novembro 10, 2010

******** WALTER SALLES com o PÉ na ESTRADA

walter salles


 
Passados 30 anos a Geração Beat ainda continua fascinando. Talvez porque ensaiou um modo rebelde de ser jovem ainda hoje imitado. Atacado pela imprensa conservadora da época, a definição Beat foi pejorativamente divulgada como “beatnik”, numa alusão ao Sputnik lançado ao espaço pelos soviéticos. Esse estilo de vida não somente mudou costumes como também exerceu uma constante influência na poesia, no cinema e na música. Prova disso é o novo filme do carioca WALTER SALLES (o diretor de “Central do Brasil”), ON THE ROAD / Pé na Estrada, uma adaptação do célebre livro homônimo do escritor da contracultura Jack Kerouac. O filme está sendo co-produzido pela American Zoetrope, de Francis Ford Coppola, que detém os direitos do livro para o cinema desde 1979 e nunca conseguiu tirar o projeto da gaveta. Gus Van Sant também tentou dirigi-lo. Até Walter Salles chegou a acreditar que tampouco conseguiria tirar o projeto do papel. Ele dizia que precisaria de um “milagre” para que “On the Road” deixasse de ser o filme de seus sonhos para se materializar nos cinemas. Rodado em locações nos Estados Unidos, no Canadá e no México, o filme tem no elenco Viggo Mortensen, Kristen Stewart, Kirsten Dust, Alice Braga e Amy Adams. A estréia está prevista para 2011.

Salles reverteu todas as dificuldades com uma enorme dedicação: fez uma longa viagem pelos EUA, atrás dos locais e das pessoas citadas por Kerouac em seu livro, e fez dessa pesquisa um documentário, Em Busca de On the Road, ainda inédito. Para quem ainda não leu “On the Road”, traduzido no Brasil como “Pé na Estrada”, tem uma séria falha em sua formação cultural. O livro, fortemente autobiográfico, foi eleito pela revista “Time” como um dos 100 melhores livros escritos na língua inglesa no século 20. Lançado em 1958, transformou Jack Kerouac em estrela pop literária e abriu caminho para uma geração desapegada, mais livre, contestatória, boêmia, fã de jazz e revolucionária.

CONVERSANDO

A história de On the road pode ter o mesmo efeito nos jovens de hoje como teve nos anos 1950 e 1960? Por exemplo: será que a idéia de ultrapassar os limites, ir além das fronteiras, será que isso tudo ainda teria o mesmo efeito?

SALLES: A viagem aqui é, basicamente, interior. Estamos falando de personagens que tiveram a coragem de se reinventar contra a sua época, contra tudo e contra todos. Em muitos casos, os anos que estamos vivendo são tão conservadores quanto os anos 50. É nisso que essa história é interessante: ela permite entender que, mesmo quando tudo conspira contra, é possível inventar novas formas de nos relacionar com o mundo. Repensar o conceito de família, as relações afetivas, o sexo. Essa qualidade libertária e também transgressora é o que torna a história tão moderna.

Qual foi sua principal descoberta na pesquisa?

SALLES: Cruzando os EUA nos passos de Kerouac, encontramos não só os personagens do livro que ainda estão vivos, mas também os poetas da sua geração. Acabei percebendo que esses homens e mulheres que tiveram a coragem de abrir essas janelas nos anos 50 e 60 são muito mais jovens do que muitos jovens de hoje em dia.

(fragmento de entrevista publicada em “O Globo”)


********* SALA VIP: “O JARDIM dos FINZI CONTINI”

dominique sanda e lino capolicchio
 
 
O JARDIM dos FINZI CONTINI
(Il Giardino dei Finzi Contini, 1970)

País: Itália e Alemanha
Duração: 94 mins.

Gênero: Drama
Cor
Produção: Gianni Hecht Lucari e Arthur Cohn
(Documento Film / CC-Filmkunst)
Direção: Vittorio De Sica
Roteiro: Ugo Pirro e Vittorio Bonicelli
Adaptação do romance de Giorgio Bassani
Fotografia: Ennio Guarnieri
Edição: Adriana Novelli
Música: Manuel De Sica
Cenografia: Giancarlo Bartolini Salimbeni (d.a.);
Franco D’Andria (déc.)
Vestuário: Antonio Randaccio
Elenco:
Lino Capolicchio (“Giorgio”)
Dominique Sanda (“Micòl Finzi Contini”) 
Fabio Testi (“Bruno Malnate”)
Romolo Valli (“Giorgio pai”), 
Helmut Berger (“Alberto”)
Camillo Cesarei
Inna Alexeieff
Katina Morisani
 e Barbara Leonard Pilavin

Nota: **** (muito bom)

Prêmios:
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Urso de Ouro (Melhor Diretor) no Festival de Berlin
David di Donatello de Melhor Filme
Melhor Diretor Estrangeiro do Círculo dos Críticos 
de Cinema de Kansas City

AMOR em TEMPO de GUERRA

Adaptação de um tocante romance homônimo de Giorgio Bassani, situado na Segunda Guerra Mundial, segue os avatares de uma rica família judia italiana, na região de Ferrara, em plena opressão fascista. Neste ambiente bélico se situa o mundo irreal de uma classe privilegiada que continua com suas ocupações habituais e enlaces amorosos românticos, como se nada estivesse acontecendo de perverso. Embora bem realizado, lembrando muitas vezes Visconti e Bolognini, está longe dos melhores trabalhos de seu diretor, Vittorio De Sica. Com um emocionante e previsível desfecho trágico (todos os judeus ricos e pobres sofrem o mesmo destino) e intensas interpretações de todo o elenco, desde o Giorgio de Lino Capolicchio a Micol de Dominique Sanda (esplêndida, seu rosto na última sequência nos faz ver tudo o que seu personagem perdeu), Helmut Berger como o irmão tísico de Sanda e Romolo Valli, como o pai judeu e fascista de Capolicchio que vê como todas as suas idéias políticas estavam equivocadas. Destaque para a poética fotografia de Ennio Guarnieri, os falshbacks da juventude dos protagonistas burgueses e a sugerida homossexualidade do Alberto de Berger e seu amor pelo amigo mulherengo interpretado por Fabio Testi. Não é um filme fácil, os personagens demonstram mais os sentimentos pelos olhares e muito pouco pelos diálogos. Esses desejos não são resolvidos: ninguém é amado pela pessoa desejada. Bastante premiado e hoje esquecido, vale também pelo pungente alerta às pessoas que não ousam confessar o amor que sentem e terminam sendo atropoledas pelo destino.



**************** DOUGLAS SIRK por FASSBINDER


 
 
 
Em 1970, RAINER WERNER FASSBINDER descobriu os filmes realizados nos EUA por DOUGLAS SIRK, influenciando sua obra. Ansioso com a descoberta, viajou à Suíça em 1971 para entrevistá-lo. A admiração mútua que ambos sentiram foi tal que, além de uma forte amizade, Fassbinder protagonizou em 1977 o curta de Sirk “Bourbon Street Blues”. Reproduzo fragmento do artigo surgido desse encontro inicial:

“Em Lugano, na Suíça, vive o homem mais vivo e mais inteligente que já conheci e que, com um sorriso feliz quase imperceptível, disse: “Às vezes eu amei muito, verdadeiramente muito, as coisas que fiz”. Ele amou, por exemplo, o filme, “Tudo Que o Céu Permite“ (1955). Sirk ainda disse: “O cinema é sangue, lágrimas, violência, ódio, morte e amor”. E Sirk fez filmes de sangue e lágrimas, de violência e ódio, filmes de morte e filmes de amor. Ele também disse: “A filosofia de um cineasta está na iluminação e no enquadramento”. E Sirk fez os filmes mais ternos que conheço; filmes de um homem que ama as pessoas em vez de desprezá-las como fazemos. Educado na tradição germânica estritamente clássica, ele primeiro trabalhou no teatro. Este homem instruído também era um homem culto que chegou a conhecer Kafka pessoalmente. Em 1937, depois de rodar alguns filmes na Alemanha para a UFA, Detlef Sierck emigrou para os Estados Unidos, mudou seu nome para Douglas Sirk e dirigiu uns filmes que fizeram muita gente feliz. Tentei escrever sobre seis filmes – “Sublime Obsessão”, “Tudo que o Céu Permite”, “Palavras ao Vento”, “Almas Maculadas”, “Amar e Morrer” e “Imitação da Vida” - de Douglas Sirk e descobri a dificuldade de escrever sobre filmes que falam da vida e que não são literatura. Deixei de lado muitas coisas que poderia falar mais profundamente. Não falei bastante da iluminação: da sua precisão, de como ajuda a Sirk a transformar a história que tem que contar. Seu único rival neste terreno é Josef Von Sternberg. Tampouco falei da decoração de interiores que Douglas Sirk construía. De sua incrível exatidão. E não afirmei que Sirk é um diretor que obtém o máximo dos atores. Nos seus filmes, inclusive zombies como Marianne Koch e Liselotte Pulver parecem autênticos seres humanos em que podemos e queremos crer. Realmente vi poucos filmes de Sirk. Gostaria de ter visto a todos, seus 29 filmes. Se houvesse feito isso, quem sabe haveria me aprofundado mais em mim mesmo, na minha vida, nos meus amigos. Eu vi seis filmes de Sirk, e entre eles se encontram os mais belos filmes do mundo”.

Revista “Fernsehen und Film” (1971)

O alemão DOUGLAS SIRK (1900 - 1987. Hamburgo / Alemanha), um dos grandes cineastas da plenitude de Hollywood, considerado o mestre do melodrama, em 1937 se exilou da Alemanha Nazista, realizando alguns dos filmes mais atraentes e bem sucedidos do cinema norte-americano. Hábil no jogo de dramatização de espaços e na direção de atores, dirigiu sua primeira obra em Hollywood em 1942: “O Capanga de Hitler / Hitler´s Madman”. Entre o longa de estreia e “Imitação da Vida / Imitation of Life” (1959), último de seus filmes, Sirk realizou, quase sempre nos estúdios da Universal, uma elegante filmografia de 29 títulos, alguns dos quais verdadeiras joias, sem contar a aceitação popular que lotava cinemas. Sua habilidade na direção de atores consolidou a carreira de Rock Hudson, Jane Wyman, Robert Stack, Dorothy Malone, Barbara Rush e John Gavin. Seus filmes de colorido exuberante são parte do melhor da história do cinema, dando dignidade ao melodrama. Em 1959 aposentou-se do cinema e voltou a se estabelecer na Europa, lecionando na Escola de Cinema de Munique. Morreu em Lugano, na Suíça, quase trinta anos depois, vítima de câncer, com apenas breves retornos por trás da câmera, na Alemanha, na década de 1970, filmando três curtas-metragens dramáticos baseados em peças de Tennessee Williams e Arthur Schnitzler.