maio 23, 2011

****************** PASOLINI, o POETA ROTEIRISTA





Genial e polêmico, PIER PAOLO PASOLINI (1922 - 1975. Bolonha / Itália) era militante do amor pelo excluído, pelo fora da ordem, escandalizando para mostrar os pontos cegos da civilização. Ele gostava de afirmar que era, acima de tudo, poeta. Era um homem de letras, portanto. E se fazia tal afirmação, com recorrente ênfase, é porque o contrário dela se lhe afirmava com maior ênfase ainda. Acontece que, homem de cinema, viu-se vítima do poder industrial dessa arte, essencialmente de massa. Desse modo, ficou para história o cineasta, aquele que realizou impactantes, ousados e desaforados filmes, tais como “Teorema”, “Pocilga” e “Saló ou os 120 dias de Sodoma”, dentre outros. A maioria com roteiro assinado pelo homem com formação em Letras, que, aos sete anos, escreveu seus primeiros poemas, dedicados à sua mãe.

Depois de roteirizar importantes filmes italianos, a exemplo de “A Mulher do Rio” (Mario Soldati) e “As Noites de Cabíria” (Federico Fellini), PASOLINI, homem de teatro também, amante da ópera, escreve o roteiro de um dos mais importantes filmes do cinema italiano posterior ao neo-realismo. Trata-se de “A Longa Noite de Loucuras / La Notte Brava”, dirigido por Mauro Bolognini e lançado em 1959. O filme é PASOLINI do começo ao fim, e em grande forma. O cineasta brasileiro Ugo Giorgetti chegou a afirmar, em publicação sobre o cinema feito no século XX, que o filme de Bolognini, em verdade, era de PASOLINI, afinal, o primeiro filmou a burguesia e a aristocracia italiana.

E“La Notte Brava”, o que vemos é uma longa noite de ladrões, prostitutas, jovens sem rumo, desajustados, traficantes, receptadores, velhos tarados e o dinheiro corrompendo a juventude (PASOLINI ainda era aquele militante de esquerda que escrevia poemas e romances engajados; depois se afastaria da militância e seguiria seu caminho humanista por conta própria). O filme de PASOLINI/Bolognini começa com duas prostitutas discutindo e, posteriormente, saindo aos tapas. A cena revela todo o enredo: numa Itália falida, miseráveis brigam com miseráveis, por seu sustento. Todo o filme será tomado por falcatruas entre pessoas de mesma classe, vivendo no mesmo barco. Na mesma noite. A briga das mulheres é interrompida por um trio de golpistas – entre eles, o grande ator francês Jean-Claude Brialy – interessado em contratá-las não para sexo, mas para despistar a polícia, enquanto tentam vender armas que roubaram.

"salò ou os 120 dias de sodoma"

A noite é realmente longa, mas jamais entediante. As reviravoltas são constantes e a cena final é clássica, digna de constar duma antologia da imagem em movimento. Depois dessa incrível, dessa inesquecível experiência noturna, PASOLINI se acha preparado para dirigir “Accatone”, seu primeiro longa, embora despreparado, como todos nós, para morrer surrado, por cerca de oito horas, em função de sua ousadia e coragem de não só escrever, mas exibir as mazelas e as injustiças do fascismo e da vida do homem moderno. Em um de seus últimos poemas, PIER PAOLO PASOLINI escreveria:

“Olho com o olho de uma imagem
As propostas de linchamento.
Observo meu próprio massacre
Com a coragem serena de um sábio.”

texto de
HENRIQUE WAGNER
poeta 
 

13 ROTEIROS de PASOLINI

A MULHER do RIO
(La Donna del Fiume, 1954)
direção de Mario Soldatti

NOITES de CABÍRIA
(Le Notti di Cabiria, 1957)
direção de Federico Fellini

A LONGA NOITE de LOUCURAS
(La Notte Brava, 1959)
direção de Mauro Bolognini

O BELO ANTÔNIO
Il Bell’Antonio, 1960)
direção de Mauro Bolognini

A NOITE de MASSACRE
(La Lunga Notte Del’43, 1960)
direção de Florestano Vancini

CAMINHO AMARGO
(La Giornata Balorda, 1961)
direção de Mauro Bolognini

A MOÇA na VITRINE
(La Ragazza in Vitrina, 1961)
direção de Luciano Emmer

ACCATTONE – DESAJUSTE SOCIAL
(Accattone, 1961)

MAMMA ROMA
(idem, 1962)

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS
(Il Vangelo Secondo Matteo, 1964)

As BRUXAS
(Le Streghe,1967)

TEOREMA
(idem, 1968)

SALÓ ou 120 DIAS de SODOMA
(Salò o Le 120 Giornate di Sodoma, 1975)

ettore garofolo e anna magnani 
em "mamma roma"

***************** SALA VIP: "A TORTURA do MEDO"





SUSPENSE e PSICANÁLISE à INGLESA


Notável contador de histórias, que fecunda com prodigiosa imaginação, virtuosismo profissional e um senso apurado do espetáculo, o britânico Michael Powell (1905 - 1990) realizou filmes inesquecíveis. Um deles, A TORTURA do MEDO, de 1960, provocou na época do lançamento um ódio repulsivo, sendo atacado severamente pelos críticos como revoltante e mórbido (o estúdio terminou por retirar a obra de circulação), mas uma década depois foi revalorizado, passando a ser visto como uma obra-prima e admirado por nomes como Martin Scorsese (que comprou os negativos para restaurar o filme em suas cores magníficas), Brian De Palma e Peter Bogdanovich. Insólito e moderno, com requinte de técnica e estética, narra o cotidiano de um jovem estranho e solitário (Karl Bohm). Traumatizado pelo pai (interpretado pelo próprio Powelll) que se servira dele quando menino para experiências psicológicas de resistência ao medo, ele se torna um maníaco homicida e usa habilmente o próprio instrumento de trabalho, uma câmara portátil 16mm (com um estilete dissimulado), para assassinar mulheres, filmando a expressão de terror em seus rostos no momento do crime. Em sessões solitárias, ao ver o olhar insano das vítimas quando percebem a morte chegando, sente prazer.




O Mark Lewis do ator alemão Karl Bohm (conhecido como o romântico imperador da série “Sissi”) é um dos mais fascinantes personagens da história do cinema. Quando ele se interessa por uma vizinha, Helen (Anna Massey), e ela pede para ser fotografada, ele murmura, com tristeza: “Eu sempre perco tudo o que fotografo”. A estranha coincidência entre esta frase e os estudos do semiólogo francês Régis Debray, sobre uma suposta conexão subconsciente entre fotografia e morte, explica muito a respeito do thriller. A teoria é a seguinte: uma fotografia, ou filme, flagra alguém que, um instante depois, já mudou, torna-se uma imagem do passado, não pode ser repetida, então flagra algo que, de certa forma, já morreu. Debray acha, por isso, que fotos e filmes evocam a idéia da morte em algum recôndito do subconsciente humano. As palavras de Mark Lewis parecem concordar com isso. Não é a toa que o filme de Michael Powell é um favorito perene entre pesquisadores acadêmicos que estudam cinema.

Não se contentando em arquitetar apenas um thriller, o diretor realiza um processo rigorosamente cinemático de psicanálise aplicada e explicada, em que a forma visual poucas vezes deixa de servir a uma eficácia dramática, emanando, esta, de um postulado científico. Além disso, reflete sobre as relações entre o voyeurismo, a perversão e o ato de fazer cinema, identificando-se com o anti-herói e se compadecendo dele. Verdadeira aula de cinema, o filme conta com uma esplêndida fotografia de Otto Heller: opressiva, em fortes tonalidades vermelhas, azuis e verdes, com muitas cenas em interiores, na penumbra ou com iluminação artificial. O longa também possui uma trilha sonora nervosa e expressiva, composta de levadas solitárias ao piano, com toques de música avant garde de autoria de Brian Easdale. Outro ponto positivo: o uso versátil do som que dá uma força incontestável às elucubrações do cineasta.




Diretor de trajetória extraordinária, famoso desde a década de 40, foi produtor dos primeiros filmes de Alfred Hitchcock e realizou em parceria com Emeric Pressburger obras brilhantes como “Narciso Negro / Black Narcisussus” (1947) e “Sapatinhos Vermelhos / The Red Shoes” (1948). O furor e o desprezo contra A TORTURA do MEDO o colocou no ostracismo, sem poder exercer a profissão por recusa sistemática dos produtores, realizando apenas mais três filmes, alguns curtas e seriados de televisão, mas sem grande repercussão. Morreu em 1990, defendendo o filme maldito, e acusando de terem decretado o fim da sua carreira. Como sempre, estava certo.

A TORTURA do MEDO
(Peeping Tom, 1960)

País: Inglaterra
Gênero: Suspense
Duração: 101 mins.
Cor
Produção: Michael Powell (Powell-Theatre)
Direção: Michael Powell
Roteiro: Leo Marks
Fotografia: Otto Heller
Edição: Noreen Ackland
Música: Brian Easdale
Cenografia: Arthur Lawson (d.a.); Don Picton (déc.)
Vestuário: Polly Peck e Dickie Richardson
Elenco:
Karl Bohm (“Mark Lewis”), Moira Shearer (“Vivian”),
Anna Massey (“Helen Stephens”), Maxine Audley (“Sra. Stephens”),
Brenda Bruce, Miles Malleson, Esmond Knight,
e Shirley Anne Field (“Pauline Shields”)

Nota: ***** (ótimo)


maio 17, 2011

*************** COMO ENTREI para o CINEMA

john wayne

 
 
LANA TURNER
(1921 - 1995. Wallace, Idaho / EUA)

“Realmente não é justo, mas fui recompensada por ter sido uma estudante relapsa que gostava de matar aula. Durante meu tempo de ginásio em Hollywood, para onde minha mãe se havia mudado depois da prematura morte do meu pai, eu gostava de fugir das aulas para ir ao drugstore da esquina tomar coca-cola. Um dia o editor de uma publicação cinematográfica sentou-se ao meu lado. Olhou bem para mim e me levou a um agente. O agente me levou a um diretor... e assim fui contratada para o meu primeiro papel no cinema, que não foi exatamente um papel de destaque, devo acrescentar. Tudo o que eu tinha a fazer era atravessar a rua metida num suéter. Mesmo assim, repararam em mim e dois depois eu era uma estrela. Agora é fácil compreender por que tenho ainda hoje um fraco por suéteres e não sou muito intelectual...”

Melhor Momento:
Cora Smith em
O DESTINO BATE à SUA PORTA
(The Postman Always Rings Twice, 1946)
direção de Tay Garnett

lana turner
JOHN WAYNE 
(1907 - 1979. Winterset, Iowa / EUA)

“É um fato que eu tivesse sido quase sempre campeão nos esportes em que participava no ginásio, mas isso nunca me fez pensar que tivesse algum talento para a tela. Meu primeiro contato direto com a indústria cinematográfica deu-se durante umas férias quando eu cursava a universidade. Para não ficar inativo, fui trabalhar como extra em uma companhia cinematográfica. Foi então que me fiz amigo do produtor-diretor John Ford, que me encorajou a tornar-me ator, e graças à sua influência iniciei minha carreira na tela, num filme de cowboy. Depois disso representei muito e até cantei, mas sem grande sucesso, afinal os filmes eram fracos. Cheguei a querer desistir da carreira e trabalhar em outra coisa, até que John Ford me chamou para ser o protagonista de “No Tempo das Diligências”. O filme agradou imenso e desde então anda tudo bem da minha parte. Seja como for, se não fosse meu amigo John, não seria quem sou hoje”

Melhor Momento:
Ethan Edwards em
RASTROS de ÓDIO
(The Searchers, 1956)
direção de John Ford


ELSA MARTINELLI 
(1935. Grosetto / Itália)
“Francamente, nunca pensei em abraçar a carreira cinematográfica. Isso começou de maneira indireta, porque eu precisava ganhar a vida e era pobre, mas ousada e me enamorei de um vestido na última moda e caríssimo! Sempre gostei de belas roupas, mas o mais que podia fazer era contemplá-las nas vitrines. Aos 16 anos eu trabalhava para ajudar a família, em Roma, onde nasci, e uma bela manhã meus olhos caíram num lindo vestido na vitrine de uma loja elegante. Ansiei por ver-me dentro dele. Entrei na loja e experimentei-o com grande determinação... o resultado foi que me contrataram para ser modelo! Viajei toda a Europa como tal e um belo dia decidi passar umas férias em Nova York. Não tive férias realmente, e sim trabalho como modelo de roupas e fotografias e no fim... um contrato no cinema. Posso queixar-me?”

Melhor Momento:
Donatella em
DONATELLA
(Idem, 1957)
direção de Mario Monicelli

FONTE
Revista Cinelândia 245, janeiro de 1963