outubro 28, 2023

******* LUZ e SOMBRA: CINEMA MUDO ALEMÃO

 

 
Os filmes do futuro usarão 
cada vez mais esses 
‘ângulos de câmera’ ou, 
como prefiro chamá-los, 
esses ‘ângulos dramáticos’. 
Eles auxiliam o pensamento 
cinematográfico.
F.W. MURNAU
(1888 - 1931. Bielefeld / Alemanha)
 
 
Em agosto de 1919, finalmente entrou em vigor uma nova Constituição na Alemanha. Pela primeira vez na história do país foi instituída uma forma de Estado democrático. Terminaria em 1933 com o fim da República de Weimar e a ascensão de Adolf Hitler. O período teve lados positivos e obscuros que foram retratados em inúmeros filmes, alguns conhecidos como expressionistas e influenciando diversos cineastas. Nessa época, o cinema germânico foi extraordinariamente criativo. Transportou para as telas as visões, os desejos e os perigos iminentes da vida real. A programação dos cinemas era variada, e o preço dos bilhetes valia a pena. As invenções e inovações técnicas – como aparelhos de rádio ou discos de vinil – apareciam nas produções cinematográficas.
 
Em muitos longas, mulheres emancipadas entram no mercado de trabalho e escrevem com toques rápidos em máquinas de escrever. O documentário da produtora UFA (Universum Film Aktiengesellschaft), “Wege zu Kraft und Schönheit” (1925), idealiza o culto ao corpo. “Berlim - Sinfonia de uma Metrópole” (1927), de Walter Ruttmann, se concentra na vida de uma grande cidade. O expressionismo alemão é um dos estilos do cinema mais celebrados. Busca uma representação subjetiva do mundo, capaz de revelar as angústias da existência humana através de imagens distorcidas, remetendo a pesadelos. Com seu uso de sombras e contrastes, histórias abordando temas inquietantes, estabeleceu as bases para dois grandes gêneros do cinema: o terror e o noir.
 
Para compensar a falta de orçamentos orbustos, os filmes expressionistas usam cenários pouco realistas, com desenhos pintados nas paredes e nos pisos para representar luzes, sombras e objetos. As histórias e narrativas geralmente tratam de loucura, insanidade, traição e outros temas existenciais trazidos à tona pelas experiências traumáticas da Primeira Guerra Mundial. A situação econômica da Alemanha era tensa, o abismo entre pobres e ricos crescia rapidamente. “A Última Gargalhada”, de Friedrich W. Murnau, mostra a vida de um porteiro de hotel, enquanto em “Metrópolis”, o mestre Fritz Lang desenvolve a sombria visão de uma cidade do futuro, onde os ricos se divertem na parte superior e os pobres trabalham e moram no subsolo. Nos estúdios, surgiram cenários monumentais de produções históricas, exóticas ou sombriamente futuristas. A interação entre arquitetura, luz e câmera garantiam intensidade e efeitos surpreendentes, nos mais diferentes estilos. Filmes com imagens poderosas como “O Gabinete do Doutor Caligari” estabeleceram padrões internacionais de expressão cinematográfica. 
 
“o gabinete do dr. caligari
A capacidade técnica do cinema alemão se sobrepunha a qualquer outro país do mundo, sendo aclamado universalmente. Os estudos da vida da classe popular se caracterizavam pela sua dignidade, além de serem acompanhados de avanços nos efeitos visuais e fotográficos. Os diretores liberaram as câmeras dos tripés e as colocaram sobre rodas, alcançando uma mobilidade então inédita. O cinema germânico da década de 1920 é inovador. Até 1932, o último da República de Weimar. A seguir, o cinema ofereceu uma programação fantasiosa. E a estrela Lilian Harvey cantava “Irgendwo auf der Welt gibt's ein kleines bisschen Glück” (em algum lugar do mundo há um pouco de felicidade). Este capítulo notável na história do cinema da Alemanha terminou com a subida de Adolf Hitler ao poder. Muitos diretores, roteiristas, fotógrafos e intérpretes de origem judaica foram obrigados a emigrar – e levaram junto seu talento para Hollywood.
 
 “a caixa de pandora”
 
DEZ FILMES ALEMÃES MUDOS
(por ordem de preferência)
 
01
direção de F.W. Murnau
elenco: Gösta Ekman, Emil Jannings, Camilla Horn, Frida Richard e William Dieterle
 
02
A ÚLTIMA GARGALHADA
(Der Letzte Mann, 1924)

direção de F.W. Murnau 
elenco: Emil Jannings, Maly Delschaft, Max Hiller e Emilie Kurz
 
03
METROPÓLIS
(Metropolis, 1927)
 
direção de Fritz Lang 
elenco: Gustav Fröhlich, Brigitte Helm, Alfred Abel, Theodor Loos e Heinrich George  
 
04
NOSFERATU
(Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922)
direção de F.W. Murnau 
elenco: Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schröder e Georg H. Schnell
 
05
O GABINETE do DR. CALIGARI
(Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920)
 
direção de Robert Wiene 
elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Lil Dagover e Rudolf Klein-Rogge
 
06
A CAIXA de PANDORA
(Die Büchse der Pandora, 1929)
 
direção de Georg Wilhelm Pabst 
elenco: Louise Brooks, Fritz Kortner, Francis Lederer, Alice Roberts e Gustav Diessl
 
07
Os NIBELUNGOS – 1 e 2
(Die Nibelungen, 1924)
 
direção de Fritz Lang 
elenco: Gertrud Arnold, Margarete Schön, Hanna Ralph, Paul Richter e Theodor Loos
 
08

RUA das LÁGRIMAS
(Die Freudlose Gasse, 1925)
 
direção de Georg Wilhelm Pabst 
elenco: Asta Nielsen, Greta Garbo, Ágnes Eszterházy e Werner Krauss
 
09
As MÃOS de ORLAC
(Orlacs Hände, 1924)
 
direção de Robert Wiene 
elenco: Conrad Veidt, Alexandra Sorina e Fritz Strassny
 
10
A MULHER do FARAÓ
(Das Weib des Pharao, 1922)
 
direção de Ernest Lubitsch 
elenco: Emil Jannings, Harry Liedtke, Paul Wegener e Lyda Salmonova
 
“o gabinete do dr. caligari”
 CINCO DIRETORES do CINE MUDO ALEMÃO
(por ordem de preferência)
 
01
F.W. MURNAU
(1888 – 1931. Bielefeld / Alemanha)

02
FRITZ LANG
(1890 – 1976. Viena / Áustria)

03
ERNST LUBITSCH
(1892 – 1947. Berlim / Alemanha)

04
GEORG WILHELM PABST
(1885 – 1967. Roudnice nad Labem / Tchéquia)

05
ROBERT WIENE
(1873 – 1938. Breslávia / Polônia)
 
“metrópolis”

CINCO ATRIZES do CINE MUDO ALEMÃO
(por ordem de preferência)
 
01
LIL DAGOVER
(1887 – 1980. Madiun, East Java / Indonésia)

02
BRIGITTE HELM
(1906 – 1996. Berlim / Alemanha)

03

POLA NEGRI
(1897 – 1987. Lipno / Polônia)

O4
LYA de PUTTI
(1897 – 1931. Vojcice / Slovakia)

05
HENNY PORTEN
(1890 – 1960. Magdeburg / Alemanha)

“nosferatu”

CINCO ATORES do CINE MUDO ALEMÃO
(por ordem de preferência)
 
01
EMIL JANNINGS
(1984 – 1950. Rorschach / Suíça)

02
CONRAD VEIDT
(1893 – 1943. Berlim / Alemanha)

03
WERNER KRAUSS
(1884 – 1954. Baviera / Alemanha)

04
GUSTAV FRÖHLICH
(1902 – 1987. Hanôver / Alemanha)

05
MAX SCHRECK
(1879 – 1936. Berlim / Alemanha)

setembro 24, 2023

*** O ROMANCE de JEAN MARAIS e JEAN COCTEAU

 

 
Obrigado do fundo do meu coração por ter me salvado. 
Eu estava me afogando e você se jogou na água 
sem hesitar, sem olhar para trás. 
de JEAN COCTEAU para JEAN MARAIS, em 1939.
 
 
Ele foi um dos atores mais populares do cinema francês. Começou a se destacar nos anos 40 e teve um percurso cinematográfico célebre. JEAN MARAIS (1913 – 1998. Cherbourg, Manche/ França) deixou como legado um porte romântico e atlético perpetuado em mais de 80 filmes, destacando-se no gênero capa-e-espada no final dos anos 50 e meados de 60. Em 1975, publicou uma de suas memórias, “Histórias da Minha Vida / Histoires de Ma Vie”, muito comentado por sua franqueza. Nele, recordou sua infância ingrata, a mãe possessiva meio louca que ele amava, o trabalho como ator prejudicado pela voz afetada e seu longo affair com o genial dramaturgo, poeta e cineasta JEAN COCTEAU (1889 – 1963.Maisons-Laffitte, Yvelines / França).  
 
Apesar de belo, JEAN MARAIS tinha pouco talento e uma voz lamentável. Nunca entendi sua fama. Tudo começou em 1937. O ator desde 1933 trabalhava no cinema como figurante ou em papéis minúsculos e fazia teatro amador. Ao passar no teste em uma peça que seria dirigida por seu futuro amante, foi utilizado em cena vestido apenas com uma minúscula faixa branca, imóvel como uma estátua e revelando seu corpo impactante. Em poucos dias ele se apaixonou pelo gênio. Assim começou a íntima colaboração profissional e amorosa que durou décadas.
 
cocteau e marais
Quando se conheceram, tinha 24 anos e JEAN COCTEAU, 48. Juntos, fizeram clássicos como “A Bela e a Fera (1946), “A Águia de Duas Cabeças (1948), “O Pecado Original / Les Parents Terribles” (1948), “Coriolano / Coriolan” (1950), “Orfeu (1950) e “Testamento de Orfeu” (1960). Todos ricos em imagens inesquecíveis. O ator afirmou que o cineasta foi o amor de sua vida e gostaria de tê-lo encontrado antes. Conhecido por filmes poéticos, a filmografia de JEAN COCTEAU faz parte da história do cinema. Na vida privada, teve casos com figuras notáveis, como o escritor Raymond Radiguet e o boxeador Panama Al Brown. No entanto, o ponto alto foi o relacionamento com JEAN MARAIS. Apelidado de O Príncipe Frívolo, nasceu em uma rica família parisiense. Após sair de casa, publicou um livro de poemas aos 19 anos de idade e logo se tornou conhecido nos círculos artísticos e boêmios de Paris, associado aos escritores Marcel Proust e André Gide. Nos anos seguintes, ele se relacionou com o poeta Guillaume Apollinaire e os pintores Picasso e Modigliani.
 
Seu talento se estendeu por toda a Europa e, em 1917, o empresário russo Sergei Diaghilev o convenceu a escrever o livreto para o ballet “Parade”. Em 1920, tornou-se viciado em ópio, depois do choque causado pela morte inesperada do poeta francês Raymond Radiguet, seu amante, o que o fez submeter-se a várias internações em clínicas. Apesar de ter um caso com a princesa Natalie Paley - filha de um duque Romanov, atriz e modelo – as suas relações mais longas foram com os atores JEAN MARAIS e Edouard Dermithe, a quem adotou formalmente depois de contratá-lo como um jardineiro. Teve alguns casos menores com algumas mulheres e namorou homens mais velhos bem relacionados, como o conhecido ator Eduard De Max. 
 
o jovem cocteau
De Max apresentou JEAN COCTEAU ao quem é quem da cena parisiense e usou sua influência para organizar um encontro de poesia dedicada ao jovem poeta, considerado um grande sucesso nos círculos literários. Logo ele começou a contribuir com poemas e desenhos para revistas literárias. De Max também o ajudou a publicar seus três primeiros livros. Em essência, ele foi um poeta que escreveu romances, peças, crítica literária, dirigiu filmes e foi um artista plástico inspirado, que deixou sua marca em capelas da Provence e Côte D’Azur. Este talento múltiplo não se diluiu em suas atividades, somou-se. Como ele explica: “Explorei tantos caminhos para que minha semente se espalhasse por toda a parte.”.
 
Uma vez famoso, JEAN COCTEAU começou a namorar homens mais jovens, seus “enfants”, como ele se referia a eles, belos jovens amantes e colaboradores. A partir de 1916, incentivou a carreira do poeta John LeRoy, que morreria apenas dois anos depois. Ele escreveu sobre LeRoy: “…coloquei nele o que foi desperdiçado em mim pela vida desordenada. Ele era jovem, bonito, bom, corajoso, cheio de gênio, nada afetado, tudo o que a Morte gosta.”. A próxima obsessão foi Raymond Radiquet, de 15 anos. A dupla escreveu quatro romances de sucesso enquanto moravam juntos. Em 1923, Radiquet morreu de febre tifóide, aos 20 anos de idade. Nem todos os seus amantes eram talentosos ou bem-sucedidos. Maurice Sachs roubou o seu apartamento e depois escreveu “Witches Sabbath”, um relato do relacionamento deles. Sachs acabou morto pelos nazistas. “Les Enfants Terrible”, publicado em 1929 e depois adaptado para um filme por Jean-Pierre Melville, foi em parte inspirado na vida familiar de seu amante Jean Bourgoint. O relacionamento não durou muito e Bourgoint acabou se tornando um monge trapista, trabalhando em uma colônia de leprosos nos Camarões.
 
Em 1927, JEAN COCTEAU morava com o poeta Jean Desbordes, que escreveu em 1928, “J’Adore”, conhecido como uma carta de amor de 200 páginas ao amante. Foi algo muito picante para a época. Eles passaram o verão no interior da França com Gertrude Stein e Coco Chanel, que ficou irritada porque os dois viviam a maior parte do dia trancados no quarto fumando ópio. Desbordes tornou-se um líder da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Tragicamente, os nazistas o capturaram, arrancaram-lhe os olhos e depois o mataram. Em 1930, JEAN COCTEAU lançou sua primeira obra-prima cinematográfica, “Sangue do Poeta”, influenciado por sua amizade com surrealistas e dadaístas. Ele realizou sete filmes e é um dos mais importantes cineastas de todos os tempos.
 
Com uma infância sofrida, porque a sua mãe era mentalmente instável, JEAN MARAIS nasceu na antiga cidade portuária de Cherbourgh. Seus pais se separaram depois da Primeira Guerra Mundial e a mãe, ele e o irmão Henri se mudaram para os subúrbios de Paris. Fascinado pelo teatro desde criança, dizia aos amigos que a mãe era uma atriz da Comedie Française. Incapaz de conseguir um trabalho regular, a mãe tornou-se ladra de lojas e foi presa várias vezes. Sozinhas, as crianças tiveram que aprender a se defender sozinhas. Expulso da escola por se vestir de menina e flertar com um professor, o futuro ator fazia biscates como desenhista, jornaleiro e fotógrafo. Enquanto lutava para se estabelecer como ator em Paris, foi rejeitado pelas principais escolas de arte dramática até conhecer JEAN COCTEAU. Juntos formaram um casal admirado na vida cultural francesa. Trabalhou na peça “Les Parents Terribles” e deu vida a fábula “A Bela e a Fera”, de 1946, o filme mais popular dos dois. O ator trabalhou também com outros diretores magistrais como Jean Renoir, Luchino Visconti e Bernardo Bertolucci.
 
marais e cocteau
O relacionamento deles foi extremamente apaixonado e intenso, com COCTEAU escalando MARAIS para seus próprios projetos cinematográficos. Ele estrelou a maioria dos filmes do amante. O cineasta afirmou que sua atuação em “Orfeu” “ilumina o filme com sua alma”. Na verdade, o ator era tratado como muso do cineasta. Eles permaneceram numa Paris ocupada pelos nazistas, apesar da oposição a homossexualidade. Eram abertamente gays e o ator foi rejeitado pela Resistência por isso. Já COCTEAU, dependente do ópio, superou o vício com o amante.
 
O cineasta tinha admiradores poderosos que protegiam os dois, mesmo quando JEAN MARAIS deu um soco em um crítico colaboracionista por escrever uma crítica negativa sobre uma das peças do amante. Os seus nomes foram arrastados pela lama da imprensa controlada pelos nazis, mas nunca foram presos ou enviados para um campo de concentração. JEAN COCTEAU morreu de um ataque cardíaco em seu castelo em Milly-la-Forêt, Essonne, em 1963, com 74 anos. Contam que seu coração parou depois de ouvir que Edith Piaf, uma de suas grandes amigas, tinha morrido. JEAN MARAIS mandou gravar na sua lápide: “Eu fico com você”. Falecido em 1998, aos 85 anos, entre os trabalhos mais recentes de JEAN MARAIS estão apresentações no Cabaré Les Folies Bergères e a interpretação de Próspero em “A Tempestade”, de Shakespeare, nos palcos de Paris. Seus últimos filmes foram “Os Miseráveis / Les Misérables” (1995), de Claude Lelouch; e “Beleza Roubada” (1996), de Bernardo Bertolucci. Publicou mais de uma autobiografia e organizou retrospectiva como artista plástico em 1995. Sobre JEAN COCTEAU, comentou: “Lamento amargamente não ter passado toda a minha vida servindo Cocteau em vez de me preocupar com minha carreira.”
 
jean marais em “orfeu”

CINCO FILMES de JEAN COCTEAU
(por ordem de preferência)
 
01
A BELA e a FERA
(La Belle et la Bête, 1946)
 
elenco: Jean Marais, Josette Day e Michael Auclair
 
02
A ÁGUIA de DUAS CABEÇAS
(L'aigle à Deux Têtes, 1948)
 
elenco: Edwige Feuillère
 
03
O SANGUE de um POETA
(Le Sang d'un Poète, 1932)
 
elenco: Enrique Rivero, Elizabeth Lee Miller e Pauline Carton
 
04
ORFEU 
(Orphée, 1950)
 
elenco: François Périer, María Casarés, Marie Déa e Juliette Gréco
 
05
O TESTAMENTO de ORFEU
(Le Testament d'Orphée ou ne me Demandez pas Pourquoi, 1960)
 
elenco: Françoise Arnoul, Claudine Auger, Jean Marais, Charles Aznavour, Lucia Bosè, Yul Brynner e María Casarés
 
jean marais em “a bela e a fera

DEZ FILMES de JEAN MARAIS
(por ordem de preferência)
 
01
A BELA e a FERA
(La Belle et la Bête, 1946)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: Josette Day e Michael Auclair
 
02
NOITES BRANCAS
(Le Notti Bianche,1957)
 
direção: Luchino Visconti
elenco: Maria Schell, Marcello Mastroianni, Clara Calamai e Giorgio Albertazzi
 
03
O CASTELO de CRISTAL
(Le Chateau De Vêrre, 1950)
 
direção: René Clement 
elenco: Michèle Morgan, Jean Servais e Fosco Giachetti
 
04
A ÁGUIA de DUAS CABEÇAS
(L'aigle à Deux Têtes, 1948)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: Edwige Feuillère
 
05
As ESTRANHAS COISAS de PARIS
(Elena et les Hommes, 1956)
 
direção: Jean Renoir 
elenco: Ingrid Bergman, Mel Ferrer, Juliette Gréco e Dora Doll
 
06
ORFEU
(Orphée, 1950)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: François Périer, María Casarés, Marie Déa e Juliette Gréco
 
07
ENTRE o AMOR e o TRONO
(Ruy Blas, 1948)
 
direção: Pierre Billon 
elenco: Danielle Darrieux, Marcel Herrand e Gabrielle Dorziat
 
08
MILAGRES ACONTECEM uma VEZ
(Les Miracles n'ont Lieu qu'une Fois, 1951)
 
direção: Yves Allégret 
elenco: Alida Valli
 
09
BELEZA ROUBADA
(Stealing Beauty, 1996)
 
direção: Bernardo Bertolucci 
elenco: Liv Tyler, Joseph Fiennes, Jeremy Irons, Stefania Sandrelli e Rachel Weisz
 
10
Os AMORES de CARMEN
(Carmen, 1944)
 
direção: Christian-Jaque
elenco: Viviane Romance, Marguerite Moreno e Bernard Blier
 
GALERIA de FOTOS
 

 

agosto 28, 2023

************** JOSEPH LOSEY: PAIXÃO e LUCIDEZ

 

 
Os filmes ilustram a existência. 
Eles podem angustiar, perturbar 
e fazer com que as pessoas pensem 
sobre si mesmas e sobre problemas. 
Mas não dão respostas.
JOSEPH LOSEY
 
 
Ao contrário do que muitos pensam, JOSEPH LOSEY (1909 – 1984. Wisconsinb / EUA) não nasceu no Reino Unido. Depois de estudar teatro com Bertold Brecht na Alemanha e de elogiada trajetória teatral no seu país de origem, dirigiu para a RKO Radio Pictures “O Menino dos Cabelos Verdes / The Boy with Green Hair” (1948), fábula humanista acerca do racismo em uma pequena cidade, estrelada por Dean Stockwell e Robert Ryan. Empolgado com o cinema, fez mais cinco filmes em Hollywood, entre eles o ótimo “M / idem” (1951), refilmagem do clássico de Fritz Lang. Taxado de comunista, tentou continuar filmando nos EUA, assinando suas fitas sob pseudônimo o Victor Hanbury, mas o truque não deu certo por muito tempo e ele teve que amargar exílio forçado na Europa. Continuou sua trajetória cinematográfica primeiro na Itália, depois na Inglaterra, onde recebeu um importante empurrão de Dirk Bogarde, astro em ascensão, realizando “O Monstro de Londres / The Sleeping Tiger”, em 1954. Anos depois, elogiado pela crítica francesa, solidificou sua carreira, elaborando dramas intimistas, perversos e elegantes.
 
joseph losey e dirk bogarde

Sua carreira teve como ponto alto a parceria com o dramaturgo Harold Pinter, roteirista de três de seus filmes: “O Criado”, “Estranho Acidente” e “O Mensageiro”, mergulhando fundo na decadência burguesa. Ilustrador de fraquezas humanas, apaixonado pelas imagens, mesmo em seus filmes menores há cenas mágicas. JOSEPH LOSEY realizou 32 filmes em quase 40 anos de atividade. O último deles, “A Sauna / Steaming” (1985), tem no elenco as inglesas Vanessa Redgrave, Sarah Miles e Diana Dors. Um dos maiores diretores de cinema. Com talento nato para encenar lucidamente as crueldades do ser humano, capaz de captar com seu olhar único e absoluta perspicácia, o lado mau de uma pessoa. Os traços mais marcantes no seu estilo são o barroquismo e a câmera que acompanha os personagens. Homenageando esse diretor, posto depoimentos de atores que trabalharam com ele e cinco filmes seus admiráveis.

ALEXIS SMITH 
(1921 - 1993. Penticton / Canadá) 
“O Monstro de Londres”, 1954

“O que impressiona de imediato em Joseph Losey é uma força e uma energia muito incomuns e, ao mesmo tempo, um grande poder de concentração. Como Raoul Walsh, ele é gerador de uma energia enorme no set e é essa energia que verdadeiramente faz o filme. Com Losey, acrescenta-se uma imaginação, uma descoberta da interioridade orgânica vivida do personagem, uma aproximação fisiológica – e logo o personagem adquire uma dimensão muito maior do que aquela que você imaginava pra ele no roteiro, uma intensidade e uma sensibilidade que possuem uma verdadeira realidade. 
 
Essa vida, ele concede a partir de reflexos pessoais cuja imaginação vem de muito longe nele; sua abordagem das coisas é ingênua, ao mesmo tempo em que seu trabalho é muito profissional. O que é impressionante em Losey é a possibilidade que o ator tem de interpretar num alto ponto emocional, sem nunca ter que baixar a intensidade. Como dizia, eu também gostei muito de trabalhar com Walsh e com Blake Edwards, que possuem uma grande imaginação, um espírito muito vivo, e um senso de humor formidável. Assim é Losey. Ele é maravilhosamente espontâneo.”.
 
HARDY KRUGER 
(1928 – 2022. Berlim / Alemanha) 
“Entrevista com a Morte / Blind Date”, 1959

“Conhecia Joseph Losey apenas de nome quando me foi proposto fazer sob sua direção ‘S.O.S. Pacific’ e, apesar de meu interesse por ele, recusei o papel, porque o roteiro era ruim demais. Ele veio me ver e, logo em seguida, ganhei por ele uma grande simpatia. Conversamos sobre o assunto, e me dei conta que ele vislumbrava o roteiro da única forma possível. Tornamos-nos amigos, e íamos rodar quando o produtor decidiu voltar à primeira versão do roteiro. Transferimos o nosso contrato para um outro projeto: ‘Entrevista com a Morte’. Durante a preparação desse filme não reparei diferença de natureza entre Joe e outros diretores que havia trabalhado antes – ele era apenas mais aberto, mais humano. Por outro lado, tive uma espécie de revelação diante de seu trabalho no set. A primeira coisa que me espantou foi a forma com a qual, com ele, um personagem pode se desenvolver no cenário, reagir em relação a uma situação. 
 
Joe também não esquece que os atores têm um corpo e que eles se expressam, antes de mais nada, pelos seus corpos. Ele lhe explica o que ele deseja, o que você tem a fazer, seu percurso, o eventual movimento de câmera, as razões de tudo e, se fiando no trabalho anterior fornecido sobre os personagens no roteiro, lhe deixa muito livre, de forma que o percurso nasça do movimento de seu corpo – você esquece até a câmera. Joe experimenta também uma grande necessidade de contato com as pessoas, uma necessidade também de ser compreendido. Durante uma filmagem fica muito próximo de seus principais colaboradores, ele se interessa por sua vida pessoal. Ele é muito concentrado e repara nas pessoas coisas que ninguém mais repararia”.
 
VIRNA LISI 
(1936 – 2014. Ancona / Itália) 
“Eva”, 1962

“'Eva’ me agrada muito. É muito moderno. Meu personagem é um personagem não-cerebral, simples, e eu sempre estive à vontade no meu trabalho com Joseph Losey. É um diretor que tem uma comunicação muito grande, e, logo em seguida, uma corrente de compreensão e de amizade, de afinidades, se estabelece entre ele e você. Quando, no trabalho, ele diz uma coisa, essa coisa – e também a inteligência com as quais Losey a apresenta – é tal, que o ator a executa como por osmose. Se você não sente o que ele lhe pede, ele leva em conta suas sugestões. Ele espera dos atores reações menos mecânicas. Concede muito cuidado a tudo que diz respeito ao ambiente: a qualidade do ar, os perfumes. E, assim, seu trabalho se torna mais verdadeiro, mais real. 
 
Antes do início da filmagem de ‘Eva’, Losey fez uma leitura geral para todos os atores; depois, durante a filmagem, a cada manhã, ele reunia os atores e lhes dava informações precisas da cena a ser rodada: o que ele busca, antes de tudo, é que tudo esteja bem claro. Tenho, de minha parte, alguns desprazeres quanto a esse filme. De início, duas das minhas cenas – que significavam muito para o meu personagem – foram cortadas no conflito entre Losey e os produtores. E também o próprio Losey talvez não tenha colocado os personagens no mesmo plano, o que, eu acho, deveria ser feito. Enfim, ‘Eva’ não é a verdadeira natureza de Losey. Ele é formidável. Eu gostaria de ter a oportunidade de trabalhar novamente com ele – e, dessa vez, da forma como o conheci na vida”.
 
 

CINCO FILMES de JOSEPH LOSEY
(por ordem de preferência)
 
01
EVA
(idem, 1962)

elenco: Jeanne Moreau, Stanley Baker e Virna Lisi

 
Filmado em Veneza e adaptado de um livro de James Hadley Chase, com a presença sublime de Jeanne Moreau, é um excelente retrato da atração de um escritor pilantra por uma mulher proibida que o humilha, negligenciando sua esposa.
 
02
O CRIADO
(The Servant, 1963)

elenco: Dirk Bogarde, Sarah Miles e James Fox

 
Baseado em romance de Robin Maugham, explora a relação entre as classes sociais através de um jovem e rico solteiro que contrata um criado mais velho para que satisfaça as suas vontades domésticas. Pouco a pouco os papéis se invertem.
 
03
ESTRANHO ACIDENTE
(Accident, 1967)

elenco: Dirk Bogarde, Stanley Baker, Jacqueline Sassard, Michael York, Vivien Merchant, Delphine Seyrig e Alexander Knox

 
Com leve sátira ao mundo acadêmico, apresenta o conflito entre um professor casado e outro mais jovem, ambos com as atenções voltadas para uma bela garota.
 
04
O MENSAGEIRO
(The Go-Between, 1970)

elenco: Julie Christie, Alan Bates, Margaret Leighton, Michael Redgrave e Edward Fox

 
Homem relembra um fato ocorrido quando era garoto: serviu de intermediário entre uma mulher aristocratra e um rude fazendeiro, levando cartas de amor.
 
Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes
 
05
CIDADÃO KLEIN
(Mr. Klein, 1976)

elenco: Alain Delon, Jeanne Moreau, Juliet Bert, Suzanne Flon e Massimo Girotti

 
Em 1942, na Paris ocupada pelos nazistas, negociante de arte vê seus lucros aumentarem bastante quando judeus perseguidos lhe vendem obras-de-arte a preços módicos. Porém, quando um outro utilizando seu nome comete atos misteriosos e ameaçadores, ele passa a ser perseguido pela polícia.
 
Prêmio César de Melhor Filme e Melhor Direção