outubro 13, 2011

******* A INOCÊNCIA RADIANTE DE LILLIAN GISH



Símbolo da beleza frágil das heroínas do cinema mudo, LILLIAN GISH (1893-1993) impôs um estilo de representação baseado em gestos e olhares delicados, realçando uma luminosa máscara de inocência e rompendo com a teatralidade forçada da maioria dos atores do silencioso. Filha de um alcoólatra irrecuperável, desde os cinco anos de idade atuava em teatros provincianos para sobreviver, ao lado da mãe e da irmã mais nova, Dorothy. Anos depois, em Nova York, trabalhando na companhia teatral de David Belasco com sua inseparável irmã, conheceu Mary Pickford, que a recomendou ao todo poderoso David W. Griffith, da Companhia Biograph. Em 1912, contratadas por ele, as irmãs Gish protagonizaram "O Inimigo Invisível / An Unseen Enemy" (1912), o primeiro título de muitos que fariam com o célebre diretor. A atriz estabeleceu uma imediata e fértil parceria artística com o cineasta, tornando-se sua principal estrela e exercendo influência sobre os roteiros e a direção de suas obras. Juntos fizeram trabalhos importantes como "Judith de Betúlia / Judith of Bethulia" (1914), "O Nascimento de uma Nação / The Birth of a Nation" (1915), "Intolerância / Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages" (1916), "Corações da Humanidade / Hearts of the World" (1918), "Lírio Partido / Broken Blossoms or the Yellow Man and the Girl" (1919) e "Orfãs da Tempestade / Orphans of the Storm" (1921). 

em 1924, com richard barthelmess e dorothy gish
Ela foi também uma das primeiras mulheres a dirigir filmes, estreando com “Remodeling Her Husband” (1920), no qual a irmã atuou. Em 1922, com o visível declínio de Griffith e a falta de ofertas atraentes, partiu para a Europa, convivendo com artistas e intelectuais na efervescente Paris. Ao retornar, em 1923, assinou um contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer que lhe garantia o poder de supervisionar a produção em que atuava, assim como de aprovar o roteiro e os atores com quem contracenaria, resultando em longas surpreendentes com grandes diretores como Henry King em "A Irmã Branca / The White Sister" (1923) e “Romola / Idem” (1924); King Vidor em "La Bohème / Idem" (1926); Victor Sjostrom em "A Letra Escarlate / The Scarlet Letter" (1926) e "Vento e Areia / The Wind" (1928); e Fred Niblo em "O Inimigo / The Enemy" (1927). 

A chegada do cinema sonoro não deixou LILLIAN GISH satisfeita, afinal acreditava que ia contra os valores artísticos da arte sonhada pelos pioneiros do cine mudo. Depois do seu segundo filme falado, a comédia “His Double Life” (1933), decidiu voltar a atuar nas ribaltas, mudando-se para Nova York e se destacando na Broadway, tendo sido aclamada nas montagens de “Tio Vanya”, “Hamlet”, “Romeu e Julieta” e “The Family Reunion”. Depois de quase uma década voltada exclusivamente para o teatro, retornou ao cinema em “Os Comandos Atacam de Madrugada / Commandos Strike at Dawn”, de John Farrow, com Paul Muni. De novo de braços dados com Hollywood, atuou em "Duelo ao Sol / Duel in the Sun", superprodução de David O. Selznick lançada em 1946 e pela qual concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, perdendo para a Anne Baxter de “O Fio da Navalha / The Razor’s Edge”; “O Retrato de Jennie / Portrait of Jennie” (1948) de William Dieterle; "Paixões sem Freios / The Cobweb” (1955) de Vincente Minnelli; "O Mensageiro do Diabo / The Night of the Hunter" (1955) de Charles Laughton; e “O Passado Não Perdoa / The Unforgiven” (1960), de John Huston, entre outros.

Em 1971, LILLIAN GISH recebeu um Oscar honorário da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, por sua destacada contribuição para a arte do cinema. Ainda nos 70, filmaria com Robert Altman: “Cerimônia de Casamento / A Wedding” (1978). Na década seguinte, seria lembrada por Jeanne Moreau no bonito documentário “Lillian Gish” (1983). Aos 94 anos de idade fez sua última aparição nas telas, em “As Baleias de Agosto / The Whales of August” (1987), do britânico Lindsay Anderson, ao lado de outros significativos veteranos: Bette Davis, Ann Sothern, Vincent Price e Harry Carey Jr. Recebeu por esse papel o prêmio de Melhor Atriz da National Board of Review. 

Ela não foi a estrela mais popular do cinema mudo – Mary Pickford, Gloria Swanson, Pola Negri e Norma Talmadge disputam esse título -, mas com certeza LILLIAN GISH foi a mais talentosa e uma das mais importantes da história do cinema. Discreta, distante de badalações, sem escândalos no currículo, permaneceu solteira durante toda sua longa vida, provocando comentários maldosos sobre um suposto relacionamento lésbico-incestuoso com sua irmã Dorothy. Mas isso nunca foi provado. Em 1984 foi homenageada pelo American Film Institute (AFI), em uma cerimônia em que esteve presente Ronald Reagan, então presidente dos Estados Unidos. Fez inúmeros filmes e séries para a tevê – um deles dirigido por Alfred Hitchcock – e escreveu sua autobiografia em 1968, além de mais três livros sobre sua excepcional trajetória. Sempre dedicada ao cinema, passou seus últimos anos de vida recolhendo fundos para a restauração e preservação dos cine jornais. Morreu em 1993, aos 99 anos, de falência cardíaca.


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ESTRÉIA

35ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO


De 21 de outubro a 03 de novembro, acontece em São Paulo a tradicional Mostra Internacional de Cinema. Durante duas semanas, ela propicia que cinéfilos acompanhem cerca de 250 títulos dos mais variados países e cinematografias, que serão exibidos em 22 salas, entre cinemas, museus e centros culturais espalhados pela capital paulista. A seleção é um apanhado do que o cinema contemporâneo mundial está produzindo e quais as tendências, temáticas, narrativas e estéticas estão predominando ao redor do mundo. A programação deste ano prima pelo ineditismo dos filmes estrangeiros, entre os quais “Fausto”, de Aleksander Sokurov, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza 2011; “Habemus Papam”, de Nanni Moretti; “As Neves do Kilimanjaro / The Snows of Kilimanjaro”, de Robert Guédiguian; “Era uma Vez Napater”, de Alain Cavalier ; “Cisne”, da portuguesa Teresa Villaverde; e “Sorelle Mai”, de Marco Bellocchio. Entre os filmes brasileiros, a 35ª Mostra apresenta “Canções”, de Eduardo Coutinho, e “O Palhaço”, de Selton Mello. Além da seleção de filmes e oficinas, a Mostra inaugura uma exposição inédita reunindo as obras de um dos grandes mestres do cinema soviético, Sergei Paradjanov (1924-1990). “Paradjanov, o Magnífico” vai contar com cerca de 60 trabalhos do mestre, entre pinturas, instalações, colagens e desenhos. Montada por Daniela Thomas e Felipe Massara, a exposição acontece de 19 de outubro a 20 de novembro, no Museu da Imagem e do Som (MIS). Alem da exposição, a Mostra apresenta ainda uma retrospectiva de Paradjanov e o documentário “Paradjanov, o Rebelde”, de Patrick Cazals. Do diretor Martin Scorsese, exibe a versão digital restaurada de “Taxi Driver” e o documentário “Uma Carta para Elia” (2010), sobre o diretor Elia Kazan, que tem retrospectiva no evento com cerca de dez filmes e a presença da viúva do cineasta, a escritora Frances Kazan. Outro diretor russo, Aleksei German, também terá uma retrospectiva na 35ª Mostra. São seis filmes do cineasta. Seus filmes, censurados pelo regime stalinista, abrangem as décadas de 70 a 90 com narrativas históricas e antibélicas premiadas em vários festivais internacionais. Além das seções da programação normal, o evento traz uma série de exibições especiais ao longo de suas duas semanas, com apresentação de filmes clássicos, entre eles, “1900”, de Bernardo Bertolucci; “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick; “A Doce Vida / La Dolce Vita”, de Federico Fellini; e “O Leopardo”, de Luchino Visconti.

41 comentários:

renatocinema disse...

Posso dar uma sugestão?

Reúna seus ótimos textos sobre a história do cinema e publique um livro.

Eu, como estudante de história, adoro entrar no site e me deliciar com suas homenagens.



PARABÉNS;

As Tertulías disse...

Eterna Lillian Gish... como a adoro em "Orphans of the Storm", "The wind", "Broken Blossom" (corajosa, hein? Aquela cena do rio...) e "Intolerancia". Também como a freira de "The portait of Jenny" e a mae de "Duelo ao sol"... Em The Wedding ela "rouba" o filme por motivos óbvios - mas MUITO, MUITO especial está mesmo em "The whales of August". Simplesmente linda!!!!
Como gostaria de ter assistido "Tio Vanja" com ela no teatro... Nunca assisti tb. a seus primeiros "talkies", voce?

Quanta maldade esses rumores sobre ela e Dorothy. Porque os seres humanos nao podem aceitar o fatode uma pessoa ser discreta e recatada? O fato de uma pessoa ter classe? Escrevi uma vez uma análise sobre o declínio de Gish na Metro , paralela à "subida" de Garbo... como se a MGM a tivesse contratado para acabar propositalmente sua carreira... Procure nas Tertúlias (é só colocar o nome de Gish no "Pesquisar esse Blog"). Gostaria de tua opiniao... Um abracoe Obrigado por estas lembrancas de Gish... Inesquecível!
Ricardo

Marcelo Bonavides disse...

Grande Lillian Gish. Sua vida foi voltada às artes.
Ótimo post!

Alexandre Santos disse...

Linda matéria!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Já estou com essa ideia na cabeça, Renato. Vou só esperar um pouco mais, afinal o blog fará 1 ano ainda este mês... Possivelmente lanço o livro no segundo semestre do próximo ano.
Tudo de bom,

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Lillian sempre me fascinou, Ricardo (Tertúlias). Desde que a vi em "Duelo ao Sol". Conheço vários de seus primeiros filmes. Tenho "Judith de Betúlia" e outros... Amo "Vento e Areia" e "A Letra Escarlate". Vou ler agora mesmo o seu artigo.

Marcelo C,M disse...

Não sabia dessa atriz, que bom saber.

Rafa Amaral disse...

Olá amigo Falcão. As imagens e os textos de seu blog também estão ótimos. Acabei de adquirir o DVD de "O Mensageiro do Diabo", com a Lilian. Uma atriz extraordinária, é verdade. Volte sempre ao meu espaço! Viu, por acaso você tem essa capa da Elizabeth Taylor em alta resolução para ceder? Ficaria grato de colocá-la em meu blog. Abraços!

disse...

Gosto demais de Lillian Gish, não apenas como atriz, mas também como pessoa. O discurso de agradecimento no AFI Life Achievement Award é incrível, e olha que ela estava com 91 anos!
Não sabia de alguns detalhes da biografia dela. Obrigada pelas informações!

Maxx disse...

Grande Antônio,

excelente postagem. Eu não sabia que ela tinha morrido quase centenária. Muito bacana mesmo.

Abç e bons filmes.

Maxx.

Marcia Moreira disse...

Assisti recentemente O passado não perdoa e a reconheci logo de início. Estava tão lindinha e como ela interpretava bem.

Abraços.

Tunin disse...

Não conhecia essa atriz. Como foi bom te conhecer e apreciar os teus lindos textos. Obrigado pela visita ao meu blog. Abração.
Estou te seguindo.

Pena disse...

Genial e Soberbo Amigo:
Tem uma cultura extraordinária.
Parabéns pelos posts admiráveis que confecciona de forma mágica e divinal.
Desta vez o encanto de LILLIAN GISH-
OBRIGADO por não se ter esquecido de mim no seu comentário precioso.
Com respeito e esempre a admirar o seu talento fantástico.
Abraço forte de uma amizade sincera pelo seu ser muito valioso.

pena

Bem-Haja, amigo.
É fantástico.
Parabéns renovados.

Faroeste disse...

Nahud;
Conheci sim a Gish. Porém so vim a ver alguns filmes seus (Duelo ao Sol, O Passa Não... Os Desajustados, por exemplo) já no crepusculo de sua carreira. Uma grande atriz. Grande mesmo. Em Duelo ao Sol está ali uma aula de interpretação.
Um bom post. Parabens.
jurandir_lima@bol.com.br

Mario disse...

Del cine mudo conozco muy poco, pero es algo que me interesa descubrir y aprender, Lilian Gish es uno de esos rostros que han logrado destacarse, me ha gustado el recorrido que haces de su cine. Vivió mucho también, tanto como para ganar un Oscar honorífico. He visto la noche del cazador pero no la recuerdo a ella, esa pelíciula es fantástica. Un abrazo.

Mario.

Cynthia disse...

Olá Antônio, se estivesse viva hoje completaria 118 anos (Lillian Diana de Guiche (Springfield, Ohio, 14 de outubro de 1893). Não conhecia essa atriz. Uma Libriana do segundo decanato, sua encarnação foi realmente desenvolver o pensar antes de falar, talvez seja por isso que se sentia mais a vontade no cinema mudo. Abraço Cynthia.

José Carlos Cruz disse...

Adoro este Falcão Maltes.

Dilberto L. Rosa disse...

Lillian Gish, além de linda, tinha uma pulsação mais fervorosa que outras atrizes da sua geração, gosto muito dela e seu texto foi mesmo ótimo, cobrindo um pouco de tudo sobre sua vida cheia!

Sobre as demais postagens, deixei um comentário que, pelo visto, a tranqueira do blogspot engoliu! Teci minhas derretidas homenagens a Brando (afinal, qualquer homenagem a este maior ator do Cinema ainda será pouca!) e meus elogios calorosos ao homem por trás de dois de meus filmes favoritos: "Ben-Hur" e "Morro dos Ventos Uivantes", mas tudo "se foi com o vento"...

O meu abraço! E que bom que melhoraste a cor da mini-seção de estreias, rs (ainda acho que deverias procurar outro meio para destaque que não este incômodo bicolor, mas, enfim...)!

Gustavo disse...

Lillian Gish praticamnte viveu a história do cinema, em sua maior parte. Não vi suas maiores obras-primas da fase inicial, mas jamais a esquecerei em O MENSAGEIRO DO DIABO e THE UNFORGIVEN.

Luiz Santiago disse...

Um dos melhores posts sobre atrizes, ao lado do seu post sobre a Sophia Loren. Amei de verdade ler sobre essa atriz que admiro muitíssimo!

Abração, amigo.

Fábio Henrique Carmo disse...

Bela lembrança, Antônio. Não conhecia muito da história dela.Ótimo texto! Até a próxima!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Rafa, O MENSAGEIRO DO DIABO é sensacional. Um noir assustador. A Lillian tá ótima, assim como o Mitchum e a Shelley Winters. A imagem da capa com a Liz é numa resolução baixa. Serve assim mesmo?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Que filmão O PASSADO NÃO PERDOA, né, Marcia? E a Lillian, como sempre, se destaca.

Eduardo Giorgi disse...

boa atriz uma dama do cinema mudo, sua ultima aparicão foi baleias d e agosto(87) uma pena nao der ganho o oscar

Jamil disse...

A programação da Mostra tá furiosa. Queria muito estar em São Paulo para ver FAUSTO e também ver O LEOPARDO em tela grande.

Jamil disse...

A Llllian foi meio esquecida no cinema falado. Fez poucos filmes. Merecia ser melhor valorizada e, no mínimo, um Oscar de Coadjuvante por Duelo ao Sol.

RZeusnet disse...

COM SUA PERMISSÃO, LINKEI ESSE POST:

http://rogercinema.blogspot.com/2011/10/atrizes-pioneiras.html

Victor Ramos (Jerome) disse...

Grande texto e grande mulher. Uma beleza só.


Pudim de cinema

Nati Caetano disse...

Antonio,boa noite.

Muito excelente a sua dedicação pelo cinema,destacando artistas ilustres, de longos tempos.E fizeram história no cinema,e cada talento que emociona quem sabe os que foram esquecidos,mas também ficou na memória daqueles que valorizam a arte de maneira geral.Estou a te seguir.Aguardo você no meu blog.Tenha um ótimo domingo.Abraços

linezinha disse...

Antonio vc ja assistiu o documentário que a Jeanne Moreau fez sobre a Lilian?
Abraços

Adecio Moreira Jr. disse...

Parece Virginia Woolf na primeira foto.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Seria muito bom rever O LEOPARDO - um dos meus filmes favoritos - num telão, Jamil.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Sem problemas, RZeusnet.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Obrigado, Nati. Vou aparecer. Tudo de bom.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Nunca consegui ver esse documentário, Linezinha. Já o procurei em todo lugar...

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Você acha, Adecio? Muita suavidade para Virginia, que tinha uma expressão melancólica...Talvez o penteado...

Karla Hack dos Santos disse...

Belíssima atriz em todos os sentidos... Também cato algo de frágil e melancólico nela.... Delicada em sua força!

;D

Sucesso!

。♥ Smareis ♥。 disse...

Que mulher bonita e talentosa essa LILLIAN GISH, conhecia muito pouco dela. Aqui no seu blog a gente aprende muito. Ótimo post. Desejo um excelente começo de semana amigo. Bjs grande no coração.

siby13 disse...

Maravilhosa a matéria de Lillian. Aprendi um pouco mais sobre esta excelente atriz.
Espero poder ver muito mais seus trabalhos.
Beijos

annastesia disse...

Merecida homenagem e oportuna lembrança a essa precursora, inventiva e talentosa dama do cinema. Realmente deixou sua marca e abriu caminho para tantas outras.

Erasmo Pinheiro disse...

Vale ressaltar que ela é considerada pelo AFI a 17° lenda feminina do cinema americano e também considerada a Lady do Cinema Americano. Abraços! ;)