Passados 30 anos a Geração Beat ainda continua fascinando. Talvez porque ensaiou um modo rebelde de ser jovem ainda hoje imitado. Atacado pela imprensa conservadora da época, a definição Beat foi pejorativamente divulgada como “beatnik”, numa alusão ao Sputnik lançado ao espaço pelos soviéticos. Esse estilo de vida não somente mudou costumes como também exerceu uma constante influência na poesia, no cinema e na música. Prova disso é o novo filme do carioca WALTER SALLES (o diretor de “Central do Brasil”), ON THE ROAD / Pé na Estrada, uma adaptação do célebre livro homônimo do escritor da contracultura Jack Kerouac. O filme está sendo co-produzido pela American Zoetrope, de Francis Ford Coppola, que detém os direitos do livro para o cinema desde 1979 e nunca conseguiu tirar o projeto da gaveta. Gus Van Sant também tentou dirigi-lo. Até Walter Salles chegou a acreditar que tampouco conseguiria tirar o projeto do papel. Ele dizia que precisaria de um “milagre” para que “On the Road” deixasse de ser o filme de seus sonhos para se materializar nos cinemas. Rodado em locações nos Estados Unidos, no Canadá e no México, o filme tem no elenco Viggo Mortensen, Kristen Stewart, Kirsten Dust, Alice Braga e Amy Adams. A estréia está prevista para 2011.
Salles reverteu todas as dificuldades com uma enorme dedicação: fez uma longa viagem pelos EUA, atrás dos locais e das pessoas citadas por Kerouac em seu livro, e fez dessa pesquisa um documentário, “Em Busca de On the Road”, ainda inédito. Para quem ainda não leu “On the Road”, traduzido no Brasil como “Pé na Estrada”, tem uma séria falha em sua formação cultural. O livro, fortemente autobiográfico, foi eleito pela revista “Time” como um dos 100 melhores livros escritos na língua inglesa no século 20. Lançado em 1958, transformou Jack Kerouac em estrela pop literária e abriu caminho para uma geração desapegada, mais livre, contestatória, boêmia, fã de jazz e revolucionária.
CONVERSANDO
A história de “On the road” pode ter o mesmo efeito nos jovens de hoje como teve nos anos 1950 e 1960? Por exemplo: será que a idéia de ultrapassar os limites, ir além das fronteiras, será que isso tudo ainda teria o mesmo efeito?
SALLES: A viagem aqui é, basicamente, interior. Estamos falando de personagens que tiveram a coragem de se reinventar contra a sua época, contra tudo e contra todos. Em muitos casos, os anos que estamos vivendo são tão conservadores quanto os anos 50. É nisso que essa história é interessante: ela permite entender que, mesmo quando tudo conspira contra, é possível inventar novas formas de nos relacionar com o mundo. Repensar o conceito de família, as relações afetivas, o sexo. Essa qualidade libertária e também transgressora é o que torna a história tão moderna.
Qual foi sua principal descoberta na pesquisa?
SALLES: Cruzando os EUA nos passos de Kerouac, encontramos não só os personagens do livro que ainda estão vivos, mas também os poetas da sua geração. Acabei percebendo que esses homens e mulheres que tiveram a coragem de abrir essas janelas nos anos 50 e 60 são muito mais jovens do que muitos jovens de hoje em dia.
(fragmento de entrevista publicada em “O Globo”)





