outubro 03, 2016

************* FLORINDA: do CEARÁ para o MUNDO



 
De Carmen Miranda à Norma Bengell, de Rejane Medeiros a Sônia Braga, de Cristiana Reali a Alice Braga, algumas de nossas atrizes se lançaram à carreira internacional. Na década de 1970, uma bela cearense que ainda não tinha atuado no Brasil, consagrou-se como uma das principais atrizes da Itália. FLORINDA BOLKAN (1941. Uruburetema, Ceará / Brasil) tem uma relação apaixonada com a câmera, carisma. Ganhou três David di Donatello - o Oscar italiano – de Melhor Atriz, o Globo de Ouro italiano e o prêmio de Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema de Los Angeles por “Amargo Despertar”. Atuou em mais de 40 filmes. Sensual e sofisticada, ela fez um sucesso durante uma certa época. Capas de revistas nacionais e europeias. Eu a conheci através do amigo e cantor Emilio Santiago, em Lisboa, 1998. Passamos juntos uma tarde, numa feira internacional de turismo, ao lado da sua companheira, a princesa italiana Anna Chigi della Rovera. Na época, FLORINDA BOLKAN era cinquentona, ainda formosa, elegante, de forte personalidade. Ficou surpreendida quando eu citei seus filmes. “Um jovem brasileiro que viu meus filmes? Inacreditável. O Brasil me esqueceu”, queixou-se. Tinha razão, raramente é lembrada entre nós, mas jamais deixou de ser ícone na Itália.

Magra, alta e morena, nasceu em Uruburetama, no Ceará, crescendo com curiosidade de conhecer o mundo. Filha de pai poeta e deputado, e descendente de índios pelo lado materno, aos 18 anos já dominava o francês e o inglês. Nunca fez segredo de suas preferências sexuais, mas também nunca vestiu a camiseta da militância lésbica. A condessa italiana Marina Cicogna Volpi, produtora de filmes, foi influência fundamental em sua vida. Viveram juntas dezoito anos. Quatro deles em Beverly Hills, frequentando festas de celebridades. Sob a proteção da condessa, estrelou filmes. Mas o cinema não era uma meta. Ocorreu por acaso.

Quando tinha 14 anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como secretária. Depois conquistou uma boa posição como aeromoça na Varig Airlines e circulava com gente fina da alta sociedade. Uma troca de escala, de última hora, salvou-a de morrer num acidente, no Peru. Traumatizada, FLORINDA BOLKAN desistiu de ser aeromoça e, convidada pela amiga socialite Regina Lecléry, em 1963 foi morar em Paris por dois anos, e, depois, em Roma. “Achei um absurdo ela me convidar, mas Regina era riquíssima. Passamos ainda por Palm Beach e seguimos para Paris”, contou numa entrevista. Na França, recebeu propostas para trabalhar como modelo, mas devido ao seu caráter introvertido, recusou.

florinda e a condessa marina cicogna
Ainda em Paris, frequentou cursos de francês na Sorbonne e de história da arte no Museu do Louvre. Em Ischia, ilha napolitana, conheceu um ator austríaco, Helmut Berger, namorado de um dos maiores diretores de cinema. Em pouco tempo, ela estava frequentando a casa de Luchino Visconti. “Saíamos de lá para dançar a noite toda”. Foi Visconti quem descobriu, nela, a atriz. Propôs-lhe um teste para “Os Deuses Malditos”, sua ópera antinazista. “Ele adorava o povo, mas nunca abriu mão de viver como o aristocrata que era.”, disse ela sobre Visconti, o grande artista. Com De Sica, a experiência foi igualmente marcante. “Ao contrário de Visconti, a origem dele era humilde e sempre permaneceu fiel a ela, mesmo depois que virou um grande ator e diretor. O que ele gostava mesmo era de colocar pessoas humildes na tela”.

florinda e helmut berger
 recebendo o david di danatello
Na Itália, adaptou a grafia de seu sobrenome Bulcão para torná-lo mais pronunciável aos estrangeiros. No seu primeiro filme, em 1968, contracenou com o beatle Ringo Starr. Logo atuaria ao lado de Jean-Louis Trintignant em “O Ladrão de Crimes / Le Voleur de Crimes” (1969), aparecendo nua. Nesta época, seu nome foi parar nas páginas de fofocas de todo o mundo. A star Liz Taylor ficou uma arara porque a revista Time publicou uma foto de Richard Burton dançando com a atriz brasileira. Na verdade, golpe de publicidade da Condessa Cicogna. FLORINDA BOLKAN foi adotada pelos italianos, passando a ser chamada de La Bolkan.

Seu tipo físico, a beleza morena, chamava a atenção dos cineastas. No segundo ano de trabalho fez seis filmes. Mal fazia um personagem e já estava na pele de outro. Tudo rápido para alguém que, como ela chegou a dizer que só queria ficar sem fazer nada. Nos anos seguintes, protagonizou longas que renderam fama, tornando-se uma das atrizes mais populares de sua época. Em 1970, brilhou ao lado de Gian Maria Volontè em “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. “O Anônimo Veneziano”, o filme mais visto na Itália em 1970, rendendo para ela o status de estrela. Na década de 1970, sex-symbol absoluta, atuou sob o comando de importantes diretores: Vittorio De Sica, Elio Petri, Giuliano Montaldo, Michel Deville, Damiano Damiani, Richard Lester, Giuseppe Patroni Griffi etc. Após uma grave crise de identidade, decidiu fazer coisas que nunca tinha tempo de fazer, evitando as pressões que uma celebridade passa. Passou a viajar, construir e vender casas, plantar árvores, praticar esportes, montar cavalos, velejar, esquiar e jogar tênis.

Após três anos de jejum artístico, FLORINDA BOLKAN percebeu a importância de atuar outra vez. Assim, mudou-se para uma casa de campo nas proximidades de Roma, e em 1986 começou a gravar o seriado de TV “La Piovra”, batendo todos os recordes de audiência e ganhando prêmios. No inverno de 1984 estreou no teatro, com Michele Placido, na comédia “Metti Una Sera a Cena”, com o mesmo diretor que, anos antes, tinha rodado o filme, Giuseppe Patroni Griffi. Foi um sucesso. Entre 1985-86, também sob a direção de Patroni Griffi, atuou na comédia “Tio Vânia”, de Anton Tchecov.

Nunca deixou de visitar o Brasil. Construiu uma casa no Ceará, em Quixadá, de frente para o mar. Mas teve raras passagens pela TV brasileira – uma delas a minissérie na Rede Manchete, “A Rainha da Vida”, em 1987. No Brasil, depois de muitos projetos frustrados, fez “Bela Donna” (1998), dirigida por Fábio Barreto. “Mas não é um bom filme”, reconhece. Nesta co-produção Brasil/EUA, faz Mãe Ana, líder religiosa de um vilarejo, tão temida quanto respeitada. Fracassado, o drama nordestino tem um elenco pouco atraente: Natasha Henstridge, Eduardo Moscovis, Sophie Ward, Letícia Sabatella e Andrew McCarthy. Em 2000, estreia na direção com o filme “Eu Não Conhecia Tururu”. Produz, dirige e interpreta uma das quatro irmãs de uma história passada no Ceará.

luchino visconti e florinda
FLORINDA BOLKAN reside em Milão. Ela não pensa em morar no Brasil, mas se pode encontrá-la vez ou outra em Quixadá. Empresária do setor alimentício, mantém uma ONG que cuida da educação de crianças no Ceará. Seu talento gastronômico, pouco conhecido, está no livro “À Mesa com Florinda e suas Receitas Preferidas”, lançado em 1993. Hoje, tem 75 anos de idade, e há 11 anos se aposentou.


OLHOS de QUEM CONHECEU a FOME

“De todos os filmes que fiz, gosto particularmente de “Amargo Despertar”, de De Sica, de 1977. Nele, interpreto Clara, que era o meu reflexo. Não tinha como ela um marido ciumento, não era operária tuberculosa, internada em sanatório, mas em certo período também tivera, como ela, a pressão de uma família que tinha de sustentar, com a percepção de que o cumprimento dessa tarefa não acabava nunca e não deixava espaço para mim. Por isso, quando interpretei Clara, fiquei inteiramente à sua mercê. Felizmente, De Sica – aquela jovem de 73 anos com quem tive o raro privilégio de trabalhar – sabia tirar o melhor de cada ator. Ao mesmo tempo, nos deixava à vontade, fazendo-nos totalmente livres, felizes. Com ele, nunca tive a sensação de trabalho duro, mas sim a da criação, a da abertura. Ele me deixou inventar gestos, olhares, coisas que adivinhara que eu tivesse vivido. Um dia, me disse porque me escolhera para o papel: “Você tem olhos de quem já conheceu a fome”. Devo a ele, a esse filme, a abertura no mercado norte-americano, onde, inclusive, cheguei a fazer televisão. O filme estourou nos EUA, me deu prêmios, etc. Passei de sex-symbol para a pele de uma operária horrorosa. Acabei comparada à Sophia Loren em “Duas Mulheres”, também de De Sica. Para mim, o mais importante foi saber que estava mesmo apta a fazer qualquer papel no cinema”.

Fonte
“Depoimento - A Vida de Florinda Bolkan.


  DEZ FILMES de FLORINDA

01
Os DEUSES MALDITOS 
(La Caduta degli Dei, 1969)

direção de Luchino Visconti
elenco: Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Griem, 
Helmut Berger e Charlotte Rampling

02
INVESTIGAÇÃO de um CIDADÃO ACIMA de QUALQUER SUSPEITA 
(Indagine su un Cittadino al di Sopra di Ogni Sospetto, 1970)

direção de Elio Petri
elenco: Gian Maria Volontè e Salvo Randone

03
AMARGO DESPERTAR 
(Una Breve Vacanza, 1973)

direção de Vittorio De Sica
elenco: Renato Salvatori e Adriana Asti

04
O ANÔNIMO VENEZIANO
(Anonimo Veneziano, 1970)

direção de Enrico Maria Salerno
elenco: Tony Musante

05
A FÚRIA dos INTOCÁVEIS 
(Gli Intoccabili, 1969)

direção de Giuliano Montaldo
elenco: John Cassavetes, Britt Ekland, Peter Falk, 
Gabriele Ferzetti, Salvo Randone e Gena Rowlands

06
Uma LAGARTIXA num CORPO de MULHER 
(Una Lucertola con la Pelle di Donna, 1971)

direção de Lucio Fulci
elenco: Stanley Baker e Jean Sorel

07
CAROS PAIS 
(Cari Genitori, 1973)

direção de Enrico Maria Salerno
elenco: Catherine Spaak e Maria Schneider

08
O SOLDO da CORRUPÇÃO 
(Un Detective, 1969)

direção de Romolo Guerrieri
elenco: Franco Nero e Adolfo Celi

09
O HERÓICO COVARDE 
(Royal Flash, 1975)

direção de Richard Lester
elenco: Malcolm McDowell, Alan Bates e Oliver Reed

10
NUMA NOITE... um JANTAR
(Metti, una Sera a Cena, 1969)

direção de Giuseppe Patroni Griffi
elenco: Jean-Louis Trintignant, Tony Musante, Annie Girardot 
e Adriana Asti

GALERIA de FOTOS

 
 
 
 
 

setembro 13, 2016

****** A MALÍCIA e o REFINAMENTO de LUBITSCH

margaret sullavan e james stewart em a loja da esquina

 
Nas primeiras décadas do cinema, os filmes do alemão ERNST LUBITSCH (1892 - 1947. Berlim / Alemanha) ganharam fama mundial pelo estilo definido de malícia e sofisticação. O cineasta ajudou a desenvolver a indústria cinematográfica e influenciou inúmeros colegas (Rouben Mamoulian, Mitchell Leisen, Preston Sturges, Billy Wilder, Billy Wilder, Mike Nichols etc.). Sempre atento ao entretenimento popular, em um período de censura, utilizou uma certa estratégia irônica para lidar com temas eróticos e um fino deboche ao tratar questões políticas. Da vasta obra, destacam-se clássicos impagáveis que levam a marca registrada conhecida como “Lubitsch Touch”: humor atrevido, deliciosas ironias, troca de casais, subentendidos elegantes e insinuações. Filho de um próspero alfaiate judeu, com a ascensão do nazismo perdeu a cidadania alemã. Em 1936, tornou-se cidadão norte-americano e nunca mais retornou à Alemanha.

ernst lubitsch
Aprendeu sua arte na companhia teatral do lendário diretor austríaco Max Reinhardt, trabalhando como ator. Nesta época, trabalhou em cabarés, cantando e dançando. Em 1913 estreou no cinema. Atuou em diversos filmes, destacando-se com tipos cômico-burlescos judeus, como o alfaiate trouxa e sortudo (Meyer) ou os caixeiros rústicos e ladinos (Moritz, Lachman). Pouco depois, passou a escrever e dirigir seus próprios filmes. Entre 1918 e 1922 suas comédias ou dramas históricos fizeram contraponto aos trabalhos expressionistas que ganhavam destaque na Alemanha pré-nazista. Em 1919, foi projetado internacionalmente com “Carmen / Idem”, estrelado por uma das grandes divas do cinema mudo, Pola Negri. Mais adiante ERNST LUBITSCH disse sobre ela: Jamais encontrei uma criatura de tanta vitalidade e magnetismo. Artista de uma sensibilidade muito viva e tipo humano único. Foi ela que trouxe para Hollywood o que eles chamam de temperamento continental que, a meu ver, não é senão um extraordinário dom de atrair a atenção na tela como na vida, o que Pola possuía em maior quantidade que ninguém”.

Sua reputação não parou de crescer com os superespectáculos históricos “Madame DuBarry / Idem” (1919) e “Ana Bolena / Anna Boleyn” (1920).  Nesta fase, casou-se com Irni (Helene) Kraus, uma viúva, cujo primeiro marido, soldado alemão, morrera na Primeira Guerra Mundial. Ele encerrou as atividades no seu país natal com “A Modista de Montmartre / Die Flamme” (1923), adaptado de conto de Guy de Maupassant e estrelado por Pola Negri. Resta apenas um fragmento de 43 minutos. Segundo Lubitsch, o filme é a realização mais completa das produções alemãs que fez. Os norte-americanos descreveram a estética deste trabalho como “Art Noveau cinematográfico”.

marlene dietrich e lubitsch
Em outubro de 1922, com um contrato para dirigir a estrela mais famosa do mundo, Mary Pickford, ERNST LUBITSCH partiu para Hollywood, certo de que iria trabalhar em uma versão de “Fausto”, de Goethe. A produção não se realizou, mas ele concordou em dirigir a atriz no drama romântico de época “Rosita / Idem” (1923). Como não admitia interferências, durante os três meses de rodagem discutiu muito com a estrela. Mas o filme entusiasmou o público e os críticos. Pickford odiou. Sua próxima criação, a comédia “O Círculo do Casamento / The Marriage Circle” (1924), é o Lubitsch favorito de Charlie Chaplin, Alfred Hitchcock e Akira Kurosawa. Serviu de modelo para vários cineastas pelas sutilezas eróticas e psicológicas. O diretor burlou com muita classe a censura. Como desabafou um dos censores do Hays Office, “a gente sabia o que ele estava dizendo, mas não podíamos provar o que estava insinuando”.

O êxito do cineasta em Hollywood foi surpreendente. Dirigiu uma sequência de sucessos, superando-se quase sempre. Sua influência cresceu a cada filme. Mas poucos conseguiram chegar perto de sua melhor forma - timing perfeito, nuances ambíguas. ERNST LUBITSCH traduziu a psicologia norte-americana com precisão, concentrando suas sátiras sobre dois temas: dinheiro e sexo. Precaveu-se, colocava as tramas em países estrangeiros ou terras míticas, mas a implicação da terra do Tio Sam é bastante clara e o público não deixou de reconhecer seus costumes e pontos fracos.

lubitsch dirige a diva pola negri
A cadeia de triunfos durante o período do cinema mudo permaneceu intacta no falado, realizando filmes marcantes na Warner Bros., Paramount Pictures, Metro-Goldwyn-Mayer e 20th Century Fox Film Corporation. O luxo da cenografia e dos figurinos deslumbram os olhos, enquanto o jogo de gato e rato entre os personagens e a futilidade de seus gestos constituem uma poderosa crítica ao recente – nos anos 1930 – fenômeno do consumismo. Em 1930, Lubitsch e Leni se divorciaram. Em 1935, o cineasta (43 anos) casou-se com Vivian Gaye (27 anos), que lhe daria uma filha, Nicola Anne Patricia Lubitsch. Em 1942, o casal se separou. Uma das suas maiores criações, “Ninotchka”, foi lançada com o slogan “Garbo Laughs” – Garbo ri -, um aviso de que a dama de ferro sueca, habituada a viver personagens carregadas de dilemas pessoais estrelava a sua primeira comédia. Três anos depois, ERNST LUBITSCH causou polêmica com o anti-nazista “Ser ou Não Ser”. No ano seguinte, assinou contrato como produtor-diretor da 20th Century Fox, mas seu talento espetacular foi minado pela falta de saúde.

lubitsch e a segunda esposa, vivian
No final de 1944 teve que entregar a direção de “Czarina / A Royal Scandal” a Otto Preminger. Creditado apenas como produtor, ele escolheu os atores, supervisionou alguns ensaios e estabeleceu a atmosfera de cada cena. Greta Garbo estava disposta a voltar às telas como a Czarina, mas o estúdio rejeitou a ideia, pois “Duas Vezes Meu / Two Faced Woman” (1941), de George Cukor, derradeiro filme da Divina, não deu bons lucros.  Em março de 1947, ao ser premiado com o Oscar Honorário “por suas destacadas contribuições à arte cinematográfica”, passou mal na cerimônia. 
 
Dirigiu “O Pecado de Cluny Brown / Cluny Brown” (1946), sátira às convenções sociais e ao modo de viver da classe alta e da burguesia da província inglesa, estrelado por Charles Boyer e Jennifer Jones. Em seguida, preparou-se para filmar “O Solar de Dragonwyck / Dragonwyck” (1946), adaptação do best seller de Anya Seton, com Gene Tierney, mas adoeceu novamente, dando a Joseph L. Mankiewicz a oportunidade de estrear como diretor. Seu último filme, “O Leque de Lady Windermere / The Fan” (1949), teve as filmagens interrompidas pela morte do cineasta a 30 de novembro de 1947, em virtude de outro colapso, tendo Otto Preminger assumido a direção. “Ele estava muito acima de todos nós no campo da alta comédia sofisticada”, afirmou Joseph L. Mankiewickz. No seu funeral, Billy Wilder disse: "Nunca mais Lubitsch”, sendo completado por William Wyler: “Pior. Nunca mais teremos filmes de Lubitsch”.

lubitsch e o oscar especial 
pela carreira
O famoso “Toque Lubitsch tem sido usado para descrever a marca do diretor. Mas o que exatamente quer dizer? Uma longa lista de virtudes: sutileza, inteligência, charme, elegância, suavidade, polidez e audácia. Um estilo inimitável, em que os enredos e a comicidade são portadores de descrições particularmente mordazes da sociedade e seus códigos de valores. O cinema de ERNST LUBITSCH nos encanta, seduz e comove com coisas que parecem quase nada. Aí me lembro da frase do mestre francês François Truffaut: “No queijo de Lubitsch cada buraco é genial!”Viva Lubitsch!

gary cooper e claudette colbert em 
a oitava esposa do barba azul
 
 
DEZ FILMES de LUBITSCH
(por ordem de preferência)

01
A LOJA da ESQUINA
(The Shop Around the Corner, 1940)

elenco: Margaret Sullavan, James Stewart, Frank Morgan
e Joseph Schildkraut

O fotógrafo favorito de Greta Garbo, William H. Daniels, cuidou da iluminação do último filme de Lubitsch na M-G-M. Nele, o ótimo roteirista Samson Raphaelson evoca, num tom intimista, a vida cotidiana de pessoas modestas com suas aflições e alegrias. Empregado de uma loja de Budapeste apaixona-se por uma jovem com quem mantém uma correspondência epistolar, sem nunca a ter visto. Entretanto, ela é a nova empregada da mesma loja, que o antagoniza diariamente. Notável atuação de todo o elenco, destacando-se Joseph Schildkraut. Lubitsch demonstrou seu afeto pelo filme ao declarar: “Em termos de comédia humana creio que jamais fui tão bom. Nunca fiz um filme em que a atmosfera e os personagens fossem mais reais.”

02
A OITAVA ESPOSA do BARBA AZUL
(Bluebeard's Eighth Wife, 1938)

elenco: Claudette Colbert, Gary Cooper e David Niven

Milionário malcriado conhece garota, que nasceu de nobre e arruinada família francesa, e logo a pede em casamento; mas, para ensiná-lo lições de refinamento, ela adia a consumação do matrimônio. O último filme de Lubitsch na Paramount, escrito por Billy Wilder e Charles Brackett. Original, o diretor eliminou uma ou outra continuidade. “Tenho confiança na inteligência dos espectadores … Eles verão Gary Cooper entrar furioso no quarto de Claudette Colbert e bater na porta violentamente. Porém, em vez de acompanhá-lo para dentro do quarto com a câmera, fiz uma fusão da batida da porta para uma boate, onde os espectadores verão o casal dançando romanticamente. Deixarei que eles imaginem o que aconteceu e mostrarei apenas o resultado.

03
SÓCIOS no AMOR
(Design for Living, 1933)

elenco: Fredric March, Gary Cooper, Miriam Hopkins
e Jane Darwell

A fim de preservar do severo Código de Produção o ménage-à-trois de dois homens e uma mulher, o roteirista Ben Hecht usou toda a sua verve e inteligência para atenuar as inúmeras  infrações morais da peça de Noel Coward. No roteiro, uma desenhista industrial encontra-se num trem com dois promissores artistas, um escritor e um pintor (Gary Cooper). Ambos se apaixonam pela moça, mas como ela não se decide por nenhum deles, combinam viver juntos os três, platonicamente. Com incomparável intuição fílmica, o diretor concentrou-se mais na ação e expôs com argúcia os audaciosos diálogos de Hecht. Numa cena, depois que os três personagens passam a viver juntos, Miriam Hopkins beija Cooper e March na testa e diz: “Nada de sexo. Façamos um acordo de cavalheiros”. March vai a Londres, Hopkins fica sozinha com Cooper. Ele diz que a ama, beija-a, ela se estira num sofá e fala: “É certo que fizemos um acordo de cavalheiros. Mas … eu não sou um cavalheiro.” (Escurece).

04
NINOTCHKA
(idem, 1939)

elenco: Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire
e Bela Lugosi

Há muito tempo Lubitsch desejava realizar um filme com Greta Garbo, porém apenas em 1939 surgiu a oportunidade, na sua volta à M-G-M.  Ela vive uma agente soviética em missão em Paris. Acaba sendo seduzida pelos luxos do ocidente e se apaixona por um charmoso playboy, que representa tudo que ela mais despreza. Roteiro de Billy Wilder. O alvo da impiedosa troça é o bolchevismo, através do contraste entre os valores russos e franceses, manifestado em diálogos divertidos. No papel da austera burocrata, Garbo revelou senso de humor, e recebeu indicação ao Oscar de Melhor Atriz, perdendo para Vivien Leigh. Lubitsch considerava “Ninotchka” um de seus melhores filmes: “Como sátira possivelmente nunca fui mais perspicaz e sinto que tive sucesso na difícil tarefa de relacionar sátira política com um enredo romântico”.

05
ANJO
(Angel, 1937)

elenco: Marlene Dietrich, Herbert Marshall e Melvyn Douglas

Comédia romântica abordando o clássico triângulo amoroso. Uma bela mulher casada com um diplomata inglês que tem pouco tempo para ela. Entediada e ansiosa por atenção, ela viaja para Paris e se envolve em uma aventura com um jovem norte-americano. Deixando Paris sem se despedir dele, o amante, que nem ao menos sabe o nome dela, inicia uma louca busca tentando localizar o seu 'anjo'. Até que os caminhos se cruzam num jantar em Londres. Fotografado elegantemente por Charles Lang, contém bons desempenhos. Num dos melhores momentos, na cena do jantar, à cozinha chegam os pratos retirados da mesa. Um vem vazio; outro, intacto; o terceiro, exibe o bife recortado em quadradinhos. A refeição não foi mostrada, mas aqueles indícios atestam o comportamento e estado de espírito dos personagens.

06
LADRÃO de ALCOVA
(Trouble in Paradise, 1932)

elenco: Miriam Hopkins, Kay Francis e Herbert Marshall

“Em matéria de puro estilo penso que não fiz nada melhor ou igual”, disse o cineasta. Unanimemente reconhecido pela crítica como obra-prima, é uma farsa mundana cínica. Um relato cheio de imprevistos, finura e mordacidade. Em Veneza, após terem se pilhado simultaneamente, dois ladrões cosmopolitas reiniciam um romance, e partem rumo a Paris.  Pretendendo furtar as joias de uma rica viúva, eles conseguem emprego em sua casa (ele, como secretário; ela, como datilógrafa). Com ciúmes das atenções dispensadas pelo parceiro a dona da casa, ela resolve agir sozinha. Desde a famosa cena de abertura, quando se descobre que o tenor entoando uma ária sobre a gôndola é apenas um limpador dos sujos canais da cidade dos doges, até o clímax com a impunidade dos larápios, Lubitsch joga com os contrastes entre a aparência e a realidade e, servido por seu inigualável senso rítmico e espírito alerta e impudente, deixa os espectadores rindo sem parar. Um primor de realização.

07
SER ou NÃO SER
(To Be or Not to Be, 1942)

elenco: Carole Lombard, Jack Benny e Robert Stack

Em Varsóvia, um casal de artistas poloneses egocêntricos e temperamentais está sempre em rivalidade. Fascinada por um jovem aviador, a atriz pede-lhe que, no exato momento da récita do marido do famoso solilóquio de Hamlet, ele saia da plateia, e vá se encontrar com ela no camarim. Além da infidelidade, o propósito dela é ferir a vaidade do companheiro. Os alemães ocupam a cidade e, depois de muitas peripécias, os atores escapam de avião para Londres. O filme, hilário, sofreu críticas por abordar assunto impróprio ao humor. Lubitsch defendeu-se, dizendo: “O filme nunca quis ridicularizar os poloneses, apenas satirizou atores e o humor grosseiro nazista.”.

08
A VIÚVA ALEGRE
(The Merry Widow, 1934)

elenco: Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald e Una Merkel

Opereta luxuosa fotografada por Oliver T. Marsh, o mesmo cinegrafista da versão silenciosa de Erich von Stroheim com Mae Murray e John Gilbert. O francês Chevalier desejava Grace Moore como parceira, mas o produtor Irving Thalberg vetou sua participação, alegando os prejuízos dos últimos filmes dela. Num reino de fantasia, Marshovia, uma bela viúva detém mais da metade das riquezas. Quando tira o luto e parte para Paris, o rei fica alarmado, pois o futuro financeiro do lugar depende da sua permanência no país. Surpreendendo um príncipe galante nos aposentos da rainha, poupa-lhe a vida com a condição dele ir à capital francesa conquistar o coração da viúva, e trazê-la de volta. Lubitsch teve alguns problemas com o diretor de arte, Cedric Gibbons, a fim de que atendesse às suas extravagantes exigências com relação aos cenários. Ele realizou uma obra leve, espirituosa, borbulhante. A  sequência da valsa, com os dançarinos comprimidos nos corredores da embaixada e multiplicados pelos espelhos, fascina pelo conjunto harmonioso e contagia com sua vibração.

09
O DIABO DISSE NÃO
(Heaven can Wait, 1943)

elenco: Gene Tierney, Don Ameche, Charles Coburn,
Marjorie Main, Laird Cregar e Signe Hasso

Indicado ao Oscar de Melhor Direção. Em 1943, Lubitsch assinou contrato de produtor-diretor com a 20th Century-Fox e realizou esta crônica sentimental e nostálgica, pontilhada de uma amável sátira aos costumes do fim do século XIX. Na história, inveterado conquistador, ao término de sua existência, apresenta-se ao Diabo (ótimo Laird Cregar), e conta como viveu. No final do relato, o capeta, compreendendo que ele foi um bom esposo, um chefe de família que pecou por amar as mulheres, envia-o para o céu. Fotografado por Edward Cronjager num technicolor de tonalidade pastel, foi o primeiro encontro de Lubitsch com a cor. Cenários, figurinos e acessórios de bom gosto, eficiente elenco e narrado com a costumeira engenhosidade do cineasta, recria a época à perfeição, tendo desenvolvimento fluente, humanidade, encanto poético.

10
ANA BOLENA
(Anna Boleyn, 1920)

elenco: Henny Porten e Emil Jannings

Garota nobre chega à corte inglesa a serviço da rainha. O rei se apaixona por ela, se divorcia da esposa e rompe com a Igreja católica. Inconformado pela nova esposa ter dado à luz uma filha ao invés de um herdeiro, ele a processa por adultério e a condenada à morte por decapitação. Enquanto ela sobe ao patíbulo, o rei prepara suas próximas bodas. Em Tempelhof foram construídas réplicas do Castelo de Windsor, da Torre de Londres, de Hampton Court e da Abadia de Westminster sob meticulosa supervisão, e reunidos cinco mil figurantes. Diante da esplêndida decoração e dos belos enquadramentos, os críticos exclamaram: “Lubitsch pode fazer qualquer coisa!”.

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