maio 30, 2025

************ RONALD REAGAN em HOLLYWOOD

 



O preço da liberdade pode ser alto,
mas nunca será tão caro quanto a perda da liberdade.
 
Não é que os esquerdistas não sejam inteligentes,
as ideias que eles defendem é que não são.
RONALD REAGAN
 
Olhos: azuis
Cabelos: castanhos
Altura: 1,85 m
Apelidos: Dutch, Ronnie e The Gipper

 
 
O cinema é uma ferramenta de comunicação poderosa. Grande parte da população mundial recebe informação através dele, com especial intensidade devido ao surgimento de plataformas de streaming. Muitas vezes, uma narrativa emocional, com música e visual marcantes podem inflamar sentimentos e penetrar muito mais fundo do que textos. Fica então evidente que através de filmes e séries são transmitidos determinados valores, identidades, sentidos comuns e mensagens que geram raízes culturais importantes na sociedade. Esta questão foi muito bem compreendida pelos políticos na Segunda Guerra Mundial, utilizado pelo totalitarismo e pelos estados democráticos em documentários magníficos de Leni Riefenstahl e dos russos, ou filmes de ficção norte-americanos, como “O Grande Ditador / The Great Dictator” (1940), “Sargento York / Sergeant York” (1941) ou “Casablanca / Idem” (1942). O cinema também gerou um presidente da República dos Estados Unidos, um dos mais admirados líderes de Direita de todos os tempos: RONALD REAGAN (1911 - 2004. Tampico, Illinois / EUA).

Sua jornada na indústria cinematográfica, que abrangeu mais de três décadas, moldou sua imagem pública e lançou as bases para uma transição bem-sucedida para a política. Contarei aqui sua honrada e vitoriosa história. Ele formou-se em economia e sociologia, foi ator em Hollywood, líder sindical e entre 1967-1975 governador da Califórnia, antes de tornar-se o quadragésimo presidente dos Estados Unidos da América. Chegou num momento em que o país enfrentava grave crise econômica e de valores, especialmente devido à impopularidade mundial da guerra do Vietnã e à “paz sem honra” assinada em Paris em 1973. No final de seus dois mandatos, RONALD REAGAN obteve grandes conquistas com seu programa inovador, conhecido como a “Revolução Reaga, entre elas a volta do progresso e do otimismo norte-americanos, além da derrota do inimigo comunista soviético. Seu foco nas questões mais importantes – derrubar o Império do Mal, cortar taxas de impostos punitivas e controlar a inflação – o levou a fazer concessões para economizar capital político para realizar essas questões mais críticas.
 
Seu pai, Jack, era um homem sem sorte nos negócios, que caiu no alcoolismo. Sua mãe, Nelle, uma mulher caridosa e religiosa. A família mudou-se várias vezes antes de se estabelecer em Dixon, uma pequena cidade do meio-oeste. Quando adolescente, ele passou os verões trabalhando como salva-vidas na praia local de Rock River, um afluente do Mississippi, onde se diz que em sete anos salvou 77 vidas. O jovem não brilhou no meio acadêmico durante seus quatro anos no Eureka College, mas teve sucesso como jogador de futebol e como ator em peças. Se formou em 1932, em plena Grande Depressão, e pouco depois foi contratado como locutor esportivo em uma estação de rádio em Iowa. Anos depois, em 1937, desembarcou em Hollywood, e um agente de talentos o convidou para fazer um teste na Warner Bros. Sua naturalidade em frente às câmeras impressionou e gerou um contrato por sete anos com o estúdio, de US$ 200 por semana. Em seu primeiro papel protagonista, no criminal
“O Amor Está no Ar / Love Is on the Air” (1937), repetiu sua profissão de anos antes na vida real, interpretando um locutor de rádio.
 
Depois de vários filmes, alcançou reconhecimento como o atleta de futebol norte-americano George Gipp em
“Criador de Campeões”. Um papel que se tornou icônico e ajudou a solidificar sua posição na indústria do entretenimento. Logo seria um verdadeiro astro de cinema classe B, respeitado por aprender os diálogos rapidamente e sempre chegar na hora certa ao estúdio, além de simpático, obediente ao diretor e gentil com os colegas, um homem de confiança. Alternou Hollywood com o serviço militar e, em 1937, alistou-se na Reserva do Exército dos Estados Unidos com o posto de cabo, mas logo ascendeu a segundo-tenente. Após o ataque japonês a Pearl Harbor e a entrada oficial dos EUA no conflito de guerra, ele foi convocado, mas não pôde servir no combate devido a seus problemas de visão. Assim, foi designado para a Primeira Unidade de Cinema, subordinada à Força Aérea, onde trabalhou em inúmeros documentários. Esta etapa da sua vida consolidou seu patriotismo e o familiarizou com a importância dos valores, que se tornaria um dos eixos centrais do seu discurso.
 
Retornou a Hollywood no final da guerra e atuou no Screen Actors Guild (SAG), com sede em Los Angeles, do qual foi presidente por cinco mandatos consecutivos, de 1947 a 1952, e novamente de 1959 a 1960. Durante seu mandato, testemunhou perante o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara em 1946, em meio ao pânico comunista, mas recusou-se a citar nomes. Após anos de trabalho contra a penetração da esquerda no SAG, desenvolveu os princípios anticomunistas que permaneceram no centro das suas convicções durante toda a vida. Como anticomunista fervoroso, reafirmou ao comitê seu compromisso com os princípios democráticos:
Como cidadão, eu não quero ver o nosso país conduzido pelo medo ou ressentimento, e nós nunca podemos negociar qualquer um dos nossos princípios democráticos por causa deste medo e ressentimento.”. No SAG, RONALD REAGAN teve um papel importante na conquista de pagamentos residuais para atores. Antes, eram pagos com o lançamento dos filmes e não recebiam nada a mais caso os longas fossem exibidos posteriormente.
 
reagan e jane wyman
Chegou a convocar a famosa greve de atores e roteiristas em 1960, com o objetivo de que pudessem acessar os benefícios econômicos da venda de direitos cinematográficos. Esta experiência não só o ajudou a amadurecer a sua capacidade como negociador, mas também a aprender sobre os métodos de infiltração que o comunismo estava utilizando para entrar na indústria cinematográfica. Marcou também a conquista de direitos importantes para os atores, como acesso a seguro-saúde e pensão. Na sua autobiografia escreveu que era
“o Errol Flynn dos B’s”, por aparecer em vários filmes de baixo orçamento. Escalado para o papel de Victor Laszlo no clássico “Casablanca”, não o conseguiu, ficando por fim para o italiano Paul Henreid. O mais próximo que chegou do estrelato foi em um drama famoso indicado ao Oscar de Melhor Filme, “Em Cada Coração, um Pecado” (1942), interpretando um soldado cujas pernas são amputadas. “Onde está o resto de mim?”, seu personagem grita ao acordar da cirurgia. Para se preparar, consultou médicos, psicólogos e pessoas com deficiência. “Talvez eu nunca tenha me saído tão bem em um filme”, afirmou.
 
Ele nunca foi uma grande estrela cinematográfica. O que o salvou de cair no ostracismo foi a televisão. Em 1954, começou a apresentar o
“General Electric Theatre”, um programa dramático com convidados famosos (Fred Astaire, James Stewart, James Dean etc.). Ganhava cerca de US$ 125 mil por ano para este trabalho (cerca de US$ 1,07 milhão de dólares hoje). Para mostrar os produtos da General Electric, episódios foram filmados na casa “totalmente elétrica” dos Reagan. Ia ao ar nas noites de domingo, entre “The Ed Sullivan Show” e “Alfred Hitchcock Presents”, e atraia mais espectadores do que ambos. Seu contrato exigia que fizesse visitas às fábricas da produtora, muitas vezes exigindo dele diversos discursos por dia. De 1954 a 1962, em microfones, ele contava histórias de Hollywood aos funcionários da GE e fazia falas políticas para grupos empresariais. As visitas foram “quase um curso de pós-graduação em ciência política”, diria mais tarde. Falando para conservadores, tornou-se na época um canal de Direita.
 
Em 1938, na meca do cinema, conheceu Jane Wyman
(1917 – 2007. Setor Joseph, Missouri / EUA), Oscar de Melhor Atriz em 1949 por “Belinda / Johnny Belinda”, com quem se casaria em 1940. Tiveram dois filhos biológicos, Maureen (1941 – 2001) e Christine (que nasceu em 1947, mas viveu apenas um dia), e um terceiro adotado, Michael (nascido em 1945). Se divorciaram em 1949, mas continuaram bons amigos por toda a vida. Ela afirmou que votou nele nas duas vezes em que concorreu à presidência. Pouco depois, ele se enamorou de outra atriz, Nancy Davis (1921- 2016. Nova Iorque / EUA), depois dela procurá-lo para resolver problemas relacionados ao aparecimento de seu nome em uma lista de comunistas. Tinha sido confundida com outra com o mesmo nome. Anos depois, ela descreveu o primeiro encontro deles como “eu não sei exatamente se foi amor à primeira vista, mas não ficou muito longe de ser”. Casaram-se em 4 de março de 1952 e o casal de atores Brenda Marshall e William Holden foram os padrinhos de matrimônio. Tiveram dois filhos: Patti (nascida em 1952) e Ron (em 1958).
 
brenda marshall, reagan, nancy travis e william holden
Atuaram juntos em um único filme,
“Demônios Submarinos / Hellcats of the Navy”. Considerado um dos casamentos mais famosos do século XX, que duraria mais de meio século, foi marcado por cartas de amor. “Minha querida, eu te amo muito”, escreveu à esposa em 20 de março de 1955, continuando “Nem me importo que a vida me tenha feito esperar tanto para encontrar você”. Ela decidiu se tornar a cuidadora de seu marido depois que ele foi diagnosticado com a doença de Alzheimer em 1994. Ele morreria em 2004, sendo o seu funeral um dos mais concorridos dos EUA. “Sinto muita falta de Ronnie, muita falta”, disse em uma entrevista de 2009 para a revista “Vanity Fair”. “Dizem que com o tempo a saudade passa. Não, não passa.”, concluiu. Ao longo da carreira, o carismático e atraente RONALD REAGAN participou de 52 produções cinematográficas. A “Bíblia” era o seu livro de cabeceira. Na década de 1950, ele se envolveu mais ativamente na política e em 1962 assumiu publicamente o partido republicano, ganhando atenção nacional quando falou em nome do candidato presidencial conservador Barry Goldwater.
 
O papel que mais gostava era o do soldado Drake McHugh em
“Em Cada Coração, um Pecado”, talvez o seu melhor desempenho. O título da sua autobiografia, publicada em 1965, “O que Aconteceu com o Resto de Mim?”, se refere a um diálogo deste drama. Seu último filme, o único no qual interpretou um vilão, foi o excelente policial “Os Assassinos”, baseado em conto de Ernest Hemingway. Apresentou ainda a série de televisão “Histórias do Vale da Morte / Death Valley Days”, de 1964 até 1965, e depois se aposentou das telas. A transição para a política foi notável. A trajetória marcante no entretenimento moldou sua imagem pública, preparando-o para o papel de liderança que desempenharia no cenário político mundial. Sua relação com o cinema forjou sua impecável oratória e capacidade de comunicação – permitindo-se inclusive usar o humor e inserir piadas anticomunistas em discursos e entrevistas. Chegou a fazer referências ao cinema em suas intervenções públicas, especialmente aos personagens de John Rambo e Rocky Balboa, recebendo manifestações entusiasmadas. Deixou saudades.
 

FONTES
“O Que Aconteceu com o Resto de Mim?” (1965)
de Ronald Reagan
 
“Ronald Reagan”
(2016)
de Bill O'Reilly
 
“O Verdadeiro Reagan: suas Virtudes e Importância”
(2023)
de James Rosebush

 
ann sheridan e reagan em em cada coração, um pecado
DEZ FILMES de REAGAN
(por ordem de preferência)
 
01
Os ASSASSINOS
(The Killers, 1964)

direção de Don Siegel
elenco: Lee Marvin, Angie Dickinson e John Cassavetes
 
02
Em CADA CORAÇÃO, um PECADO
(Kings Row, 1942)

direção de Sam Wood
elenco: Ann Sheridan, Robert Cummings, Betty Field,
Charles Cobrun, Claude Rains e Judith Anderson
 
03
VITÓRIA AMARGA
(Dark Victory, 1939)

direção de Edmund Goulding
elenco: Bette Davis, George Brent, Humphrey Bogart
e Geraldine Fitzgerald
 
04
FUGITIVOS do INFERNO
(Desperate Journey, 1942)

direção de Raoul Walsh
elenco: Errol Flynn, Nancy Coleman, Raymond Massey,
Alan Hale e Arthur Kennedy
 
05
DILEMA de uma CONSCIÊNCIA
(Storm Warning, 1950)

direção de Stuart Heisler
elenco: Ginger Rogers, Doris Day e Steve Cochran
 

06
CORAÇÃO AMARGURADO
(The Hasty Heart, 1949)

direção de Vincent Sherman
elenco: Patricia Neal e Richard Todd
 
07
A ESTRADA de SANTA FÉ
(Santa Fe Trail, 1940)

direção de Michael Curtiz
elenco: Errol Flynn, Olivia De Havilland, Raymond Massey,
Alan Hale e Van Heflin
 
08
CENTELHA de AMOR
(The Voice of the Turtle, 1947)

direção de Irving Rapper
elenco: Eleanor Parker, Eve Arden e Wayne Morris
 
09
CRIADOR de CAMPEÕES
(Knute Rockne All American, 1940)

direção de Lloyd Bacon
elenco: Pat O'Brien, Gale Page e Donald Crisp
 
10
NOITE APÓS NOITE
(Night Unto Night, 1949)

direção de Don Siegel
elenco: Viveca Lindfors e Broderick Crawford
 
ronald reagan e bette davis em vitória amarga
“Foi dito que a política é a segunda profissão mais antiga.
Aprendi que tem uma semelhança impressionante
com a primeira.”
RONALD REAGAN

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maio 15, 2025

* LUISA FERIDA e OSVALDO VALENTI: PAIXÃO e CRIME

osvaldo valenti e luisa ferida em a bela adormecida
 

 
O cinema é a arma mais forte
do regime fascista.
BENITO MUSSOLINI
(1883 – 1945. Predappio / Itália)

 
 
Assisti seis dos dez filmes em que eles atuaram juntos. Tinham carisma, talento e eram famosos no cinema italiano do final da década de 30 e início dos 40. Viveram uma avassaladora história de amor que terminou tragicamente em Milão, 30 de abril de 1945, pouco antes da meia-noite. Chovia muito, a cidade estava deserta e um caminhão parou na Via Poliziano, no Hipódromo San Siro. Alguns partidários da Brigada Pasubio fizeram um homem e uma mulher saírem do veículo. Iluminados pelos faróis, LUISA FERIDA (1914 - 1945. Castel San Pietro Terme, Emilia-Romagna / Itália) e OSVALDO VALENTI (1906 – 1945. Istambul / Turquia) foram executados com rajadas de metralhadora. De uma casa paroquial próxima, o padre Dom Adolfo Terzoli viu a chacina e depois se aproximou, concedendo a extrema unção. Ela segurava o sapatinho de lã do seu filho Kim, que morreu com apenas cinco dias de vida em 1942. Assim terminou um invejado e glamourizado romance, que encheu páginas e mais páginas de jornais e revistas, com o crime causando incômodo na opinião pública daqueles dias confusos.
 
Notável por sua beleza de traços morenos e pela sensualidade de seus movimentos, a presença de LUISA FERIDA permanece como uma das mais relevantes do universo cinematográfico europeu do período de 1939-1945. Filha de um rico proprietário de terras, que morreu quando ela era criança, iniciou sua carreira como atriz de teatro, participando da companhia de Ruggero Ruggeri e Paola Borboni. Em 1935 fez a primeira aparição no cinema em um papel coadjuvante no policial “Flecha de Ouro / Freccia d'oro” (1935). Por causa de sua fotogenia, logo se destacou em filmes como a comédia histórica “Il Re Burlone” (1935), com Armando Falconi. Entre 1937 e 1938, formou uma dupla de sucesso com Amedeo Nazzari. Em 1939, o celebrado diretor Alessandro Blasetti a escolheu como protagonista de “Romântico Aventureiro”. Segundo o cineasta, ela chegou ao set disposta a tudo, deixando claro que “não seria indiferente aos seus desejos como diretor ou homem”. Blasetti pediu a OSVALDO VALENTI que explicasse para ela que de fato era “uma mulher maravilhosa, mas que ele tinha outros interesses sentimentais”. 
 
luisa ferida
O ator passou tão bem a mensagem que, apesar de um caso sexual com a atriz anos antes, ela ainda em início de carreira, resultou em um romance irresistível entre eles. Os dois se tornaram inseparáveis. Assim nasceu a união que pode ser definida como amaldiçoada. Em 1941, filmaram “A Coroa de Ferro”, novamente dirigidos por Blasetti, ao lado de Massimo Girotti, Gino Cervi e Elisa Cegani. LUISA FERIDA interpreta a Princesa Tundra, uma mulher de beleza selvagem, e OSVALDO VALENTI, Eriberto, um feroz príncipe tártaro. Enquanto isso, ela havia se tornado uma das divas mais populares, repetindo na tela muitas vezes o papel de garota má e devassa, e ele o de vilão. Em 1942, continuaram sob a orientação de Blasetti em “A Farsa Trágica”. Outro êxito. Os diretores mais populares ofereceram para eles filmes importantes. Nos primeiros anos de 1940, estavam no auge e desempenharam personagens memoráveis. Estrelaram com Amedeo Nazzari o drama “A Bela Adormecida” (1942), que pertence ao estilo Caligrafismo, bastante expressivo em complexidade e lidando com material literário.
 
Filho de uma família rica, OSVALDO VALENTI estudou Direito em Milão, mas abandonou os estudos para circular por Paris e Berlim. Em 1928, estreou no cinema na Alemanha em “O Iate dos Sete Pecados / Die Yacht der Sieben Sünden”, com Brigitte Helm. Na década de 1930, retornou à Itália, filmando com Mario Bonnard e Amleto Palermi. Dirigido por Alessandro Blasetti fez filmes decisivos para sua carreira, estabelecendo sucesso entre a crítica e o público italiano. Consolidou-se como um dos atores mais requisitados e bem pagos, atuando em filmes de diretores de prestígio como Goffredo Alessandrini, Carmine Gallone, Duilio Coletti e Camillo Mastrocinque. De charme indiscutível e rosto ambíguo vagamente melancólico, era perfeito para papéis de vilão. Conhecido entre os colegas como mitomaníaco e cínico, falava quatro idiomas e mantinha boas relações com fascistas de alto escalão. Inquieto e exagerado, recebia autoridades e suas amantes em seu iate, ancorado em Fregene, Fiumicino, divertindo os convidados com imitações debochadas de Adolf Hitler (ele nunca escondeu seu desprezo pelos nazistas).
 
osvaldo valenti
Quando Benito Mussolini foi deposto em 25 de julho de 1943, o astro comemorou a decadência do fascismo, mas muitos o lembraram de seus laços estreitos com o regime e que futuramente poderia pagar caro pela ostentação de riqueza, enquanto boa parte dos italianos apertava o cinto. Em 1944, em “A Bela Adormecida”, de Luigi Chiarini, teve seu melhor desempenho no cinema. O vínculo sentimental entre ele e a amada seria sempre intenso e violento, principalmente por causa do abuso de cocaína. Em 1942, ela deu à luz um filho, que morreu alguns dias depois. A droga e a insensatez de OSVALDO VALENTI o levaram a percorrer caminhos cada vez mais perigosos, entre o mercado negro e a obsessão por dinheiro que sustentasse seu alto padrão de vida. Ingressou na República Social Italiana (RSI), alistando-se na Décima Flotilha do MAS, comandada pelo príncipe Valério Borghese, com a patente de tenente. Em Veneza, de uniforme oficial militar, foi fotografado para o semanário “La Domenica del Corriere”.
 
As duas estrelas viviam em um luxo desenfreado como em uma pequena corte. Tinham agente, governanta, secretário, mordomo, cozinheiro, garçons, tratador de cães e até mesmo um poeta particular para escrever madrigais para a diva. Por algum tempo, OSVALDO VALENTINI foi comissário de entretenimento e acalentou dirigir seus próprios filmes. No verão de 1943, o colapso do fascismo e os bombardeios aéreos em Roma interromperam a atividade cinematográfica. A indústria foi reativada meses depois, no norte do país, resultando no Cinevillaggio. Eles estavam entre os poucos artistas que acreditaram na recém-criada República Social Italiana. Atuaram em “Notícia”, que foi um total fracasso e o último filme deles. Criticado por sua suposta ideologia fascista, o ator renunciou ao cargo de comissário, enquanto sua parceira abortava acidentalmente um segundo e tão desejado filho. Eles nunca aderiram oficialmente ao fascismo, mas ao decidirem não se mudar para a Espanha, onde continuariam o trabalho como atores, e voltarem a Milão na primavera de 1944, assinaram um trágico destino.
 
Em Milão, atraído pela facilidade de drogas, OSVALDO VALENTI frequentou a sinistra Villa Triste, na Via Paolo Uccello, quartel da unidade especial de polícia política, conhecida como Banda Koch, responsável pela tortura e assassinato de opositores do regime. Devido à sua brutalidade sádica, Pietro Koch revelou-se impopular até em hierarcas fascistas, sendo preso pela polícia de Salò em dezembro de 1944, por ordem do próprio Benito Mussolini. Na ocasião, LUISA FERIDA e o marido viviam no luxuoso Hotel Continental, na Via Manzoni, frequentado por fascistas e nazistas. A guerra estava prestes a terminar, os pelotões de fuzilamento partidários atuavam intensamente, matando suspeitos de fascismo. O casal entregou-se à Brigada Pasubio e foram presos, após a denúncia de um fascista que confessou tê-los visto na Villa Triste. Levados para uma fazenda nos arredores de Milão, ocuparam uma sala e um quarto em um primeiro andar, vigiados por uma mulher denominada Senhora Rossi, que se responsabilizou por uma fortuna em liras e uma caixa de joias da atriz.
 
O partidário Giuseppe Marozin, codinome “Vero”, aparecia com frequência na improvisada prisão dos atores, garantindo: “Vocês estão em boas mãos. É questão de tempo, logo estarão livres.” Quando a rádio divulgou a falsa notícia de que OSVALDO VALENTI havia sido baleado, LUISA FERIDA se apavorou, não saindo mais do quarto, insone e com frequentes crises de choro. O primeiro julgamento do ator durou um dia inteiro até o pôr do sol. Ele confessou que sua relação com Pietro Koch era somente pelo fornecimento gratuito de cocaína, negando a participação ou testemunho em torturas. Ao retornar, tentou tranquilizar a esposa: “Eu pedi uma investigação mais aprofundada, haverá outro julgamento. E em qualquer caso, não precisa ter medo, seu nome nem foi mencionado.” Ele a chamava de Luisina, enxugando suas lágrimas, mas ela repetia: “Eu sei que eles vão nos matar”. Nos últimos dias de abril de 1945, depois de submetidos a um julgamento sumário, acusados de cumplicidade dos horrores cometidos por Koch, foram considerados culpados. Para eles, o triste destino estava selado.
 
Assassinados, LUISA FERIDA, aos 31 anos, estava grávida de quatro meses, e OSVALDO VALENTI tinha 39 anos. Seus cadáveres foram exibidos em público, junto aos de outras vítimas executadas, e depois enterrados um ao lado do outro, no cemitério Maggiore di Musocco, em Milão. Suas malas, deixadas no hotel, cheias de roupas, peles, dinheiro e joias, foram roubadas no dia do crime. Da casa em Milão saquearam um autêntico tesouro, do qual o chefe partidário Giuseppe “Vero” Marozin admitiu anos passados o “confisco”, mas alegando não se lembrar onde esses bens foram parar. Ele declarou também que a execução foi ordenada por Sandro Pertini, mais tarde presidente da república italiana. Na década de 1950, a empobrecida mãe de LUISA FERINA solicitou ao governo uma pensão de guerra, uma vez que sua filha era sua única fonte de renda. Foi, portanto, necessária uma investigação cuidadosa para apurar as reais responsabilidades da atriz. Ao final da qual, se concluiu que ela, injustamente assassinada, não foi culpada de nenhum crime de guerra. Sua mãe, portanto, obteve a pensão, incluindo os valores em atraso.
 
A história infeliz dos icônicos atores, depois de esquecida durante décadas, voltou à tona em 2008 com o filme dirigido por Marco Tullio Giordana, “Sangue de Guerra / Sanguepazzo”, com Luca Zingaretti e Monica Bellucci como o casal trágico, apresentado no Festival de Cinema de Cannes em 18 de maio de 2010. Dias depois, a RAI 1 transmitiu a versão completa em uma minissérie de dois episódios que alcançou grande audiência. Esse amor maldito foi contado anteriormente em um telefilme, em 1993, “Jogo Perverso / Gioco Perverso”, com Fabio Testi e Ida Di Benedetto.
 

FONTES
    “A Fábrica de Sonhos de Mussolini:
o Estrelato do Cinema na Itália Fascista”
(2013)
de Stephen Gundle
 
“Jogo Perverso - a Verdadeira História
de Osvaldo Valenti e Luisa Ferida
entre Cinecittà e a Guerra Civil”
(2007)
de Italo Moscati
 
“Luisa Ferida e Osvaldo Valenti –
a Ascensão e Queda de Duas Estrelas de Cinema”
(2007)
de Edward Reggiani

 
massimo girotti e luisa ferida em a coroa de ferro
LUISA e OSVALDO JUNTOS na TELA
 
01
ROMÂNTICO AVENTUREIRO
(Un'avventura di Salvator Rosa, 1939)

direção de Alessandro Blasetti
elenco: Gino Cervi, Rina Morelli e Paolo Stoppa
 
02
A COROA de FERRO
(La Corona di Ferro, 1941)

direção de Alessandro Blasetti
elenco: Elisa Cegani, Rina Morelli, Gino Cervi,
Massimo Girotti e Paolo Stoppa
 
03
A FARSA TRÁGICA
(La Cena delle Beffe, 1942)

direção de Alessandro Blasetti
elenco: Amedeo Nazzari, Clara Calamai,
Valentina Cortese e Elisa Cegani
 
04
A BELA ADORMECIDA
(La Bella Addormentata, 1942)

direção de Luigi Chiarini
elenco: Amedeo Nazzari
 
05
HORIZONTE de SANGUE
(Orizzonte di Sangue, 1942)

direção de Gennaro Righelli
elenco: Valentina Cortese
 
06
FEDORA
(Idem, 1942)

direção de Camillo Mastrocinque
elenco: Amedeo Nazzari e Rina Morelli
 
07
CAVALEIROS do DESERTO
(I Cavalieri del Deserto, 1942) 
direção de Gino Talamo e Osvaldo Valenti
elenco: Luigi Pavese e Guido Celano
 
08
ENCONTRO SANGRENTO
(Harlem, 1943)

direção de Carmine Gallone
elenco: Massimo Girotti, Amedeo Nazzari, Vivi Gioi
e Elisa Cegani
 
09
A DONA da POUSADA
(La Locandiera, 1944)

direção de Luigi Chiarini
elenco: Armando Falconi, Camilo Pilotto, Elsa De Giorgi,
Paola Borboni e Gino Cervi
 
10
NOTÍCIA
(Fatto di Cronaca, 1945)
direção de Piero Ballerini
elenco: Anna Capodaglio

 

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