fevereiro 17, 2011

**** ROMÂNTICA LARA, REBELDE JULIE CHRISTIE



Dedicado a Sibely Vieira

Al Pacino se referiu a ela como "a mais poética de todas as atrizes". Indicada quatro vezes ao Oscar, musa das telas nos anos do Swinging London, lançou um determinado tipo de mulher moderna e independente, sem as curvas fascinantes ou a sensualidade explícita de estrelas da época como Sophia Loren, Claudia Cardinale ou Brigitte Bardot. Ela era diferente, anunciava um admirável mundo novo, cativando multidões com os seus sonhadores olhos azuis, forte personalidade, caráter rebelde e imagem totalmente oposta ao da típica star. Em suas aparições públicas, JULIE CHRISTIE vestia-se informalmente, sem maquiagem e não controlava a língua, chocando os conservadores com declarações polêmicas. Simbolizava o espírito renovador do cine britânico dos anos 60, a figura feminina liberal, despojada de convencionalismos, militante dos direitos humanos e ativista em defesa do meio ambiente. De caráter retraído e reservado, nada dada a festas glamourosas e exibições de popularidade tão típicas em Hollywood, teve romances badalados com os atores Michael Caine, Terence Stamp e Warren Beatty. Mas, acima de tudo, transmitia uma carismática energia ao encarnar a mulher dos novos tempos. Nascida em 1941, numa plantação de chá de seus pais, um casal britânico que vivia na Índia, trabalhou duro para chegar ao estrelato. Começou no teatro, porém se tornaria conhecida na Inglaterra ao protagonizar a série de TV “Andrômeda”, encarnando uma espécie de monstro inventado por cientistas, uma Frankstein de saias. No cinema, a primeira boa oportunidade aconteceu em “O Mundo Fabuloso de Billy Liar/Billy Liar” (1963), de John Schlesinger. Com o mesmo diretor fez “Darling, a Que Amou Demais” (1965), uma aguda crítica a alta sociedade inglesa, ganhando o Oscar de Melhor Atriz (ela chorou ao receber o prêmio) no papel de uma top-model, Diane Scott, definida então de “moral duvidosa”, mimada, manipuladora e socialmente ambiciosa, que depois de rejeitar inúmeros amantes, casa-se com um príncipe italiano e mergulha numa vida vazia. No entanto, a fita que elevaria JULIE CHRISTIE ao status de mito do celulóide chama-se “Doutor Jivago/Doctor Zhivago” (1965), dando vida a encantadora enfermeira Lara Antipova.


A espetacular epopéia baseada no romance de Boris Pasternak e dirigida pelo mestre David Lean, levou muita gente às lágrimas, principalmente pelo emotivo mega-hit “Tema de Lara”, da sensacional trilha sonora do francês Maurice Jarre. Com esse filme, o mundo inteiro passou a conhecer a atriz de olhar etéreo e nostálgico. A narrativa, em flashback, começa com o general Yevgraf (Alec Guinness) interrogando uma jovem (Rita Tushingham) na esperança de resolver um mistério: o que teria acontecido com sua sobrinha depois da morte do seu meio irmão, doutor Jivago? Humanista e intelectual, homem das artes e da medicina, Jivago (o símbolo sexual egípcio Omar Sharif) divide-se entre duas mulheres: Tonya (Geraldine Chaplin), com quem casa, e Lara, a quem ama. Ele conheceu Lara no leito de morte de sua mãe, local onde ela foi seduzida pelo inescrupuloso Komarovsky (inesquecível atuação de Rod Steiger). Mais tarde, Lara se casa com o idealista Pasha Antipova (Tom Courtenay). As vicissitudes do enredo unem e separam Lara e Jivago diversas vezes. O labirinto de encontros e desencontros vai sendo reconstruído pouco a pouco nesse amor nos tempos de guerra, bem à moda de clássicos  como “Casablanca”.

omar sharif e julie christie
História de amor com conotação política, vai além de uma superprodução colossal, é a síntese do cinema de um soberbo diretor. Para Stanley Kubrick, Lean era um dos três únicos diretores os quais assistir a todos os filmes era mais que um dever; para a publicação britânica “Sight & Sound”, um dos dez maiores diretores da história do cinema. “Doutor Jivago”, o seu longa mais popular, grandioso, com um orçamento assombroso para a época – de US$15 milhões -, um arrasa-quarteirão rodado em 8 meses na Espanha e produzido por Carlo Ponti (que queria sua esposa Sophia Loren no papel de Lara), é visualmente deslumbrante, num merecido Oscar de Melhor Fotografia para Freddie Young. São de embasbacar a força pictórica de cada quadro, os imensos planos-gerais, as tomadas panorâmicas que apresentam a vastidão inerte de uma URSS que paulatinamente consome e distancia o amor impossível entre Jivago e Lara. No mundo inteiro, as platéias lotaram os cinemas com fervor para ver um filme que, como "...E o Vento Levou", dominou os sonhos românticos de toda uma geração. Mas a crítica foi impiedosa. A sempre combativa Pauline Kael, com sua ironia peculiar, taxou-o de “frio”. Outros críticos foram mais virulentos. Pouca gente se levantou em defesa de David Lean, até então um queridinho dos críticos. O diretor ficou tão magoado e surpreso com a recepção negativa que chegou a jurar nunca mais filmar de novo. Felizmente não cumpriu a promessa.

Inesquecível atuação de JULIE CHRISTIE, Lara ficou na memória coletiva. Afinal, qual o cinéfilo que não é capaz de recordar os olhos cristalinos e azuis de Julie-Lara? Loura, lábios carnudos, pele de porcelana, rosto angelical, sem dúvida uma das mulheres mais formosas do cinema, um dos grandes tesouros que nos deixou o cine inglês.



31 comentários:

Dilberto L. Rosa disse...

Ah, a sempre bela e inteligente Julie Christie... Só ela para dar calor àquela fria fita do mestre Lean... Mas o que vejo por aqui além desta beldade? Mal pisco os olhos e cá já há três postagens (num só dia?!)?! Vá com calma, meu caro, senão a leitura fica corrida e prejudicada... Mas, enfim, vamos lá: o Cinema Francês anda devendo ultimamente diante de passado tão nobre, não é mesmo? "Atalante" e "A Grande Ilusão" são mesmo grandes clássicos! "Cinema Paradiso" é um caso à parte: meio xaroposo-piegas, meio genial, é um filme cativante 'ad eternum'! Abração!

Rato disse...

Só não concordo com esta afirmação: «sem as curvas fascinantes ou a sensualidade explícita de estrelas da época como Sophia Loren, Claudia Cardinale ou Brigitte Bardot»
Meu caro Nahud, a Julie Christie foi das mulheres mais sensuais que eu vi numa tela de cinema!

Marcelo C,M disse...

Realmente todo mundo se lembra em Doutor Jivago onde ela transmitia toda uma beleza e ao mesmo tempo inocencia que a sua personagem exigia. O tema de Lara se tornou inesquecivel e mesmo que tenha pessoas que nunca assistiram o filme ja devem ter ouvido alguma vez na vida.

Cefas Carvalho disse...

Julie Christie foi minha primeira paixão cinematográfica, justamente como a Lara de "Doutor Jivago".

Toninho Luz disse...

Mil vezes obrigado, meu grande! Digerirei com prazer de pudim de leite!
Abraço grande!!

Magno Camargo disse...

amigo nao entendo muito de cinema mas estou acompanhando tudo,abraços bom fim de semana

Felipe Evangelista Pucinel disse...

Cara muito bom mesmo o seu blog, depois vamos fazer uma parceria :D
Abraço!

Leandro Afonso Guimarães disse...

Mais uma das musas de Truffaut.

A música que toca no blog é de a ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, não é?

Dewonny disse...

Olá, muito bom seu blog!
Coloquei no blogroll do meu!
Ótimo esse post da Julie!
Até +! Abs! Diego!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Dilberto, realmente o cinema francês já não o mesmo... quanto a Cinema Paradiso, concordo com você, acho-o meio piegas, não é dos meus filmes preferidos, mas gosto da sensível atuação de Noiret e da homenagem ao cinema. O próprio Tornatore já fez filmes melhores: "Malena", "O Homem das Estrelas"... Mas esse caiu no gosto popular.
Abraços

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Rato, também acho a Julie sensual. O que tentei dizer é que ela nunca teve a exeburância, a carnalidade em primeiro plano, o erotismo como alvo como as outras citadas. Mas óbvio que é uma belíssima mulher.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Exato, Leandro, o Ennio Morricone de Era Uma Vez na América. Começo com o Nino Rota de "O Poderoso Chefão" e finalizo com o Bernard Herrmann do thriller "O Círculo do Medo".
Abração

Kley disse...

Nossa, Julie é fantástica, uma verdadeira estrela. Doutor Jivago é daqueles filmes em que o cinema parece saltar da tela e encantar a quem o assiste. Uma obra-prima incontestável. É também com Christie outro grande filme que é um de meus preferidos: Hamlet (1996), ainda melhor que a versão de Olivier. Em Longe Dela, Christie dá um show.

As músicas que tocam no blog são marcantes, coisa de cinéfilo pra cinéfilos. Só poderia ser presente do Antônio.

Sonia Brazão disse...

Parabéens FALCÃO
Seu blog é fabuloso.
Encantei-me e sou seguidora-fãzona....hehehehe

obrigada

Sonia Brazão

Sonia Nikolaevna disse...

Querido amigo,
seu Blog, como disse anteriormente, é leitura obrigatória para nós cinéfilos irrecuperáveis..rsrsrs. Está lá, bem guardadinho, nos meus favoritos. Adorei o texto sobre o cinema europeu, em particular o francês, do qual sou fã. Julie Christie..a inesquecível e fascinante "Lara".
Mais uma vez, obrigada!!!!!
Um ótimo final de semana!

Jamil disse...

Antonio,

Ah, isso foi de tirar o fôlego, de verdade! Amei o post, porque amo Julie Christie, e ter acesso a essas informações não tem preço.
Peço licença para partilhar dessas raras informações com os meus alunos.

Foi um deleite poder ver e ler essas preciosidades relacionadas a figura pública e privada de Julie.
Obrigado pela maravilhoso post.

Lindo, muito lindo.

Kley disse...

Antonio, você me desculpe, mas dessa vez você jogou pesado em seu blog. Falar de Julie Christie, Cinema Paradiso e Kurosawa, em pouco espaço de tempo é matar a gente de emoção. Você extrapolou os limites do bom cinéfilo e nos presenteou com textos sublimes. As músicas que tocam no blog só poderiam vir de você mesmo.

Um grande abraço, professor.

Danilo AFM disse...

Uma verdadeira aula de cinema europeu!!!

MIGUEL ARRUDA disse...

Caro Antonio,

Como sempre, lindo, informativo e bem escrito.
Também não gosto de Lean e acho seus filmes todos frios. Era um diretor exclusivamente técnico, diretor de belos grandes planos e panorâmicas, mas em matéria de transmitir sentimentos e emoções, era muito fraco. Os grandes planos são característicos de quem não quer se envolver emocionalmente. E é assim quase todo o famoso "Lawrence da Arábia".
Julie Christie foi realmente um anjo que fez cinema. Além de excelente atriz, era linda, linda, linda. Costumo dizer que sua beleza machuca, pois dá vontade de beijá-la, de acariciá-la, de amá-la e não posso.
Parabéns pelo blog.

Abraço.

Miguel Arruda

arrudamiguel@yahoo.com.br

GIANCARLO TOZZI disse...

Julie está sublime e delicada em Longe Dela, um belo e difícil filme. Ela envelheceu muito bem e merecia um segundo Oscar por esse filme. Doutor Jivago é o primeiro filme que vi de que me lembro. Fiquei fascinado com a paisagem das estepes nevadas e a música. Não entendi a trama, que se passa durante a Revolução Russa, mas entendi muito bem o triângulo amoroso: um médico entre mulheres a escolher, a maternal ou a carnal, a sábia ou a libidinosa. Dilema masculino eterno. Mas eu ficaria com Lara.

M. disse...

Ela é a presença em pessoa. Algo que vai muito mais além da beleza e dos lindos olhos azuis. Grandioso texto!

annastesia disse...

"A mulher dos novos tempos". Perfeita definição para a grande Julie. É uma daquelas mulheres que (eu, pelo menos) temos orgulho de admirar. Alguém que além de talento tem personalidade, inteligência e atitude.
Claro que o meu favorito dentre seus filmes é Inverno de sangue em Veneza que é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. A interação entre ela e Sutherland é mágica. Amo demais.
Billy Liar é outro filme que gosto muito e não posso deixar de citar o talento de Tom Courtenay.
Incluo também Fahrenheit 451 (claro!) do queridíssimo e fofo Truffaut, O mensageiro e Longe deste insensato mundo. Gosto muito de sua figura em Shampoo, apesar de não simpatizar tanto assim com o filme.
Muito oportuna e válida essa homenagem. Parabéns Antônio.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Miguel, você está enganado. Mesmo com todo o aparato técnico,com obras extremamente bem cuidadas, o cinema de Lean toca - e muito - os sentimentos. "Desencanto", "Grandes Esperanças", "A Ponte do Rio Kwai" e o próprio "Doutor Jivago" são emocionantes. "Lawrence da Arábia" é algo "frio" (será?) porque o personagem central é uma figura estranha, mal resolvida. Eu o amo o trabalho de Lean. Gosto de todos os seus filmes. Abraços.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Annastesia, o meu favorito de Julie é "Longe Deste Insensato Muito". É um filme tão belo. Vi uma única vez e sou louco para revê-lo. Acho muito bacana também a Constance Miller dela de "Quando os Homens São Homens". Nunca assisti "O Fabuloso Mundo de Billy Liar" e "Inverno de Sangue em Veneza" é incrível!
Obrigado. Apareça sempre.

As Tertúlias... disse...

Julie Christie é uma atriz maravilhosa... desde "Jiwago" via "darling", "The go-between" (de Losey... Wow!) até chegar a um de sus últimos filmes no qual interpreta uma paciente de Alzheimer (Perdoe-me, esqueci o título... saí na época quase em "coma" do cinema... tinha perdido meu pai também para esta terrível doenca... )
Amei esta homenagem aqui para ela. És maravilhoso na forma de comunicar estas emocoes!!!! Obrigado, querido!
Ricardo

Pena disse...

Estimado e Fabuloso Amigo:
"...Al Pacino se referiu a ela como "a mais poética de todas as atrizes". Indicada quatro vezes ao Oscar, musa das telas nos anos do Swinging London, lançou um determinado tipo de mulher moderna e independente, sem as curvas fascinantes ou a sensualidade explícita de estrelas da época como Sophia Loren, Claudia Cardinale ou Brigitte Bardot. Ela era diferente, anunciava um admirável mundo novo, cativando multidões com os seus sonhadores olhos azuis, forte personalidade, caráter rebelde e imagem totalmente oposta ao da típica star. Em suas aparições públicas, JULIE CHRISTIE vestia-se informalmente, sem maquiagem e não controlava a língua, chocando os conservadores com declarações polêmicas..."

Um Post mágico sobre uma das mais belas e transcendentes silhuetas da Tela dos Sonhos.
Completo. Perfeito.
Também nutro por ela um maravilhoso e um fascínio de excelência.
Parabéns. Um texto admirável de génio e talento.
Parabéns.
Com respeito, estima e imensa consideração.
Abraço amigo ao seu sentir gigantesco.

pena

Bem-Haja, por não se esquecer de mim.
Adorei o que "confeccionou" com beleza e encanto.
Excepcional, notável amigo que faz sonhar com as mais puras e deslumbrantes deusas das telas.
É divinal, sabia?

Renato Hemesath disse...

Como ela é linda! não conheço o trabalho dela, mas vou procurar!

Parabéns pela postagem, acho muito valioso apresentações como esta, que destacam nomes que foram significativos, mas que por um motivo ou outro, são pouco comentados.

Um abraço!

Dilberto L. Rosa disse...

Como assim "sumido"?! Encabecei esta seção de comentários sobre Julie Chistie! Haverá 'posts' de Cinema nas duas próximas semanas nos Morcegos (antes e depois do Oscar)! E você, trate de voltar aos Morcegos e comentar sobre Sarney e Ronaldo!

linezinha disse...

Maravilhoso texto sobre a bela e inesquecível Julie Chistie amo todos os filmes dela!
Antonio amo seu blog!

siby13 disse...

Falar de Julie para mim é muito difícil, pois é uma das minhas favoritas.
Considero-a perfeita, linda, talentosa.
A mais linda!!!
Mulher de caráter e força interior que exala em seu olhar penetrante.
Admiro-a sobretudo por ser militante dos direitos humanos.
Envelheceu com sabedoria e soube valorizar sua carreira com uma filmografia muito boa.
LARA , seu papel inesquecível ficou sim gravado na memória para sempre.
Sob a direção de um gênio (David Lean), Julie mostrou todo seu talento e versatilidade em atuar nos mais variados papéis.
Adorei a matéria.
Parabéns. :)

Anônimo disse...

Achei o comentário do Miguel Arruda procedente enquanto fala de cinema. Mas essa babaquice de "amor que machuca, quero beijá-la, acariciá-la, amá-la e não posso" é ridícula e ficaria melhor num blog de encontro entre velhos.