março 29, 2025

**** VALERIO ZURLINI, o CINEASTA da MELANCOLIA

jacques perrin e marcello mastroianni em dois destinos

 

Todos os meus filmes se parecem, 
do primeiro ao último. Neles, como na vida, 
amar é inútil, porque amar implica 
a infelicidade. É inútil acreditar 
em alguém porque irá se desapontar. 
Definitivamente, se trata sempre 
não da tragédia existencial, 
mas da tristeza existencial.
VALERIO ZURLINI
 
Não há cineasta mais delicado
 do que Valerio Zurlini. É um autor 
cuja doçura triste, delicadeza de traço, 
constância, têm muito a nos dizer. 
Sobre a vida, sem dúvida, 
mas também sobre o cinema.
INÁCIO ARAÚJO
(1948. São Paulo / SP)
crítico de cinema
 
 
Embora o nome de VALERIO ZURLINI (1926 – 1982. Bolonha / Itália) seja respeitado, raramente se encontram referências a sua obra em livros sobre cinema. Não compreendo porque motivo a literatura cinematográfica especializada demonstra completa ignorância em relação ao cineasta. Autor de algumas das mais singulares obras-primas produzidas entre os anos 1950 e 1970, no esplendor da era de ouro do cinema italiano, investiu uma rara delicadeza para compor narrativas intimistas. Nos seus filmes enxergamos a Itália através das percepções de um artista sensível e culto, visualmente influenciado pelos pintores Giorgio de Chirico, Giorgio Morandi e Ottone Rosai. Conhecido como o “Poeta da Melancolia”, sua criação fílmica mostra paisagens melancólicas, além de expor uma visão minuciosa e inquietante através de personagens muito bem construídos emocionalmente. Dirigiu apenas oito longas-metragens. Nos seus últimos anos de vida se dedicou ao ensino no Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma.
 
valerio zurlini
Depois de atuar na Resistência, se formou em Direito para contentar seu pai e entrou no Centro Universitário de Teatro, em Roma, estudando ao lado de Marcello Mastroianni, Giulietta Masina e Gabriele Ferzetti. Começou a se interessar pelo cinema no final da década de 1940. Entre 1950 e 1953 filmou onze documentários nos quais revelou talento, concebidos mais em forma de pequenos contos do que como fotografias de uma fatia da vida. Sua carreira alcança os longas-metragens em “Quando o Amor é Mentira” (1955), extraído do romance homônimo de Vasco Pratolini e apresentando um estilo narrativo elegante e sensível. A seguir escreveu o roteiro de “Guendalina / Idem” (1957), ganhando o cobiçado Nastro d'Argento. O seu reconhecimento ocorreu em 1959 com a obra-prima “Verão Violento”, um drama de amor tendo como pano de fundo o final da Segunda Guerra Mundial, confirmando a sua atitude de aprofundar o psicológico dos personagens. 
 
Em 1961, rodou “A Moça com a Valise”, um filme afetuoso e delicado de um amor platônico entre um adolescente e uma mulher um pouco mais velha. Em 1962, concretizou o seu projeto “Dois Destinos”, adaptação de outra obra de Pratolini, onde mais uma vez predomina a poesia dos sentimentos. Após alguns filmes menores, VALERIO ZURLINI voltou a lidar com o mundo dos sentimentos, mas desta vez gravitando em torno das dúvidas existenciais e do fantasma da morte, em “A Primeira Noite de Tranquilidade”, de 1972. Com grande habilidade, em 1976, dirigiu a versão cinematográfica de “O Deserto dos Tártaros”, que traduziu o romance mais popular de Dino Buzzati em imagens esplêndidas. Cineasta   da   melancolia, ele   filmava a trajetória humana em busca de sua própria identidade. Não parece há saída para os seus personagens   senão   viver a vida, mesmo na crença de que não havia objetivo nenhum na existência. Talvez o que una todos esses personagens seja a tristeza. 

zurlini e jacques perrin
O francês Jacques Perrin era o seu ator favorito. Ele protagoniza três das suas obras mais importantes: “A Moça com a Valise”, “Dois Destinos” e “O Deserto dos Tártaros”. Chama a atenção pela doçura, pela beleza triste. Não resta dúvida de que a infelicidade se abaterá sobre ele. Apesar do sucesso de crítica e de público de seus filmes, VALERIO ZURLINI não conseguiu concretizar vários projetos. Planejou com Pier Paolo Pasolini, seu amigo, um filme sobre São Paulo, que não se realizou. Se dedicou a “Al di la dal Fiume e tra gli Alberi”, estrelado por Burt Lancaster e Audrey Hepburn, mas morreu antes de iniciá-lo. Sua morte prematura, aos cinquenta e seis anos, aconteceu em consequência de uma hemorragia gastrointestinal causada por uma cirrose hepática.
    
Após sua morte, seu trabalho caiu em relativa obscuridade, mas recuperou popularidade na década de 2000, depois que várias de suas retrospectivas foram recebidas com sucesso internacional. Durante os longos invernos venezianos, poucos anos antes de morrer, ele escreveu sobre arte, da qual era um grande conhecedor. Deixou inconcluso um romance – “L’Estate Indiana” – e no ano seguinte ao de sua morte, em 1983, foi publicado, com prefácio de Pratolini, o seu “Gli Anni delli Immagine Perdute”. É um diretor que poderia ter ido mais longe, ter feito muito mais filmes. Uma obra interrompida pelas dificuldades de produção, pelos amores fracassados, pela doença. A despeito do esquecimento em torno da sua filmografia (tanto na Itália quanto fora), não há como negar os seus extraordinários e sempre atuais filmes, nascidos de um verdadeiro autor.
 
claudia cardinale em “a moça com a valise
thriller de o deserto dos tártaros
TODOS os FILMES de ZURLINI
(por ordem de preferência)
 
01
DOIS DESTINOS
(Cronaca Familiare, 1962) 
 
elenco: Marcello Mastroianni, Jacques Perrin, Sylvie, 
Salvo Randone e Valeria Ciangottini
 
Separados ainda crianças, dois irmãos se reencontram adultos. A longa separação fez com que poucas semelhanças fossem preservadas. O mais velho, um jornalista, tornou-se ideologicamente de extrema esquerda. O mais novo, educado pela aristocracia local, frequentou os melhores colégios. Caberá ao primogênito cuidar do frágil caçula que está muito doente. Sóbrio retrato de laços de sangue e barreiras sociais que ora atraem, ora afastam as pessoas. Um belo drama existencial com excelentes atuações.
 
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Veneza
 
02
VERÃO VIOLENTO
(Estate Violenta, 1959)
 
elenco: Eleonora Rossi Drago, Jean-Louis Trintignant, 
Enrico Maria Salerno e Jacqueline Sassard
 
Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, jovens italianos, ricos e desocupados, gastam seus dias à beira do mar, animados por romances passageiros e inconsequentes, longe dos campos de batalha e da mira dos bombardeiros norte-americanos. Um deles se apaixona por uma mulher mais velha, viúva de um oficial da Marinha. O filme mostra o vazio que circundava a juventude daquele período, um vazio intelectual, cultural, uma ausência de fé, uma ausência de expectativa em relação ao futuro.
 
03
A PRIMEIRA NOITE de TRANQUILIDADE
(La Prima Notte di Quiete, 1972)
 

elenco: Alain Delon, Giancarlo Giannini, Sonia Petrovna, 
Renato Salvatori, Alida Valli, Salvo Randone 
e Lea Massari
 
Filme italiano de maior sucesso em 1972, foi também o que o diretor confessou que teve menos prazer em realizar. Ele e o ator-produtor Alain Delon não se entenderam e discutiram muito. Para Zurlini, Delon era o extremo oposto da moral do seu personagem, um maduro professor de literatura à deriva e prestes a se separar da mulher. Ateu e alcóolatra, ele se apaixona por uma aluna que faz parte de um grupo de playboys, sai com qualquer um e está envolvida em pornografia e prostituição. 
 
04
A MOÇA com a VALISE
(La Ragazza con la Valigia, 1960)

elenco: Claudia Cardinale, Jacques Perrin, Romolo Valli, 
Corrado Pani e Gian Maria Volontè
 
Esse filme tornou a bela Claudia Cardinale uma estrela internacional. Ela faz uma garota pobre, abandonada à própria sorte por um galanteador, que se torna amiga de um adolescente rico e solitário (e irmão mais novo do playboy). Seduzida pelo primeiro com falsas promessas, ela não aceita ser abandonada. O desenvolvimento da trama, a vida da mulher vítima de um mundo cínico e o amor impossível de um garoto, encontra seu clímax nas mais óbvias e banais situações de uma cidade à beira mar.
 
05
O DESERTO dos TÁRTAROS
(Il Deserto dei Tartari, 1976)
 
elenco: Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Giuliano Gemma, 
Helmut Griem, Philippe Noiret, Francisco Rabal, 
Fernando Rey, Laurent Terzieff, Jean-Louis Trintignant 
e Max von Sydow
 
Adaptado do romance de Dino Buzzati, produzido por Jacques Perrin e com um elenco de estrelas.  O resumo mais acabado de suas ideias: o tempo, a inquietação (que aqui se traduz por tédio), a expectativa, é o que nos destrói. Tenente é enviado para uma fortaleza localizada no deserto, construída para prevenir um possível ataque pelos temidos tártaros. Todos os soldados que habitam o local sacrificam sua juventude para defender a nação do inimigo imaginário, vigiando o horizonte.
 
David de Donatello de Melhor Filme e Melhor Direção
 
06
MULHERES no FRONT
(Le Soldatesse, 1965)

elenco: Mario Adorf, Anna Karina, Marie Laforêt, 
Lea Massari, Tomas Milian e Valeria Moriconi
 
Grupo de prostitutas é
“convocado” para trabalhar em prostíbulos militares italianos durante a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de animar seus soldados. A trama, no entanto, se desenvolve a partir do relacionamento das garotas com os três militares que as conduzem na longa viagem que empreendem em direção à base militar, localizada em uma região montanhosa da Grécia. No elenco, Anna Karina, a musa de Godard.
 
07
SENTADO à sua DIREITA
(Seduto alla sua Destra, 1968) 

elenco: Woody Strode, Franco Citti, Jean Servais 
e Pier Paolo Capponi
 
Livre adaptação da biografia do político africano Patrice Hemery Lumumba, um líder nacionalista que se tornou primeiro-ministro do Congo e foi assassinado depois de uma crise política. Foi lançado em alguns países com o título de
“Jesus Negro”. A intenção era apresentar Lumumba como Cristo, convivendo no cárcere com um delinquente que corresponderia ao ladrão crucificado à esquerda de Cristo. A influência de Pier Paolo Pasolini é evidente, inclusive na participação de um dos seus atores, Sergio Citti.
 
08
QUANDO o AMOR é MENTIRA
(Le Ragazze di San Frediano, 1955)

elenco: Antonio Cifariello, Rossana Podestà, Giovanna Ralli 
e Corinne Calvet
 
As artimanhas utilizadas por um jovem mecânico, em seus jogos de sedução, chegando a namorar cinco garotas ao mesmo tempo. O realizador bolonhês transforma esta comédia com toques irônicos num estudo psicológico sobre a vaidade humana. Adaptado livremente do romance de Vasco Pratolini, a estreia de Zurlini em longa-metragem seria o seu único filme mais leve, embora também seja tingido com alguma angústia. Um estudo sensível e divertido das psicologias, especialmente das mulheres.
 
valerio zurlini
FONTES
“A Dimensão do Silêncio no Cinema de Valerio Zurlini” (2008)
de Celia Regina Cavalheiro
 
“Elogio Della Malinconia. Il Cinema di Valerio Zurlini”
(2000)
de Giamfranco Casadio
 
“A Praia no Deserto. Os Filmes de Valerio Zurlini”
(2007)
de Francesco Savelloni
 
“Valerio Zurlini”
(1993)
de Sergio Toffetti
 
“Valerio Zurlini”
(2001)
de Gianluca Minotti

 
o deserto dos tártaros

“Viver a vida não possui outra finalidade senão deixá-la escorrer e a morte é a única justificativa... Não existe validade de um sentimento, não existe validade de uma ilusão, não existe idealismo que dure, não existe nada que escape da amarga sobrevivência. De minha parte existe um consolo cristão, mas em sentido leigo, pagão.”
VALERIO ZURLINI
 


março 15, 2025

**** INGRID BERGMAN: FASCINANTE ... e de DIREITA



 

O que quer que ela fizesse,
eu sempre ficava fascinado pelo seu rosto.
Em seu rosto, a pele, os olhos, a boca,
especialmente a boca. Havia esse brilho
muito estranho e uma enorme atração erótica.
INGMAR BERGMAN
(1918 – 2007. Uppsala / Suécia)
 
Aos poucos, vai se revelando no seu rosto,
no seu sorriso, no seu modo de olhar,
na sua naturalidade de gestos, uma emoção,
um impulso sincero para as coisas,
uma iluminação íntima que a transformam.
Tudo passa a existir fundamente
nessa mulher de Cinema.
VINÍCIUS de MORAES
(1913 – 1980. Rio de Janeiro / RJ)
 


Altura: 1,75 m
Cabelos: castanhos claros
Olhos: azuis
 

 
No cinema, foi a inspiração para a célebre frase “Nós sempre teremos Paris”, com a qual o durão Humphrey Bogart deixava incompleta a história de amor mais comovente da telona. Para mim, a maior atriz de cinema que já existiu. Com uma carreira de cinco décadas, frequentemente considerada uma das estrelas mais influentes da história cinematográfica, tem cinéfilo que prefere Katharine Hepburn ou Bette Davis, outros Anna Magnani, Greta Garbo, Joan Crawford ou até mesmo Meryl Streep, eu considero INGRID BERGMAN (1915 – 1982. Estocolmo / Suécia) a número 1. Dona de uma beleza natural, irradiante e delicada, era adorada pelo público. Tinha extraordinário talento e sensibilidade, projetando essas qualidades nas telas. Politizada, militante, filiada ao partido Republicano, se manifestou em campanhas políticas conservadoras, apoiando Dwight D. Eisenhower, Richard Nixon e Ronald Reagan, entre outros. Que maravilha!
 
Não era uma beleza icônica, tinha uma pele impecável e aquela aparência encantadora. A mulher por trás do mito era complexa. Tímida, simples, divertida, teimosa e de bom coração, às vezes se comparava com um trem em movimento, nada nem ninguém poderia detê-la quando decidia fazer algo. Quer fosse um novo visual, um papel no cinema, casamento ou mudança de país. Tinha uma determinação de aço. Impulsiva, sentimental, gentil, generosa e leal aos amigos. Nunca foi uma típica celebridade, ela não conseguia ser indiferente, não projetava poses glamurosas. Aos 12 anos de idade, escreveu no diário: “Preciso manter um registro dessa grande vida que está à minha frente, porque serei uma das estrelas mais importantes”. Aos 17 anos, fez figuração em “Landskamp”. Em 1933, ingressou no Royal Dramatic Theatre School de Estocolmo, onde havia estudado Greta Garbo e Lars Hanson, impressionando seus professores.
 
gosta ekman e ingrid em intermezzo
Seu primeiro papel no cinema foi na comédia
“O Conde da Cidade Velha / Munkbrogreven” (1935). Nos anos seguintes, fez uma série de filmes na Suécia. Tornou-se uma atriz elogiada e celebridade local com “Intermezzo: uma História de Amor / Intermezzo” (1936), no qual faz uma pianista que tem um caso com um violinista famoso e casado, interpretado por Gösta Ekman. Seu carisma e performance hipnotizante rapidamente fizeram dela uma sensação. Atendo aos novos talentos europeus, o produtor independente de Hollywood David O. Selznick obteve os direitos da história e assinou um contrato com a atriz. INGRID BERGMAN foi para a Califórnia e estrelou o remake “Intermezzo: uma História de Amor / Intermezzo: A Love Story” (1939). O longa foi um êxito estrondoso e ela também. Sua beleza era diferente de tudo que a indústria cinematográfica já havia visto, mas com um contrato de exclusividade por sete anos, Selznick não sabia como utilizá-la.

 
Considerada alta demais e diferente dos padrões da meca do cinema, ele tentou transformar o seu rosto e mudar o seu nome, como era típico em Hollywood, mas ela recusou, ameaçando voltar para sua terra natal. Ficando algum tempo sem filmar, fez uma peça na Broadway, “Liliom”, ao lado de Burgess Meredith, alcançado sucesso de crítica e público. Por fim, emprestada a estúdios, foi utilizada em personagens medíocres. Indignada, lutou para substituir Lana Turner como a barata prostituta Ivy Peterson de “O Médico e o Monstro” (1941), produção da Metro-Goldwyn-Mayer. Apoiada pelo astro Spencer Tracy, que desempenhava o papel-título, conseguiu o que pretendia, reafirmando seu talento. Ela foi um sucesso instantâneo de bilheteria. As pessoas amavam sua beleza natural, sua aparente inocência, sua inteligência. INGRID BERGMAN sabia o que queria. Ela assumia papéis difíceis. Amava o desafio.
 
casamento de ingrid com lindstrom
Sua presença brilhante e genuína foi como um sopro de ar fresco para o público mundial. Ela era real da cabeça aos pés, tanto na vida quanto na tela. Idolatrada não por seu estilo de vida extravagante, ou pela existência mitológica que a maioria das celebridades tem, mas pelo talento. Uma atriz versátil que cativou com sua suavidade. Na indústria do entretenimento, fez poucos amigos, entre eles Alfred Hitchcock, Cary Grant e Katharine Brown. À semelhança de outra diva sueca, Greta Garbo, era reservada. No entanto, ao contrário de Garbo, sua personalidade pública não era de gelo e mistério, mas acolhedora. Em 1942, atuou em “Casablanca”, que faria dela uma estrela. Concorreu ao primeiro Oscar por “Por quem os Sinos Dobram”. Brilhou em “Os Sinos de Santa Maria / The Bell’s of St. Mary’s” (1945) e “Interlúdio” (1946),
que conta com o talento de Hitchcock e a química do casal protagonista.

 
Teria o Oscar nas mãos por sua esplêndida atuação em “À Meia-Luz”, de George Cukor. Nesse drama, faz a ingênua Paula Alquist, que se casa com um sujeito sombrio e dominador (o francês Charles Boyer). Ao filmar três longas com o mestre do suspense Hitchcock, foi imortalizada como sua musa. Voltou aos palcos da Broadway, brilhando em “Joana de Lorraine”, de Maxwell Anderson. Na vida amorosa, INGRID BERGMAN teve o seu primeiro amante aos dezoito anos: Edvin Adolphson, com quem trabalhou em peças e filmes. Ela se casou aos 22 anos com Petter Lindstrom, um dentista bonitão e inteligente, que acabaria se tornando neurocirurgião. Durante seu casamento, teve casos passageiros. Namorou Spencer Tracy durante as filmagens de “O Médico e o Monstro” e caiu de amores por Gary Cooper ao trabalharem em “Por quem os Sinos Dobram”. Segundo o notável Cooper: “Ninguém me amou mais do que Ingrid Bergman.”
 
Na época, ela visitou campos militares para divertir soldados e participou de campanhas de bônus de guerra. Logo após o fim do conflito bélico, foi a Europa com o mesmo propósito, vendo a devastação generalizada e iniciando um relacionamento com o famoso fotógrafo Robert Capa. O diretor Victor Fleming se apaixonou pela irresistível sueca e nunca superou a desilusão ao ser abandonado. Antes dele, em 1945, ela teve um breve caso com o músico Larry Adler. O milionário Howard Hughes ficou impressionado com ela, telefonando para informá-la que tinha comprado a RKO Radio Pictures como um presente para a atriz. Gregory Peck admitiu ter tido um romance com ela nos bastidores de “Quando Fala o Coração”. Na autobiografia de Anthony Quinn, ele menciona suas aventuras sexuais com a atriz. Na realidade, ela tinha um espírito livre para criar raízes com alguém. Seu principal amante sempre foi seu trabalho.
 
ingrid e os filhos peter e isabella
Descontente com o sistema hollywoodiano, INGRID BERGMAN se comoveu com o neo-realismo do italiano Roberto Rossellini em “Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta” (1945), escrevendo uma carta ao diretor, oferecendo-se para trabalhar com ele e concluindo:
Só sei dizer uma coisa em italiano: Ti amo. Resultou na protagonista do impactante “Stromboli”, filmado numa ilha vulcânica na Itália. Apesar de Roberto ser casado, ter um caso com diva Anna Magnani e, ao mesmo tempo, dormir com uma infinidade de outras mulheres, ele se apaixonou por ela. Encantada com a vitalidade e a originalidade do cineasta, ela também se apaixonou, engravidando. Os fãs ficaram escandalizados quando se mudou para Roma e começou a viver abertamente com ele. Passou a recebeu cartas ofensivas e as ofertas de trabalho nos Estados Unidos desapareceram da noite para o dia. “Nunca mais quero ver um filme com essa vagabunda”, dizia o público manipulado e revoltado.
 
O escândalo épico levou INGRID BERGMAN a ser denunciada no Senado dos EUA por Edwin C. Johnson, um senador esquerdista, que se referiu a ela como “um exemplo horrível de republicana e uma poderosa influência para o mal”. Seu comportamento sofreu severas críticas, resultando na sua classificação como “persona non grata”. De 1950 a 1955, o casal fez seis filmes excelentes, à frente do seu tempo e geralmente não foram bem recebidos, especialmente nos EUA. Ela precisava recorrer a reservas de coragem para suportar o escândalo e a separação de sua filha com Peter, Pia. Mas estava apaixonada, conseguindo suportar as desilusões se dedicando ao trabalho. Ela teve três filhos com Rosselini, um menino, Robin, e as meninas gêmeas, Isabella e Ingrid. Possessivo, ele não permitia que a esposa trabalhasse com outros diretores. Federico Fellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica queriam trabalhar com ela e ele vetou.
 
O casamento terminou quando Rossellini se apaixonou por outra e em 1957 eles se divorciaram. Em 1958, ela casou-se mais uma vez, com Lars Schmidt, um empresário teatral de uma rica família sueca. Ela estava reconstruindo sua carreira e negligenciou o casamento. Havia um elemento de autodestruição na atriz. Quando tinha o amor que desejava, se tornava insegura e entediada e precisava escapar para outra história. Não conseguia se agarrar ao matrimônio. Como mãe, sempre esteve emocionalmente presente e protetora dos filhos, mas sua devoção maior era seu trabalho. Depois dos anos longe de Hollywood, ela ainda preservava o status de estrela, como mostrou o sucesso de “Anastácia, a Princesa Esquecida / Anastasia” (1956). Recuperando o carinho do público, ganhou o segundo Oscar. Na cerimônia, foi o leal amigo Cary Grant quem recebeu a estatueta da atriz. Foi a maneira perfeita de recebê-la de volta. 
 
ingrid e o oscar 1975
Faria sua primeira aparição pública pós-escândalo em Hollywood no Oscar de 1958, quando foi a apresentadora do prêmio de Melhor Filme. Além disso, depois de ser chamada por Cary Grant e subir ao palco, foi aplaudida de pé. Sua reabilitação se confirmou em diversos outros filmes, entre eles o êxito da comédia “Indiscreta” (1958), novamente ao lado de Cary Grant. Conhecida por ser a primeira a chegar ao estúdio e a última a sair, INGRID BERGMAN também era uma profissional dos palcos. Em 1957, protagonizou “Chá e Simpatia” em Paris. Na década de 1960, concentrou-se principalmente em trabalhos teatrais e aparições em telefilmes de prestígio como “A Volta do Parafuso / The Turn of The Screw” (1959), baseado em Henry James, pela qual ganhou o Emmy de Melhor Atriz; e 24 Horas na Vida de Uma Mulher / Twenty-Four Hours in a Woman's Life (1961), do romance de Stefan Zweig, entre outros.
 
Não apareceu em muitos filmes como antes, mas continuou filmando entre a Europa e os Estados Unidos. No teatro, fez “Um Mês no Campo”, de Turgenev, e “A Mais Sólida Mansão”, de Eugene O’Neill. Surpreendeu como uma idosa sem graça no policial “Assassinato no Oriente Express” (1974), ganhando o terceiro Oscar, dessa vez como Melhor Atriz Coadjuvante. Generosa, declarou que a estatueta estaria melhor nas mãos de Valentina Cortese por “A Noite Americana / La Nuit Amèricaine” (1973). Concordo com ela. Por fim, trabalhou com Ingmar Bergman em “Sonata de Outono”, concorrendo ao Oscar. INGRID BERGMAN morreu em 1982, em Londres, um dia depois de uma festinha com amigos em seu aniversário de 67 anos. Desapareceu desta vida com a mesma coragem e suavidade com que a viveu. No seu enterro, um violino tocou “As Time Goes By”, tema de “Casablanca”, relembrando sua performance mais famosa.
 
Lutando contra um câncer, encarou a doença com coragem e sem fatalismo, sendo vencida após oito anos. No mesmo ano em que morreu, sua filha Pia Lindström recebeu o prêmio Emmy de Melhor Atriz que a mãe ganhou postumamente por “Uma Mulher Chamada Golda / Golda” (1982), um aclamado telefilme que coroou sua trajetória também com um Globo de Ouro. Sua comovente performance da primeira-ministra israelense Golda Meir foi seu magistral canto do cisne. Dezessete anos depois, em 1999, ficou em 4º lugar na lista das maiores lendas femininas do cinema do American Film Institute (AFI). Ela continua a ser um ícone cultural - pelos seus filmes, sua beleza e seu talento. Vive na nossa lembrança e é eterna em celuloide. Viva Ingrid, a número 1!
 
ingrid e bogart em casablanca


12 FILMES de INGRID BERGMAN
(por ordem de preferência)
 
01
INTERLÚDIO
(Notorious, 1946)

direção de Alfred Hitchcock
elenco:  Cary Grant, Claude Rains e Louis Calhern
 

Tem algumas das cenas mais famosas e icônicas de Hitchcock. Ingrid interpreta a filha de um alemão recrutada por um agente norte-americano (Cary Grant) para se infiltrar como espiã em um grupo de nazistas no Rio de Janeiro. Ela acaba se casando com o líder deles, mas se apaixona pelo seu contato no governo dos Estados Unidos.
 
02
SONATA de OUTONO
(Hostsonaten, 1978)

direção de Ingmar Bergman
elenco:  Liv Ullmann, Lena Nyman, Gunnar Björnstrand e Erland Josephson

 
Pianista famosa (Ingrid) visita a filha, Eva (Liv Ulmann), com quem sempre teve uma relação distante, na Suécia. Ela se surpreende ao encontrar sua outra filha, Helena (Lena Nyman), que tem problemas mentais e estava internada numa instituição. A tensão entre mãe e filha cresce até elas colocarem tudo em panos limpos.
 
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York
David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira
Melhor Atriz do National Board of Review
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz

 
03
CASABLANCA
(Idem, 1942)

direção de Michael Curtiz
elenco: Humphrey Bogart, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt Sydney Greenstreet, e Peter Lorre

 
Ilsa Lund é o personagem mais lembrado de Ingrid. Durante a Segunda Guerra Mundial, Ilsa reencontra em Casablanca, no Marrocos, o norte-americano durão Rick (Humphrey Bogart), que dirige uma casa noturna e com quem viveu um romance inesquecível em Paris. Ela está casada e precisa da ajuda do antigo amante para fugir dos nazistas.
 
04
POR QUEM os SINOS DOBRAM
(For Whom the Bell Tolls, 1943)

direção de Sam Wood
elenco:  Gary Cooper, Akim Tamiroff, Katina Paxinou, Arturo de Córdova, Vladimir Sokoloff e Joseph Calleia
 
 
Baseado em best-seller de Ernest Hemingway. Um norte-americano vai a Espanha lutar na Guerra Civil. Sua missão é explodir uma ponte. Quando se apaixona por uma espanhola, questiona sua perigosa tarefa e seu lugar em uma guerra estrangeira.
 
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz
 
05
À MEIA-LUZ
(Gaslight, 1944)

direção de George Cukor
elenco:  Charles Boyer, Joseph Cotten, Dame May Whitty e Angela Lansbury

 
Paula (Ingrid), jovem recém-casada, se muda para a casa de uma tia rica que morreu misteriosamente. Seu sinistro marido, Gregory (Charles Boyer), dono de um segredo que fará de tudo para proteger, mantém a insegura e frágil esposa isolada de todos.
 
Oscar de Melhor Atriz
Globo de Ouro de Melhor Atriz/Drama
Melhor Atriz do National Board of Review
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

 
06
VIAGEM à ITÁLIA
(Viaggio in Italia,, 1954)

direção de Roberto Rossellini
elenco:  George Sanders

 
Um dos mais bem sucedidos filmes da dupla Ingrid-Rossellini. Um rico casal que vive na Inglaterra viaja para Nápoles, na Itália, para vender uma propriedade. Porém, o casamento entra em crise e a tensão entre os dois cresce. Diversas experiências fazem com que acabem redescobrindo o verdadeiro sentido do amor entre eles.
 
07
QUANDO FALA o CORAÇÃO
(Spellbound, 1945)

direção de Alfred Hitchcock
elenco:  Gregory Peck, Michael Chekhov e Rhonda Fleming
 

Ingrid é uma fria psiquiatra que trabalha em uma clínica para doentes mentais. Ela se apaixona pelo sinistro novo diretor (Peck). Com amnésia, ele não tem muitas informações sobre um crime que talvez tenha cometido. Destaque para a icônica e sensacional sequência do sonho que foi desenhada pelo pintor surrealista Salvador Dalí.
 
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York
Melhor Atriz no Festival de Veneza

 
08
MAIS uma VEZ ADEUS
(Goodbye Again, 1961)

direção de Anatole Litvak
elenco:  Yves Montand, Anthony Perkins, Jessie Royce Landis e Michèle Mercier

 
Baseado em romance de Françoise Sagan. Romântica e sofisticada, Ingrid é uma bem-sucedida decoradora de interiores de Paris, numa relação aberta com empresário (Montand) mulherengo e perseguida por um jovem apaixonado e irresponsável (Perkins).
 
09
INDISCRETA
(Indiscreet, 1958)

direção de Stanley Donen
elenco: Cary Grant e Cecil Parker

 
Comédia elegante, romântica e divertida. Apesar da carreira vitoriosa, uma famosa diva do teatro (Ingrid) não tem muita sorte no amor. Quando ela conhece um rico banqueiro (Grant), a atração é imediata e iniciam um apaixonado romance. Concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia/Musical, perdendo para Rosalind Russell.
 
10
O MÉDICO e o MONSTRO
(Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1941)

direção de Victor Fleming
elenco: Spencer Tracy, Lana Turner, Donald Crisp e C. Aubrey Smith

 
Na clássica história de terror baseada no romance de Robert Louis Stevenson, um renomado médico (Tracy) elabora uma fórmula que desperta o pior das pessoas. Como cobaia do experimento, ele bebe a poção e seu lado demoníaco é revelado. Entre maldades, termina assassinando a ingênua prostituta interpretada por Ingrid.
 
11
As ESTRANHAS COISAS de PARIS
(Elena et les Hommes, 1957)

direção de Jean Renoir
elenco: Jean Marais, Mel Ferrer e Juliette Gréco

 
O primeiro filme de Ingrid depois de deixar Rossellini. Embora não tenha sido um sucesso, desde então passou a ser considerado uma das suas melhores atuações. Nesta comédia romântica sofisticada, uma jovem condessa empobrecida fica viúva de um príncipe polaco e decide viver em Paris, onde acredita que será bem-sucedida no amor.
 
12
ASSASSINATO no EXPRESSO do ORIENTE
(Murder on the Orient Express, 1974)

direção de Sidney Lumet
elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Jacqueline Bisset, Sean Connery, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark e Michael York

 
Suspense policial baseado no best-seller de Agatha Christie. O longa acompanha o sagaz detetive Hercule Poirot (Albert Finney) enquanto ele investiga o assassinato de um passageiro, golpeado por múltiplas facadas, em um luxuoso trem preso na neve.
 
Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante
BAFTA de Melhor Atriz Coajuvante

 

TRÊS VEZES INGRID BERGMAN
“Fiz tantos filmes que foram mais importantes, mas o único sobre o qual 
as pessoas querem falar é aquele com Humphrey Bogart.”
 
“Charles Boyer foi o ator mais inteligente com quem já trabalhei,
e o mais legal. Muito culto, bem-educado.”
 
“Eu nunca fui considerada uma grande beldade.
Essa era Hedy Lamarr.”
 

FONTES 
Ingrid Bergman, a Personal Biography
(2006)
de Charlotte Chandler
 
Ingrid Bergman - História de Uma Vida
(1981)
de Alan Burgess
 
Minha História
(1980)
de Ingrid Bergman
 
Notorious: The Life of Ingrid Bergman
(1997)
de Donald Spoto
 
The Complete Films of Ingrid Bergman
(1989)
de Lawrence J. Quirk  

GALERIA de FOTOS
  

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