setembro 21, 2011

***************** SALA VIP: "MELANCOLIA"



MELANCOLIA
MELANCHOLIA
(2011)

País: Dinamarca, Suécia, França e Alemanha
Duração: 136 mins.
Cor
Produção: Meta Louise Foldager e Louise Vesth
(Zentropa Entertainments / Memfis Film /
 Zentropa International Sweden)
Direção e Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Edição: Molly Marlene Stensgaard
Cenografia: Jette Lehmann (des.prod.); 
Simone Grau (d.a.)
Vestuário: Manon Rasmussen
Elenco:
Kirsten Dunst (“Justine”), Charlotte Gainsbourg 
(“Claire”), Kiefer Sutherland (“John”), 
Charlotte Rampling (“Gaby”),John Hurt 
(“Dexter”), Alexander Skarsgård (“Michael”),
Stellan Skarsgård e Udo Kier.

Nota: **** (muito bom)

Prêmios: Melhor Atriz no Festival de Cannes;

Um planeta está em rota de colisão letal com a Terra. Talvez seja o fim da humanidade, de tudo. As irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg) terão, em momentos diferentes, que aceitar o inevitável. E os principais valores da sociedade serão colocados em xeque, como o dinheiro, o amor, a família, o trabalho, o casamento, o orgulho. É o que propõe o mais novo filme do polêmico dinamarquês Lars Von Trier. Poético, de rara sensibilidade, com poderosas imagens e extraordinária atuação das protagonistas, com atenção especial à francesa Charlotte Gainsbourg (as participações de Charlotte Rampling e John Hurt também são sensacionais), MELANCOLIA evidencia um pessimismo latente, uma catástrofe emocional explicitada na fala de Justine: “A Terra é má, ninguém vai sentir falta dela”, gerando desconforto geral. Não é um filme fácil. Comovida e solidária, a poeta baiana Neuzamaria Kerner escreveu uma carta para a personagem Justine. Publico-a aqui.

CARA JUSTINE

Há vários dias tento lhe escrever, mas sempre adio sem saber exatamente o motivo da postergação. Talvez eu até saiba... O inconsciente, no entanto, é extraordinariamente protetor em certas situações. Tenho quase certeza de que você sabe do que falo. É possível. Tudo é possível neste mundo nosso de possibilidades. Então, amiga, se é que posso tratá-la assim, fiz alguns malabarismos mentais para driblar o meu inconsciente a fim de deixar emergir pensamentos teimosos que dançavam no meu palco interior e que lutavam bastante para continuarem invisíveis e indecifráveis até o momento em que lhe vi. Em verdade, esses pensamentos são como seres ou entidades ou sentimentos esdrúxulos que habitam nossas mais abissais regiões. Como nos dão trabalho! O consolo é que eles não estão apenas comigo e com você, mas com todos os seres viventes e pensantes que desde que “encarnam” já vêm com a carga de raiva, tristeza e medo e suas polaridades como se fosse uma maldição passada de geração em geração.

charlotte gainsbourg
Pois bem, acompanhei seus últimos e impressionantes passos naqueles dias da transformação compulsória – digamos assim, eufemisticamente. Confesso que no primeiro momento da sua aparição não lhe entendi muito bem. Você deveria estar feliz, afinal estava casando com um homem bom e bonito e que parecia realmente lhe amar. Por que você o rejeitou? Será porque você quis poupar-se ou poupá-lo de dores? Ou  não o amava o bastante para juntos enfrentarem o que estaria por vir? Seu casamento deu uma espécie de prazer – de hora última - à sua irmã e ao seu cunhado que não economizaram dinheiro nem trabalho para que sua festa fosse a mais linda. Perfeita. Sua mãe, pra variar, transbordava o amargor de sempre; seu pai, amoroso e generoso, mas na dele... provavelmente nunca quis se comprometer com a vida. Talvez aí esteja a explicação do comportamento de sua mãe. Os outros parentes, como todos. Sabe, o seu chefe - pobre coitado -, mereceu os desaforos que você corajosamente despejou sobre ele, um carcará hipócrita, fazedor de dinheiro e que nunca se preocupou com as suas questões existenciais – nem com as de ninguém. Nem nunca atentou para os motivos da irreverência contida nas suas peças publicitárias. Creio que naquela hora você vingou todos os desrespeitados nas empresas sem precisar buscar apoio nos famigerados sindicatos de trabalhadores.

kirsten dunst
Depois da festa pude voltar a me concentrar somente em você, inclusive lembrando-me da cópula – tenho que dizer esse nome sem graça – com o cara contratado pra lhe arrancar um “slogan”. Parecia que você estava com muita raiva porque sobre a terra você o fez derramar o sêmem que não poderia mais frutificar. Inútil semear numa terra infértil. Você humilhou a mãe-terra. Mas não pense que estou lhe julgando, apenas tentando dizer da minha compreensão. Raiva é raiva, irmã gêmea da impotência. Você estava tão impotente como qualquer pessoa que conhece, sente e capta, pelas pontas dos dedos-antenas, as energias do universo, mas com a consciência de que não mais poderia contar com elas, as energias. Definitivamente você estava mais abandonada de si mesma do que nunca. Entendo, de verdade, a sua depressão. A dor que provém da alma dos ossos e dos nossos centros todos inacessíveis por isso incurável. Essa era a sua tristeza. A dor do exilado. A saudade do não-sei-onde. A Melancolia metafórica, mas ao mesmo tempo muito real, que lhe esmagaria sem piedade num futuro bem próximo. Justine, a Melancolia carrega o medo nas letras que compõem essa palavra. Melancholia que não agradava nem no latim nem no grego desde quando nasceu e foi registrada em sua certidão já com um significado doloroso: melan(ós) ‘negro’, ‘funesto’, ‘triste’, ‘sombrio’ + cholē ‘bílis’, ‘fel’,’veneno’. Quem não tem medo disso tudo que faz o vivente carregar um fardo pesado e invisível dentro de um exílio imaginário que pune o melancólico por um crime que desconhece ter cometido? Vi você assim, Justine... desnuda literalmente, sendo carregada para o banho sem sentido, pernas que recusavam suportar o corpo, pés sem impulso cósmico para a passada necessária ao minuto seguinte.

charlotte, lars e kirsten
Ontem, de novo, pensei em você quando uma amiga me falou que não estava se preocupando com mais nada. Entregava os incômodos ao universo e dizia “tudo passa”. Repetia “tudo passa”. Olhei nos olhos dela e revi os seus. Tudo realmente passa mesmo que seja por cima de nós. Cada ser – humano - tem que viver com seu próprio momento, bom ou ruim, embora alguns procurem e sejam ajudados quando tudo parece nada. Mas não adianta porque nós sabemos o que sentimos. Os outros seres apenas sentem e percebem a si e ao mundo, mas não têm ciência disso. Saber sentir. Saber que sente. Elaboramos o que vemos e sentimos pelo tal do “eu”. É a isso que chamamos de consciência. Penso no seu criador agora. O deprimido Lars. Ele disse que nascemos com uma sentença de morte, ou seja, a consciência de que a existência tem fim e que ninguém quer ser finito. Em verdade ele usou você para dizer isso ao mundo naquele dia. Muitos não ouviram e preferiram viver na ilusão. Achei muito engraçado, porém verdadeiro, ele dizer que os psicoterapeutas, quando consultados, dizem que a ansiedade e a depressão são perigosas, mas não significam o fim do mundo. No entanto, estão enganados. Redondamente, assim como Terra e Melancolia. Claro que você fez o papel que ele quis. Interessante essa relação entre criador e criatura. Mas você contra-atacou ao tomar consciência de que lutar com o inevitável é mais desgraçado do que tudo. Aí você entra num invejável estado de serenidade e de ajudada passa a ser ajudadora. Foi ótima a sua mudança. Lembra de quando você se despe, simbolicamente despojando-se das vestes, e vai andando pelo bosque e deita-se sobre um pedaço significativo de rocha à beira de um rio? Perfeito momento de entrega e conexão com o universo. É isso. A serenidade nasce da aceitação e da entrega. Entenda que falo de aceitação e não de resignação. Num outro dia, distraidamente você se senta na murada dos jardins do castelo e fica balançando as pernas como uma criança que aguarda. Você olha para os longes celestes... e parece nem pensar em nada, em ser nada. Naquele momento apenas é. Acontece então o já sabido. Tudo o que se passa naquele dia passa sobre você. É o esmagamento literal de tudo. É o fim. Bem que eu queria lhe falar sobre esse fim que não é fim, porém começo (ou recomeço). Mas não sei onde você está agora nem como está.

alexander skarsgard e kirsten dunst
Vou depositar esta carta sobre uma montanha bem alta, se eu tiver coragem suficiente para escalá-la, e esperar que você a recolha e leia. Não posso ir ao correio ou enviar pela internet porque não tenho o seu endereço exato... Pode ser que as conexões todas tenham caído. Ou pode ser que as conexões todas se iniciem agora. Antes de finalizar quero agradecer a sua companhia naqueles dias que duraram apenas duas horas para mim e para outros que realmente lhe viram e lhe sentiram. Quando eu crescer, quero ser valente como você apesar de todos os pesares. Também quero dizer que tive um ancestral com o seu nome o que nos faz ter algo em comum. Chamava-se Justinus Kerner, viveu no século XVIII, alemão, poeta, médico que se interessou por um monte de coisas que diziam ser estranhas – porque não compreendiam. Onde você estiver e se por acaso o encontrar, pergunte-lhe sobre A Vidente de Prevorst. Daqui a três dias (18) seria seu aniversário de nascimento, caso estivesse entre nós. Talvez esteja e não saibamos. A gente nunca sabe, amiga. Um grande abraço cheio da luz que você merece por tudo o que viveu, por tudo o que ensinou.

Texto de NEUZAMARIA KERNER
Poeta
www.neuzamariakerner.blogspot.com

lars von trier


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CONFIDENCIAL

MAX LINDER


O comediante que mais influenciou Charles Chaplin era francês – nascido em dezembro de 1883 – e teve fim trágico: suicídio. Ele a mulher foram encontrados mortos num hotel de Paris, em 1925. A trajetória de Max Linder começou em 1900, quando aos 17 anos trocou a escola pelos palcos de Bordeaux. Quatro anos depois, mudou-se para Paris, onde ganhou pequenos papéis em peças melodramáticas. Em 1905, iniciou carreira na Pathé Filmes. Nos três anos seguintes, dividiu-se entre teatro e cinema. Em 1908, percebeu que o cinema era sua grande vocação. E decolou para a fama. A ponto de, em 1910, já ser considerado o comediante mais conhecido das telas de todo o mundo. Depois de desenvolver e estudar diferentes personagens, Linder encontrou seu “alter-ego cinematográfico” no personagem Max, um homem urbano, de chapéu e terno elegantes que constantemente se dava mal por ser um típico bon vivant e correr atrás de belas garotas. Com a criação de um personagem fixo Max Linder se tornou a primeira figura reconhecível ao público da história do cinema. A partir de 1910, passou, além de atuar e escrever, a dirigir filmes. Sua popularidade chega ao auge em 1914, mas, convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial, foi atingido por gases venenosos e teve seu primeiro colapso nervoso, que lhe deixou seqüelas pelo resto da vida. O boato da sua morte nas trincheiras provocou no seu público uma verdadeira histeria. Ao voltar da guerra, fez alguns filmes franceses e aceitou proposta de um estúdio norte-americano, mudando-se para os Estados Unidos em 1916, onde seus problemas de saúde voltaram a surgir. Em 1917, teve dupla pneumonia e passou um ano se recuperando na Suíça. Ao retornar à Califórnia, formou sua própria produtora e realizou uma paródia de “Os Três Mosqueteiros”: “Three Must-get-Theres” (1922). Novamente em Paris, casou-se, em 1923. Mas não encontrou paz. Mergulhou numa crise profunda. A última de sua vida. Vítima freqüente de depressão, que o levou ao uso de drogas, fez um pacto suicida com sua esposa, a jovem Jean Peters. Em 31 de Outubro de 1925, ele cortou as veias da sua esposa, antes de fazê-lo nele próprio. Condenado por gerações posteriores a um quase total esquecimento, a apresentação do filme “Na Companhia Max Linder”, em 1963, narrado pelo diretor René Clair, foi apenas o início de uma reavaliação, colocando merecidamente Max Linder entre os grandes nomes do cinema mundial.

24 comentários:

Rubi disse...

Grande post!
Confesso que tenho certo receio quando vou assitir filmes atuais. Talvez por estar tão acostumada ao antigo. Pelo texto, me pareceu um filme muito bom; fora o elenco, que é ótimo também.


Até mais!

pudimdecinema disse...

Que belo post!
Tenho que ver Melancolia... até gosto do estilo do Trier.


Abs! Cumprimentos cinéfilos!

Victor Ramos

Celo Silva disse...

Belissimo Post, repleto de belas fotos q fazem jus ao filme. Alias, teu Blog consegue mesclar muito bem varias fotos com texto sem se tornar cansativo ou carregado. Parabens! Em minha opiniao, até agora, o melhor filme do ano. Abração!

Rafael W. disse...

Preciso conferir este filme. Do Von Trierl, só assisti Anticristo, mas já me senti completamente hipnotizado por seu modo de fazer cinema.

http://cinelupinha.blogspot.com/

Marcelo C,M disse...

Pelo visto eu não fui o único que entrou de cabeça neste filme. Assisti ele na estréia (no cineclube ZH seguido por debate) e realmente é um filme que no final nos deixa anestesiado, sem saber fazer uma reflexão consigo próprio logo em seguida, porque o filme termina e estamos petrificados pelo que vimos. Não foi fácil escrever sobre esse filme, pois existem muitas camadas de interpretação, como em todos os trabalhos do diretor, mas por outro lado, torna prazeroso, pois temos a absoluta certeza que as ultimam duas horas não foram nenhum pouco desperdiçadas. Junto Copia Fiel (que continua ainda em cartaz por aqui) é um dos melhores filmes do ano. Confiram minha critica na época do lançamento.

http://cinemacemanosluz.blogspot.com/2011/08/cine-dica-em-cartaz-melancolia.html?zx=71c2e33d9ded345c

Marcelo C,M disse...

Cara é para assustar. Estava lendo este post sobre esse filme, então deixei o meu comentário. Em seguida, fui pegar o jornal Zero Hora de Porto Alegre, e né que dou de cara com uma analise sobre o filme, criado por uma Psicóloga!
É como um colega do serviço sempre fala, são as forças ocultas hehehehe;
Tentarei postar no meu blog depois.

Fábio Henrique Carmo disse...

Grande post, Antônio. Preciso ver este filme ainda essa semana. Abraço!

tozzi disse...

é um filme muito pesado, pessimista, sem saída. só não saí no meio da sessão por causa das charlottes (gainsbourg e rampling). ainda acho que os dois melhores filmes de trier são os primeiros: "europa" e "ondas do destino".

tozzi disse...

desconhecia o fim trágico de max linder. uma pena. você indicaria algum filme dele, nahud?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Comigo se passa a mesma coisa, Rubi. Fico sempre achando que não vou apreciar os roteiros vazios e o excesso de efeitos dos filmes atuais, mas as vezes me surpreendo.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Victor (pudim de cinema), acho interessante a beleza visual dos filme de Von Trier, a excelência do elenco e os argumentos densos, mas me incomoda a sua neurose/amargura.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Até o momento ainda fico com a A ÁRVORE DA VIDA como o melhor filme do ano, Celo.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Li sua crítica, Marcelo. Bacana.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

É fundamental ver MELANCOLIA, Fábio. Mas se prepare para o baque emocional.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Eu também não sou muito chegado ao cinema de Von Trier, Tozzi.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Confesso que nunca assisti nada do Max Linder, Tozzi. Já tentou o blog Tele Cine Brasil? Lá vc pode baixar relíquias do cinema mudo.

Leandra disse...

Um filme surpreendente e que atesta a capacidade criadora do cinema nos tempos atuais.

Leandra Leal

renatocinema disse...

Estou ansioso para ver Melancolia. Mas, a faculdade está me segurando.

abraços

Jamil disse...

Sem comentários. Passo longe do cinema deste dinamarquês maluco.

Jamil disse...

Conheço fragmentos de comédias de Linder. Chaplin sabia o que estava fazendo ao estudar seu estilo único.

Marta Scarpa disse...

Esse filme me assustou. Muito negativo. Prefiro coisas mais leves e saudáveis.

Marta Scarpa disse...

Aproveitando a deixa, sugiro um post com a maravilhosa Charlotte Rampling, uma Bacall revisitada.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Sugestão anotada, Marta. A Charlotte Rampling é fantástica.

Andreia Mandim disse...

Estou curiosa para assistir este filme, parece ter cativado muitas atenções desde que foi anunciado.

Já agora, belo texto.


cumprimentos,
cinemaschallenge.blogspot.com