setembro 03, 2011

****** SALA VIP: "OS SAPATINHOS VERMELHOS"


moira shearer
Um dos maiores clássicos do cinema britânico, realizado em 1948 pela dupla Michael Powell e Emeric Pressburger (“Narciso Negro/Black Narcissus”, 1947), tem um visual deslumbrante e impressionantes números de dança, revelando o mundo privado de bailarinos, coreógrafos e compositores. Estrondoso sucesso de público e de crítica, OS SAPATINHOS VERMELHOS havia sido planejado antes da Segunda Guerra, quando Pressburger escreveu um roteiro de encomenda a pedido do produtor Alexander Korda, que pretendia realizar uma grande produção romântica estrelada por sua então esposa Merle Oberon (“O Morro dos Ventos Uivantes/Wuthering Heights”, 1939). Arquivado o projeto, dez anos depois, os diretores resolveram reativá-lo, usando o balé como alegoria poética do drama. No entanto, eles não queriam uma atriz fazendo o papel de uma bailarina, como era (e ainda é) comum, mas uma bailarina verdadeira para o papel. Foi difícil encontrá-la, até que o diretor artístico Hein Heckroth descobriu a escocesa Moira Shearer. Inicialmente ela não aceitou protagonizar Victoria Page, pois considerava o balé muito acima do cinema, mas foi convencida por sua professora de dança a estrear nas telas. Faria ainda mais seis filmes, sendo o segundo - “Os Contos de Hoffmann/The Tales of Hoffmann” (1951) - também dirigido por Powell-Pressburger. Moira nasceu em 1926, e entre 1942 e 1952 dançou como primeira bailarina em inúmeros balés clássicos. O cinema foi apenas um passatempo rentável, ela sempre colocou a dança em primeiro lugar.

moira shearer e robert helpmann
Décima colaboração entre Powell e Pressburger e a sétima que fizeram sob o escudo de sua própria companhia, The Archers, conta a história do tirânico e perfeccionista Boris Lermontov (excelente Anton Walbrook), que sabe como ninguém descobrir novos talentos, mas lhes impõem dedicação exclusiva. Assim, quando a bailarina Victoria Page (Moira Shearer) se apaixona pelo compositor Julian Craster (Marius Goring), ele tenta impedir o romance. Pressionada para sacrificar tudo pela dança, Vicky se identifica com a heroína do balé “Os Sapatinhos Vermelhos”, vítima de um par de sapatilhas enfeitiçadas, e, como ela, envereda por um caminho trágico. Livremente inspirado em um conto de Hans Christian Andersen, tem um tom estilizado de conto de fadas para adultos. Graças à coesão e brilhantismo de todos os setores técnicos – Oscar para a trilha sonora de Brian Easdale e a direção de arte de Hein Heckroth e Arthur Lawson -, o fantástico se une ao real num turbilhão de cores, simbolicamente aproveitadas, e a paixão dos artistas por sua arte passa, num clima mágico, para os espectadores. Com esplendorosa fotografia de Jack Cardiff, magníficos cenários e primorosas coreografias, OS SAPATINHOS VERMELHOS vai além de uma dramática história de amor, traduzindo-se, sobretudo, como uma reflexão sobre os bastidores do espetáculo. A fundamental e arrebatadora seqüência de balé, que dura cerca de 15 minutos, levou seis semanas para ser rodada e é notável, uma preciosidade, unindo movimento, música e cor. O corpo de baile é composto por 53 bailarinos e foram usados 120 cenários diferentes. Um dos filmes favoritos de Martin Scorsese, que conseguiu, através da sua Fundação, restaurá-lo a partir do negativo original, após vários anos de dedicação, classificou-se em 9º lugar na lista dos 100 Melhores Filmes Ingleses de todos os tempos do British Film Institute. Já na minha relação, entre todos os musicais que assisti, ele está em 6º lugar. Pura emoção de cores, ritmo e beleza. Imperdível.



OS SAPATINHOS VERMELHOS
THE RED SHOES
(1948)

País: Inglaterra
Gênero: Musical
Duração: 133 min.
Cor
Produção, Direção e Roteiro: Michael Powell
e Emeric Pressburger (Rank/The Archers)
Adaptação do conto de Hans Christian Anderson
Fotografia: Jack Cardiff
Edição: Reginald Mills
Música: Brian Easdale
Cenografia: Hein Heckroth (des. prod.)
e  Arthur Lawson (d. a.)
Vestuário: Carven, Jacques Fath e Mattli
Elenco:
Anton Walbrook (“Boris Lermontov”), Marius Goring (“Julian Craster”), 
Moira Shearer (“Victoria Page”), Robert Helpmann, 
Leonide Massine, Albert Basserman, 
Ludmilla Tcherina e Esmond Knight

Nota: ***** (ótimo)

Prêmios: Oscar de Melhor Trilha Sonora 
e Melhor Direção de Arte;
Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora.

anton walbrook
moira shearer
marius goring
moira shearer



*******

ESTRÉIA

NOTÍCIAS DE ANTIGUIDADES IDEOLÓGICAS: MARX, EISENSTEIN, O CAPITAL
(Nachrichten aus der Ideologischen Antike - Marx/Eisenstein/Das Kapital, 2008)


Filmado em plena crise econômica, é o projeto mais radical de Alexander Kluge, um diretor associado à criação do Novo Cinema Alemão, nos anos 1960, e conhecido principalmente por seu filme “Artistas na Cúpula do Circo: Perplexos/Die Artisten in der Zirkuskuppel: Ratlos” (1968). A sua mais nova criação sai no Brasil diretamente para o DVD. A produtora e distribuidora Versátil Home Video acaba de lançá-la em uma caixa com três discos (R$ 69,90) contendo a versão integral do filme e adaptação dos conceitos contidos no livro “O Capital”, de Marx. Fazer um filme sobre “O Capital” é o mesmo que filmar a lista telefônica, e Kluge sabia disso desde o começo, ou seja, desde que decidiu concretizar um projeto nunca realizado pelo cineasta russo Serguei Eisenstein (1898-1948), diretor de clássicos como “O Encouraçado Potemkin/Bronenosets Potyomkin” (1925). Ao terminar “Outubro/Oktyabr”, em 1928, Eisenstein ficou dois anos com a ideia fixa de filmar “O Capital”, seguindo a estrutura formal literária usada por James Joyce para escrever seu “Ulisses”. Em 1929, decidido a contar com sua colaboração, procurou o autor irlandês em Paris que, já cego, foi de pouca ajuda. Não foi só de Joyce que Eisenstein recebeu um não. Do Comitê Central soviético aos estúdios hollywoodianos, passando pela Gaumont francesa, ninguém quis bancar seu projeto. Ao desenterrar o projeto, Kluge uniu a filosofia de Kant, Adorno e Habermas, recorrendo também a versos escritos na prisão, em 1871, por Louise Michael, a poeta da Comuna de Paris, mostrados por meio de cartelas (como no cinema mudo), além de usar fragmentos de óperas de Luigi Nono, Max Brand e Wagner (“Tristão e Isolda”, uma montagem dirigida por Werner Schroeter em que os marinheiros saem diretamente do Encouraçado Potemkin). Também no filme, o diretor segue os passos apressados de uma garota em Berlim e, no lugar de contar sua história, começa a divagar, acompanhando os movimentos da câmera, que focaliza as maçanetas das portas das casas, os interfones, a bolsa e os sapatos da mulher. O olho selvagem da câmera penetra na realidade do processo de produção, enquanto o narrador conta a história dos objetos e demonstra, como queria Marx, que uma mercadoria não tem nada de trivial, que ela está cheia de metafísica, de conteúdo teológico. Numa realização de 9 horas e meia de duração, Kluge realiza o sonho do famoso cineasta russo.

46 comentários:

As Tertulías disse...

Maravilha Antonio! Amo! (Mais uma na qual nos "cruzamos" - só que minha postagem é muito, muito antiga... de 3 de janeiro de 2009... de uma olhadinha!

http://tertulhas.blogspot.com/2009/01/moira-shearer-red-shoes-vicky-others.html

disse...

"Os Sapatinhos Vermelhos" tem cores, imagens, situações e música de contos de fadas. É realmente uma obra-prima.

pinguim disse...

É um filme intemporal!

Darci Fonseca disse...

Esse filme tocante me faz lembrar sempre de Ionaldo Cavalcanti, pintor e escritor pernambucano que me disse em qntrevista que "Sapatinhos Vermelhos" era o filme que ele mais gostava das centenas que ele havia assistido. A surpresa era porque Ionaldo era fã de Jack Palance e gostava de ser chamado de 'Ionaldo Jack Palance'. Mais um belo post do nosso Sam Spade. Parabéns!

Sihan Felix disse...

Que post fantástico!
Tenho passado por aqui frenquentemente e sempre me perco (no melhor sentido da palavra) nos posts bem escritos e com imagens tão sensacionais.
Os Sapatinhos Vermelhos é, sem dúvida, uma grandiosa e completíssima obra-prima.

Gis disse...

Muito bom o post,,gosto de saber um pouco da história sempre,,
parabéns!

Daniele Moura disse...

Fantástico filme. verdadeira obra de arte. Muito bom o texto, adorei!!
Um abraço
Dani

www.telaprateada.blogspot.com

victor ramos disse...

Ô filme que eu tenho que ver ainda! Pena que ainda não conferi este clássico.

Abs!

Pudim de cinema

Rato disse...

Também atribuí a nota máxima quando comentei o filme no Blogue do Rato. Uma maravilha sem tempo!

Marcelo C,M disse...

Quando Cisne Negro estreou, ouvi falar muito desse filme, já que são filmes que retratam esse mundo. Pelas fotos, a fotografia realmente é algo magico e ouvi do propio Martin Scorsese que é um de seus filmes favoritos.
Estou devendo comigo mesmo em assistir a esse filme, portanto, mais uma caçada proveitosa.

Pena disse...

"Nobre" e Admirável Amigo:
"...Um dos filmes favoritos de Martin Scorsese, que conseguiu, através da sua Fundação, restaurá-lo a partir do negativo original, após vários anos de dedicação, classificou-se em 9º lugar na lista dos 100 Melhores Filmes Ingleses de todos os tempos do British Film Institute...."

O filme, que ainda não vi, os Sapatinhos Vermelhos deve ser pertinente observar dada a pureza e maravilha da sua descrição e narração extraordinárias e perfeitas que requereu imensa investigação e dedicação.
Excelente, amigo.
Abraço de respeito pelo seu talento profundo e magistral.
Sempre a admirá-lo e a respeitá-lo

pena

Concebe o encanto nas salas e telas dos sonhos.
Bem-Haja, pela sua magia no meu blogue.
MUITO OBRIGADO agradecido.
Adorei o que escreveu de forma notável e fantástica.

Renart Souza disse...

Caro Júnior
Merci pelas preciosíssimas informações sobre esse mágico mundo do cinema...
Avanti!
de renart

Ana Paula Chagas disse...

Lindíssimo!

Edivaldo Martins disse...

RED SHOES IS AMAZING!

Monica Mendes disse...

Bom dia,amigo!Adorei tudo,o texto,as fotos,o vídeo.Muito bacana,a Arte sempre muito "rica".Sua sensibilidade com ela é bastante visível.Bjuxssss.....

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Já o tinha associado à THE RED SHOES, Ricardo (Tertúlias). Vou dar uma lida no seu post.
Tudo de bom

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Você vai gostar, Marcelo. Powell-Pressburger é uma dupla de primeira qualidade. NARCISO NEGRO, dirigido por eles, é um dos meus filmes favoritos.

Jamil disse...

Por que será que o Anton Walbrook não foi parar em Hollywood? O cara é muito bom! Já o Marius Goring não convence ninguém como o objeto de desejo de Victoria Page.

Jamil disse...

Será que existe algum maluco que tenha coragem de assistir a um filme de 9 horas e meia de duração sobre O Capital? Tem que ser comunista de carteirinha.

Prof. Marcelinho disse...

opa muito bom e vc como vai? abração

Marcelle Maron disse...

"Friend" vc é 10 e colore o mundo com sua inteligência e BELEZA. Saudades. Bjs

M. disse...

Antonio,

Nunca assisti a esse filme! Mas com este texto tão envolvemente, que é mesmo a sua marca e a bela fotografia da película, fico com a imensa vontade de vê-lo.
Abraço e bom fim de semana!

Ana disse...

Oi, Antonio :) Eu sou fascinada por filmes antigos, mas confesso que desconhecia esse. Fiquei com uma vontade enorme de assistir. Ainda mais pelo espetáculo artístico. :D
Ótima dica.
Bjs ;)

@philipsouza disse...

Uma grande obra prima mesmo, um fascinio enorme por filmes antigos...

abraço

Philip Rangel
http://entrandonumafria.blogspot.com/

Luiz Santiago disse...

Eu simplesmente amo esse filme. E o Scorsese também, né? Ótima lembrança amigo!

Sergio Andrade disse...

Filme belíssimo, mas vi faz muito tempo, ainda na era do VHS. Está na hora de rever em condições melhores.

Abs

Fábio Henrique Carmo disse...

Ótimo texto, Antônio! E taí um filme que merece urgentemente uma edição decente em Blu-Ray aqui no Brasil...

Ana Catarina disse...

Adorei o que li sobre o filme, assisti ao trailler também!!!! Sabe como consigo esse filme pra assistir e se tem versão com legenda ou tradução?
Adoro filmes antigos, e adoro musicais, e adoro o seu blog, pena que não tenho tanto tempo agora pra visitá-lo mais vezes, estou em fase final na faculdade, monografia... Aí fico com a vida ainda mais corrida.
Sucesso e felicidade sempre pra você!
Grande beijo.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Realmente é estranho, Jamil. Anton Walbrook era um dos atores mais populares e conceituados da Inglaterra. Então por que nunca foi cobiçado por Hollywood? De longe superava gente como Stewart Granger, Richard Todd e David Farrar.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Tenho esse filme no meu acerto, Ana Catarina. Com legenda. Não só ele como dezena de outros musicais.
Abraços.

Gustavo disse...

De acordo. Um tour de force cinematográfico, e um poderoso drama romântico também.

O Narrador Subjectivo disse...

quero muito ver esse filme, powell e pressburger são excelentes! cumprimentos

As Tertulías disse...

Antonio,
voce assistiu a primeira versao (inglesa) de "Gaslight" com Walbrook no papel (depois) de Boyer???? Muito, muito interessante...

GIANCARLO TOZZI disse...

Os movimentos de câmera, a dança, a cor, a música... Como esquecer a cena em que Anton Walbrook pergunta a Moira Shearer numa recepção por que dançar é tão importante para ela e Moira responde – ‘Por que viver é importante? Respirar’ A dança para ela não é só um meio de expressão, é uma coisa visceral.

GIANCARLO TOZZI disse...

O Kluger não merece ser citado neste blog. Do Novo Cinema Alemãom (Trotta, Fassbinder, Schlondorff, Herzog, Wenders etc.) ele é o mais fraco.

Rodrigo Duarte disse...

Antônio,

Se Os Sapatinhos Vermelhos fica em sexto lugar, quais seriam os outros cinco musicais que vc listaria na frente? Taí uma sugestão para post de musicais (se é que você já não o escreveu).
Gde Abraço.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Ricardo (As Tertúlias), assisti a primeira versão de GASLIGHT e gostei muito. Na verdade, não saberia dizer qual das duas é a minha preferida.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Talvez o Kluge seja o mais radical, Giancarlo, não o mais fraco.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Boa ideia, Rodrigo. Aguarde a postagem. E aí vai a relação dos meus cinco favoritos no gênero musical: 1)Sinfonia em Paris; 1) Cantando na Chuva; 3)Cabaret; 4) Os Guarda-Chuvas do Amor; 5) O Show Deve Continuar.

Márcinha Mendonça disse...

Oi meu querido passando pra desejar uma linda semana, que ela seja abençoada, e iluminada, com todas as cores possivéis, beijos grandes..

Thiago Priess Valiati disse...

Belo texto. Parabéns!
Abraços

annastesia disse...

Grande espetáculo de Powell e Pressburger e presença marcante de Moira. Clássico!

Pena disse...

Bem-Haja, admirável amigo cinéfilo.
É mágico e sublime no que concebe.
Parabéns.
Abraço amigo de respeito.
Com admiração sempre e constante.

pena

Excelente.
É fantástico na magia que transmite da Tela dos Sonhos.
Parabéns renovados.
Adorei.

Rafael Carvalho disse...

Desde olançamento de Cisne Negro no início do ano, quando o Aronofsky se disse altamente influenciado por esse filme (uma referência evidente, diga-se) que eu quero ver o filme, mas estou adiando até agora. Espero que esse seu post seja um incentivo para eu vê-lo logo, logo.

Kley Coelho disse...

Um dos maiores musicais da história.

Maria Haydée Nogueira disse...

Inesqecível...