outubro 04, 2015

***** HEDY LAMARR: UMA VIDA DE ROMANCE



Poucos conhecem plenamente a verdadeira história de HEDY LAMARR (1914-2000), considerada a estrela de cinema mais bonita de todos os tempos (eu prefiro Ava Gardner, Sophia Loren ou Gene Tierney). Uma vida de romance, mesmo com pouco material biográfico confiável. Existem vários episódios contados ao longo do tempo, numa teia de verdade e mito. Formosa, inteligente, culta, moderna, liberada sexualmente e atriz limitada, teve um destino trágico: a fama durou poucos anos, passando o resto da vida completamente esquecida e na pobreza.

O seu papel mais conhecido, a protagonista-título de “Sansão e Dalila / Samson and Delilah” (1949), superprodução bíblica de Cecil B. DeMille, encantou multidões. Como esquecer a paixão arrebatadora entre o herói danita e a linda filistéia que descobre onde reside a força de Sansão e o trai por puro despeito? Até os anos 1970, em cidades interioranas brasileiras, reprisava-se esse épico religioso na Semana Santa quando “O Rei dos Reis / King of Kings” (Nicholas Ray, 1961) ou “Os Dez Mandamentos / The Ten Commandments” (também de DeMille, 1956) não estavam disponíveis. Depois passou a ser exibido na tevê na mesma data. Não é um bom filme, beira a caricatura e as caretas de Victor Mature desestimulam – o papel foi pensado para Burt Lancaster, que infelizmente (ou sabiamente) o recusou.

victor mature e hedy em sansão e dalila
Aos quarenta e quatro anos, em 1958, a estrela rodou o seu último filme, “Naufrágio de uma Ilusão / The Female Animal”, e nunca mais retornou as telas. Sintomaticamente, o argumento narra a decadência da atriz fictícia Vanessa Windsor. HEDY LAMARR não me fascina, cultivo-a como deusa da beleza, incontestável, da época de ouro do cinema hollywoodiano. De um erotismo gélido e glamouroso, ela parece não viver plenamente a trama. Ao assistir “Fruto Proibido” (1940), onde os adoráveis Claudette Colbert e Spencer Tracy disputam o amor do sedutor aventureiro Clark Gable, não me conformei quando o mocinho os troca por uma Hedy iluminada e irreal, embora belíssima.

Com o sobrenome Kiesler, ela nasceu em Viena, Áustria, filha de uma família judia burguesa, estudando balé e piano até os 10 anos de idade. Muito jovem, abandonou a escola secundária para atuar no teatro alemão, na companhia do lendário Max Rheinhardt, que a considerava a mais bela mulher da Europa (e ele já tinha lançado outra beldade, Marlene Dietrich). Estreou no cinema em 1930 com “Geld auf der Strabe”, mas seria o seu quinto trabalho cinematográfico que a levaria direto para a fama internacional, o checo-austríaco “Êxtase / Ekstase” (1933). Nessa película mais falada que vista, ela aparece completamente despida, correndo num bosque, mergulhando em um lago e simulando um orgasmo. As cenas de nudez, discretas para os padrões de hoje, causaram sensação e resultaram na proibição do filme nos EUA.

Banal, “Êxtase” conta a história de uma jovem recém-casada que descobre que o marido é impotente e arranja um amante. O esposo da futura estrela, milionário e ciumento, gastou uma fortuna na tentativa de readquirir e destruir as cópias da obra. Em sua autobiografia, “Ecstasy and Me: My Life as a Woman” (1967), HEDY LAMARR descreve Friedrich Mandl como extremamente controlador, tentando mantê-la trancada em sua mansão. Ela o acompanhava em diversos jantares com a ascendente elite nazista, com a qual ele tinha relações de negócios. Indignada, drogou uma empregada que a vigiava e, levando todas as suas valiosas joias, fugiu para Paris, depois para Londres, onde conheceu o poderoso Louis B. Mayer que imediatamente a contratou.

Em Hollywood, com o novo sobrenome dado por Mayer (em homenagem a estrela do cinema mudo Barbara La Marr, que morreu em 1926 de overdose) e a promessa – também de Mayer – de vir a ser uma nova Greta Garbo, estreou ao lado de Charles Boyer no clássico “Argélia” (1938), um remake do francês “O Demônio da Algéria / Pepé Le Moko” (1937). Rapidamente se tornaria uma das atrizes mais bem sucedidas do final dos anos 1930 e ínicio dos 1940, escalada quase sempre para papéis de sedutoras e exóticas, ao lado de Clark Gable, James Stewart, Robert Taylor, William Powell, John Garfield e Spencer Tracy. Era a bombástica resposta morena para as famosas atrizes louras. 

Não tardou que um livro pirata e anônimo, “As Mil Formas de Amar de Hedy Lamarr” – uma espécie de “Kama Sutra” -, surgisse como um verdadeiro best-seller no mercado negro. Apesar da beleza clássica, HEDY LAMARR nunca teve o status de Garbo, o que é atribuído pelos seus biógrafos à falta de um agente hábil que administrasse a sua carreira, cheia de erros inconvenientes ou mesmo drásticos. Por exemplo, em 1942, cogitada pela Warner Brothers para ser a Ilsa Lund de “Casablanca / Idem”, simplesmente recusou o papel, assim como não aceitou a Paula Alquist de “À Meia Luz / Gaslight” (1944), que deu o Oscar para Ingrid Bergman.


Durante a Segunda Guerra Mundial, a atriz e um vizinho, o músico de vanguarda George Antheil, começaram a pensar numa maneira de ajudar a combater o nazismo. Ainda em Viena, ela havia sido casada com um magnata que negociava com armamento e, por tabela, adquirira uma certa familiaridade com a produção de armas, passando a imaginar como tornar mais eficaz o movimento e a pontaria dos torpedos. Por fim, desenvolveu um mecanismo que veio a ser chamado de frequency hopping (mais ou menos “frequência alternada”), cujo objetivo era o de direcionar o movimento dos torpedos a fim de que atingissem o alvo com um mínimo de erro. Ao submeter o invento aos militares norte-americanos, eles o recusaram, alegando que ela seria mais útil ao país vendendo beijos aos soldados para levantar fundos de guerra. O que ela fez, mesmo sem desistir do invento, devidamente patenteado. 

Mais de uma década depois, engenheiros descobriram o aparelho sofisticado e, com novo nome - “Spread Spectrum” -, o utilizaram com sucesso na crise dos mísseis cubanos nos anos sessenta. Com o tempo, a criação de HEDY LAMARR ganhou nova dimensão e novo emprego, sendo fundamental para o desenvolvimento de micro-chips, mas, sobretudo, essencial no aperfeiçoamento da tecnologia relativa à telefonia celular. Segundo consta, a tecnologia celular não teria o desenvolvimento que teve no final do século 20 sem esse invento básico, tanto é assim que, em 1998, em sinal de reconhecimento, a atriz/cientista foi premiada pela importante Electronic Frontier Foundation (EFF). Idosa e reclusa, ela pediu ao filho para receber o prêmio, a quem comentou: “Já era tempo”. Mesmo assim, nunca ganhou um centavo pela sua notória e fundamental invenção.

Entre 1937 e 1950, HEDY LAMARR rodou 21 filmes, depois entrou em declínio, esporadicamente estrelando um ou outro longa, um dos quais como Joana D’Arc no épico de Irwin Allen “A História da Humanidade / The Story of Mankind (1957). No intervalo de um dos seus casamentos escandalosos (foram seis ao todo, entre eles com o roteirista Gene Markey e o ator inglês John Loder), a deusa namorou o sortudo playboy brasileiro Jorginho Guinle. Contratada para o esquecível “Picture Mommy Dead” (1966), perdeu o papel ao não aparecer no primeiro dia de filmagem, sendo substituída por Zsa Zsa Gabor. Na época, dona da mansão usada no musical “A Novica Rebelde / The Sound of Music” (1965), desfigurada por inúmeras cirurgias plásticas (tinha seios pequeninos, mas para atender ao gosto norte-americano deixou-os enormes, sendo uma das primeiras a fazer implante de silicone) e arruinada financeiramente (um dos maridos, o magnata do petróleo W. Howard Lee, depois marido de Gene Tierney, na ocasião do divórcio se queixou que ela gastava loucamente, quase o levando à ruína), foi detida por furto na década de 1960, numa famosa loja de departamentos. Considerada inocente, continuou roubando e em 1991 foi presa, passando um ano em liberdade condicional.

john loder e sua esposa hedy
Inteligente, sincera e magoada, confessou em sua autobiografia que para se tornar estrela em Hollywood é preciso ir para a cama com agentes, atores, diretores e produtores. “E nessa ordem. É brutal, mas é a realidade”, garantiu. Inspiração para a Branca de Neve de Walt Disney e também para a replicante Rachel (Sean Young) de “Blade Runner – O Caçador de Andróides / Blade Runner” (1982), foi homenageada como personagem do romance Púbis Angelical (1979), do escritor argentino Manuel Puig. Seu look, copiado por inúmeras atrizes (no Brasil, temos a Ana Paula Arósio), nunca foi superado, firmando a fama de mulher mais bonita do mundo.

Mesmo longe dos holofotes, sua popularidade continuou, atravessando décadas, celebrando seu fascínio para sempre. Os últimos anos de vida da atriz foram terríveis: solitária, sem dinheiro, deformada por plásticas baratas e escrava da beleza perdida, evitava aparições públicas, mantendo contato com os filhos e amigos íntimos apenas por telefone. Processou a empresa de software Corel Corporation por usar sua imagem em um dos seus produtos e o diretor/comediante Mel Brooks por ridicularizar seu nome em “Banzé no Oeste / Blazing Saddles” (1974). HEDY LAMARR morreu aos 86 anos de idade, e suas cinzas foram levadas para a Áustria e espalhadas na floresta Wienerwald, conforme seu desejo.


10 FILMES DE HEDY LAMARR

ARGÉLIA
(Algiers, 1938)
de John Cromwell
com Charles Boyer

FRUTO PROIBIDO
(Boom Town, 1940)
de Jack Conway
com Clark Gable e Spencer Tracy

O INIMIGO X
(Comrade X, 1940)
de King Vidor
com Clark Gable

SOL DE OUTONO
(H. M. Pulham, Esq., 1940)
de King Vidor
com Robert Young

BOÊMIOS ERRANTES
(Tortilla Flat, 1942)
de Victor Fleming
com Spencer Tracy e John Garfield

O DEMÔNIO DO CONGO
(White Cargo, 1942)
de Richard Thorpe
com Walter Pidgeon

OS CONSPIRADORES
(The Conspirators, 1944)
de Jean Negulesco
com Paul Henreid

IDÍLIO PERIGOSO
(Experiment Perilous, 1944)
de Jacques Tourneur
com George Brent e Paul Lukas

FLOR DO MAL
(The Strange Woman, 1946)
de Edgar G. Ulmer
com George Sanders e Louis Hayward

A MULHER SEM NOME
(A Lady Without Passaport, 1950)
de Joseph H. Lewis
com John Hodiak e James Craig


HEDY LAMARR por ERROL FLYNN

“Uma noite David Niven e eu fomos convidados para a casa de Hedy Lamarr. Ela era casada com John Loder na época. Reginald Gardiner e sua deliciosa esposa russa estavam lá, e alguns outros. Eu considerava Hedy uma das atrizes mais subestimadas, sem sorte o suficiente para obter papéis interessantes. Conhecia algumas atuações suas brilhantes. Achava que tinha um grande talento, e na medida em que sua beleza clássica estava em causa, não poderia, então, nem talvez mesmo agora, encontrar outra atriz para superá-la. Provavelmente é uma das mulheres mais bonitas dos nossos dias. Naturalmente, eu fazia questão de conhecê-la - e, posteriormente, desejei que ela fizesse o principal feminino no meu fiasco italiano “Guilherme Tell”, mas o filme nunca entrou em produção devido a problemas financeiros. Eu lamento o fato. Enquanto esperávamos Hedy na sua sala de estar, David me dizia que a considerava a criatura mais encantadora que conhecia. Quando ela surgiu, ele sussurrou: "Por Deus, ela é linda, mesmo sem as joias", continuando "Será que vai contar sobre como fugiu da Áustria com suas joias?”. Claro que não iria lhe pedir para me contar sobre sua vida privada, mas estava intrigado com os comentários que tinha ouvido falar. Hedy e eu conversamos por um bom tempo. Ela estava deslumbrante. Comecei a tocar no assunto que me despertava a curiosidade, mas de uma forma diplomática, e, finalmente, ela fez a pergunta: "Onde está Mandl agora?". Mandl era o seu ex-marido. Então, a bela criatura, irada, rosnou: "Ele é um filho da puta!", enquanto cuspia com asco e se afastava, dando atenção a outros convidados”

(Fonte: “My Wicked Wicked Ways”, de Errol Flynn)

 
 
 

23 comentários:

AlphaSolangen Goncalves disse...

Linda sem mtas opções e sem plásticas.

Maria Madalena Santos disse...

Belíssima... e inteligente.

Kley Coelho disse...

Ela também era muito inteligente. Quando era nova, Inventou um sistema de comunicação.

Regina Regis Cunha disse...

Maravilhosa !

Chico Lopes disse...

Tão linda que ninguém esperava que fosse boa atriz. E não era mesmo.

Conceição Sá disse...

Linda!!!

Rita Atir Guedes disse...

Uma Diva!

Luiz Barbosa disse...

LINDA

Chico Lopes disse...

Uma divindade. E uma nulidade como atriz.

Sergio Lavor disse...

Era inventora. Criou o protótipo que deu origem à telefonia celular. Atriz mediocre, foi presa, na velhice, por furtar um frasco de shampoo numa farmácia em Los Angeles...

Sergio Lavor disse...

Lamarr, muito jovem, aparece nua nesse filme austríaco, feito antes de sua ida para Hollywood. Seu futuro marido, um nobre europeu, gastou zilhões tentando destruir todas as cópias. Não conseguiu, para nosso deleite.

Italia Barra disse...

Linda!!!

Nirmal De disse...

Autom bomb

Fernando Faria disse...

Excelente postagem!!!!!!!!

Eraldo Urano disse...

Na velhice, passou vários anos cega. Seus filhos, James Loder e Anthony John Loder tem perfil no Facebook.

Alexis Smith Beraldo disse...

A mais linda do mundo.

Mauricio Rocha disse...

Não só encantou como encanta!

Pavel Dan disse...

Supreme !

Ricardo Leitner disse...

Ah se toda austríaca fosse bonita assim... hi hi hi!

Néstor Acevedo disse...

one of the most beautiful creatures i ever seen, and so intelligent not only a movie star! thanks to her vision we have wi-fi

disse...

Hedy é completamente magnética, não? É impossível desviar o olhar desta grande diva. E inventora! Acredito que ela deveria ser mais conhecida por sua grande invenção que por seus "dotes" artísticos.
Abraços!

Suzane Weck disse...

Ola,realmente é uma mulher muitooooooooo linda.Não cheguei a assistir nenhum de seus filmes,portanto não poderia opinar sobre suas interpretações. mas acredito que ao lado de tanta beleza devia haver um bom talento também.E maravilhosa também está a super postagem que nos brindastes.... Fotos sensacionais e conhecimentos que só aqui poderíamos obter.Meu querido amigo mais uma vez Parabéns e meu grande abraço.SU

siby13 disse...

Muito linda e adorava pérolas, mulher de grande talento.