con)viver com a dor da solidão; o padre moralista e preguiçoso, censor dos beijos; o cinema que é a única diversão do lugarejo chamado Giancaldo e tantos outros estereótipos de uma vila pobre, comum, do sul da Itália. Uma Itália siciliana que Totó deixará para trás e não retornará por 30 longos anos.

E choro quando morre Alfredo e Salvatore relembra as suas vidas durante uma noite de insônia. E me emociono quando ele retorna à sua vila natal. E me vejo assim na infância longínqua, nos espaços que habitei, com as pessoas que convivi, e que hoje não existem mais!

Também sinto o sofrimento de Alfredo, cego devido a um incêndio na cabine de projeção, dizendo para o pequenino: não volte, não se preocupe com a gente, esqueça sua família, não retorne, não escreva. Para quem já viveu isso, em outro país, em outro estado, em outra cidade sabe a dor que é, a saudade que corroi. Então, me lembro do quase um ano que passei fora do Brasil, com meu filho de apenas meses de idade, sem conseguir seguir o conselho do velho Alfredo, ou seja, sem conseguir me desligar dos meus. Retornei com a certeza de que não viveria mais sem a minha família por perto, sendo como for, com emprego ou sem, perdendo ou ganhando, para sempre!

philippe noiret
E não me contenho quando o bom senhor conta uma fábula para o adolescente amigo, narrando como um soldado imperial ficou ao pé da janela de uma princesa por quase cem dias e cem noites para provar o seu amor, da mesma forma que faz Totó com a sua primeira experiência amorosa. Amor mal sucedido, é verdade. E sofro com Totó toda noite na janela da bela donzela. E então fico pasmo com a moça que só dá o braço a torcer quando ele vai embora na noite de réveillon, debaixo de uma chuva de pratos... No mesmo instante, lembro dos tantos amores perdidos, nas paixões juvenis que tive, já mortas em um passado que sequer penso ou sinto mais. Quem não os viveu? Quem não sofreu por um grande amor que hoje jaz em cinzas?

E assim um longa-metragem, que é uma obra artística entre tantas, vai tomando a forma da minha existência, vai encarnando as minhas fantasias, vai criando catarse em meu corpo, vai alimentando a minha mente, vai interrompendo os meus gestos e moldando outros novos. Como deve ser, como sempre deve ser para qualquer arte que se proponha a ser bela, original, verdadeira e extremamente simples. Simples o suficiente para conseguir tocar a alma de alguém.

        Texto de GUSTAVO ATALLAH HAUN
       Professor de Letras e Cronista

jacques perrin

10 comentários:

Marcelo C,M disse...

Simplificando, uma historia de amor e devosão pelo cinema.

Luiz Santiago disse...

Ao lado de "Nitrato de Prata" do Marco Ferreri, um dos melhores filmes metalinguísticos já realizados no cinema. FENOMENAL!

Rato disse...

Este filme é também, e por direito próprio, um dos meus "filmes da vida". Talvez mesmo o mais importante de todos nesse sentido, uma vez que foi um dos responsáveis por eu ter reencontrado e amado de novo o primeiro (e único) grande amor da minha vida, ainda que por um período relativamente breve. Mas como disse o genial Neruda, «é tão breve o amor, tão longo o esquecimento»...
A propósito, vejo que você se refere ao filme mais curto. Desde que vi a "versão do realizador" (onde se relata todo o episódio final do amor reencontrado, com uma Brigitte Fossey deslumbrante), nunca mais quis ver esta versão. Este "Cinema Paradiso" é excelente, sem dúvida. Mas "Nuevo Cinema Paradiso" chega a ser sublime.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Como já disse anteriormente, Rato, prefiro outros filmes de Tornatore (Malena, O Homem das Estrelas e até o mais recente, Baaría - A Porta do Vento). Paradiso é piegas. Vale como bonito resgate da beleza da história do cinema.

Kley disse...

Cinema Paradiso foi um dos primeiros DVDs que comprei, lembro-me que o adquiri na rodoviária de Feira de Santana, aqui na Bahia. Também o assistia sempre quando era exibido na TV, e até hoje esse filme me encanta. Ver o Jacques Perrin se emocionar ao final, assistindo às cenas cortadas, é de um valor enorme. Obra-prima.

Tenho curiosidade em ver a versão estendida, ainda que já li a respeito, dizendo que não acrescenta muito.

Jamil disse...

Na minha opinião, ler análises sobre nosso objeto de admiração só melhora nossa compreensão deles.
Sobre Cinema Paradiso, é notável como ele cada vez é mais reverenciado. Tem uma legião de fãs. Tornatore soube homenagear a história do cinema como ninguém.

Até a próxima!

GIANCARLO TOZZI disse...

Além de uma cativante trilha sonora de Morricone, Cinema Paradiso é um exemplo de como não podemos fugir ao nosso destino, talvez até mais do que isso, de como vale a pena viver o que sonhamos. Um filme para ser assistido e para encantar muitas vezes.

annastesia disse...

O que há mais para se falar sobre Cinema paradiso? Nada. Prefiro dizer que Philippe Noiret é excelente e que acho Zazie no metrô super fofo, A comilança peculiarmente incrível e A família...bem , duas palavras: Ettore Scola.
Ah sim! Estou aqui emocionadíssima ouvindo o excepcional Morricone e seu genial tema de Era uma vez na América (amo profundamente esse filme).

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Annastesia, realmente Era Uma Vez na América é brilhante. Preciso escrever sobre Sergio Leone um dia desses. E o tema de Morricone é tão sensível.
Tudo de bom

João Pedro Wapler disse...

Olá, muito legal o seu blog também. Muito bem desenvolvido e tem o conteúdo muito bacana.