setembro 07, 2011

**** TRUFFAUT, O MONSIEUR “NOUVELLE VAGUE"


françois truffaut
Um amante voraz de livros, ele faria diversos filmes adaptados de obras literárias, como “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois/Jules et Jim” (1962) e “Duas Inglesas e o Amor/Les Deux Anglaises et Le Continent” (1971), ambos baseados em romances de Henri-Pierre Roché, e os thrillers “A Noiva Estava de Preto/La Mariée Etait em Noire” (1968) e “A Sereia do Mississipi/La Siréne Du Mississipi” (1969), estes adaptados de livros do norte-americano William Irish. E, com base em outro norte-americano, Ray Bradbury, faria “Fahrenheit 451/idem” (1966), a distopia sobre um futuro soturno em que os livros eram banidos e queimados, estrelado por Julie Christie. O francês FRANÇOIS TRUFFAUT (1932-1984) foi o fã de livros e filmes que virou cineasta com obras impregnadas de sensibilidade, lirismo, elegância artesanal e arguto estudo de caracteres, geralmente voltadas para o amor, a condição humana e a poesia. Aos 21 anos, o famoso estudioso de cinema André Bazin, seu protetor que o tirou das ruas – depois da fuga dele da casa dos pais -, introduziu-o na revista “Cahiers du Cinéma”. A influência do futuro cineasta na equipe da célebre revista – que existe até hoje – foi fundamental. Com a publicação do seu artigo “Une Certaine Tendence du Cinéma Français” (nº 31, janeiro de 1954), inaugurou-se uma nova etapa na publicação. Com um texto virulento e agressivo, o jovem crítico atacou frontalmente a chamada “tradição de qualidade” francesa, sempre premiados em festivais e orgulho da indústria cinematográfica.

truffaut e jean-pierre léaud
Logo depois, FRANÇOIS TRUFFAUT começou a defender a idéia do “cinema de autor” (ou seja, de realizadores como Fritz Lang, Abel Gance, Max Ophuls, Kenji Mizoguchi, Jacques Becker, Roberto Rossellini, Robert Bresson, Jacques Tati, Jean Cocteau etc.) e a exaltar as virtudes artísticas de cineastas hollywoodianos até então considerados mero artesãos (Raoul Walsh, Alfred Hitchcock, Howard Hawks), ao mesmo tempo em que chamou atenção para o trabalho de cineastas desvalorizados na época - como Anthony Mann, Nicholas Ray, Samuel Fuller, Joseph H. Lewis, Edgar G. Ulmer, Budd Boetticher e Robert Aldrich. Para ele, pouco importa o filme analisado, o que interessa é o criador nele oculto, garantindo que não existem bons ou maus filmes, apenas bons ou maus diretores. Juntamente com vários colegas de “Cahiers” (Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette etc.), passou à realização, fundando a inovadora corrente cinematográfica “Nouvelle Vague”. A sua estréia se deu com o curta-metragem “Une Visite” (1955). Em 1959, faria o primeiro longa, o cultuado “Os Incompreendidos/Les 400 Coups”, protagonizado por um Jean-Pierre Léaud ainda garoto - 15 anos de idade -, que segundo Godard era amante do diretor. Fez 22 filmes, onde são visíveis seu carinho por crianças e mulheres, sua preferência pelo cinema noir, o desengajamento político e a aversão à violência. Todos os seus filmes trazem uma postura individualista e sincera. A marca de um estilo único.

(Fonte: “Cinemim” e “Cahiers Du Cinéma”)

OS SETE MELHORES FILMES DE TRUFFAUT
(por ordem de preferência)

(01)
JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS/Jules et Jim (1962). Com Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre.
Dois amigos se apaixonam pela mesma mulher. Ela casa com um deles. Depois da Primeira Guerra Mundial, quando o trio se reencontra na Alemanha, ela se apaixona pelo outro. Esse triângulo de amor e amizade evolui ao longo dos anos.
Melhor Diretor no Festival de Cinema de Mar Del Plata
henri serre, oskar werner e jeanne moreau
(02)
O ÚLTIMO METRÔ/Le Dernier Métro (1980). Com Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Jean Poiret, Andréa Ferréol, Paulette Dubost e Heinz Bennent.
Na Paris de 1942, um famoso diretor teatral, judeu, é forçado a abandonar o país. Sua esposa, uma atriz, procura manter o teatro funcionando e contrata um novo ator. Mas seu marido, na verdade, está escondido no porão da casa de espetáculos.
Prêmio César de Melhor Diretor
gérard depardieu e catherine deneuve
(03)
A HISTÓRIA DE ADELE H./ L'Histoire d'Adèle H. (1975). Com Isabelle Adjani, Sylvia Marriott e Bruce Robinson.
A obsessão apaixonada da jovem filha do escritor francês  Victor Hugo por ex-noivo sedutor e indiferente.
isabelle adjanni e truffaut
(04)
OS INCOMPREENDIDOS/ Les Quatre Cents Coups (1959). Com Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier e Albert Rémy.
Garoto de 14 anos, que mora com pais indiferentes, tem problemas na escola, deixando de ir às aulas para passar as tardes no cinema ou brincando com os amigos. Em meio às andanças, descobre que a mãe tem um amante. Depois de apanhar dela, o menino foge de casa e passa a viver de pequenos furtos.
Melhor Diretor no Festival de Cannes
jean-pierre léaud
(05)
A NOIVA ESTAVA DE PRETO/ La Mariée était en Noir (1968). Com Jeanne Moreau, Claude Rich, Jean-Claude Brialy, Michel Bouquet, Michael Lonsdale e Charles Denner.
Uma noiva busca vingança dos cinco assassinos de seu noivo, que foi morto durante a cerimônia de casamento.
charles denner e jeanne moreau
(06)
O GAROTO SELVAGEM/ L'Enfant Sauvage (1970). Com Jean-Pierre Cargol, François Truffaut e Jean Dasté.
Um garoto é encontrado numa floresta, na França no século 18, sem jamais ter vivido com seres humanos. Taxado como problemático, tem a chance de ser educado e reintegrado à sociedade por um professor que o leva para a sua casa.
Melhor Diretor da National Board of Review
jean-pierre cargol

(07)
A NOITE AMERICANA/La Nuit Américaine (1973). Com Jean-Pierre Léaud, Jacqueline Bisset, Valentina Cortese, François Truffaut, Nathalie Baye, Alexandra Stewart e Jean-Pierre Aumont.
As loucuras de um set de filmagem são representadas por um ator deprimido pela traição de sua noiva, por uma atriz embriagada que não consegue lembrar suas falas, por um astro veterano gay e por muitos outros personagens, justamente durante a gravação de uma das principais cenas de um filme.
BAFTA de Melhor Diretor
Melhor Diretor da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos EUA
Melhor Diretor do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York
jacqueline bisset e jean-pierre léaud
*******
QUEM SE FOI

ROSEL ZECH
(1942-2011)


Aos 69 anos, vítima de câncer nos ossos, faleceu no dia 31 do mês passado a atriz alemã de teatro, tevê e cinema, Rosel Zech, internacionalmente conhecida através do cinema irreverente de Rainer Werner Fassbinder. Foi em 1973, durante a rodagem de “Die Zärtlichkeit der Wölfe”, de Ulli Lommell, que ela conheceu Fassbinder, produtor do filme. Depois disso, a sua carreira passou por muitas produções televisivas, inclusive adaptações de peças teatrais de Tcheckov (“A Gaivota”) e Ibsen (“Hedda Gabler”). Sob a direção de Fassbinder, viria a ter um primeiro papel, secundário, em “Lola/idem” (1981), acabando por protagonizar “O Desespero de Veronika Voss/ Die Sehnsucht der Veronika Voss” (1982), penúltimo título do cineasta (o último foi “Querelle/idem”, no mesmo ano), inspirado na vida da atriz Sybille Schmitz (1909-1955, de “O Vampiro/Vampyr”, 1932, de Carl Th. Dreyer). Seu retrato convincente de uma estrela viciada em morfina desempenhou um papel crucial para o filme arrebatar o Urso de Ouro do Festival de Berlim de 1982, cerca de quatro meses antes da morte de Fassbinder. A atriz estreou nas telas (de TV) em 1971, no filme “O Pote/Der Pott”, dirigido por Peter Zadek. Outro boa participação sua aconteceu em “Aimée & Jaguar/idem” (1999), de Max Farberbock. Rosel Zech era uma das melhores atrizes do cinema alemão, recebendo vários prêmios por suas performances. Em 2009 fez sucesso no Festival Luisenburg no papel-título de “Mãe Coragem e seus Filhos”, de Bertolt Brecht. Diagnosticada com câncer este ano, não conseguiu superar a doença.

34 comentários:

Rubi disse...

Sempre que passo pelo seu blog, preciso parar, ler, reler e claro, apreciar. Há algum tempo venho me interessando pelas produções de Truffaut, porém, não sabia por onde começar. Cheguei a pesquisar por livros, mas fiquei com receio de comprar, até porque, pouco conheço sobre suas obras.

Aqui, é um lugar excelente pra estudar. Muitos dos nomes que conheci, foram graças a este blog. Com essas indicações, vou arrumar um tempo para assistir cada um destes filmes. Parabenizo-o pelo seu trabalho, pois acredito eu, que cada post deve lhe tomar um bom tempo.

Obrigada pelas indicações!

Maxx disse...

Conheço muito pouco de Truffaut, mas pelo que vejo vale conhecer mais.

Quanto à Mary Pickford, está naquela filme sim (The Redman´s View de 1909). Filmaço.

Abç. Bons filmes.

Enaldo disse...

O meu preferido é "A idade da inocência" (1976).

pinguim disse...

Se eu tivesse que eleger os seus sete melhores filmes, escolhia exactamente os mesmos, com destaque para três: "Os 400 golpes", "Jules e Jim" e "A História de Adéle H".

Rato disse...

Mas porquê só 7 filmes, Nahud? Você tá ficando sovina, meu irmão? Truffaut merece mais, muito mais. E faltam por aqui coisas fundamentalississimas: "Baisers Volés", "La Sirène du Mississipi", "Domicile Conjugal" "L'Homme Qui Aimait Les Femmes", "L'Amour en Fuite"...

Andressa Vieira disse...

Truffaut é de uma leva que ainda não me seduziu. Mas assisti pouquíssimos filmes dele. Acho que vou começar a dar segundas chances para o diretor que, admito, é muito bom.
:)
Até mais, Nahud!

Andressa Vieira disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkk ri demais com o "sovina" :D

Marcelo C,M disse...

“Amante” é o mínimo que posso dizer sobre FRANÇOIS TRUFFAUT, mas ele não era amante somente de mulheres, mas sim amante do cinema em si. Amava como ninguém essa ferramenta que ele tanto criou obras indispensáveis. Amava ela e aqueles que produziram obras primas. De todos do movimento NOUVELLE VAGUE ele era com certeza era o mais simpático e transmitia essa simpatia em seus filmes como Os Incompreendidos que acabou criando uma espécie de cine série do protagonista, que a quem diga é ele próprio, um retrato de sua juventude muito bem representada pelo ótimo ator Jean-Pierre Léaud.
E se alguém tem duvida que ele vivia e respirava cinema, é só pegar a cena do filme Uma Noite Americana em que seu personagem (ele mesmo) está sonhando (ou lembrando) quando era bem jovem e roubava cartazes de filmes clássicos em um cinema pela grade. Ao mesmo tempo em que tinha consigo livros de diretores autores como Luis Bunuel. Uma homenagem que ele faz ao cinema e que passou também para o resto de toda sua filmografia.
FRANÇOIS TRUFFAUT era isso, amor puro pelo cinema como nenhum outro dentro do movimento Nouvelle Vague daquela época.

Dilberto L. Rosa disse...

Olha, rapaz, não é porque eu não comentei durante meu autoexílio (sempre que eu podia, eu lia, mesmo sem comentar) que você vem aos Morcegos com um comentário tão corrido e lacônico, viu?! Rsrs.

Salve, amigo Antonio: em primeiro, obrigado pelo carinho de sempre, especialmente quando eu estava fora; em segundo, adoro Truffaut ("Jules e Jim", "A Noite Americana" e "Os Incompreendidos" estão ente meus favoritos!), sou fã de Anthony Quinn (que impulsividade de interpretação, que voz... Coisas que não se vêem mais no Cinema) e da belíssima Vivien Leigh (dizem que foi o torturador Sir. Olivier que a deixou louca assim...); e, em terceiro, porém não menos importante, vou correndo assistir "Sapatinhos Vermelhos" (sempre ouvia falar, mas agora me convenceste a assistir!)!

No mais é isso, meu caro: sigamos nesta Arte de sonhos maravilhosa, amando o que tem para ser amado e salivando saudades de tempos que não voltam mais diante de tantos heroizinhos e galãzinhos baratos de hoje em dia que não merecem um vintém! Abração!

disse...

Adoro Truffaut e, infelizmente, conheço-o menos do que gostaria. "A Noite Americana" é um dos meus favoritos.
O que sempre me frustrou foi não encontrar informações sobre a visita do ator Jean-Pierre Léaud ao Brasil, quando ele fez uma palestra na UnB.

RZeusnet disse...

Obrigado pelo comentário. É que sou Professor de História e cinéfilo assumido. Apenas juntei minhas duas paixões...Aliás, postei sobre o período 1891;1895. Vale a pena ver...passei o dia todo pesquisando, mas acho que o resultado é satisfatório!

Darci Fonseca disse...

Jules et Jim é obra-prima; Jeanne Moreau era o dsejo confesso de toda minha geração.

Jamil disse...

Prefiro o Truffaut mais poético e menos "contaminado" pelo cinema americano. O Truffaut de Beijos Roubados, Uma Garota Tão Bela Como Eu, O Homem Que Amava as Mulheres...Já havia lido sobre esse comentário de Godard em relação ao namorico de Truffaut com Léaud quando este ainda era um garotão... Quando Godard e Truffaut romperam a velha amizade, o primeiro botou a boca no trombone.

Jamil disse...

A Rosel está iluminada em Veronika Voss. Não sabia que esse filme foi inspirado na vida da atriz de O Vampiro. E o que a Rosel faz em Aimée & Jaguar?

Gustavo disse...

Esse cara fez o melhor filme que já vi, e é seu top 1 dele. JULES E JIM. Truffaut teve essa história de vida difícil, em especial na juventude, mas inspiradora.

Ana Paula Chagas disse...

Amooooooooo Truffaut! É o cineasta mais fofo de todos os tempos!

Sandrix disse...

Que pesquisa completa e bem desenvolvida! Parabéns pelo post.

José Carlos Saenger disse...

Grato pela "viagem"... gosto de bom cinema, muito!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Obrigado, Rubi, pelas palavras gentis. Realmente o blog me toma um certo tempo, mas faço-o com prazer.
Beijos

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

A IDADE DA INOCÊNCIA realmente é muito bom. Mas existe algum filme de Truffaut ruim?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

O Léaud esteve no Brasil, Lê? Quando?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

A Jeanne Moreau é pura sensualidade, Darci. Um musa eterna.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

O papel de Rosel em AIMÉE & JAGUAR, Jamil, é pequeno, mas interessante.

GIANCARLO TOZZI disse...

Só sua participação intensa na equipe do Cahiers du Cinema já garante a importância de Truffaut para a história do cinema, embora não concorde com suas críticas ácidas em relação a gente como Marcel Carné, Jean Dellanoy e Rene Clement.
E Jules e Jim é uma obra-prima! Uma ode ao amor, à amizade e à alegria de viver.

GIANCARLO TOZZI disse...

Nunca vi nada dessa atriz alemã. Vou procurar Veronika Voss. Confio nas suas indicações.

Luiz Santiago disse...

Truffaut é meu preferido! Gosto demais da delicadeza dele... Ah!

E não sabia da Rosel Zech! "Veronika Voss" é uma explosão de atuação!!!

Marta Scarpa disse...

Chorei muito assistindo Adele H. A interpretação de Isabelle é algo do outro mundo. Nahud, sinto falta de um post sobre ela aqui. Não gosta dessa maravilhosa atriz?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também não concordo com as críticas de Truffaut em relação aos cineastas veteranos, Giancarlo. Carné tem filmes ótimos, assim como todos os outros.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Gosto da Isabelle, Marta. Principalmente da Isabelle desta época. Nos últimos anos ela ficou muito estrela, muito afetada, além de ter praticamente arruinado sua beleza e expressividade com plásticas. Mas em breve ela estará por aqui.

Adecio Moreira Jr. disse...

Lembro que conheci Truffaut por conta de sua participação em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, do Spielberg. Sim, o conheci atuando!

De lá pra cá, fui pesquisando, assistindo, e descobrindo que ele é um dos diretores mais sutis que já existiu.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também foi o primeiro filme de Truffaut que vi, Adecio. Um filme mágico e ele está bem em cena.

Celo Silva disse...

Jules e Jim e Imcompreendidos, Obras-primas!

Leandro Afonso disse...

JULES E JIM e OS INCOMPREENDIDOS são obras-primas, mas NOITE AMERICANA é o que mais me cativa. pelos escritos e tipos de filmes, deve ser o diretor mais carismático da NV.

Pedro Ferreira de Freitas disse...

Gosto demais de "A Sereia do Mississipi"