janeiro 19, 2011

******************* SALA VIP: “PACTO SINISTRO”


farley granger e robert walker



 
PACTO SINISTRO
(Strangers on a Train, 1951)

País: EUA
Gênero: GLS/Suspense
Duração: 101 mins.
P & B
Produção e Direção: Alfred Hitchcock (Warner Bros.)
Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde
Adaptação de uma novela de Patricia Higsmith
Fotografia: Robert Burks
Edição: William H. Ziegler
Música: Dimitri Tiomkin
Cenografia: Ted Haworth (d.a.) e George James Hopkins (dec.)
Vestuário: Leah Rhodes
Elenco:
Farley Granger (“Guy Haines”), Ruth Roman (“Anne Morton”),
Robert Walker (“Bruno Antony”), Leo G. Carroll,
Patricia Hitchcock,  Laura Elliott e Howard St. John

Nota: ***** (ótimo)

HITCHCOCK e o PACTO SINISTRO


Umas poucas atrapalhações com papéis de viagem deixaram-me preso por mais de dois dias, o que me dá esta boa oportunidade de comentar um excelente filme em cartaz, que ninguém deve perder: PACTO SINISTRO (Strangers on a Train), direção de Alfred Hitchcock. Posso dizer sem medo de errar que, com sua nova realização, Hitchcock não só volta às boas fontes de sua inspiração cinematográfica, abandonando experiências do gênero “Under Capricorn” e umas poucas outras, como positivamente se ultrapassa, entrando no limitado e rarefeito espaço dos grandes diretores de cinema de todos os tempos. O filme é uma pura maravilha de direção e conhecimento. Pena é que só me seja possível vê-lo uma vez, de partida que estou para Punta del Este. Porque trata-se de uma película que daria uma série de crônicas nas quais pudessem ser analisados para o fã vários setores de produção. Já que não vou poder me estender muito, limitar-me-ei a estudar o estilo do filme, do ponto de vista do diretor. Pois mestre Hitchcock positivamente se acabou de dirigir bem - bem como nos tempos de “39 Degraus”, “O Homem que Sabia Demais”, “Sabotagem” e mesmo - em menor escala – “Correspondente Estrangeiro”. Bem, isto é melhor ainda.

Em PACTO SINISTRO, Hitchcock põe a língua de fora para o Carol Reed de “O Terceiro Homem”. A comparação entre os dois filmes é, sob todos os pontos de vista, desvantajosa para “O Terceiro Homem”, descontada a soberba interpretação de Orson Welles neste último. O celulóide de Reed é muito construído demais, muito virtuosístico demais. O de Hitchcock fica um passo além do virtuosismo - que possui - mas que não ressalta da construção. Consegue ele, de certo modo, o que Mallarmé consegue em poesia - ficando o Carol Reed de “O Terceiro Homem”, com relação a ele, mais ou menos na posição subsidiária de um Valéry, por exemplo. A beleza do processo artístico de Hitchcock resulta disso que, aparentemente, as tramas que ele engendra pouco mais querem que resolver problemas contrapontuais de ação. De posse de um fio geral de ação cria ele o que se poderia chamar de “labirinto simultâneo”, paralelismo descontínuo - uma espécie de gongorismo de um barroco simples apesar de aparente complicação que revela. O crime de motivação estranha é em geral o elemento do qual parte para criar esse complexo sistema de movimentos entrecruzados dentro dos quais os seres só não se tocam por milagres de circunstância. De um simples entrechoque de pés de dois homens que se sentam um em frente ao outro num trem, e que dá a um deles a idéia de um crime, que muito tem do mundo de Kafka, resulta esse movimento fugado ao qual, como notas de música, os seres envolvidos ocasionalmente se incorporam, e do qual partem e para o qual revertem sob a fatalidade do inesperado que os impulsiona. Mas isso não significaria muito, e cairia no virtuosismo carolreediano, se Hitchcock não se aproveitasse do processo para dar grandes mergulhos na personalidade humana, para, em duas ou três imagens, pô-la a nu, fazê-la defrontar-se com uma situação determinada, da qual não é causa senão circunstancial. Isso o torna o maior mestre do moderno “suspense” em qualquer arte narrativa.

Só Kafka conseguiu ser tão sutil, e tão dramático, com tanta complexa simplicidade. E possuidor, como é, de uma grande ciência cinematográfica - que se revela na limpeza, instantaneidade de comunicação, bom gosto absoluto, qualidade dos diálogos, da fotografia, do corte, da edição geral do filme - nada falta ao cineasta angloamericano para, que dele se diga que é ímpar em seu estilo e em sua arte. Dirigindo com mão de pluma - a mão de ferro da inteligência - os seus atores, Hitchcock obtém de seus atores desempenhos perfeitos. Estão todos igualmente bons dentro da maior ou menor dificuldade de seus papéis. Para mim os melhores são, sem dúvida, Ruth Roman e Robert Walker, mas mesmo Farley Granger, para mim um ator de menos porte, dá um excelente trabalho. Hitchcock pôs sua filha Patricia numa boa ponta, como a irmã de Ruth Roman, e como em geral faz assinou o filme com a sua presença pessoal. Num dado momento, logo no princípio do filme, quando Farley Granger desce do trem, há um homem gordo que sobe, sobraçando um violoncelo ou um contrabaixo - não estou bem lembrado. Trata-se, meus caros, de Alfred Hitchcock em toda a sua glória.

texto do poeta e compositor
VINICIUS de MORAES


janeiro 11, 2011

******* O DIRETOR FAVORITO de GRETA GARBO

greta garbo e john gilbert em “a carne e o diabo”


Submisso aos propósitos e à estética do poderoso estúdio Metro-Goldwyn-Mayer, CLARENCE BROWN (1890 - 1987. Clinton, Massachussetts / EUA) dirigiu as estrelas mais populares de sua época – Greta Garbo e Clark Gable em sete filmes, Joan Crawford, Rudolph Valentino, Norma Shearer, Myrna Loy, John Gilbert, Dolores Del Rio, John Barrymore, Ramon Novarro, Ronald Colman, Spencer Tracy, Jean Harlow, Robert Taylor, Irene Dunne, Katharine Hepburn, James Stewart, Gene Tierney etc. – procurando sempre contar uma história da melhor maneira possível, com vistas sobretudo ao sucesso comercial. Sensato, entendia os atores, respeitando os seus sentimentos e, muitas vezes, incorporando suas sugestões em cena. Realizador romântico e sentimental, dotado de muito bom gosto e notável senso plástico, enriqueceu os variados temas que compõem sua filmografia com momentos privilegiados de mise-em-scène. Pelo estilo límpido e elegante e pela beleza visual de suas imagens, tornou-se um dos diretores mais refinados de Hollywood. Ele tinha habilidade para tratar de personagens femininas, senso de estrutura dramática e preocupação pelos detalhes. Começou como assistente do famoso Maurice Tourneur, ainda no cinema mudo. Seu primeiro filme foi “Mulheres Levianas / Foolish Matrons” (1920) e o último, “O Veleiro da Aventura / Plymouth Adventure” (1952). Rico, devido a investimentos imobiliários, aposentou-se aos 63 anos. Na década de 1970, fez inúmeras palestras sobre o seu ofício no circuito de festivais de cinema, em parte graças à sua conexão com Garbo. Esta costumava dizer que ele era o seu diretor favorito. Dirigiu 53 filmes, sendo indicado ao Oscar por 6 vezes, mas nunca chegou a ganhá-lo: em 1930, “Anna Christie”; novamente em 1930, “Romance / Idem”; 1931, “Uma Alma Livre / A Free Soul”; 1943, “A Comédia Humana”; 1945, “A Mocidade é Assim”; e 1946, por “Virtude Selvagem”. “A Comédia Humana” era o seu filme predileto: “Cada cena saiu direto do meu coração”. No entanto, o mais ousado foi “O Mundo Não Perdoa”, um libelo contra o preconceito racial baseado numa novela de William Faulkner. Morreu de problemas no rim, beirando os 100 anos.

clarence brown

DEZ FILMES de CLARENCE BROWN

O ÁGUIA 
(The Eagle, 1925)
Tenente cossaco (Rudolph Valentino) defensor dos oprimidos, jura vingança contra um usurpador dos bens de sua família, mas se enamora da filha deste (Vilma Banky).

A CARNE e o DIABO
(Flesh and Devil, 1926)
Dois amigos de infância (John Gilbert e Lars Hanson) se apaixonam por uma mulher casada (Greta Garbo). O marido dela descobre o idílio, trava-se um duelo e ele morre. Um dos amigos parte em missão no exterior, o outro fica consolando a viúva. Três anos depois, o outro volta, reacendo o triângulo amoroso e ameaçando uma velha amizade.

ANNA CHRISTIE
(idem, 1930)
Prostituta (Greta Garbo) se apaixona por marujo (Charles Bickford). Ao saber de seu infortúnio, ele a abandona. No mesmo ano, Garbo varia versão francesa com Feyder.

ANNA KARENINA
(idem, 1935)
Na Rússia de 1897, aristocrata casada e infeliz (Greta Garbo) torna-se amante de um conde (Fredric March) e, apesar do afeto maternal, abandona o lar.
 
Melhor Filme Estrangeiro no Festival de Veneza


FÚRIAS do CORAÇÃO
(Ah! Wilderness, 1935)
O dia-a-dia de uma família do interior da Nova Inglaterra, por volta de 1906. Com Wallace Beery, Lionel Barrymore e Mickey Rooney.

INGRATIDÃO
(Of Human Hearts, 1938)
O filho (James Stewart) de um pregador religioso (Walter Huston), cirurgião durante a Guerra Civil, esquece suas raízes e afinal se redime.

E as CHUVAS CHEGARAM
(The Rains Came, 1939)
Médico indiano (Tyrone Power), que se dedica aos necessitados, relaciona-se com uma fútil aristocrata inglesa (Myrna Loy) e seu grupo, quando ocorre um terremoto.

A COMÉDIA HUMANA
(The Human Comedy, 1943)
A vida de uma família em cidadezinha interiorana durante a Segunda Guerra Mundial. Com Mickey Rooney, Van Johnson, Donna Reed e Robert Mitchum.

VIRTUDE SELVAGEM
(The Yearling, 1946)
Filho único (Claude Jarman, Jr.) de um casal de fazendeiros (Gregory Peck e Jane Wyman), habitantes de um lugar ermo na Flórida, vive em comunhão com a natureza até entrar em choque com a cruel realidade da vida.

O MUNDO NÃO PERDOA
(Intruder in the Dust, 1949)
Numa cidade do Sul dos EUA, um negro (Juano Hernandez) é acusado do assassinato de um branco. Preso e ameaçado de linchamento, encontra apoio em um garoto branco (Claude Jarman, Jr.), que procura prova que o inocente.

FONTE
“Os Profissionais de Hollywood: Capra, Cukor e Brown”, de Allen Estrin, e “Cinemin”.

otto kruger e joan crawford 
dirigidos por clarence brown

janeiro 10, 2011

******** F. SCOTT FITZGERALD em HOLLYWOOD

f. scott fitzgerald


 
Um dos meus escritores bem-amados, figura trágica e romântica, F. SCOTT FITZGERALD (1896 - 1940. Saint Paul, Minnesota / EUA), morreu em Hollywood, Califórnia, com a reputação arruinada graças ao alcoolismo. Entre 1920 e 1940, publicou quatro romances, 160 contos e alguns fragmentos de autobiografia. Trabalhou em uma dúzia de roteiros para ganhar dinheiro; ganhou dinheiro, mas não se deu bem no mundo do cinema. Em 1927 entrou em contato pela primeira vez com o lugar onde iria viver e morrer, contratado pela United Artists para escrever um roteiro original para a estrela Constance Talmadge. Ofereceram um adiantamento de 3.500 dólares e 12.500 mais, caso aceitassem o roteiro. “Batom”, a fraca história que escreveu, terminou rejeitada pelo estúdio, principalmente depois da briga do escritor com a atriz protagonista. Ele ficou sem receber o pagamento adicional, e em dois meses de estadia gastou muito mais em Hollywood do que ganhou. Sem resistir à tentação da magia e do dinheiro, em 1931 voltou a Hollywood por um período de cinco semanas para adaptar a comédia picante “A Mulher Parisiense dos Cabelos de Fogo / Red-Headed Woman”, na Metro-Goldwyn-Mayer. O roteiro também não foi aproveitado e tudo terminou com um escândalo numa festa na mansão de Irving Thalberg e Norma Shearer, onde Fitzgerald fez besteira com um espetáculo cômico de bêbado. Mesmo com os amargos fracassos do passado, o esgotamento nervoso e a insegurança, arriscou novamente em 1937, cavando um contrato de seis meses na M-G-M. Com um salário semanal de mil dólares, era um dos roteiristas mais bem pagos, mesmo sendo incapaz de escrever por encomenda para o cinema e recebendo apenas crédito nos letreiros de um único filme. Claramente incompatível com muitos dos filmes que lhe entregaram, não conseguiu finalizar a colaboração com os roteiros de “Um Ianque em Oxford / A Yank at Oxford” (1938), “Maria Antonieta / Marie Antoinette” (1938) e “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939). Seu único trabalho significativo foi a adaptação do romance antinazista de Erich Maria Remarque, “Três Camaradas / Three Comrades” (1938). Mesmo assim teve diversas pelejas com o produtor Joseph L. Mankiewicz e a estrela do filme, Margaret Sullavan, protestou contra os diálogos muito literários, dizendo não conseguir interpretar as falas.

jennifer jones e jason robards 
em “suave é a noite”
Com o sucesso de “Três Camaradas”, se envolveu com vários roteiros, entre eles “As Mulheres / The Women” e “Infidelidade”, que seria protagonizado por Joan Crawford. O primeiro passou para outras mãos e o segundo nunca foi filmado. Em 1939, com a M-G-M deixando de renovar seu contrato, fez free-lancers em outros estúdios, enquanto procurava concluir “O Último Magnata”, sobre os bastidores da Meca do cinema. Mas o romance ficou inacabado. A mais sórdida e calamitosa experiência de Fitzgerald como roteirista ocorreu em 1939 quando foi contratado pelo poderoso produtor Walter Wanger. Ao fazer pesquisa de campo em Hanover, o escritor mergulhou numa jornada alcoólica, escrevendo muito pouco do roteiro. Foi despedido, ficou gravemente doente e nunca conseguiu outro emprego em um estúdio cinematográfico. Apesar de continuar tentando, terminava brigando com a maioria dos produtores e todos os projetos de filmes que apresentou foram rejeitados. Esmagado pelo sistema e pelo vício, o talentoso F. SCOTT FITZGERALD não fez o seu melhor no cinema. Depois de sua morte realizaram-se vários filmes com base em suas obras, incluindo “O Grande Gatsby / The Great Gatsby” (1949); “A Última Vez Que Vi Paris / The Last Time i Saw Paris”, adaptado de “Babilônia Revisitada”, em 1954; “Suave é a Noite / Tender is the Night”, em 1962; “O Grande Gatsby / The Great Gatsby”, em 1974; e “O Último Magnata / The Last Tycoon”, em 1976.

FONTE
“Scott Fitzgerald – Uma Biografia”, de Jeffrey Meyers e “De Fato e De Ficção – Ensaios Contra a Corrente”, de Gore Vidal.

“a última vez que vi paris”