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burt reynolds e jon voigt |
Não há heróis nesta história. Nem mesmo o formoso rio Cahulawassee, que está prestes a ser extinto em nome do progresso, devido a construção de uma gigantesca represa. A sua violência natural é tão assustadora e crescente que aniquila qualquer identificação com o espectador. Burt Reynolds, marcado por papéis heróicos, desta vez é um inconformado se rebelando contra a vida moderna, mas não encontra saída na sua própria imprudência (situação parecida vivida por Robert De Niro em “Taxi Driver / Idem”, 1976, e Edward Norton em “Clube da Luta / Fight Club”, 1999). É dele a ideia da aventura selvagem. “Não há riscos”, garante. Seus três amigos ingênuos e conformados com a domesticação capitalista, mesmo não tão ansiosos em relação ao perigo, topam a suposta diversão. A intenção deles é descer de canoa as corredeiras do arrebatado rio e acampar nas encostas, num fim de semana em contato com a natureza. Jamais imaginariam que trilhariam o caminho das trevas, sendo agredidos e ameaçados.
O argumento de AMARGO PESADELO se centra nesses quatro amigos suburbanos, de classe média. Lewis (o canastrão Burt Reynolds, no auge de sua exuberância sexual) é o valentão audacioso; Ed (Jon Voight), o sujeito tranqüilo, certinho e inseguro; Bobby (Ned Beatty), o típico gorducho fanfarrão, algo estúpido; e, por fim, Drew (Ronny Cox), músico sensível repleto de princípios e moralidade. No início, parece uma aventura corriqueira com homens desafiando águas furiosas, mas a adrenalina pueril se transforma num desafio pela sobrevivência, resultando em sequelas morais e emocionais. Nenhum deles jamais será o mesmo depois dessa estranha façanha. O roteiro sólido e simples, cresce ao retratar personagens de personalidades contrastantes, que, diante de contratempos, reage cada um ao seu modo, com julgamentos, escolhas e sentenças particulares.
Com certeza, um dos melhores e mais excitantes filmes que vi este ano. Um clássico imune à passagem do tempo, porque vai ao encontro dos medos alojados nos nossos subconscientes. Está repleto de momentos de impacto, como aquele em que Ed e Bobby se encontram na floresta com dois caipiras irracionais - que molestam sexualmente um deles (uma cena espantosa, censurada nos cinemas, mas liberada em DVD) - ou o duelo de banjos entre Drew e um garoto autista. São cenas fortíssimas, difíceis de tirar da cabeça. Através de uma atmosfera aterrorizante, John Boorman deixa claro que o homem por mais que reinvente o mundo por meio da tecnologia, a discutível segurança da cidade perde-se quando se tem de sobreviver contra as forças da natureza e dos instintos dos seres mais próximos de suas raízes. Diretor de longas marcantes como “Inferno no Pacífico / Hell in the Pacif” (1968), “Excalibur / Idem” (1981) e “Esperança e Glória / Hope and Glory” (1987), o inglês Boorman tem em AMARGO PESADELO o melhor momento de sua carreira. Entre os competentes atores, destacam-se Jon Voight, personificando com realismo o sujeito civilizado obrigado a se tornar um bárbaro para reagir à violência com mais violência, e Ned Beatty, estreando no cinema.
Filme-irmão de outra obra espetacular dos anos 1970, sobre confrontos violentos entre caipiras e forasteiros da cidade (“Sob o Domínio do Medo / Straws Dog”, 1971, de Sam Peckinpah), essa produção de baixo orçamento - US$ 2 milhões - parece jogar na cara do espectador a pergunta “E se fosse com você?”. E não é para menos, os eventos fictícios poderiam acontecer com qualquer um, pois isoladas e acuadas as pessoas certamente podem chegar ao nível de selvageria dos protagonistas. Escrito por James Dickey, aborda também o conflito que o progresso gera. Neste caso em especial, é como se a chegada de figuras urbanas representasse o fim da rotina que aqueles nativos se acostumaram a viver, algo ilustrado no próprio rio, que antes servia para a pesca e a recreação, e agora passaria a gerar energia.
A ironia é que a amada natureza revelaria uma face igualmente agressiva para todos eles, resultando em um espetáculo cinematográfico inesquecível, com uma direção de fotografia fascinante de Vilmos Zsigmond (“Espantalho / Scarecrow”, 1973; “O Franco Atirador / The Deer Hunter”, 1978; “Dália Negra / The Black Dahlia”, 2006, etc.) - realçando o caráter sinistro e ameaçador da paisagem através do uso de sombras e tonalidades verde-escuras - e uma trama de pesadelos, cheia de suspense, mostrando a ilimitada perversidade humana. Durante duas horas, somos sugados por essa história tensa, repleta de aventura, é verdade, mas com muito mais a dizer do que podíamos imaginar, explorando a fina fronteira que nos separa dos animais.
A ironia é que a amada natureza revelaria uma face igualmente agressiva para todos eles, resultando em um espetáculo cinematográfico inesquecível, com uma direção de fotografia fascinante de Vilmos Zsigmond (“Espantalho / Scarecrow”, 1973; “O Franco Atirador / The Deer Hunter”, 1978; “Dália Negra / The Black Dahlia”, 2006, etc.) - realçando o caráter sinistro e ameaçador da paisagem através do uso de sombras e tonalidades verde-escuras - e uma trama de pesadelos, cheia de suspense, mostrando a ilimitada perversidade humana. Durante duas horas, somos sugados por essa história tensa, repleta de aventura, é verdade, mas com muito mais a dizer do que podíamos imaginar, explorando a fina fronteira que nos separa dos animais.
CURIOSIDADES
Sam Peckinpah queria dirigir o filme, mas John Boorman conseguiu os direitos de filmagem em primeiro lugar;
Boorman convidou Lee Marvin e Marlon Brando para interpretarem Ed e Lewis, respectivamente. Depois de ler o roteiro, Marvin afirmou que ele e Brando estavam velhos para este tipo de papel e sugeriu que fossem utilizados atores mais jovens;
Durante a subida de Ed pela pedra, Zsigmond utilizou filtro azul para dar a sensação de que a ação se passa a noite, numa técnica conhecida como “Noite Americana”;
Para reduzir os custos de produção e dar maior realismo, os atores foram seus próprios dublês. Por exemplo, Jon Voight realmente subiu aquela encosta;
Com o mesmo intuito, os habitantes de locais próximos foram escalados nos papéis dos moradores da região retratada na história;
O autor do livro e também roteirista James Dickey aparece em uma ponta como o xerife;
O autor do livro e também roteirista James Dickey aparece em uma ponta como o xerife;
Burt Reynolds quebrou seu cóccix enquanto filmava cenas nas corredeiras;
Billy Redden não sabia tocar banjo e foi incapaz de fingir convincentemente, então outro jovem escondido atrás de sua cadeira manuseou o instrumento;
Ned Beatty era o único dos quatro atores principais que sabia remar uma canoa antes das filmagens. Os demais aprenderam no set;
O duelo de banjos foi a primeira cena filmada. O resto do filme foi filmado em sequencia;
O duelo de banjos foi a primeira cena filmada. O resto do filme foi filmado em sequencia;
Rodado no rio Chattooga, que divide Carolina do Sul e Geórgia, no ano que se seguiu ao lançamento do filme, 31 pessoas se afogaram na tentativa de descer as corredeiras;
Um final alternativo foi rodado, mas cortado na edição final. Nele, um corpo é dragado do rio e mostrado aos três sobreviventes. O corpo nunca seria visto pelo espectador, que precisaria adivinhar a identidade do morto.
AMARGO PESADELO
Deliverance
(1972)
(1972)
País: EUA
Gênero: Drama
Gênero: Drama
Duração: 110 mins.
Cor
Produção: John Boorman
(Warner Bros. Pictures / Elmer Enterprises)
Direção: John Boorman
Roteiro: James Dickey
Adaptação do seu romance
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Edição: Tom Priestley
Cenografia: Fred Harpman (d.a.); (déc.)
Vestuário: Bucky Rous
Elenco: Jon Voight (“Ed”), Burt Reynolds (“Lewis”),
Ned Beatty, Ronny Cox, Ed Ramey e Billy Redden
Nota: ***** (ótimo)
20 comentários:
Antonio!!!
De passagem...
Boa blogada!
Não lembro de desejei PARABÉNS pelo aniversário do Falcão...
Reforça assim se já!!!
Abs, Edison Eduardo d:-)
eu adorei este filme também
Filme marcante! Um dos primeiros da minha cinefilia e um dos mais inesqueciveis. TEnso ao extremo! Otimo texto. Abs
Adoro filmes sem "heróis".
Preciso assistir urgente essa produção.
Sob o Domínio do Medo, que você citou......acho obra rara e perfeita.
Tai um clássico que ainda não vi, portanto estou devendo comigo mesmo. Os anos 70 foram fartos de muitos ótimos filmes, no qual, surgiu o movimento denominado “cinema novo”, liderados por gente nova, que hoje são grandes nomes do cinema como Steven Spielberg, George Lucas, Martin Scorsese, Brian De Palma, France Ford de Coppola e dentre outros.
Uma hora farei um cine especial sobre essa época, mas por enquanto, espero que esteja curtindo Antonio, meus especiais sobre Ingmar Bergman, e se der tudo certo, aguarde sobre um certo mestre do suspense.
"Deliverance" ou "Fim de Semana Alucinante", como foi traduzido em Portugal. O filme estreou em versão integral em Moçambique (algo que era comum no tempo da ditadura, ou seja, filmes que eram cortados ou mesmo proibidos no continente, passavam sem qualquer censura nas então já chamadas de "províncias ultramarinas"), em Julho de 1973. Desde essa altura voltei a ele por várias vezes, pois foi algo que nunca mais me saíu da cabeça. E, escusado será dizer, o som de um banjo nunca mais soou da mesma maneira.
O Rato Cinéfilo
No roteiro original de Deliverance não constava a cena do garoto, que foi uma descoberta no local de filmagens. John Boorman resovleu na ultima hora adicionar a cena. Os parentes do garoto tb não são atores profissionais, sim moradores do local
Recentemente, meu sogro fez menção deste filme em seu programa de rádio, devido a trilha sonora.
Assisti uma única vez este filme, me impactou tanto que não senti prazer em revê-lo, mas tratou de uma realidade pungente que até então o cinema americano não havia ousado.
Curioso que Burt Reynolds, que costumava ser um canastrão (e dos melhores), neste filme possivelmente lhe arrancaram seu único e melhor desempenho (também não se saiu mal em "Crime e paixão" com Catherine Deneuve).
Boa reminiscência, saudações.
Ótimo e completo texto sobre "Amargo Pesadelo".
John Boorman gosta da retratar as diferenças entre a vida urbana e a natureza através de conflitos. Além deste filme e do citado "Inferno no Pacífico", ele filmou também na Amazônia um longa chamado "A Floresta de Esmeraldas", trabalho praticamente esquecido nos dias de hoje.
Abraço
Ótimo filme!!!
Mto bom ver atores como John Voight colecionando ótimas atuações e ótimos filmes até hj!!
Apareça!!
Um abraço
Não conhecia Raul Roulien e sua trajetória. Obrigada pela rica informação!
RAUL ROULIEN, SEM DÚVIDAS, É O MAIOR ATOR BRASILEIRO EM HOLLYWOOD. MORREU POBRE E ESQUECIDO, EM SÃO PAULO, NO BAIRRO DE SANTA CECÍLIA, NA RUA BRASÍLIO MACHADO, PERTO DO 1º CARTÓRIO DE NOTAS, NO QUAL TRABALHEI POR UM LONGO PERÍODO. INFELIZMENTE NÃO PUDE FAZER UMA VISITA, POIS SOMENTE DESCOBRI O ENDEREÇO DELE, APÓS A SUA MORTE...
Li sobre RAUL ROULIEN, e confesso que não conhecia nem este artista e nem sua trajetória, sendo o primeiro de nossos patrícios há ingressarem em terras hollywoodianas.
O que é nefasto em tudo isso é do destino trágico que o interligou aos Hustons. Se de um lado a contribuição do pai e do filho para a Sétima Arte (e principalmente o filho, grande cineasta que viria a se tornar)foram de grande importância, por outro eles acabam se revelando verdadeiros crápulas.
Louis B. Mayer, apesar de reinar o maior estúdio de cinema das décadas de 1930/40/50, também não passava de um infeliz cheio de traumas que para se convencer de seu Poder controlava a vida e a alma de seus empregados, e até mesmo das grandes estrelas (como Judy Garland, cuja grande parte de seus traumas vinha de B. Mayer). Morreu sem deixar filhos e herdeiros, o que motivou uma série de confusões in posteriori na MGM.
Enquanto existirem pessoas esclarecidas, a memória de ícones como Raul Roulien não será apagada.
INDEPENDENTE DE QUALQUER COISA, O DUELO DE BANJO É SENSACIONAL!
Difícil crer que o mesmo Boorman que fez esse filmaço dirigiu o desastre O EXORCISTA 2...
Não sabia que Peckinpah queria dirigir.
O melhor filme de John Boorman, a sua obra prima. E somente um estúdio como a Warner para produzir algo do gênero.
Abs.
Resenha brilhante, que faz jus à grandiosidade desta obra...
Assisti-o ainda na época da faculdade, ele era um dos t´tulos que tinha disponíveis para empréstimo na biblioteca. Fiquei com algumas cenas na mente durante dias depois de tê-lo visto...
Pode ser viagem minha, mas identifico neste longa diversas características que serviriam de influência para todo o cinema independente americano... Repare a semelhança entre ele e Inverno da Alma (2010) por exemplo...
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http://sublimeirrealidade.blogspot.com/
Amargo Pesadelo "Deliverance"
Este sempre tive em minha coleção.
Tenho a Trilha Sonora em LP Vinyl original com as performances de Billy Redden (The banjo´s man) e outros que fazem parte do disco.
É o melhor disco neste seguimento Country-Banjo de todos os tempos.
www.bangbangitaliana.blogspot.com
Olá Falcão! E vale lembrar que, um ano antes, Peckinpah dirigiu um filme cuja temática lembra essa obra-prima de Boorman: "Sob o Domínio do Medo", mas desta vez sobre um americano na Inglaterra. Também um filmaço! Abraços e dê uma passada, qualquer hora, no saudades do bom cinema, que tem novidades do mundo do faroeste!
Forte, polêmico, marcante e grande representante da cinematografia dos anos 70. Grandes atuações, excelente roteiro e grande direção.
Aliás, Boorman foi responsável por dois filmes que gosto muito (e que foram citados) Excalibur e Esperança e Glória (principalmente).
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