julho 18, 2012

******** O CINEMA político ITALIANO (1960 - 1979)

gian-maria volonté


O CINEMA POLÍTICO teve na Itália o seu ápice, superando inclusive a Rússia dos anos 20 de Sergei Eisenstein e Vsevolod Pudovkin. Conheceu seu período áureo entre 1960 e 1979 e com empenho social e político denunciou as mazelas da sociedade de seu país, procurando ecoar pelo mundo os sonhos embutidos nos movimentos ideológicos daquelas décadas. Esse punhado de cineastas se empenhou em filtrar a realidade sob um ponto de vista extremamente ético. Sucessores do neo-realismo de Roberto Rossellini, Cesare Zavattini e Vittorio De Sica, movimento que trata dos temas sociais decorrentes da destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial, eles passaram a buscar novas histórias e modos narrativos apropriados àquele início dos anos 1960, marcando profundamente, com suas obras, o panorama cultural da Itália. Embora iniciado no começo dos 60, o movimento adquire seu ápice com “Investigação de Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, de Elio Petri, lançado em 1970.

a batalha de argel”
O CINEMA POLÍTICO ITALIANO está umbilicalmente ligado ao sentimento de vazio e desesperança nascido do pós-guerra. Mas seu discurso por vezes virulento e sua urgência narrativa são produto de um período de ebulição muito específico: as décadas de 60 e 70. Naquele momento, quando o legado fascista já havia sido soterrado, eram outras as urgências: casos escabrosos de corrupção generalizada e atentados terroristas.

Além do legado neo-realista, esses cineastas também foram fortemente influenciados pela linguagem do documentário e do jornalismo investigativo. Daí, em grande parte, a ausência de maiores arroubos estéticos. Ao contrário da Nouvelle Vague, que explodira pouco antes na França, o movimento italiano nunca se alicerçou na forma, até porque seus cineastas estavam mais preocupados em retratar sem filtros o que se descortinava à sua frente, fazendo filmes nos quais a política e a denúncia social se situaram como registro fílmico. De uma cinematografia que já se revelou como uma das maiores do mundo, com expoentes como Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Pier Paolo Pasolini, depois do período fértil politizado,  o cinema italiano entrou em crise e nela persiste até hoje. Não resistiu às pressões do sistema hollywoodiano. Fervilhante de ideias e participação, o cinema tratado nesse post ficou na história.

bertolucci

Os DIRETORES e seus FILMES POLÍTICOS

BERNARDO BERTOLUCCI
(1940. Parma / Itália)

Aos 19 anos trabalhou com Pier Paolo Pasolini. Três anos depois, em 1964, obteve o primeiro sucesso como diretor. Consagrou-se em Hollywood com “O Último Imperador / The Last Emperor” (1987), ganhando nove Oscars.

Principais Filmes:

ANTES da REVOLUÇÃO
(Prima della Rivoluzione, 1964)
elenco: Adriana Asti e Francesco Barilli

O CONFORMISTA
(Il Conformista, 1970)
elenco: Jean-Louis Trintignant, Stefania Sandrelli, Dominique Sanda
e Pierre Clémenti
 
David di Donatello de Melhor Filme


1900
(Novecento, 1976)
elenco: Robert De Niro, Gérard Depardieu, Dominique Sanda,
Stefania Sandrelli, Donald Sutherland, Burt Lancaster
e Alida Valli

DAMIANO DAMIANI
(1922. Pasiano di Pordenone, Friuli-Venezia Giulia / Itália)

Começou como cenógrafo e roteirista. Teve um início promissor e uma fase ruim, mas nunca demonstrou grande talento.

Principais Filmes:

CONFISSÕES de um COMISSÁRIO de POLÍCIA
(Confessione di un Commissario di Polizia 
al Procuratore della Repubblica, 1971)
elenco: Franco Nero e Martin Balsam
 
Melhor Filme do Festival de Cinema de Moscou


SÓ RESTA ESQUECER
(L’Istruttoria è Chiusa: Dimentichi, 1971)
elenco: Franco Nero, Georges Wilson e Riccardo Cucciolla

EU ESTOU com MEDO
(Io Ho Paura, 1977)
elenco: Gian-Maria Volonté, Erland Josephson e Mario Adorf

ELIO PETRI
(1929 - 1982. Roma / Itália)

Um dos mais importantes diretores dos anos 70. Escreveu roteiros, dirigiu documentários e, por fim, foi consagrado pela crítica.

Principais Filmes:

CONDENADO PELA MÁFIA
(A Ciascuno Il Suo, 1967)
elenco: Gian-Maria Volonté, Irene Papas, Gabrielle Ferzetti
e Salvo Randone

INVESTIGAÇÃO de um CIDADÃO ACIMA 
de QUALQUER SUSPEITA 
(Indagine su Un Cittadino al di Sopra di Ogni Sospetto, 1970)
elenco: Gian-Maria Volonté, Florinda Bolkan e Salvo Randone
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Filme
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo de Críticos de Cinema de Kansas City


A CLASSE OPERÁRIA VAI ao PARAÍSO
(La Classe Operaia va in Paradiso, 1971)
elenco: Gian-Maria Volonté e Mariangela Melato
 
Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes
David di Donatello de Melhor Filme

ETTORE SCOLA
(1931. Trevico / Itália)

Entrou para a indústria cinematográfica como roteirista, aos 22 anos. Especializou-se como diretor de comédias, mostrando profundidade social e emocional.

Principais Filmes:

NÓS que nos AMÁVAMOS TANTO
(C'eravamo Tanto Amati, 1974)
elenco: Vittorio Gassman, Nino Manfredi e Stefania Sandrelli
 
César de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme no Festival de Cinema de Moscou


FEIOS, SUJOS e MALVADOS
(Brutti, Sporchi e Cattivi, 1976)
elenco: Nino Manfredi e Maria Luisa Santella
 
Melhor Diretor no Festival de Cannes

Um DIA MUITO ESPECIAL
(Una Giornata Particolare, 1977)
elenco: Sophia Loren e Marcello Mastroianni
 
César de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Diretor
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro

FRANCESCO ROSI
(1922. Nápole / Itália)

Assistente e colaborador em roteiros de diretores como Visconti e Antonioni, logo alcançou sucesso como diretor, explorando com talento a pobreza e a corrupção.

Principais Filmes:

O BANDIDO GIULIANO
(Salvatore Giuliano, 1962)
elenco: Salvo Randone e Frank Wolff
 
Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim

O CASO MATTEI
(Il Caso Mattei, 1972)
elenco: Gian-Maria Volonté
 
Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes


CADÁVERES ILUSTRES
(Cadaveri Eccellenti, 1976)
elenco: Lino Ventura, Alain Cuny, Renato Salvatori,
Fernando Rey, Max von Sydow e Charles Vanel
 
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Diretor

GILLO PONTECORVO
(1919 - 2006. Pisa / Itália)

Seus filmes foram proibidos no Regime Militar brasileiro. Dirigiu poucos longas, mas “A Batalha de Argel” é considerado uma obra-prima.

Principais Filmes:

A BATALHA de ARGEL
(La Battaglia di Algeri, 1966)
elenco: Brahim Hadjadj e Jean Martin
 
Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza

QUEIMADA
(Idem, 1969)
elenco: Marlon Brando, Evaristo Márquez e Renato Salvatori
 
David di Donatello de Melhor Diretor


OGRO
(Operación Ogro, 1979)
elenco: Gian-Maria Volonté, Angela Molina e Nicole Garcia
 
David di Donatello de Melhor Diretor

GIULIANO MONTALDO
(1930. Gênova / Itália)

Assistente de Pontecorvo, fez documentários, estreando no cinema com muito sucesso. No final dos anos 70 passou a dirigir principalmente para a tevê.

Principais Filmes:

DILEMA de um BRAVO
(Tiro al Piccione, 1962)
elenco: Jacques Charrier, Francisco Rabal e Eleonora Rossi-Drago

SACCO e VANZETTI
(Idem, 1971)
elenco: Gian-Maria Volonté e Riccardo Cucciolla

GIORDANO BRUNO
(Idem, 1973)
elenco: Gian-Maria Volonté, Charlotte Rampling e Mathieu Carrière


MARCO BELLOCCHIO
(1939. Piacenza / Itália)

Estreou no cinema com uma obra-prima. No final dos anos 70, problemas psicológicos marcaram uma nova e expressiva fase cinematográfica.

Principais Filmes:

De PUNHOS CERRADOS
(I Pugni in Tasca, 1975)
elenco: Lou Castel e Paola Pitagora


SBATTI il MONSTRO in PRIMA PAGINA
(1972)
elenco: Gian-Maria Volonté e Laura Betti

MARCIA TRIONFALE
(1976)
elenco: Michele Placido, Franco Nero, Miou-Miou
e Patrick Dewaere

PAOLO (1931. San Miniato / Itália)
e VITTORIO TAVIANI (1929. San Miniato / Itália)

Verdadeiros poetas visuais, brilham com dramas sociais de beleza austera.

Principais Filmes:

Os SUBVERSIVOS
(I Sovversivi, 1967)
elenco: Maria Cumoni Quasimodo e Lucio Dalla

ALLONSAFAN
(Idem, 1973)
elenco: Marcello Mastroianni, Lea Massari e Mimsy Farmer

PAI PATRÃO
(Padre Padrone, 1977) 
elenco: Omero Antonutti e Saverio Marconi
 
Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes


VITTORIO de SETA
(1923 - 2011. Palermo / Itália)

Seu primeiro filme foi louvado pela autenticidade, mas nunca alcançou o sucesso. É o mais desconhecido dos expoentes do cinema político italiano.

Principais Filmes:

BANDIDO em ORGOSOLO
(1961)
elenco: Michele Cossu


UN UOMO a METÀ
(1965)
elenco: Jacques Perrin, Lea Padovani e Gianni Garko

L’INVITATA
(1969)
elenco: Joanna Shimkus e Michel Piccoli

ATOR ÍCONE


GIAN-MARIA VOLONTÉ
(933 - 1994. Milão / Itália)

Principais Filmes:

INVESTIGAÇÃO de um CIDADÃO ACIMA 
de QUALQUER SUSPEITA 
(Indagine su un Cittadino al di Sopra di Ogni Sospetto, 1970)
direção de Elio Petri
 
David di Donatello de Melhor Ator

A CLASSE OPERÁRIA VAI ao PARAÍSO
(La Classe Operaia va in Paradiso, 1971)
direção de Elio Petri

O CASO MATTEI
(Il Caso Mattei, 1972)
direção de Francesco Rosi


SUGESTÃO de LEITURA

“Cinema Político Italiano – Anos 60 e 70, 
Entrevistas de Angela Prudenzi e Elisa Resegotti (2006)

26 comentários:

Rubi disse...

Antonio! Estava mesmo precisando de boas indicações. Como ainda não conheço muito bem o cinema italiano, fico devendo no comentário, mas aproveitando... gostaria de lhe pedir um favor. Como sei que entende muito de cinema, estou começando agora a me aprofundar no cinema francês, e como tenho poucas referências, o que você poderia me sugerir? (seja diretores, filmes, livros, enfim)

Agradeço desde já!

João Roque disse...

Excelente a todos os níveis.
Parabéns!

renatocinema disse...

Mais uma aula.....adoro o cinema italiano.

Ladrões de Bicicleta está entre os meus prediletos. Símbolo do cinema mundial.

Rato disse...

Sou alérgico em elevado grau a "políticos" e por isso esse tipo de cinema (estritamente "político", entenda-se) passa-me completamente ao lado. Não é o caso de muitos dos filmes citados neste post que poderão ter uma leitura política ou social, mas que pouco têm a ver com esse género ("aprisionar" filmes por géneros também não tem muito sentido...)

Abraço

Marcelo Castro Moraes disse...

Em breve, talvez eu tenha um curso sobre o cinema Italiano por aqui.

Marcos Pedini disse...

Gian Maria Volonte, antes de se tornar um ator politicamte engajado, protagonizou varios files b, estava assitindo a um Face a face, de silvio solima, com volonte e tomas milias, hercules na Atalentida

Otávio disse...

Listei todos que não vi dos citados. Não conhecia bem esse lado do cinema italiano. E concordo realmente que tal decadência seja um reflexo do cinema pouco criativo que se tem hoje, excluindo claro os filmes independentes europeus, relacionando mais ao lado dos blockbusters.

Abraço!

Chico Lopes disse...

Gosto de cinema italiano de preferência em comédias, e em diretores como Visconti e Fellini. Os filmes políticos nunca me atraíram. Aliás, acho cinema e política duas coisas incompatíveis, ou quase. Os filmes, todas as vezes em que abordam política, para se tornarem atraentes de fato, precisam dosar bastante a ideologia, senão a coisa desanda e tudo fica panfletário. Pior: nada envelhece tão rápido quanto o cinema político - passados alguns anos, a gente ri escancaradamente daquilo em que um dia acreditou, e mesmo venerou. Por exemplo, certas teses de esquerda que postulavam os oprimidos como verdadeiros santos. Nada é mais ultrapassado do que isso...

Márcio Sallem disse...

Ótimo Antônio e tenho me deparado com isto no meu especial sobre 1962, a necessidade do cinema italiano de se misturar nas camadas sociais mais pobres, revelando as mazelas cotidianas escondidas do cidadão através do cinema.

As Tertulías disse...

Voce mencionou Dominique Sanda... o que aconteceu com ela? Ainda trabalha? Está "überhaupt" ainda viva????? Conte...

Fábio Henrique Carmo disse...

"Um Dia Muito Espeacial" deveria ser chamado "Um Filme Muito Especial". Belíssimo, com atuações soberbas de Mastroianni e Loren. Post relevante este, Nahud!

Pedro Ferreira de Freitas disse...

O meu filme politico italiano preferido é "Cadaveres Ilustres" de Francesco Rosi. Infelizmente ainda nao foiu lançado em dvd no Brasili

Rafael Amaral disse...

Cinemão que não se faz mais...

Unknown disse...

Adoro Betolucci e seus filmes ousados. òtimos post!

http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

Elisabete Cardoso disse...

Destes conheço melhor o Bertolucci, mas ainda tenho muito para ver.

Darci Fonseca disse...

Belíssimo 'ricordo' do cinema político italiano. Assim como nos dramas e comédias, eles produziram filmes fascinantes. Nahud, você no Westerntestemania-14 errou justamente a questão que fala de um dos maiores filmes de todos os tempos. Beulah Archuletta fez figuração em muitos westerns, mas foi John Ford que a eternizou como a infeliz 'Wild Goose'. Um abraço - Darci Fonseca

Suzane Weck disse...

Ola,antes de tudo quero dizer que curti demais esta maravilha de aula que tive ao ler tua postagem.Nossa fico até com vergonha de não saber quase nada á respeito de todo este assunto.Como meu lema atual é "cantar e meus males espantar" vou me atualizando através de teus excelentes conhecimentos e pesquisas.Tenhas um ótimo fim de semana e fica com meu carinhoso e grande abraço.

Película Criativa disse...

Nossa, ótimo post. Parabéns!

Mario Salazar disse...

Gran repaso por los filmes sociales italianos y por Volonté, me gusta mucho de las películas de Sergio Leone pero no sabia de esa envergadura tan grande que acabas de mostrarnos, ya estoy al tanto, con varios títulos. Un abrazo.

Jefferson C. Vendrame disse...

Grande Antônio, como vai?
Me desculpe pelo sumiço também. Ando cheio de trabalhos na faculdade e o tempo esta cada vez mais escasso, Tanto para postar em minha página quanto para visitar a de meus amigos...

Não sou muito fã e nada conheço do cinema Europeu, salvo pouca coisa do Inglês,

Parabéns pelo Post e sua grande aula de cinema...

Grande abraço

Suzane Weck disse...

Ola,simplesmente para desejar uma bela semana..... Abraços.

Rodrigo Duarte disse...

Não sei se concordo com o Chico Lopes, embora reconheça que boa parte dos ditos "filmes políticos" datam facilmente. Se visto de outra perspectiva, eles ao menos nos apresentam um panorama do pensamento vigente em determinado período - o que não é pouco. Eu sou fã do cinema político italiano. Abraço.

Brenda Rosado disse...

"O conformista" é um dos melhores filmes que já vi.

Riclésio Medeiros disse...

A decadência atual do cinema italiano é visível.

disse...

O cinema político feito em um país sempre se torna uma das facetas mais significativas da arte naquele território. Gosto muito da Itália de modo geral, mas devo confessar que não aprecio a fase moderna de Bertolucci.
Abraços!

AnnaStesia disse...

Grandes diretores, atores icônicos, incrível seleção de filmes, um tema importante e um texto x-cellent! Parabéns Antonio!