outubro 12, 2014

******** As MÚLTIPLAS FACES de JANE FONDA




Acabei de ler “Jane Fonda – A Vida Privada de Uma Mulher / Jane Fonda, The Private Life of a Public Woman” (2011), biografia escrita por Patricia Bosworth. “A minha vida representa o espírito do meu tempo”, resume a atriz. O livro disseca a personalidade de uma mulher que é fenômeno midiático há mais de 50 anos. “Ela tem uma capacidade extraordinária de se reinventar”, diz a autora, narrando a metamorfose de uma jovem insegura em uma mulher rica e famosa. Segundo Bosworth - autora também de biografias de Diane Arbus, Marlon Brando e Montgomery Clift -, JANE FONDA (1937. Nova Iorque / EUA) é volúvel e calculista. “Ao mesmo tempo, anseia por aceitação”. A carência é resultado da eterna frieza do pai, o ator Henry Fonda, e do suicídio da mãe, France. “Jane é perfeccionista como o pai e obcecada por sexo, aparência e dinheiro como a mãe”, revela o livro. O cuidado com o corpo, segundo a autora, sempre foi doentio, a atriz teve bulimia por mais de duas décadas, mas “a forma física é essencial para a criação do seu mito”. Além dos papéis no cinema, a atriz assumiu personagens na vida real. Garota bem comportada, tradicional; sex-symbol, conhecida como a Brigitte Bardot norte-americana; a Hanói Jane, apelido que recebeu como militante contra a guerra do Vietnã, acusada de traição pelo governo dos EUA. Mais adiante, tornou-se guru da boa forma física com vídeos de aeróbica, e ainda ecologista-cristã. 

henry fonda e jane em 1943
Quando JANE FONDA nasceu, o pai encontrava-se em Hollywood filmando “Jezebel / Idem” (1938), de William Wyler. O seu nome foi inspirado em Lady Jane Seymour, uma nobre inglesa que se tornou rainha de Inglaterra no século XVI e era um dos antepassados do lado materno da família. Jane tem um irmão, Peter Fonda, também ator. Bridget Fonda é sua sobrinha. Ela nunca conseguiu se aproximar afetivamente do pai, que não tolerava ser incomodado pelos filhos, e tinha dificuldade de livrar-se das manias aristocráticas da mãeSem aceitar o pedido de divórcio de Henry, sua mãe se suicidou em abril de 1950, cortando a garganta com uma gilete. Frances já havia estado num hospital psiquiátrico, o que acabaria por não ser suficiente para evitar a tragédia. Peter, inconformado com a morte da mãe, tenta o suicídio dando um tiro na barriga com uma pistola calibre 22. A filha, aços 12 anos, não soube de imediato a verdade, sendo-lhe dito que a sua mãe sofrera um ataque cardíaco. Henry Fonda voltou a se casar no mesmo ano em que ficou viúvo, com Susan Blanchard, também uma figura da alta sociedade norte-americana. O casamento terminaria cinco anos depois.


Estudou dança na adolescência e foi modelo, surgindo em diversas capas de revistas, entre elas a Vogue. Em 1954, aos dezessete anos, JANE FONDA atuou com o pai na peça “The Country Girl”, que foi à cena no Teatro Comunitário de Omaha (Nebraska), onde trinta anos antes Henry Fonda estreara como amador. Dois anos depois, pai e filha voltam juntos ao palco, como protagonistas da peça The Male Animal. Após concluir a licenciatura, ela muda-se para Paris, com o objetivo de estudar arte. No regresso, conheceu Lee Strasberg, do Actors Studio, que acredita no seu talento de atriz. Estreia na Broadway em 1960, recebendo dois prêmios como revelação. Estreou no cinema em Até os Fortes Vacilam / Tall Story (1960), dirigido pela mão segura do seu padrinho, Joshua Logan. Ela interpreta uma estudante caprichosa e fútil, líder da torcida de um time de basquete da universidade, cuja estrela é o noivo (Anthony Perkins). Em 1962, recebeu o Globo de Ouro de “Jovem Atriz Mais Promissora do Ano” por sua atuação no seu segundo filme, “Pelos Bairros do Vício / Walk on the Wild Side”. No ano seguinte, a revista “Harvard Lampoon” a elegeu a “Pior Atriz do Ano”. Em 1965, casou com o cineasta francês Roger Vadim. Divorciaram-se em 1973.

jane fonda e roger vadim

Em 1964, convidada pelo diretor 
francês René Clement, ela cruza o Atlântico para estrelar o filme 
Jaula Amorosa / Les Félins, ao lado de Alain Delon. Durante as filmagens, Jane tem um caso com Delon, provocando um rompimento entre o ator e Romy Schneider, sua eterna namorada. O caso com Delon é ruidosamente explorado pela imprensa e discutido na França. Uma canção popular compara Jane a uma gazela, e o elitista Cahiers du Cinéma lhe dedica oito páginas. JANE FONDA se tornaria uma estrela realmente reconhecida a partir do ano seguinte, com o grande sucesso comercial do western cômico “Dívida de Sangue / Cat Ballou” (1965), ao lado de Lee Marvin. O filme conseguiu cinco nomeações para o Oscar e ficou no Top 10 dos mais rentáveis daquele ano. No ano seguinte, ao parecer com os seios nus numa Playboy, provoca escândaloEm 1968, desempenhou uma musa interplanetária na tola aventura de ficção-científica “Barbarella”, consolidando o status de sex-symbol inventado pelo marido Vadim. Brilhou em “A Noite dos Desesperados”, sendo nomeada ao Oscar. Nos anos 1960, esnobou papéis importantes em obras-primas, de “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas / Bonnie and Clyde” (1967) a “O Bebê de Rosemary / Rosemary’s Baby” (1968).


Em 1970, após filmar “Klute, o Passado Condena”, JANE FONDA foi presa, acusada de tráfico de drogas alucinógenas – a polícia suspeitou de suas cápsulas de vitamina. Passaram-se meses até que testes provassem que as cápsulas eram inofensivas, e ela, inocente. Logo depois, ouviria em Paris discursos de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre contra a Guerra do Vietnã. Em 1972 se deixou fotografar ao lado de soldados norte-vietnamitas. Vista como ameaça nacional, teve o telefone grampeado e um informante do FBI entre os seus guarda-costas. Devido às diversas causas nas quais se engajou, o FBI, a polícia federal norte-americana, acumulou um dossiê a seu respeito com mais de 20 mil páginas. Em 1973, ela casou-se com o ativista Tom Hayden, passando a se envolver na política norte-americana. Tornou-se uma crítica sem trégua da política de relações exteriores do país, além de defender as minorias raciais oprimidas: negros, índios e mexicanos. Ninguém apostava mais no seu futuro artístico.

no vietnam

Após atuação como uma prostituta em “Klute, o Passado Condena”, ganhando o seu primeiro Oscar de Melhor Atriz, fez filmes que não conseguiram relevo, inclusive foi dirigida experimentalmente por Jean-Luc Godard. O seu regresso ao sucesso vem em 1977, depois da queda de Nixon, com a comédia “Adivinhe Quem Vem Para Roubar / Fun with Dick and Jane” e  o inesquecível drama “Júlia”, de denso conteúdo feminista. Daí em diante se destacaria em elogiados filmes dramáticos. A sua atuação em “Amargo Regresso” valeu-lhe seu segundo Oscar de Melhor Atriz. Em sua filmografia, destacam-se também Raízes da Ambição / Comes a Horseman (1978), Síndrome da China / The China Syndrome (1979), Agnes de Deus / Agnes of God (1985) e Gringo Velho / Old Gringo (1989). Ganhou o Emmy de Melhor Atriz com o elogiado telefilme Esculpindo minha Vida / The Dollmaker (1984). Em 1980, ela é eleita a segunda mulher mais influente dos Estados Unidos, depois de Katharine Graham (editora do jornal Washington Post e da revista Newsweek). No mesmo ano, após o sucesso de crítica e público de “Como Eliminar Seu Chefe / Nine to Five”, adquiriu os direitos para cinema da peça “Num Lago Dourado / On Golden Pond” (1981). 

Tinha como meta concretizar o sonho de trabalhar com o pai e dessa forma abrandar a difícil relação entre ambos. Sensível e talentoso, o drama encerrou a premiada carreira de Henry Fonda (1905–1982) com chave de ouro. Ao lado da impressionante Katharine Hepburn, ele brilha intensamente e venceu o único Oscar da sua extraordinária trajetória. Foi a filha quem recebeu o premio em nome do pai, que se encontrava doente e impossibilitado de sair de casa. Cinco meses após o Oscar, o grande Henry faleceu.

jane e henry em 1981
Nos anos 1980, a atriz lançou seu programa de aeróbica, que se tornaria uma verdadeira febre e até hoje é a série de vídeo de maior sucesso nos Estados Unidos. O primeiro vídeo, “Jane Fonda’s Workout” (1982), vendeu 17 milhões de cópias. O livro ficou na lista dos mais vendidos do New York Times por dois anos. JANE FONDA usou o dinheiro ganho com vídeos de ginástica para pagar dívidas do marido Tom Hayden. Em 1989, abandonada, divorcia-se, casando-se com o magnata conservador Ted Turner, dono das redes de televisão por assinatura CNN e TNT. Ao descobrir que ele era mulherengo, se sentiu anulada. O casamento acabou em 2000. Além dos três casamentos, esteve envolvida com o diretor teatral Andreas Voutsinas; o cineasta Alexander Sandy Whitelaw; os atores Alain Delon, Timmy Everett e Donald Sutherland; e o cabeleireiro Barry Matalon. Do primeiro casamento, nasceu a documentarista Vanessa Vadim. Com Hayden, teve o filho Troy Garity e criou Mary Luana Williams.


Em 1990, após rodar o bonito “Stanley & Iris / Idem”, de Martin Ritt, ao lado de Robert De Niro, JANE FONDA anunciou que se iria retirar do mundo do cinema. Quinze anos após o seu afastamento, regressou à tela na comédia “A Sogra / Monster-in-Law” (2005), que alcançaria excelentes resultados de bilheteira. Tem feito bonito em filmes como “Ela é a Poderosa / Georgia Rule” (2007), E se Vivêssemos Todos Juntos? / Et si on Vivait tous Ensemble? (2011) e O Mordomo da Casa Branca / The Butler (2013). Voltou à Broadway em 2009, 46 anos após a sua última peça, em “33 Variations”, de Moisés Kaufman. Aos 77 anos, cristã devota, vive em Atlanta, nos EUA.

jon voight e jane em amargo regresso

DEZ FILMES de JANE FONDA

01
A NOITE dos DESESPERADOS
(They Shoot Horses, Don't They?, 1969)
direção de Sydney Pollack
elenco: Michael Sarrazin e Susannah York

02
JÚLIA
(Idem, 1977)
direção de Fred Zinnemann
elenco: Vanessa Redgrave, Jason Robards, 
Maximilian Schell e Meryl Streep

03
KLUTE, o PASSADO CONDENA
(Klute, 1971)
direção de Alan J. Pakula
elenco: Donald Sutherland e Roy Scheider

04
AMARGO REGRESSO
(Coming Home, 1978)
direção de Hal Ashby
elenco: Jon Voight e Bruce Dern

05
CAÇADA HUMANA
(The Chase, 1966)
direção de Arthur Penn
elenco: Marlon Brando e Robert Redford

06
O INCERTO AMANHÃ
(Hurry Sundown, 1967)
direção de Otto Preminger
elenco: Michael Caine, John Phillip Law e Faye Dunaway

07
A MANHÃ SEGUINTE
(The Morning After, 1983)
direção de Sidney Lumet
elenco: Jeff Bridges e Raul Julia

08
CASA de BONECAS
(A Doll's House, 1973)
direção de Joseph Losey
elenco: Edward Fox, Trevor Howard e Delphine Seyrig

09
AGNES de DEUS
(Agnes of God, 1985)
direção de Norman Jewison
elenco: Anne Bancroft e Meg Tilly

10
DESCALÇOS no PARQUE
(Barefoot in the Park, 1967)
direção de Gene Saks
elenco: Robert Redford e Charles Boyer

GALERIA de FOTOS


outubro 03, 2014

******************* SALA VIP: “...E o VENTO LEVOU”

clark gable e vivien leigh


Os fãs norte-americanos de E o VENTO LEVOU / Gone with the Wind (1939) puderam apreciar novamente o filme, vencedor de 10 prêmios Oscar, nas comemorações de 75 anos de seu lançamento, com exibições especiais nas salas de cinema dos Estados Unidos. Nos dias 28 de setembro e 1º de outubro, quase 650 salas de cinema do país exibiram o filme em seu formato original, com uma apresentação especial por iniciativa do canal Turner Classic Movies (TCM), que preparou para a ocasião um DVD/Blu Ray especial de aniversário. O filme de 224 minutos de duração, adaptação do livro de mesmo nome de Margaret Mitchell, vencedor do prêmio Pulitzer, foi exibido pela primeira vez na cidade de Atlanta (Geórgia) em 15 de dezembro de 1939 e, desde então, foram nove relançamentos. A história de Scarlett O'Hara durante a conturbada Guerra de Secessão recebeu 10 estatuetas do Oscar, incluindo o primeiro prêmio da Academia para uma atriz afro-americana, Hattie McDaniel, vencedora na categoria Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel da aia Mammy. Segundo o site especializado Box Office Mojo, E o VENTO LEVOU ostenta o recorde de filme mais rentável de todos os tempos, com US$ 1,6 bilhão (reajustados de acordo com a inflação), à frente de Guerra nas Estrelas / Star Wars (1977), que arrecadou US$ 1,45 bilhão.

Associado ao TCM, o Harry Ransom Center da Universidade do Texas, em Austin, que abriga os arquivos do produtor independente David O. Selznick, apresenta desde o início de setembro e até 4 de janeiro de 2015 uma exposição sobre a história do filme. O vestido confeccionado com uma cortina verde de Scarlett e o vestido vermelho que ela usa no aniversário de Melanie, ambos de Walter Plunkett, estão entre os destaques da mostra. A exposição conta ainda com páginas do roteiro, que mostram que a famosa resposta final de Rhett Butler - Frankly, my dear, I don`t give a damn (Francamente, minha querida, eu não dou a mínima) - quase foi alterada pela frase Eu não me importo porque a frase original em inglês tem um impacto mais profundo do que pode ser traduzido. A exposição recorda que Talullah Bankhead, Paulette Goddard, Susan Hayward, Lana Turner e Jean Arthur estavam entre as estrelas da época que fizeram testes para o papel de Scarlett, que finalmente acabou com Vivien Leigh. Cadiz, em Ohio, cidade natal de Clark Gable, que teve a casa transformada em museu, e a localidade vizinha de New Philadelphia, também celebrarão o aniversário na próxima semana com uma exibição do filme e o leilão de objetos relacionados com o longa-metragem.

olivia de havilland

DUAS ou TRÊS COISAS sobre ...E o VENTO LEVOU

Símbolo máximo do romantismo, duelo entre o cinismo do galã e o mau-caratismo da mocinha, E o VENTO LEVOU, um dos clássicos mais populares da história do cinema, dirigido oficialmente por Victor Fleming e produzido por David O. Selznick, tem nos papéis principais Vivien Leigh como Scarlett O’Hara, Clark Gable como Rhett Butler, Olivia de Havilland como Melanie Hamilton e Leslie Howard como Ashley Wilkes. Trata-se de um suntuoso épico com a Guerra de Secessão (1861 - 1865) como pano de fundo - conflito armado entre os estados confederados (sul) e abolicionistas (norte), um dos mais sangrentos dos Estados Unidos, com 620 mil soldados mortos. Enquanto fortunas e famílias são destruídas, acompanhamos o percurso de altos e baixos da determinada Scarlett: juventude luxuosa e mimada; a paixão não correspondida; o falecimento da mãe e a loucura do pai; pobreza e fome; casamentos oportunistas; união interesseira com um aventureiro, numa relação de amor e ódio; a morte da filha etc. Mocinha egoísta e sem escrúpulos, Scarlett defende sua terra, Tara, a qualquer custo.
 
vivien leigh

Para os cinéfilos de plantão, uma obra obrigatória. Gostando ou não, ver E o VENTO LEVOU é uma experiência fundamental. Eu o assisti duas vezes, uma ainda menino, na tevê, dublado, e a segunda poucos anos atrás. Honestamente, não faz parte da minha lista de filmes favoritos. Inclusive, considero “O Morro dos Ventos Uivantes / Wuthering Heights”, do mesmo ano, superior. Admiro a fotografia espetacular, trilha sonora, cenografia, figurino, o esforço colossal do genial Selznick e as atuações de Clark Gable, Olivia de Havilland, Thomas Mitchell, Hattie McDaniel e Ona Munson, mas o argumento me parece arrastado e Scarlett é uma das anti-heroínas mais intragáveis do cinema – amo Vivien Leigh por interpretações futuras. Além disso nunca consegui engolir a substituição de George Cukor pelo inexpressivo Victor Fleming. Mas é uma questão de opinião. O evidente é que faz parte do imaginário coletivo e é amado por muitos.


ANTES das FILMAGENS

Margaret Mitchell, autora do romance no qual o filme se baseou, escreveu-o entre 1926 e 1929. Um mês após o seu lançamento, em 1936, o produtor Selznick comprou os direitos de filmagem por 50 mil dólares - a mais alta quantia paga até então pela adaptação do primeiro livro de um autor -, embora certa hesitação, motivada pelo tema (a Guerra Civil não garantia bilheteria) e a grandiosidade do projeto;

Sidney Howard (que morreu antes da estreia do filme) condensou as 1.037 páginas do futuro best-seller, mas o seu trabalho sofreria sucessivas alterações por outros roteiristas, entre os quais os famosos escritores F. Scott Fitzgerald e William Faulkner, todos procurando cumprir as exigências do produtor que ordenava extrema fidelidade ao texto original. Somente o nome de Howard figuraria nos créditos;

A primeira convidada para o papel principal, a superstar da Metro-Goldwyn-Mayer, Norma Shearer, odiou o personagem. Bette Davis desistiu por achar que teria que contracenar com um ator que odiava, Errol Flynn, na ocasião o mais cotado para Rhett Butler;

Ficou famosa a disputa pelo papel de Scarlett. Mais de 1.400 atrizes foram entrevistadas, sendo que mais de 400 fizeram leitura filmada do roteiro. Dentre as atrizes testadas estão Paulette Goddard (que por pouco não ganhou o papel), Jean Arthur, Lucille Ball, Tallulah Bankhead,  Claudette Colbert, Miriam Hopkins, Joan Crawford, Katharine Hepburn, Carole Lombard, Barbara Stanwyck, Loretta Young, Joan Bennett, Lana Turner, Susan Hayward e Margaret Sullavan. Com as filmagens iniciadas sem protagonista, o irmão de Selznick, Myron, visitou os sets com Laurence Olivier e sua namorada Vivien Leigh, uma inglesa de 27 anos. A apresentação de Vivien por Myron tornou-se célebre: “David, quero que conheça Scarlett O’Hara”. A busca chegara ao fim;

Desde que leu o livro, Vivien Leigh sonhou com o papel de Scarlett. Chegou a dizer em 1937, ainda em Londres: “Eu serei Scarlett O’Hara. Esperem e verão”. Isto era, no mínimo, curioso, uma vez que ela era na ocasião uma desconhecida em Hollywood;

Chamada para o papel da irmã mais nova de Scarlett, Judy Garland terminou em “O Mágico de Oz / The Wizard of Oz” (1939), sendo substituída por Ann Rutherford;

Gary Cooper recusou interpretar Rhett Butler, alegando que o filme seria o maior fracasso da história de Hollywood. Errol Flynn e Ronald Colman também foram pensados para o papel, mas o público escolheu Gable por votação, em um concurso da revista Photoplay. A autora Margarert Mitchell queria Basil Rathbone. Gable, na verdade, nunca pensou em fazer o papel de Butler e levou muito tempo para ler E o VENTO LEVOU, lendo-o mais por insistência da esposa Carole Lombard e de amigos;

A fim de conseguir Gable, o produtor entrou em acordo com seu sogro Louis B. Mayer, que cederia o astro, mas em troca entraria com participação de metade do investimento previsto para a realização, faria a distribuição e receberia 50% dos lucros;

leslie howard

Para Ashley Wilkes, Selznick tinha em mente Leslie Howard desde sempre, embora Melvyn Douglas, Ray Milland e Lew Ayres chegaram a ser cogitados;

A contratação de uma atriz para a bondosa Melanie não tardou. Na lista de candidatas, Maureen O’Sullivan, Janet Gaynor, Geraldine Fitzgerald, Frances Dee e Joan Fontaine, mas venceu a irmã desta última, a rainha das matinês da Warner, Olivia de Havilland;

A competição para o papel de Mammy foi acirrada. A primeira dama dos EUA, Eleanor Roosevelt, escreveu para o produtor do filme pedindo que o papel fosse dado à sua empregada. Entretanto, Clark Gable queria Hattie para o papel, o que ajudou bastante;

Foram confeccionados 2.500 figurinos para a superprodução.



DURANTE as FILMAGENS

Foram rodados 113 minutos da primeira cena filmada, a do incêndio em Atlanta, queimando-se cenários de filmes (“O Rei dos Reis / The King of Kings”, 1927; “King Kong / Idem”, 1933, etc.). Contudo, o fogo provocado foi tão intenso que moradores próximos ligaram para os bombeiros, pensando que a RKO estivesse ardendo em chamas;

As filmagens propriamente ditas começaram em 26 de janeiro de 1939 por George Cukor, que dirigiu apenas 4% da fita, mesmo sendo amigo pessoal e homem de confiança de Selznick. Ele iniciou a sequência do baile de Atlanta e, logo depois, foi despedido devido ao tom intimista que imprimia à narrativa e a influência de Clark Gable, que entrara em choque com o caráter disciplinador do diretor e não queria ser dirigido por um homossexual bem próximo ao seu passado de garoto de programa;

Desejando uma narrativa épica, Selznick pensou até em convocar o pioneiro D. W. Griffith (“Intolerância / Intolerance”, 1916) para prestar consultoria;

Visando agradar Gable, Selznick forneceu uma lista de diretores disponíveis: King Vidor, Jack Conway, Robert Z. Leonard e Victor Fleming. Sem vacilar, o galã optou por um dos mais fracos, Fleming, que dirigiu aproximadamente 45% do filme;

Esgotado pelos aborrecimentos seguidos com Vivien Leigh (que, a exemplo de Olivia de Havilland, ia ensaiar, em sigilo, na casa de Cukor), e insatisfeito com as reclamações constantes do tirano Selznick, Victor Fleming sofreu um colapso nervoso;

Sam Wood assumiu a direção, com 15% de participação no filme. Quando Fleming se recuperou, os dois diretores continuaram na direção, mas em horários e sets diferentes. William Cameron Menzies e Sidney Franklin também dirigiram várias cenas;

Cerca de mil figurantes, misturados bonecos de cera, contribuíram para a sequência em que Scarlett caminha entre os corpos de sobreviventes da batalha de Gettysburg;

Vivien Leigh trabalhou nos sets de filmagem por 125 dias, recebendo a quantia de 25 mil dólares, já Clark Gable trabalhou por 71 dias e ganhou 120 mil dólares;

Ninguém na produção acreditava que Vivien Leigh fosse resistir ao charme de Gable. Na verdade, eles não se entenderam, pois ela considerava pouco profissional que ele deixasse o estúdio sempre às seis da tarde. Já ele achava um abuso oferecer um papel norte-americano a uma britânica. Os dois protagonizaram acesas discussões com a atriz ameaçando abandonar as filmagens;

Vivien odiava o hálito de seu parceiro – ele comia cebolas de propósito e bebia licor poucas momentos antes de gravar –, deixando-a com náuseas. Ele revelou que, quando a beijava, pensava em um bife. Na pele de Rhett Butler e Scarlett O'Hara ou na de Clark Gable e Vivien Leigh, eles jamais se entenderam;

As diferenças entre o produtor e o fotógrafo Lee Garnes culminaram com a demissão deste, sendo substituído por Ernest Haller, que nunca havia feito um filme colorido antes. Garmes queria tons suaves, mas Selznick insistia em cores artificiais de cartão-postal.

clark gable

DEPOIS das FILMAGENS

Em 1º de julho de 1939 terminaram as filmagens e Selznick tinha para editar cerca de 60.000 metros de filme, equivalente a 28 horas de projeção;

A trilha sonora é uma das mais longas concebidas para um filme. No mesmo ano, o vienense Max Steiner criou nada menos que outras 11 partituras;

Trancado dia e noite com o editor Hal C. Kern e seu assistente, James E. Newcom, o produtor montou a fita sem consultar nenhum dos diretores que nela tomaram parte e ordenou a filmagem de cenas adicionais, como a que Scarlett se esconde debaixo da ponte numa tempestade enquanto uma tropa da União passa sobre a mesma;

A produção custou pouco mais de cinco milhões de dólares e, quatro anos depois de seu lançamento, a renda obtida nas bilheterias superava a marca dos 32 milhões de dólares;

A famosa frase de Rhett: “Frankly, my dear, I don’t give a damn / Francamente, querida, eu pouco me importo”, foi censurada pelo Código Hays. “Damn” era considerado pesado, mas ao pagar a multa de 5 mil dólares, Selznick conseguiu a liberação;

ona munson

O filme idealiza a sociedade branca do velho sul dos Estados Unidos: os senhores de escravos são protetores benevolentes e a causa confederada uma nobre defesa da terra natal e de um modo de vida. Com isso, apresenta tendenciosamente uma visão positiva sobre a sociedade sulista ou o próprio conceito sulista sobre a Guerra Civil;

Enquanto uma multidão de um milhão de pessoas se acotovelava pelas calçadas e ruas de Atlanta – então com 300 mil habitantes -, na Geórgia, uma pequena carreata rumava lentamente ao cinema Loew’s Grand, com a fachada decorada como a mansão de Twelve Oaks. Nesta noite gelada de 15 de dezembro de 1939, os atores Vivien Leigh, Clark Gable e Olivia de Havilland receberam o público na cerimônia de estreia. “Foi o maior evento que presenciei no sul dos EUA, disse o ex-presidente Jimmy Carter;

O elenco negro sequer foi convidado para a première, devido as leis racistas da Geórgia;

No Brasil, a estreia de gala aconteceu no Rio de Janeiro, no Cine Metro, em 12 de setembro de 1940, às 20h45m, com os 1.400 lugares do cinema inteiramente ocupados. A primeira dama do país, Darcy Vargas, patrocinou o evento, leiloando exemplares da obra de Margaret Mitchell autografados pelos astros principais do filme. No mesmo dia, diretamente de Hollywood, numa transmissão da Hora do Brasil, Gable, Vivien Leigh e Selznick saudaram o evento e contaram alguns detalhes da filmagem. O filme permaneceu oito semanas em cartaz com casa cheia;

selznick, vivien e o oscar
Foi a primeira fita a cores a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Levou também Oscar de Melhor Diretor (Fleming), Melhor Atriz (Leigh), Melhor Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Melhor Roteiro Adaptado (Sidney Howard), Melhor Fotografia a Cores (Ernest Haller e Ray Rennahan), Melhor Montagem (Hal C. Kern e James E. Newcom) e Melhor Cenografia (Lyle R. Wheeler), além de prêmios especiais. Concorreu ao Oscar de Melhor Ator (Gable), Melhor Atriz Coadjuvante (de Havilland), Melhor Trilha Sonora, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som;

Na mesma cerimônia da Academia em que E o VENTO LEVOU arrebatou o Oscar de Melhor Filme, o versátil Thomas Mitchell - que faz Gerald O’Hara, pai de Scarlett - ganhou o Oscar de Ator Coadjuvante por “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, de John Ford, como o bêbado doutor Josiah “Doc” Boone. Neste mesmo ano, ele faria três outros clássicos: “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” (Howard Hawks), “A Mulher Faz o Homem / Mr. Smith Goes to Washington” (Frank Capra) e “O Corcunda de Notre Dame / The Hunchback of Notre Dame” (William Dieterle);

Quarto de cinco filmes em que o diretor Victor Fleming e Clark Gable trabalham juntos. Os demais foram “Terra de Paixão / Red Dust” (1932), “A Irmã Branca / The White Sister” (1933), “Piloto de Provas / Test Pilot” (1938) e “Aventura / Adventure” (1945);

Nos 10 primeiros dos 100 Filmes de Todos os Tempos do American Film Institute (AFI);

Do elenco, ainda está viva Olivia de Havilland, aos 98 anos de idade;

Lady Vivien Leigh (1913 - 1967. Darjeeling / Índia), uma das maiores atrizes do teatro britânico, teve morte súbita por tuberculose aos 54 anos. Ao concluir “Os Desajustados”, O “Rei de Hollywood” Clark Gable (1901 - 1960) sofreu um infarto do miocárdio e morreu dez dias depois, em 1960.  Leslie Howard (1893 - 1943. Londres / Reino Unido) partiu para sempre durante a Segunda Guerra Mundial, aos 50 anos, quando o avião em que viajava de Lisboa para a Inglaterra foi abatido por aviões alemães. Hattie McDaniel (1895 - 1952. Wichita / Kansas) faleceu aos 57 anos, na Califórnia. Thomas Mitchell (1892 - 1962. Nova Jersey / EUA), um dos maiores coadjuvantes do cinema, aos 70 anos.