fevereiro 28, 2026

********** A LONGA VIDA de OLIVIA de HAVILLAND

 


 

Eu tive uma queda enorme por Errol Flynn.
Eu o achei irresistível por três anos seguidos,
mas ele nunca percebeu. Depois, ele se apaixonou
por mim, mas não rolou nada. Não me arrependo,
ele poderia ter arruinado minha vida.
OLIVIA de HAVILLAND

Observe Olivia de Havilland em “Tarde Demais”
e verá o que é uma atuação superior a tudo.
KATHARINE HEPBURN
(1907 – 2003. Hartford, Connecticut / EUA)

Cabelos: castanhos escuros
Olhos: castanhos escuros
Apelido: Livvie
Altura: 1,63 m



Ela viveu 104 anos. Morreu tranquilamente em 2020, dormindo, em seu luxuoso apartamento em Paris, cidade onde vivia discretamente desde 1953. Sua carreira durou 53 anos, de 1935 a 1988. Durante esse tempo, apareceu em 48 longas-metragens. Tinha algo majestoso e reservado, além de um toque de mistério e turbulência emocional reprimida. Era a última estrela sobrevivente da Era de Ouro de Hollywood. Protagonizou títulos icônicos, entre eles o épico colossal “... E o Vento Levou”, e formou uma dupla famosa com Errol Flynn em oito filmes. Irmã da também conhecida atriz Joan Fontaine, com quem nunca superou uma célebre rixa, OLIVIA de HAVILLAND (1916 - 2020. Tóquio / Japão) era filha de um advogado britânico e uma atriz residentes no Japão. O seu pai, notório por suas infidelidades, logo os abandonou e mais tarde se casou com sua governanta japonesa. Após o divórcio dos pais, quando tinha três anos de idade, ela foi com a mãe e a irmã aos EUA, para se estabelecer perto de São Francisco (Califórnia). Lilian deu aulas de dicção e canto às filhas e as apresentou às obras de Shakespeare.

A atriz fez sua estreia nos palcos em 1933, em uma produção amadora de
“Alice no País das Maravilhas”. Descoberta pelo mítico diretor Max Reinhardt, foi escalada para o papel de Hermia em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare, no Hollywood Bowl, ganhando a chance de atuar na adaptação cinematográfica de 1935, com James Cagney e Dick Powell. Sua grande oportunidade surgiu quando o produtor Hal B. Wallis a escalou para o filme de aventuras “Capitão Blood”, ao lado do ator australiano Errol Flynn. Resultou em um grande sucesso e ela foi contratada pela Warner Brothers. Existia uma química inegável entre OLIVIA De HAVILLAND e Errol Flynn. Eles estrelaram juntos mais sete filmes e se tornaram um casal cinematográfico de enorme popularidade. Ele era o sedutor atlético e malandro e ela, a beleza reservada atraída por aquele herói extravagante. Em entrevistas, negavam o romance incentivado pelo público. Ela afirmou mais tarde que Flynn a pediu em casamento, mas que embora apaixonada recusou porque receava o alcoolismo, a fama de promíscuo e os escândalos constantes do ator.
Ao longo da década de 1930, ela participou de vários filmes leves e românticos que pouco contribuíram para o avanço de sua carreira. Finalmente teve a chance de provar seu talento dramático ao ser emprestada ao produtor independente David O. Selznick, filmando o emblemático “... E o Vento Levou”, baseado no romance de Margaret Mitchell. A sua virtuosa Melanie Hamilton, o amor de Ashley (Leslie Howard), faz parte da história do cinema. Frustrada na Warner, ficou aliviada quando seu contrato se aproximou do fim em 1943. O estúdio, no entanto, se recusou a liberá-la, em razão dos períodos de “empréstimos”, fazendo com que OLIVIA De HAVILLAND acionasse a justiça. O juiz deu ganho de causa a atriz, criando um precedente na defesa dos direitos dos atores. A servidão contratual das estrelas de Hollywood havia acabado, e surgia a nova era de empresários, agentes e produtores independentes com recursos financeiros. Durante os dois anos longe das telas, trabalhou no rádio e visitou inúmeros hospitais militares, apoiando os soldados feridos que lutaram patrioticamente na Segunda Guerra Mundial.

Resgatando rapidamente o sucesso, ganhou o primeiro Oscar como a mãe solteira de
“Só Resta uma Lágrima”. Em 1948 brilhou com uma performance impressionante em “Na Cova das Serpentes”, sendo muito premiada. Este drama foi um dos primeiros a explorar a saúde mental, e ela interpretou uma mulher problemática que é enviada para um manicômio. No maravilhoso “Tarde Demais” (1949), OLIVIA De HAVILLAND iluminou a tela como uma jovem sem graça e rica dividida entre seu amor por um golpista (Montgomery Clift) e seu pai tirano (Ralph Richardson), ganhando seu segundo Oscar de Melhor Atriz, bem como um Globo de Ouro. Na década de 1950, sua carreira decaiu, embora tenha continuado filmando. Na tela pequena, fez participações especiais em minisséries populares e filmes. Em 2003 subiu ao palco do Oscar para ser homenageada e foi recebida com uma ovação de pé que durou cerca de quatro minutos. Em 2008, recebeu a Medalha Nacional das Artes dos Estados Unidos, concedida por George W. Bush. Em 2010, o presidente Nicolas Sarkozy a condecorou com a Legião de Honra.

Na vida pessoal, OLIVIA de HAVILLAND namorou o magnata Howard Hughes, o ator James Stewart e o diretor John Huston. Casada duas vezes – primeiro com o escritor Marcus Goodrich e depois com o jornalista do “Paris Match”, Pierre Galante. Ambas as uniões terminaram em divórcio. Teve dois filhos, Benjamin e Gisele. Ao longo dos anos, a atriz esteve envolvida em uma das inimizades mais faladas de Hollywood. Ela e sua irmã Joan Fontaine (15 meses mais nova) não se falavam, gerando constante fonte de especulação nas colunas de fofoca. Quando Joan ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 1942, por seu papel em “Suspeita/ Suspicion” (1942), de Alfred Hitchcock, ela se recusou a cumprimentá-la. O relacionamento foi marcado pela rivalidade extrema, que lhe valeram o epíteto de irmãs-inimigas. Enquanto OLIVIA De HAVILLAND demonstrava racionalidade e controle às suas atuações, Joan era a estrela frágil e emotiva de filmes famosos como “Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca” (1940) e “Carta de uma Desconhecida / Letter from an Unknown Woman” (1948).

A vulnerável, atormentada e sensual Joan Fontaine morreu aos 96 anos em 2013. Quando sua irmã mais velha subiu ao palco para receber o Oscar por
“Tarde Demais”, ignorou o seu aperto de mão, em retaliação por ter sido ignorada no passado. Mesmo na meia-idade, elas discutiam sobre o tipo de tratamento hospitalar que sua mãe deveria receber. Protetoras e possessivas em relação à mãe – cuja estranha influência foi fundamental para suas carreiras e para o relacionamento conturbado delas. Famosa por recusar o papel de Blanche DuBois na magnífica adaptação de Elia Kazan de “Um Bonde Chamado Desejo / A Streetcar Named Desire” (1951), que terminou nas mãos de Vivien Leigh ganhando um merecido Oscar, OLIVIA De HAVILLAND recebeu uma indicação ao Globo de Ouro por sua atuação em “Eu Te Matarei, Querida / My Cousin Rachel” (1952), ao lado de Richard Burton, um astro que ela odiou por suas bebedeiras e infidelidades, e foi elogiada por “A Dama Enjaulada / Lady in a Cage”, um thriller de 1964 no qual interpretou uma viúva inválida presa em um elevador por diabólicos invasores.

Em 1965, tornou-se a primeira mulher a presidir o Festival de Cinema de Cannes. Continuou atuando até o final da década de 1980, ganhando um Globo de Ouro em 1986 por
“Anastasia: O Mistério de Anna / Anastasia: The Mystery of Anna”, um filme para a TV. Nos seus 102 anos de idade, recebeu o honroso título de Dame, do Reino Unido. Sofisticada, com cabelos brancos e porte impecáveis, teve uma maturidade majestosa. Ela era uma atriz em todos os sentidos, uma grande estrela do cinema, uma das maiores.
10 FILMES de OLIVIA
(por ordem de preferência)
 
01
TARDE DEMAIS
(The Heiress, 1949)

direção de William Wyler
elenco: Montgomery Clift, Ralph Richardson, Miriam Hopkins
e Mona Freeman

 
Adaptação do romance de Henry James. Olivia é Catherine Sloper, uma mulher sem prendas sociais nem beleza suficiente para conseguir um marido. Até que aparece um pretendente (Montgomery Clift) e ela julga que encontrou o amor, embora o pai tirano diga que o rapaz não passa de um caçador de fortunas. Uma assombrosa interpretação da atriz, percorrendo os vários estados emocionais vividos pela personagem.
 
Oscar de Melhor Atriz
Globo de Ouro de Melhor Atriz-Drama
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos 
de Cinema de Nova Iorque
 
02
Na COVA das SERPENTES
(The Snake Pit, 1948)
 

direção de Anatole Litvak
elenco: Mark Stevens, Leo Genn, Celest Holm
e Beulah Bondi

 
Uma mulher desperta num hospício público e não faz ideia porque foi parar lá. Primeiro filme a mostrar, com realismo, como funcionava um asilo psiquiátrico. A interpretação da estrela é notável, sem nunca mendigar a compaixão do público, sendo sem dúvida uma das melhores da sua carreira. O filme fez um grande sucesso e teve um forte impacto, levando vários estados dos EUA a alterar as suas legislações de saúde mental.
 
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz
Nastro D´Argento de Melhor Atriz Estrangeira
Melhor Atriz do National Board of Review
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos 
de Cinema de Nova Iorque
Melhor Atriz do Festival de Veneza
 
03
E o VENTO LEVOU
(Gone with the Wind, 1939) 

direção de Victor Fleming
elenco: Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard,
Thomas Mitchell, Barbara O´Neil e Hattie McDaniel

 
A determinada, sedutora e manipuladora Scarlett O’Hara de Vivien Leigh é o pivô deste épico premiado, mas o contraponto que Olivia lhe faz com a doce, sacrificada e bondosa Melanie é absolutamente fundamental para o equilíbrio dramático, emocional e narrativo desta obra-prima. E há por aí muito boa gente que prefere a feliz, equilibrada, dedicada e refinadamente feminina Melanie, à atormentada, calculista e complicada Scarlett. 
 
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante
 
04
AS AVENTURAS de ROBIN HOOD
(The Adventures of Robin Hood, 1938)

direção de Michael Curtiz e William Keighley
elenco: Errol Flynn, Basil Rathbone, Claude Rains,
Eugene Pallette, Alan Hale e Una O'Connor

 
05
SÓ RESTA uma LÁGRIMA
(To Each His Own, 1946)

direção de Mitchell Leisen
elenco: John Lund

 
Oscar de Melhor Atriz
 
06
ESPELHOS D’ALMA
(The Dark Mirror, 1946) 

direção de Robert Siodmak
elenco: Lew Ayres e Thomas Mitchell

 
07
CAPITÃO BLOOD
(Captain Blood, 1935)
 

direção de Michael Curtiz
elenco: Errol Flynn, Lionel Atwill e Basil Rathbone

 
08
NASCIDA PARA o MAL
(In This Our Life, 1942)
 

direção de John Huston
elenco: Bette Davis, George Brent, Dennis Morgan,
Charles Coburn, Billie Burke e Hattie McDaniel

 
09
A CARGA da BRIGADA LIGEIRA
(The Charge of the Light Brigade, 1936)

direção de Michael Curtiz
elenco: Errol Flynn, Patric Knowles, Donald Crisp,
David Niven e Spring Byington

 
10
O INTRÉPIDO GENERAL CUSTER
(They Died with Their Boots On, 1941)

direção de Raoul Walsh
elenco: Errol Flynn, Arthur Kennedy, Gene Lockhart,
Anthony Quinn, Sydney Greenstreet e Hattie McDaniel

 

FONTES
The Films of Olivia de Havilland (1983)
de Tony Thomas
 
Olivia de Havilland
(1976)
de Judith M. Kass
 
Olivia de Havilland and the Golden Age of Hollywood
(2018)
de Ellis Amburn
 
Sisters: The Story of Olivia De Haviland and Joan Fontaine
(1984)
de Charles Higham

 
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