fevereiro 11, 2011

***** ALIDA VALLI: DE BARONESA A SUPER STAR



Beleza gélida, olhos verdes penetrantes, sofisticação e, sobretudo, um imenso talento caracterizam a italiana de origem nobre, Baronesa von Marckenstein und Frauenberg, conhecida como  ALIDA VALLI (1921-2006). Ela atuou em mais de 100 filmes e cerca de 30 peças teatrais, estreando no cinema em 1934 como figurante e filmando até 2002, aos 81 anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, suas atuações em fitas como “Pequeno Grande Mundo” (1941), pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza, fizeram o público e a crítica perceberem que estavam diante de uma verdadeira estrela. Suas comédias sentimentais desta época arrebataram o coração dos jovens italianos, tranformando a atriz na “namoradinha da Itália”. Neste período, casou-se com o pintor surrealista e pianista Oscar De Mejo, com quem teve dois filhos (um deles, Carlo De Mejo, seria ator). Em plena ascenção, recusou-se a fazer filmes de propaganda do regime fascista de Benito Mussolini - que a considerava “a mulher mais bonita do mundo” -, passando a ser perseguida e tendo que se esconder para evitar possível prisão e execução.

Com Gregory Peck em "Agonia de Amor"
Por sorte, o famoso David O. Selznick (“E o Vento Levou”) procurava na Europa uma “Nova Garbo” e ela foi contratada com essa difícil responsabilidade. No entanto, a aposta do produtor não vingou como ele esperava. Tão forte era o sotaque da atriz, que sua carreira no mercado norte-americano se encerrou mais cedo do que seu significativo talento anunciava. No primeiro filme em Hollywood, “Agonia de Amor” (1947), de Hitchcock, ela interpreta Maddalena Case, suspeita de assassinato e defendida nos tribunais por um jovem Gregory Peck. Dois anos depois, Selznick deu a ela o principal papel feminino de “O Terceiro Homem”, adaptação do romance de Graham Greene, dirigido por Carol Reed. A cena final é bastante famosa: a heroína sofrida caminha por uma longa alameda, enquanto Joseph Cotten a aguarda em primeiro plano. Uma aula de ambigüidade. Ainda sob contrato, a atriz filmaria três filmes menores nos EUA, embora simpáticos, sob a direção de Irvng Pichel, Ted Teztlaff e Robert Stevenson. Insatisfeita, voltou para a Itália. Desta nova fase, destacou-se principalmente em “Sedução da Carne”, de Luchino Visconti, realizado em 1954. Para o fabuloso papel da Condessa Lívia Serpieri, o cineasta desejava Ingrid Bergman, mas o ciumento Roberto Rossellini, marido da estrela na ocasião, tornou esse sonho impossível. 


SEXO, DROGAS E MORTE


Ainda nos anos 50, ALIDA VALLI iniciou uma carreira teatral de sucesso que a levou aos palcos de toda a Itália, França e Estados Unidos, com obras de Ibsen, Pirandello, Sartre, D'Annunzio, Camus, Tennessee Williams e Arthur Miller. Na TV italiana, conduziu o seu próprio prograna. No auge do sucesso, em 1954, sua popularidade foi abalada com um escândalo recheado de sexo, drogas, ritual religioso e morte: ela estava em Torvajanica, uma praia particular próxima a Napóles, participando de uma orgia coordenada pelos Illuminati, ao lado de autoridades da igreja católica e da política, quando a desconhecida Wilma Montesi, de 21 anos, utilizada como sacerdotisa de uma missa adonaicida e escrava sexual, morreu de esgotamento físico, e também, de uma overdose de drogas. O infortúnio provocou a renúncia do ministro das Relações Exteriores da Itália, Attilio Piccioni, pois um filho seu fazia parte da maratona sexual; inspirou uma cena de "A Doce Vida", de Federico Fellini; e resultou na separação definitiva da atriz com De Mejo. A publicidade desagradável foi tão fervorosa que quase arruinou sua carreira.

com farley granger em "sedução da carne"
Na década de 1960, ela viveu dois anos no México, atuando em vários filmes para o cinema e a televisão. Em 1997, aos 76 anos, homenageada no Festival de Veneza, recebeu o Leão de Ouro Honorário pelo conjunto da obra, ressaltando suas importantes participações em produções de Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Claude Chabrol, Pier Paolo Pasolini, Valerio Zurlini, René Clement, Bernardo Bertolucci, Patrice Chéreau, Gillo Pontecorvo e Margarethe von Trotta. É difícil não se apaixonar por ALIDA VALLI. Inclusive, aprecio sua penosa participação em trash’s como “Suspiria” (1977) ou “A Freira Assassina” (1983). Seu poético nome próprio, Alida, significa "voando como um pássaro", mas era conhecida pelos íntimos como Valli. Gregory Peck, ao lembrá-la, declarou: "Não são apenas suas formas e traços que são perfeitos: os seus olhos irradiam uma irresistível luminosidade amorosa."


GRANDES PERSONAGENS DE VALLI

Manon Lescaut
em MANON LESCAUT (1940)
de Carmine Gallone

Luisa Rigey Maironi
em PEQUENO MUNDO ANTIGO(1941)
de Mario Soldati

Eugenia Grandet
em EUGENIA GRANDET (1947)
de Mario Soldati

Anna Schmidt
em O TERCEIRO HOMEM (1949)
de Carol Reed

Condessa Livia Serpieri
em SEDUÇÃO DA CARNE (1954)
de Luchino Visconti

Irma
em O GRITO (1957)
de Michelangelo Antonioni


Rosetta
em A GRANDE ESTRADA AZUL (1957)
de Gillo Pontecorvo

Cláudia Lesurf
em OPHÉLIA (1962)
de Claude Chabrol

Merope
em ÉDIPO REI (1967)
de Pier Paolo Pasolini

Draifa
em A ESTRATÉGIA DA ARANHA (1970)
de Bernardo Bertolucci

(Fontes: "Il Romanzo di Alida Valli", de Lorenzo Pellizzari e Claudio M. Valentinetti e "Alida Valli", de Ernesto G. Laura e Maurizio Porro)


18 comentários:

Cinema Clássico disse...

Nossa, Antonio, "A Freira Assassina" não é aquele trash com a Anita Ekberg? Se for esse, eu vi.
Adorei saber mais sobre essa ótima e bela atriz.
Abraço
Dani

Rato disse...

Mais uma vez tenho muita dificuldade em identificar os filmes, por só serem indicados as traduções em brasileiro. Era muito bom e útil que os títulos originais também fossem referidos.

Abraço

O Rato Cinéfilo

Marcelo C,M disse...

Parece que não tem jeito mesmo, sempre esses astros tem um esqueleto no armario, será esse o preço para adquirir o sucesso no mundo do cinema?

Jamil disse...

A beleza de Alida valli era antológica. Porque ela não virou uma grande estrela internacional é um dos grandes absurdos e exemplos de cegueira de Hollywood.

annastesia disse...

Muito bonita e charmosa. Infelizmente, seu encontro com meu mestre Hitchcock se deu em um dos seus filmes mais fracos. Mas gosto muito dela em Senso e O terceiro homem (clássico!).

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pois é, Dani, é exatamente aquela "coisa" com a Anita Ekberg...
Abração

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Realmente, Jamil, foi um absurdo. Ela ficou somente três anos em Hollywood. Mas também valeu a pena, se não tivesse voltado para a Itália possivelmente não teria trabalhado com Visconti, Antonioni e outros mestres.
Grato pela visita

VICTOR EMANUEL disse...

Parabéns pelo seu trabalho, pretendo visitar bastante o seu blog. Alida Valli é um dos meus ídolos. A imagem que segue (via orkut) é o cartaz de um filme que vi recentemente com nossa querida Valli, mais terno e inesperado, impossível.

Um abraço fraterno e mais uma vez obrigado.

Victor Emanuel

Alexandre Garcia da Silva disse...

Parabéns pelo seu blog. É um verdadeiro presente para cinéfilos como eu. Amei principalmente essa matéria sobre a linda e enigmática Alida Valli.

William De Baskerville disse...

Hola, Antonio.
Gracias por tus palabras!

y Bienvenido.

Hasta pronto, Saludos!.

Muy buenas fotografías tienes en tu blog y mucho cine.

Giancarlo Tozzi disse...

As italianas Gina Lollobrigida e Sophia Loren enlouqueceram o mundo com suas curvas. Valli, linda, se destacou por seu talento. Em O Terceiro Homem, apoiada por um elenco de apoio quase todo formado por atores alemães e austríacos experientes, ela fornece credibilidade e dinâmica ao longa-metragem como a desesperada Anna Schmidt. Um show de primeiríssima. Quando penso neste filme, penso no diálogo final entre Joseph Cotten e Alida Valli e nela se afastando dele, altiva, irônica, indo para um destino incerto. Ela hoje é uma atriz esquecida, mas tem pinta de eternidade.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Giancarlo, recordo desse filme principalmente a valiosa fotografia de Robert Krasker e essa monumental cena final. Só por ela, valeu a temporada norte-americana de Valli.
Grato pela visita

Leandra disse...

Agonia de Amor está na lista de filmes de Hitchcock que não entraram para a história do cinema. Um dos pontos altos da trama é a atriz Alida Valli, que interpreta a sra. Paradine do título original. Sua presença em cena é memorável. Sempre com expressão de superioridade, ela compõe uma mulher forte e disposta a enfrentar o que for sem fazer concessões. No entanto, os olhos trazem sempre uma fragilidade que contrasta com a figura aparentemente inabalável. Essa magnitude da atriz foi explorada à exaustão todas as vezes que aparece. São inúmeros os planos fechados em seu rosto (que recebe toda a iluminação, deixando o fundo escuro), que se mostra quase indiferente, inacessível. Seu personagem é fundamental e rouba o filme. Não é à toa que todos os homens se apaixonam pela sra. Paradine.

Leandra Leal

E. SANCHES disse...

Como é incrível a beleza desta atriz e tantas outras na história do cinema fotografadas em preto e branco. Fico imaginando as atrizes do passado em fotos coloridas com as tecnologias que existem hoje, ressaltando ainda em uma época que não existiam os Photoshops de hoje.
Parabéns por mais esta postagem fantástica foto.

Kley disse...

Valli em O terceiro Homem demonstra um talento que por justiça a elevaria a grande status de estrela. Ela era linda.

BBloger disse...

ALIDA É LINDISSIMA!

Michael Carvalho Silva disse...

A saudosa e adorável Alida Valli foi mesmo uma atriz européia realmente belíssima e muito talentosa e na minha opinião é uma das atrizes internacionais mais lindas e deslumbrantes da história do cinema mundial em todos os tempos junto com as igualmente belíssimas, charmosas e ilustres Gina Holden, Natasha Henstridge, Gloria Guida e Carla Gravina só para citar alguns dos melhores exemplos. Alida figura oficialmente entres as mais lindas e encantadoras musas e beldades do cinema italiano junto com Ania Pieroni, Marilu Tolo, Mirella D'Angelo e Sabrina Siani entre inúmeras outras além dela ser na minha humilde opinião a Heddy Lamarr italiana. E por falar em Alida Valli, a nossa querida atriz brasileira Regina Braga é muito parecida fisicamente com a própria Alida pois ambas tem os mesmos olhos verdes igualmente lindos e luminosos e a mesma beleza elegante classuda e aristocrática de traços finos meigos e delicados além de serem duas excelentes e renomadas atrizes profissionais. E me lembro muito bem da doce e linda Alida em duas cultuadas produções italianas dos anos setenta, "O Anticristo" com a pópria Carla Gravina no papel principal e que infelizmente eu nunca pude assistir inteiro e "A Freira Assassina" onde Alida contracenou com a veterana e saudosa estrela sueca Anita Ekberg, outra grande diva do cinema europeu.

Michael Carvalho Silva disse...

Alida Valli também me faz lembrar bastante de Suzanne Danielle, uma linda, angelical, elegante e charmosa atriz e ex-modelo inglesa morena de olhos claros que atuou nos filmes "Flash Gordon" e "Carry On Emmanuelle" e que foi uma espécie de Kelly Brook dos anos setenta e oitenta do século vinte. Ambas Alida e Suzanne são duas lindas, ótimas, adoráveis e encantadoras atrizes européias da segunda metade do século vinte.