dezembro 09, 2010

****** ANDRUCHA e a ESPANHA do SÉC. de OURO



 
 
A cinebiografia de Lope de Vega estreará nos cinemas brasileiros em março de 2011. LOPE, uma co-produção hispano-brasileira com direção de ANDRUCHA WADDINGTON (1970. Rio de Janeiro / RJ), relata os primeiros passos como escritor de Félix Lope de Vega (1562 - 1635), um dos expoentes do Século de Ouro e do barroco espanhóis, contemporâneo de Miguel de Cervantes, que se tornaria um autor prolífico e, sobretudo, dramaturgo. Na trama, é apenas um jovem que chega a Madri e está prestes a descobrir o teatro e o amor. Para interpretar o papel-título, o escolhido foi o ator argentino Alberto Ammann, vencedor do prêmio Goya por seu desempenho excepcional em “Cela 211”, de Daniel Monzón. No elenco, as atrizes espanholas Pilar López de Ayala e Leonor Watling; e os brasileiros Selton Mello e Sonia Braga. Sonia vive a espanhola Paquita, mãe de Lope, e para tal se apresenta envelhecida, mas na vida real a atriz continua em forma, como deixou evidente recentemente na minissérie “As Cariocas”, de Daniel Filho. Um dos mais importantes nomes da literatura e da dramaturgia mundiais, Lope de Vega foi um grande inovador, tendo publicado, em 1609, “Nuevo Arte de Hacer Comedias en Este Tiempo”, um dos primeiros ensaios sobre dramaturgia. Escreveu comédias, romances, poemas épicos, líricos e burlescos, livros religiosos e históricos. O brasileiro Ricardo Della Rosa assina a direção de fotografia. As filmagens aconteceram na Espanha e no Marrocos. Recentemente, LOPE foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Também foi selecionado e exibido no tradicional Festival de Veneza. No Brasil marcou presença no Festival do Rio 2010 e na Mostra Internacional de São Paulo.

pilar lópez de ayala
FRAGMENTO de ENTREVISTA de CAROL ALMEIDA
ANDRUCHA WADDINGTON

Como foi sua interferência na escolha do elenco?

Durou um ano. Passei um ano vendo o cenário espanhol. As primeiras a entrarem no elenco foram a Pilar López de Ayala e a Leonor Watling. E eu não tinha o
Lope, que é o Alberto Ammann. Na verdade eu tinha algumas opções, só que eu queria um ator desconhecido. Aí as produtoras de elenco me apresentaram um teste do Alberto. E aí eu falei: para tudo que esse cara é genial. Passei um dia fazendo audição com ele e ele foi maravilhoso. Os produtores, que queriam um ator mais conhecido no papel, terminaram me dando razão quando viram o teste com o Alberto.

O fato de Lope ser interpretado por um argentino teve repercussão na Espanha?

Houve, mas na verdade a coisa é a seguinte. O Alberto nasceu na Argentina, mas foi criado na Espanha. Então ele tem um sotaque absolutamente espanhol e se considera um cidadão espanhol. Houve também um certo ruído pelo fato de eu ser um diretor brasileiro. Mas acho que o cinema é uma linguagem universal. O cinema americano inteligentemente percebeu isso há muito tempo e importa diretores de vários pontos do mundo. Quando li o roteiro desse filme pela primeira vez, conhecia pouco do Lope, mas me apaixonei pela possibilidade de contar a história da fundação de um artista, através de um ícone da cultura espanhola. E aí tive quatro anos pra estudar e ficar familiar à obra de poema e teatral de Lope, à sua biografia, ao Século de Ouro, aos costumes da época.

E a escolha de Selton Mello e Sonia Braga, como foi?

A de Selton Mello aconteceu porque o personagem de Marquês de Las Navas era um português e eu, que tinha vontade de trabalhar com Selton há um tempão, achei que ele ia arrebentar naquele personagem que é tão-somente um playboy da época. E a Sonia eu também tinha vontade de trabalhar há muito tempo e achei legal propor pra ela fazer uma velhinha. E ela topou na hora e foi ótimo.



dezembro 08, 2010

************************ADEUS, CARO MONICELLI

 



O lúcido e irônico cineasta MARIO MONICELLI (1915 - 2010. Viareggio / Itália) considerado um dos mestres da comédia à italiana, morreu no mês passado aos 95 anos. Ele suicidou-se saltando da janela do quarto andar do hospital San Giovanni, em Roma, onde estava internado devido a um câncer de próstata em fase terminal. Com uma carreira prolífica e extremamente irreverente, não é de se espantar que saia de cena desta maneira, surpreendendo a todos de forma trágica e com uma atitude totalmente inusitada. Filho de um crítico teatral e jornalista, comunista ferrenho, até o final de 1940 colaborou em cerca de 40 filmes, às vezes como roteirista, outras como diretor-assistente. O começo oficialmente registrado de seu trabalho ocorre em 1949, em parceria com Steno, em “Totó Procura Casa / Totó Cerca Casa”, já começando a imprimir seu particular estilo narrativo, simples, mas eficaz e funcional.  
 
Em 1953, inicia a carreira solo, que seria marcada por vários êxitos. O primeiro deles é considerado a semente da tradicional “commedia all'italiana”, um gênero que floresceria nas duas décadas seguintes: “Os Eternos Desconhecidos / I Soliti Ignoti” (1958). Em 1959, lança outra obra-prima, A Grande Guerra / La Grande Guerra, ganhando o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, e rendendo sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A segunda viria em 1963, com Os Companheiros / I Compagni”. MARIO MONICELLI também produziu para o teatro e a televisão, mas ficou conhecido principalmente pelos 65 filmes. Sempre crítico, tinha o raro dom de fazer um cinema com conteúdo que diverte. Era o humor negro levado ao excesso, ao limite da ironia e do escárnio. Em contrapartida, podia ser terno, doce e melancólico, sempre com um olhar compreensivo em relação aos personagens ridículos e patéticos. 





dezembro 07, 2010

************ LA MOVIDA: LUZ, CÂMERA... ¡ACCIÓN!

antonio banderas e carmen maura em a lei do desejo

 
 
Os céus de Madri que enfeitiçaram Goya e Velázquez também são uma dádiva para cineastas. Muitos deles mostraram sua arquitetura e contrastes em várias obras-primas. Entretanto, a força criativa do cinema madrileno foi especialmente intensa durante a MOVIDA, a liberação cultural e sexual embalada pelas drogas que seguiu a transição democrática dos anos 1970 e início dos 80. A palavra movida significa agitação, mas é também uma gíria para “tráfico de drogas”, “avião”. Essa rebelião boêmia da classe média contra a organização social que vigorava até recentemente, assumiu uma postura nacionalista e assimilou valores tradicionais espanhóis sob excêntrica roupagem. Talvez o centro das manifestações cinematográficas da Movida tenha sido o Cine Alphaville, que mudou de nome, recentemente, para Golem. Este cinema ainda na ativa, inaugurado em 1977 (quando a transição pacífica para a democracia e a liberdade estava assegurada), incluía nas primeiras sessões ícones underground e as mais transgressoras obras espanholas da época, como “Arrebato / Idem” (1980), de Iván Zulueta, uma colagem febril de clichês de horror, vistos pela perspectiva paranóica do protagonista. 

O antigo Alphaville continua exibindo filmes engajados, ostentando o impressionante recorde de dez anos de sessões noturnas de “Labirinto de Paixões / Laberinto de Pasiones” (1982), co-produzido pelo próprio cinema. Esse filme de Pedro Almodóvar é uma farsa absurda e melodramática que tem como personagens uma ninfomaníaca chamada Sexilia (Cecilia Roth), um terrorista muçulmano gay, Sadec (Antonio Banderas), e o filho do ditador do fictício país Tiran, Riza Niro (Imanol Arias). Além de Almodóvar, Fernando Trueba, Fernando Colomo, Manuel Iborra e o já citado Zulueta foram cineastas emblemáticos da época. Assim como nos filmes urbanos, a Movida foi documentada na revista “La Luna”, na música alternativa (Alaska y los Pegamoides, Los Zombies, Parálisis Permanente, Nacha Pop, Los Secretos, Ejecutivos Agresivos, Gabinete Caligari, Los Zombies etc.), nas fotografias de Alberto García-Alix e Gorka de Duo, na pintura de El Hortelano e Miguel Trillo, na moda fashion de Ágatha Ruiz de la Prada, no graffite de Juan Carlos Argüello «Muelle», na literatura da Tertulia de Creadores e em programas de TV apresentados pela atriz Carmen Maura e Paloma Chamorro. 

Carmen, a primeira musa de Almodóvar, atuou junto à cantora punk Alaska em “Pepa, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão / Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón” (1980), um melodrama escatológico sobre a solidariedade feminina. Pepi (Maura) e Bom (Alaska) tentam libertar a masoquista Luci (Eva Siva) de seu casamento com um policial que a respeita demais para bater nela. Luci torna-se groupie de uma banda punk, o que desencadeia os ciúmes do marido, que passa a surrá-la inconscientemente, conduzindo a um final feliz. Boa parte das cenas foram filmadas na lendária boate Rock-Ola (um local escuro, extravagante e encardido, abarrotado de glams, punks e roqueiros). Os abusos de drogas e a Aids terminaram por degradar o clima despreocupado da Movida. As drogas haviam sido o principal estímulo para o modo de vida desses artistas irreverentes (em “Que Fiz Eu Para Merecer Isto? / ¿Qué he Hecho YO para Merecer Esto!! (1984), o filho traficante de Gloria/Carmen Maura, dona-de-casa que cheira cola, aconselha a mãe a não se envolver com drogas mais pesadas). Infelizmente, a boate Rock-Ola, um dos pontos de encontro da época, tornou-se um supermercado. Outros ícones também se foram, como a discoteca Carolina, que se tornou uma loja de roupas. Apesar disso, o Alphaville (agora, Golem) e os clubes El Penta, La Vía Láctea e El Sol resistem. 

Chueca, onde Almodóvar filmou “A Lei do Desejo / La Ley del Deseo” (1987), hoje é o bairro da moda conhecido como o Soho de Madri. A MOVIDA MADRILENA, um fenômeno único, hoje definitivamente morto, em definitivo, representou uma época criativa de liberação, rebeldia e diversão de uma geração que estava despertando. Época em que os jovens espanhóis se viram livres da ditadura de Franco e descobriram as drogas, a boêmia, o sexo livre e a chamada contracultura.

fábio mcNamara e pedro almodóvar