setembro 01, 2011

**************** VERA CRUZ: AMBIÇÃO e DECLÍNIO



 
Um dos mais importantes estúdios cinematográficos brasileiros, fundado em 1949 por Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho, a Companhia Cinematográfica VERA CRUZ existiu durante cinco anos e realizou 21 filmes de longa-metragem. Seus estúdios de mais de 100.000 m² ocuparam o que antes era uma granja da família Matarazzo, em São Bernardo do Campo (SP), e receberam material técnico de primeira qualidade, bem como profissionais do exterior. Produção Brasileira de Padrão Internacional era o seu slogan, dando mostras da ambição de atingir padrões internacionais. No entanto, o sonho durou pouco e, em 1954, entrou em declínio. Entre os motivos da decadência, a ausência de um sistema próprio de distribuição - os distribuidores e os exibidores ficavam com mais de 60% da arrecadação de bilheteria. Havia ainda a dificuldade de colocar o filme nacional no competitivo mercado internacional. A companhia foi prejudicada também pela concorrência desigual com os filmes estrangeiros exibidos no Brasil. Apesar do pouco tempo de atividade, formou uma geração de notáveis profissionais e a qualidade técnica-artística de seus filmes marcou uma época, mostrando a viabilidade do cinema brasileiro.

Muitos dos filmes da VERA CRUZ adquiriram prestigio nacional e internacional, fazendo hoje parte integrante da historia do cinema brasileiro. Essa fábrica cinematográfica, que procurou atender a todos os gostos (adaptações literárias, dramas, comédias, policiais, romances históricos, aventuras, documentários), legou dois subgêneros: os filmes de cangaço - que até o Cinema Novo iria beber na fonte - e os chamados “caipiras”, criados como veículos para o fantástico comediante Mazzaropi. Ele, assim como outros atores do elenco do estúdio, são um capítulo à parte. Provenientes do que de melhor tínhamos em nosso teatro, tinha no seu cast valores preciosos como Jardel Filho, Nicete Bruno, Eva Wilma, Paulo Autran, John Herbert, Tonia Carrero, Anselmo Duarte, Ruth de Souza, Cleide Yáconis, Ilka Soares, Maria Fernanda etc. Uma inesquecível constelação! Para quem desconhece esse nosso passado recente, listei dez filmes representativos da VERA CRUZ, resultando numa viagem de sensíveis imagens, canções populares e memória daqueles que construíram uma das mais importantes sagas do nosso cinema.

CAIÇARA (1950)
direção de Adolfo Celi
elenco: Eliane Lage, Carlos Vergueiro, Mário Sérgio, Célia Biar e Renato Consorte

eliane lage

Primeiro filme da VERA CRUZ. Uma jovem filha de leprosos apaixona-se por um marinheiro. As qualidades técnicas inegáveis não superam a fragilidade do enredo e a falsidade dos desempenhos. Eliane Lage, nascida na França, fez apenas cinco filmes, terminando por morar numa fazenda em Goiás. De olhos verdes e atlético, Mário Sérgio foi descoberto numa praia de Santos pelo diretor gay Alberto Cavalcanti. Fez sucesso como galã, mas largou o cinema em 1958 para viver num sítio no Paraná.

CANDINHO (1954)
direção de Abílio Pereira de Almeida
elenco: Mazzaropi, Marisa Prado, Ruth de Souza, Adoniran Barbosa e John Herbert

Caipira tem um namorico com a filha de um coronel e acaba expulso da fazenda em que vive. Vai para São Paulo, iniciando uma busca incansável pela mãe que o abandonou. Depois desse fracasso comercial, Mazzaropi criou sua própria produtora, ganhando muito dinheiro e popularidade por mais duas décadas. No elenco, a lendária Ruth de Souza, que abriu caminho para o artista negro no Brasil.

O CANGACEIRO (1953) 
direção de Lima Barreto
elenco: Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton Ribeiro e Vanja Orico

Premiado no Festival de Cannes, o tema, para a época, era original: em meio à luta com as tropas organizadas por voluntários em busca de defesa de seus vilarejos, o conflito entre dois cangaceiros por conta de uma professora raptada a quem um deles liberta por amor. Mistura de faroeste nordestino e drama romântico, tornou-se um clássico do cinema nacional. Com diálogos da escritora Rachel de Queiroz, foi o primeiro filme brasileiro a ganhar repercussão internacional. Vanja Orico começou sua carreira cantando em um filme de Federico Fellini, “Mulheres e Luzes / Luci del Varietà” (1950).

FLORADAS na SERRA (1954)
direção de Luciano Salce
elenco: Cacilda Becker, Jardel Filho, Ilka Soares, John Herbert, Miro Cerni e Lola Brah

cacilda becker
Baseado em romance homônimo de Dinah Silveira de Queiroz. Cansada dos prazeres mundanos, uma moça rica se refugia em Campos do Jordão, descobrindo que está com tuberculose. Mesmo não suportando o tratamento em uma clínica, adia à volta a capital paulista quando se enamora de outro paciente, um escritor pobre. Rara oportunidade de conhecer o extraordinário talento de Cacilda Becker, um ícone do teatro brasileiro. Grande sucesso de crítica, sendo considerado o melhor filme da VERA CRUZ.

LUZ APAGADA (1953)
direção de Carlos Thiré
elenco: Mário Sérgio, Maria Fernanda, Fernando Pereira e Sérgio Hingst

Numa pequena cidade, um farol é o centro de rede de contrabandos, enquanto a filha do faroleiro se divide entre o amor de nativo e de ajudante da administração portuária. O belo galã Fernando Pereira abandonaria o cinema para enriquecer com corretagem de imóveis. Atriz excepcional, Maria Fernanda é filha da poeta Cecília Meirelles.

Na SENDA do CRIME (1954)
direção de Flaminio Bollini Cerri
elenco: Miro Cerni, Cleide Yáconis, Silvia Fernanda e Renato Consorte

Bancário leva uma vida perdulária frequentando casas noturnas suspeitas e namorando uma sofisticada vedete do teatro de revista. Endividando, se envolve com marginais e planeja roubos. Melodrama criminal com muita ação e excelente atuação do versátil Miro Cerni. Ele deixou o cinema em 1956, casando-se e indo morar numa fazenda no interior do Rio de Janeiro. Irmã de Cacilda Becker, Cleyde Yáconis é uma das maiores atrizes do Brasil e, ainda hoje, aos 88 anos de idade, faz teatro e televisão. Recentemente interpretou Brígida Gouveia na telenovela “Passione” 

SINHÁ MOÇA (1953)
direção de Tom Payne
elenco: Anselmo Duarte, Eliane Lage, Ruth de Souza e Eugênio Kusnet
 
ruth de souza

No século 19, a filha de coronel latifundiário chega à fazenda familiar com ideias abolicionistas. Enamora-se de um rapaz, embora rejeite sua ideologia escravagista. Suntuosa produção que levou o Urso de Prata no Festival de Berlim e o Leão de Bronze em Veneza. Um dos nossos maiores galãs, Anselmo Duarte, brilhou na direção de “O Pagador de Promessas” (1962), concorrendo ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

TERRA é SEMPRE TERRA (1951)
direção de Tom Payne
elenco: Marisa Prado, Mário Sérgio, Ruth de Souza, Eliane Lage e Célia Biar

Rígido capataz despreza sua mulher mais jovem. Ambicioso, rouba na colheita de café da patroa, que manda seu filho inspecionar a fazenda. Mulherengo e jogador, o rapaz perde todo o dinheiro no carteado, ficando endividado. O empregado se oferece para comprar a fazenda e, assim, liquidar sua dívida. Marisa Prado filmou na França e Espanha, deixando o cinema depois de se casar com um milionário libanês.

TICO-TICO no FUBÁ (1952)
direção de Adolfo Celi
elenco: Anselmo Duarte, Tônia Carrero, Marisa Prado, Marina Freire e Ziembinski.

Cinebiografia do compositor Zequinha de Abreu. Ele se apaixona por uma artista de circo, compondo um chorinho em sua homenagem. A beleza de Tônia Carrero pasmou os europeus no Festival de Cannes. Já Anselmo ganhava o maior salário da VERA CRUZ.

Uma PULGA na BALANCA (1953)
direção de Luciano Salce
elenco: Waldemar Wey, Paulo Autran, Lola Brah, John Herbert e Eva Wilma

Um ladrão organiza extorsões contra famílias ricas, fazendo-se passar por amigo de um dos seus parentes recentemente falecido. Comédia sofisticada de largo apelo popular. Estreia de Eva Wilma, aos 20 anos. Dois anos depois, ela se casaria com John Herbert, formando o principal casal da televisão brasileira dos anos 50 e 60.

FONTE
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros 1929-1988”
de Salvyano Cavalcanti de Paiva
 
“Projeto Memória Vera Cruz”

9 comentários:

Marcelo Castro Moraes disse...

Bem que esses filmes podiam ser lançados em uma edição especial sobre o estúdio, já que faz parte da nossa historia do cinema brasileiro. Infelismente alguns deles até se perderam.

João Roque disse...

Excelente postagem sobre algo do cinema brasileiro que desconhecia em absoluto. Dos filmes aqui apresentados apenas vi há muitos anos "Sinhá Moça".

A história de Lída Baarová dava um filme.

Adalberto Meireles disse...

Importante momento da história do cinema brasileiro que não pode ser esquecido. Os filmes deixaram a desejar, mas o legado é tamanho: Jardel Filho, Cleide Yáconis, Maria Fernanda... Sem falar em O Cangaceiro, com sua música, o maior sucesso.

Edivaldo Martins disse...

NAHUD, EM 1953 A VERA CRUZ ASSINOU CONTRATO COM O PRODUTOR ROBERT STILLMAN(OMESMO PRODUTOR DA SERIE BONANZA) PARA FAZER 10 FILMES COLORIDOS NO BRASIL. COMO VOCÊ SABE FAZER FILMES COLORIDOS NO BRASIL ERA ALGO PROIBITIVO. ERA A GRANDE CHANCE DA VERA CRUZ SAIR DO BURACO. O PRIMEIRO FILME ERA THE AMERICANO, COM GLENN FORD,ARTHUR KENNEDY, SARITA MONTIEL E CESAR ROMERO, NO ELENCO INTERNACIONAL, E DIRIGIDO POR BUDD BOETTICHER. MAS HOUVE UMA SÉRIE DE PROBLEMAS E O CONTRATO FOI CANCELADO...FOI A ÚLTIMA CHANCE QUE TEVE A VERA CRUZ DE EVITAR A DEGRINGOLADA..

Gilberto Carlos disse...

A Vera Cruz era a Hollywood brasileira. Adoro os filmes O cangaceiro, Floradas na serra e Sinhá Moça. Foi uma pena a empresa ter fechado as portas tão rápido...

Ana Paula Chagas disse...

Grande Vera!

Rubi disse...

Tantos filmes bons! Como foi dito acima, Vera Cruz foi uma espécie de "Hollywwod" só que brasileira. Post mais que merecido. Candinho é um dos meus preferidos!

*Aliás, espero que goste deste "especial" que resolvi fazer de I Love Lucy em meu blog!

linezinha disse...

excelente e informativo post Antonio,dos filmes da Vera Cruz só assisti Sinhá Moça,a Ruth de Souza fez 90 anos esse ano e não foi lembrada como deveria e a Maria Fernanda por onde anda Antonio? o ultimo trabalho que vi com ela foi a reprise da novela Dona Beija. Abraços

Maxx disse...

Excelente post.

Abç. e bons filmes.