julho 15, 2017

************* BRIGITTE BARDOT, a ETERNA MUSA





Brigitte Bardot é a locomotiva da história das mulheres.
SIMONE de BEAUVOIR
(1908 – 1986. Paris / França)


para ANDRÉ SETARO
(1951 - 2014. Rio de Janeiro / RJ)
crítico cinematográfico  
in memoriam


Ela marcou seu nome na história pela beleza estonteante. Numa época de estrelas glamourosas, surgiu de cabelos soltos, maquiagem leve e roupas despojadas, e de repente conquistou o mundo no final dos anos 1950. O símbolo sexual em questão, a francesa BRIGITTE BARDOT (Paris, França. 1934), revelada no drama erótico “E Deus Criou a Mulher”, de seu então marido, Roger Vadim. Desde que abandonou o cinema, aos 39 de idade, a formosa sereia vive reclusa, tornou-se vegetariana e é ativista dos direitos dos animais através da Fundação Brigitte Bardot. No entanto, seu posicionamento sobre imigração e homossexualidade resultou em inúmeros processos. Entre 1997 e 2003 ela foi processada por entidades religiosas, devido a críticas aos muçulmanos do seu país e acusada de racismo contra imigrantes, chegando a ser condenada a pagar cinco mil euros de multas em corte. Por comentários recebidos como insultuosos aos homossexuais, feitos no seu livro de 2003, “A Scream in the Silence”, sofreu outra queixa criminal. Em junho de 2008, foi condenada pela quinta vez num processo de incitação ao racismo, sendo obrigada a pagar quinze mil euros de multa.

Chamada pela mídia sensacionalista de “devoradora de homens”, pela rapidez com que terminava seus relacionamentos e pela quantidade deles. A atriz casou-se quatro vezes: aos dezoito anos com Roger Vadim, cineasta que a lançou ao estrelado, de 1952 a 1957; o segundo, de 1959 a 1962, com o ator Jacques Charrier, do qual teve seu único filho, Nicolas-Jacques Charrier; o terceiro, entre 1966 e 1969, com o playboy multimilionário alemão Gunter Sachs; o quarto e último foi em 1992, aos 58 anos, com Bernard d'Ormale, ex-conselheiro do político de direita Jean-Marie Le Pen e que perdura. Além dos quatro maridos, viveu romances com os atores Jean-Louis Trintignant e Sami Frey, os cantores Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg e Sacha Distel, o escritor John Gilmore e o escultor Miroslaw Brozek.

Ao longo da vida, BRIGITTE BARDOT foi maltratada. Filha de uma família tradicional e católica de Paris, seus pais desejavam um filho homem. “Você é feia, burra e má”, dizia a mãe dela, resumindo, diante da criança desventurada pelo uso de um aparelho dentário e óculos de lentes grossas. Amblíope, ela não enxerga de um olho. Fez aulas de dança e música na infância. Na adolescência tentou a carreira de modelo e foi parar na revista “Elle” aos 15 anos. O pai não a queria de jeito nenhum no cinema. BB foi salva pelo avô: “Se a menina tiver de ser puta, será com ou sem cinema; se não tiver de ser, não é o cinema que vai fazê-la puta!”. Estreou no cinema em 1952, em “Le Trou Normand”. Depois de alguns filmes, em 1956 protagonizou o “E Deus Criou a Mulher”, que a consagrou internacionalmente. Fazendo o papel de Juliette, dona de um voraz apetite sexual, vestido molhado colado no corpo, tornou-se uma das mais perfeitas sínteses da sensualidade feminina. O filme foi condenado pela imprensa francesa, mas Claude Chabrol e François Truffaut viram nele o surgimento de uma França moderna e, a atriz, o símbolo da nova mulher. Fracassado na seu país, foi um sucesso nos EUA. Logo após, Kirk Douglas, fascinado, tentou levá-la para Hollywood, mas foi barrado por sua mulher.  
 
o casamento com vadim 
Na moralista Hollywood dos anos 1950, onde o maior símbolo sexual, Marilyn Monroe, no máximo aparecia nas telas de maiô, seu perfil erótico desnudo a transformou numa aposta arriscada, e isso, além do sotaque e inglês limitado, impediram-na de fazer carreira no cinema norte-americano. De qualquer modo, ela se tornou uma das mais famosas atrizes da década de 1960 e um dos maiores símbolos sexuais de todos os tempos. Fez 43 filmes, gravou canções populares e chocou o mundo com seus amores libertários. Bob Dylan dedicou uma canção pra ela (I Shall Be Free), dizendo que era o que os EUA precisavam para crescer. A fama transformou a vida de BB numa turbulência. As multidões se aglomeravam pra vê-la. Não tinha vida privada. Gravando na Suíça, com Marcello Mastroianni, ela foi insultada por uma multidão, que gritava: “Vá fazer suas coisas sujas lá onde você nasceu!”.

Ela recusou filmar “007 - a Serviço Secreto de sua Majestade / On Her Majesty's Secret Service”, de 1969; recusou “O Estrangeiro / Lo Straniero”, de 1967, de Luchino Visconti. Recusou dois musicais de Jacques Demy e “Crown, o Magnífico / The Thomas Crown Affair”, de 1968, grande sucesso de Norman Jewison. Diziam, por isso, que sabotava a própria carreira. Em 1962, diante do juiz, compenetrada, com um ar altamente dramático, a bombshell francesa disse: “É tudo mentira!”. A cena impressionou. Ela compareceu ao tribunal para defender Samy Frey no processo que este ator movia contra a revista “Ici Paris”, que publicou uma reportagem jurando que ele andava impondo o seu amor à sua companheira de “A Verdade”. Frey, segundo a revista, obrigara a atriz, entre outras coisas, a pedir divórcio de Jacques Charrier, e a viver isolada numa casa com cães ferozes soltos a fim de impedir a entrada de repórteres e fotógrafos. A estrela negou tudo. Entretanto, teve um relacionamento amoroso complicado com Frey, como mais adiante confirmou. Na época, a vida pessoal de BB era uma bagunça.


Durante três décadas, de meados dos anos 1950 aos 1970, os paparazzi perseguiram a estrela infeliz – como ela mesma se definia publicamente. “Eu daria tudo por uma vida obscura, como a de uma simples dona de casa”, desabafou certa vez e, meses depois, foi encontrada com os pulsos cortados na sua casa de campo, na Riviera. Engoliu várias pílulas para dormir e cortou os pulsos com uma gilete, sendo socorrida por um agricultor das vizinhanças. Na sua trajetória, foi cuspida e apedrejada pelo público. Teve também câncer de mama.

Em 1964 veio ao Brasil com o namorado Bob Zagury, hospedando-se em Búzios, que ficou famosa após sua visita. Em sua homenagem, a prefeitura da cidade criou a Orla Bardot, na Praia da Armação, e instalou uma estátua de bronze da atriz em tamanho natural. Nas areias, ela se envolvia em imensas rodas com populares. Em sua biografia, registrou que o período passado na região foi o mais lindo de sua vida. Em 1970, ela se tornou a primeira atriz a servir de modelo para um busto de Marianne, a figura feminina símbolo da Revolução Francesa. Com sua audácia de guerreira, BRIGITTE BARDOT derrubou velhos tabus, assumindo-se como símbolo de uma sexualidade livre. Simbolizou a mulher liberada, atrevida, livre para o que desse na telha. Ela subia a temperatura de plateias em todo o mundo. Ainda hoje não eclipsou o mito erótico.


  DEZ FILMES de BB
(por ordem de preferência)
 
01
VIDA PRIVADA
(Vie Privée, 1962)
direção de Louis Malle
elenco: Marcello Mastroianni

02
A VERDADE
(La Vérité, 1960)
direção de Henri-Georges Clouzot
elenco: Paul Meurisse, Charles Vanel, Samy Frey,
Marie-José Nat e Jacques Perrin

03
O DESPREZO
(Le Mépris, 1963)
direção de Jean-Luc Godard
elenco: Jack Palance e Michel Piccoli

04
As GRANDES MANOBRAS
(Les Grands Manoeuvres, 1955)
direção de René Clair
elenco: Michéle Morgan, Gérard Philipe e Magali Noel

05
VIVA MARIA!
(idem, 1965)
direção de Louis Malle
elenco: Jeanne Moreau, George Hamilton e Paulette Dubost

06
AMAR é a MINHA PROFISSÃO
(En Cas de Malheur, 1958)
direção de Claude Autant-Lara
elenco: Jean Gabin e Edwige Feuillère

07
EU SOU o AMOR
(À Coeur Joie, 1967)
direção de Serge Bourguignon
elenco: Laurent Terzieff e Jean Rochefort

08
E DEUS CRIOU a MULHER
(Et Dieu... Créa La Femme, 1956)
direção de Roger Vadim
elenco: Curd Jurgens e Jean-Louis Trintignant

09
A MULHER e o FANTOCHE
(La Femme et Le Pantin, 1959)
direção de Julien Duvivier
elenco: Antonio Vilar, Lila Kedrova e Daniel Ivernel

10
DESFOLHANDO a MARGARIDA
(En Effeuillant a la Marguerite, 1956)
direção de Marc Allégret
elenco: Daniel Gélin

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