maio 16, 2011

****** CANNES – MICROCOSMOS de ESTRELAS

sophia loren chegando ao festival, nos anos 1950

 
A imagem de uma jovem Faye Dunaway (Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas, Rede de Intrigas etc.), fotografada pelo cineasta Jerry Schatzberg, ilustra o cartaz oficial da 64a edição do FESTIVAL de CANNES, de 11 a 22 de maio, no sul da França, na luxuosa Riviera Francesa. Palma de Ouro em 1973 por Espantalho / Scarecrow, Schatzberg iniciou sua carreira como fotógrafo antes de começar a dirigir filmes e este ano terá seu filme de estréia - Entre a Fama e a Loucura / Puzzle of a Downfall Child (1970) - exibido durante o festival, em versão remasterizada e com sua presença. É apenas uma das muitas atrações deste evento iniciado em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial, com a intenção de rivalizar com a Mostra de Cinema de Veneza e encorajar o desenvolvimento de todas as formas de arte cinematográfica, bem como criar e manter um espírito de colaboração entre todos os países produtores de filmes. Embora as primeiras edições tenham passado discretamente, rapidamente captou fama internacional graças à presença de centenas de celebridades, de Kirk Douglas a Gina Lollobrigida. Hoje é um dos mais prestigiados e famosos festivais de cinema do mundo. Estive lá algumas vezes e fiquei fascinado com todo o burburinho cinéfilo.

susan hayward e ingrid bergman

O prêmio mais cobiçado é a Palma de Ouro (Palme d’Or), que recompensa o melhor longa. Entregue pela primeira vez em 1955 a “Marty / idem”, de Delbert Mann, sucedeu ao Grand Prix, até aí dado ao melhor filme em competição. Nos anos 60, à margem da Seleção Oficial, nasceram outras seleções paralelas importantes: a “Semaine Internationale de La Critique”, em 1962, e a “Quinzaine des Réalisateurs”, em 1969. Projetadas no âmbito de retrospectivas temáticas até 2004, as obras do patrimônio são, a partir desta data, apresentadas em “Cannes Classics”, uma seleção que reúne as cópias restauradas, as homenagens às cinematografias e os documentários sobre cinema. Além dessas virtudes, o FESTIVAL de CANNES movimenta um negócio de compra e venda de filmes, com cerca de 10 mil profissionais se dirigindo ao evento todos os anos, se tornando o número 1 no mercado profissional cinematográfico mundial.

jean-claude brialy, jeanne moreau e anatole litvak

Embora cada edição possua o seu charme, está claro que a deste ano será muito mais excitante que a dos últimos anos: o ator francês Jean-Paul Belmondo e o cineasta italiano Bernardo Bertolucci receberão a Palma de Ouro de Honra; a competição conta com nomes excelentes, de Terrence Malick a Pedro Almodóvar (David Cronenberg e Wong Kar-Wai ficaram de fora no último instante); “Meia-Noite em Paris / Midnight in Paris”, de Woody Allen, abrirá o Festival, e “Les Bien-Aimés”, do excelente Christophe Honoré, o encerrará; fora de competição serão exibidas as novas realizações de Gus Van Sant, Bruno Dumont e Jodie Foster; Robert De Niro é o presidente do júri, que também conta com o diretor Oliver Assayas e os atores Jude Law e Uma Thurman, entre outros; pelo tapete vermelho passarão estrelas como Sean Penn, Catherine Deneuve, Johnny Depp e Brad Pitt. Serão centenas de projeções para milhares de amantes do cinema. O brasileiro “Trabalhar Cansa”, de Marco Dutra e Juliana Rojas, será exibido na mostra paralela “Um Certo Olhar” (Un Certain Regard), concorrendo ao troféu Câmera de Ouro (Caméra d’Or), que premia diretores estreantes. Além de “Trabalhar Cansa”, o longa “Abismo Prateado”, de Karim Aïnouz integra a “Quinzaine des Réalisateurs”, seleção criada por Truffaut e Godard para reforçar um cinema inovador e audacioso, que esse ano presta homenagem à Jafar Panahi, diretor irariano que venceu a Camera D’Or em 1995 com “O Balão Branco”Como disse Jean Cocteau, “O Festival é um microcosmos do que seria o mundo se os homens falassem a mesma língua”.

catherine deneuve

FILMES em COMPETIÇÃO

BIRZAMANLAR ANADOLU’DA (Turquia)
direção de Nuri Bilge Ceylan
 
DRIVE (EUA)
 direção de Nicolas Winding Refn
 
HABEMUS PAPAM (Itália)
direção  de Nanni Moretti
 
HANEZU NO TSUKI (Japão)
direção de Naomi Kawase
 
HEARAT SHULAYIM (Israel)
direção de Joseph Cedar 
 
ICHIMEI (Japão)
direção de Takashi Miike
 
L’APOLLONIDE – SOUVENIRS DE LA MAISON CLOSE (França)
direção de Bertrand Bonello
 
LA PIEL QUE HABITO (Espanha)
direção de Pedro Almodóvar
 
LA SOURCE DES FEMMES (Romênia)
direção de Radu Mihaileanu
 
LA HAVRE (Finlândia)
direção de Aki Kaurismaki
 
LE GAMIN AU VÉLO (Bélgica)
direção de Jean-Pierre e Luc Dardenne
 
MELANCHOLIA (Dinamarca)
direção de Lars Von Trier
 
MICHAEL (Áustria)
direção de Markus Schleinzer
 
PATER (França)
direção de Alain Cavalier
 
POLISSE (França)
direção de Maiwenn 
 
SPLEEPING BEAUTY (Austrália)
direção de Julia Leigh 
 
THE ARTIST (França)
de Michel Hazanavicius
 
A ÁRVORE da VIDA / The Tree of Life (EUA)
direção de Terrence Malick 
 
THIS MUST BE THE PLACE (Itália)
direção de Paolo Sorrentino
 
WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN (Inglaterra)
direção de Lynne Ramsay.

romy schneider e alain delon em 1962
isabelle adjani
jean-pierre aumont e grace kelly

CANNES CLÁSSICO
(Filmes restaurados digitalmente)

LARANJA MECÂNICA / A Clockwork Orange (1971)
 direção de Stanley Kubrick
 
CHRONIQUE D’UN ETE (1960)
direção de Jean Rouch e Edgar Morin
 
DESPAIR – Uma VIAGEM para a LUZ / Despair (1978)
direção de Rainer Werner Fassbinder
 
HUDUTLARIN KANUNU (1966)
direção de Lufti Akad
 
O CONFORMISTA / Il Conformista (1970)
direção de Bernardo Bertolucci
 
LA MACCHINA AMMAZZACATTIVI (1952)
direção de Roberto Rossellini
 
O ASSASSINO / L’Assassino (1961)
direção de Elio Petri
 
O SELVAGEM / Le Sauvage (1975)
direção de Jean-Paul Rappeneau;
 
VIAGEM à LUA / Le Voyage dans La Lune (1902)
direção de Georges Mélies
 
O BOULEVARD do CRIME / Les Enfants Du Paradis (1945)
direção de Marcel Carné
 
NIEMANDSLAND (1931)
direção de Victor Trivas
 
RUE CASES-NEGRES (1983)
direção de Euzhan Palcy.

cartaz oficial 2011

maio 05, 2011

************* SALA VIP: “BODAS de SANGRE”

cristina hoyos

 
BODAS de SANGUE

para Cristina Hoyos

Que beleza é essa que tanto me incomoda?
Que olhar de tâmara – sâmaras que se semeiam –
transborda dos cântaros de tua íris?
O que anunciam teus inquisidores e translúcidos olhos?

Tudo em ti é duplo, senhora do amor bruxo.
De tuas mãos multiplicam-se os gestos e as bênçãos
e com tuas mãos dizes mais que cem mil bocas juntas
e essas mesmas mãos prenunciam a beleza de tuas ancas.

Mas, mais do que tudo, o que impera em ti
são esses milagres que são tuas tetas,
dois punhais que a cada instante furam minha paz
e que me ensinaram a amargar a verdadeira sede.

Ah Cristina Hoyos, deusa de Espanha,
vem bailando em nuvens e em versos de Garcia Lorca,
vem com teus punhais para a minha peixeira de 12 polegadas,
pois as nossas bodas só podem ser de sangue.

BAILADOR GITANO

para Antonio Gades

Com a exuberância das cores,
com movimentos de galhardia e soberba,
com todo ímpedo, arrojo e charme,
desponta o esplendoroso pavão.

Nos olhos intensos, a paixão a se dizer
e, nas asas das mãos, o vôo.

Com a arrogância do galo, com sua bravura,
com seus punhais afiados, ele é o lutador.
Pula e impera – sapateia –
e todos o vêem e todos tentam,
mas só ele – o galo de sangue de fogo.

Ele é de uma nobre delicadeza,
mas de fortaleza maior.
De seus dedos estalam os tempos
e nascem todos os ritmos
e, senhor dos gestos, inventor de passos,
advinha a beleza.

É o formoso animal,
assim como um cavalo,
não um cavalo, mas o cavalo
que cava a poeira do juízo final
e inspira as ancas das fêmeas.
Exala o másculo, o mítico.

Ele é o início e o fim
- o touro e o toureiro –
o bailador gitano.

poemas de 
JOSÉ INÁCIO VIEIRA de MELO
do livro “A Terceira Romaria


A PAIXÃO ANDALUZA SEGUNDO SAURA

Tragédia do lendário Federico García Lorca adaptada ao ballet flamenco pelo magistral coreógrafo Antonio Gades, BODAS de SANGRE foi o primeiro musical da carreira do cineasta espanhol Carlos Saura, com direção artística de Gades e como sua acompanhante no papel da noiva, Cristina Hoyos, uma das melhores bailarinas folclóricas de todos os tempos. Filme de 1981, deu partida ao capítulo inicial da aclamada e não planejada trilogia sauriana da arte do canto e do bailado flamenco andaluz, seguindo-se as afortunadas “Carmen” (1983) e “El Amor Brujo” (1986). Poucas sensações geram tanto contentamento quanto a de estar convicto de testemunhar nesta obra um revigorante marco estético-narrativo. Uma história contada dentro de outra (narra o ensaio geral da companhia de ballet de Gades sobre a peça de Lorca), por meio de montagem rítmica, câmera esguia e fotografia luminosamente profunda. Tudo enquadrado com estonteante precisão e beleza, num show de movimentos harmônicos de corpos. A câmera se converte em espectador e ator do drama, se embriaga de animação e acompanha e interpreta cada um dos estados anímicos dos personagens. Sua naturalidade de incessante movimento e ritmo enlouquecido faz com que os momentos estáticos se resumam em pura dor, num magnífico ensaio de cine-ballet, numa original intenção de plasmar a realidade profunda da Espanha, utilizando uma de suas expressões mais tradicionais: o flamenco. Sem cenas típicas da dramaturgia cinematográfica, sem paisagens, quase sem diálogos, bebemos a dança e as imagens da paixão andaluza. O corpo de dança do hipnotizante Antonio Gades aflora os sentimentos. Impulso renovador no cinema musical e momento especial da filmografia de Saura, resultou num êxito mundial. Mais adiante o realizador continuaria retratando a dança em filmes notáveis como “Sevillanas” (1992), “Flamenco” (1995), “Tango” (1998), “Salomé” (2002). Quiçá BODAS de SANGRE tenha sido o mais aclamado.

antonio gades

BODAS de SANGRE
(Idem, 1981)

País: Espanha
Gênero: Musical
Duração: 72 mins.
Cor
Produção: Emiliano Pedra (Filmes do Estação)
Direção: Carlos Saura
Roteiro: Antonio Gades, Alfredo Mañas e Carlos Saura
Adaptação da de Federíco Garcia Lorca
Fotografia: Teodoro Escamilla
Edição: Pablo González del Amo
Música: Emilio de Diego
Cenografia: (d.a.); (déc.)
Vestuário: Francisco Nieva
Elenco:
Antonio Gades (“Leonardo”), Cristina Hoyos (“A Noiva”),
Juan Antonio Jiménez, Pilar Cardénas,
Carmen Villena, Pepe Blanco e Marisol.

Nota: **** (muito bom)


************ O ESPELHO tem muitas FACES

brigitte bardot

 
Certa vez, o centenário realizador português Manoel de Oliveira declarou numa entrevista: “O cinema é o espelho da vida”. No entanto, o ESPELHO tem muitas faces, e que faces são essas? O que vemos nele ou como somos vistos? O que nos permitimos ver? Exibindo a importância da construção da imagem, ele explora os mitos modernos, traduz vaidade, sensualidade e beleza. Reflete várias sensibilidades individuais, vários olhares, direcionando-se para um público determinado, que nem sempre é capaz de interpretar e compreender sua significância. Transborda inteligência e capacidade de comunicação, metáfora de encontro/desencontro, extraindo o que as estrelas cinematográficas têm de melhor, fazendo com que elas reconheçam seu próprio valor ou se desesperem com a inevitável decadência física.

Essa abordagem privilegia esse elemento (imaginário ou não) que imprime estranho fascínio nas pessoas, procurando uma reflexão estética sobre a imagem em que a ficção se volta para a ilusão, a sedução ameaçadora, a simulação e a artificialidade lançada por todo esse jogo de espelhos que cria duplicatas, fragmentações. Num contexto mais amplo, o ESPELHO retrata os pensamentos, as ambições, os sonhos e as emoções, a inconstância do eu e do outro nas personagens e no encontro entre o mundo real e a ficção. Parece que jamais conheceremos os atores e as atrizes tal como eles são em si mesmos, pois a aparência é o que está ao nosso alcance. O que enxergamos não é o objeto real, mas apenas a sua sombra, uma reprodução, aquilo que reflete a construção do mito. Neste contexto, o cinema funciona como uma espécie de ESPELHO enganador, refletindo e dissimulando tudo, inclusive a platéia.

angie dickinson
ava gardner
arlene dahl
hattie mcDaniel
marlene dietrich
leslie caron
lillian gish
marilyn monroe
natalie wood
mae west
tallulah bankhead
cena de the vogues of 1938