maio 14, 2016

**************** AVASSALADORA ANNA MAGNANI



 
A persona de ANNA MAGNANI (1908 - 1973. Roma / Itália) é avassaladora, graças a sua aparência expressiva, seu modo visceral de atuar, e os melodramas associados a sua vida pessoal, de tal modo que sua imagem ultrapassa em muito as narrativas cinematográficas nas quais apareceu. Representa força emocional, desafio diante da adversidade, exuberância e vitalidade. Nos palcos ou nas telas, em comédias ou dramas, fez como ninguém o tipo da mulher suburbana, apaixonada, autêntica e maternal. Foi uma das maiores atrizes que a Itália já conheceu, considerada o rosto do Neo-realismo e o estereótipo perfeito da “mamma” italiana. Grande estrela durante mais de três décadas, ela não tem a beleza convencional e o glamour associados frequentemente ao termo. Gordinha, pequena (1,60 m), rouca, rosto expressivo emoldurado por cabelos negros, nariz aquilino, olhos com olheiras marcantes. Ela é uma força da natureza, magnífica, temperamental. Nela, tudo é impactante, inclusive sua preocupação social. 

Conhecida como “La Magnani” ou “Nannarella”, ainda hoje é considerada pelos italianos como o maior talento dramático desde Eleonora Duse. Ela segue a trilha aberta por Francesca Bertini, atriz do cinema mudo que possuía uma amplitude emocional que a permitia mudar de estilo e registro, passeando com facilidade da comédia à tragédia. Nascida filha ilegítima, abandonada pela mãe e criada por uma avó, aos 16 anos ANNA MAGNANI estuda na Academia de Arte Dramática de Roma. Aos 17, ainda no curso, para se manter, canta baladas picantes num cabaré de segunda classe. Em 1928, faz uma pequena figuração no filme “Scampolo”, trabalhando no teatro nos anos seguintes, onde estrela musicais, comédias e melodramas.

“La Magnani é a quintessência da Itália, e também a personificação do verdadeiro teatro. Eu sou grato por ela ter simbolizado no meu filme todas as atrizes do mundo.” 
Jean Renoir

la magnani e o filho luca
Em San Remo, conhece o cineasta fascista Goffredo Alessandri, casando-se com ele em 1933. Um relacionamento atormentado, marcado por cenas de ciúmes por parte da atriz, culminando na separação em 1942 e, finalmente, no divórcio em 1950. Por influência do marido, consegue papéis simpáticos no cinema. Em 1952 voltam a trabalhar juntos em Anita Garibaldi, mas os aborrecimentos da temperamental diva faz com que o diretor abandone as filmagens. O filme é concluído por Francesco Rosi. Antes, nos anos da Segunda Guerra Mundial, enquanto a Itália sofre, ANNA MAGNANI divide a ribalta com o famoso comediante Totó, viajando com ele por toda a Itália. Em 1942 dá à luz a seu único filho, Lucas, fruto de um rápido relacionamento com o ídolo das matinês Massimo Serato, que a abandona quando ela fica grávida. O filho seria vítima da paralisia infantil.

Luchino Visconti queria que a atriz participasse de seu filme de estreia “Obsessão / Obsessione”, de 1943. Ela estava grávida de cinco meses, mas desejava tanto o papel que tentou esconder a gravidez. Quando Visconti descobriu, ela continuou mentindo, dizendo ter apenas dois meses de gravidez. Por fim, ele decidiu que ela seria substituída por Clara Calamai, levando a atriz às lágrimas. No entanto, a celebridade de ANNA MAGNANI foi conquistada pouco depois, como Pina, uma viúva grávida numa Roma dominada pelos nazistas na obra-prima neo-realista “Roma, Cidade Aberta” (1945), de Roberto Rossellini. A cena da sua morte é um dos momentos mais devastadores do cinema. Apaixonada por Rossellini, um ex-playboy drogado cuja amante era uma atriz alemã nazista, ela novamente vive uma tumultuada história de amor, que termina quando ele conhece Ingrid Bergman e a deixa aos prantos. O impacto do drama de guerra lhe abre as portas para uma carreira internacional. Em 1950, a revista Life diz que ANNA MAGNANI é “uma das atrizes mais impressionantes desde Garbo”.

O famoso caso Guerra dos Vulcões (Magnani-Rossellini-Bergman) começa em maio de 1948: Rossellini recebe uma carta de Hollywood, a atriz Ingrid Bergman diz que é uma fã de seu trabalho e gostaria de fazer um filme com o cineasta – segue-se uma chuva de telegramas entre a Itália e a Califórnia. A seguir, o cineasta voa para Los Angeles e assina com Ingrid o contrato para filmar “Stromboli / Idem” (1950). Irritada, ANNA MAGNANI aceita atuar em “Vulcano / Idem”, filme norte-americano em competição direta com “Stromboli” (1950), dirigido por William Dieterle e realizado em Vulcano, uma ilha ao sul de Stromboli. Rossellini e Ingrid se apaixonam. Numa explosão de raiva, La Magnani derrama um prato de macarrão na cabeça de Rossellini. O escândalo navega nas manchetes mundiais, e os fãs de cinema se dividem, uma metade apoiando a atriz italiana, enquanto a outra apoia a sueca. A pré-estreia de “Vulcano” é eclipsada pelas notícias do nascimento do filho de Ingrid. Avisada, ela não comparece ao evento.

“Com o devido respeito a todas as outras com quem trabalhei, ela era uma atriz única, de grandeza e inteligência incomparáveis. E generosidade! Magnani foi uma gigante”
Marcello Mastroianni

la magnani e roberto rossellini
Cativado pela sua vivacidade, o dramaturgo norte-americano Tennessee Williams lhe dedica a peça “A Rosa Tatuada”. O inglês deficiente da atriz não permite interpretar o personagem na Broadway, mas é convidada para protagonizar a adaptação cinematográfica, empolgando a crítica numa poderosa e enérgica interpretação. Na pele de Serafina Delle Rose, uma viúva siciliana cortejada por um caminhoneiro (Burt Lancaster, belo e engraçado), em um bairro italiano nos EUA, que reverencia neuroticamente a memória do marido. Sensual, nos faz rir e chorar.

Na noite dos Oscar, ela surpreende ao vencer as favoritas Katherine Hepburn e Susan Hayward, arrecadando o galardão de Melhor Atriz. Não comparece à cerimônia por considerar que não tinha a menor chance de ganhar. Estava dormindo na hora da cerimônia, sendo acordada por um repórter italiano, que lhe deu a notícia. Torna-se a primeira italiana a ganhar o Oscar. Com o mesmo filme arrebata o BAFTA, o Globo de Ouro e o Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York de Melhor Atriz. Repete a nomeação ao Oscar dois anos depois em “A Fúria da Carne”, ao lado de Anthony Quinn, levando o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim.

“O neorrealismo começou a emergir através das criações espontâneas dos    atores,   especialmente   Anna   Magnani   e   Aldo    Fabrizi”
Roberto Rossellini

tennessee williams 
e la magnani
Ela recusa o papel principal de “Duas Mulheres / La Ciociara” (1960), planejado para George Cukor. Sophia Loren faria sua filha. Sem a presença de ANNA MAGNANI, Cukor deixa o projeto e é substituído por Vittorio De Sica. Sophia troca os personagens, levando o Oscar. Após o fracasso de “Vidas em Fuga / The Fugitive Kind” (1960), onde faz par romântico com Marlon Brando, procura concentrar as suas energias no teatro (dirigida entre outros por Franco Zefirelli). Intercala peças de prestígio com aparições em filmes emblemáticos, como “Mamma Roma” (1962), de Pier Paolo Pasolini, encarnando o papel-título, uma madura prostituta que faz de tudo para que seu filho tenha uma boa vida. Ela não mede esforços e deposita nele todos os seus anseios. Enquanto isso, o garoto quer apenas vagabundear. Numa relação à flor da pele, ele se arrepende de tê-la no filme, mas resulta em sucesso de público e crítica, e ela ganha a Taça Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza.

Atua em diversos e significativos filmes para a televisão. Nessa época, estrela a superprodução “O Segredo de Santa Vitória / The Secret of Santa Vittoria” (1969), ao lado de Anthony Quinn. Nos bastidores, os atores brigam furiosamente, inclusive fisicamente. Sua última aparição no cinema foi como ela mesma, sob as ordens do velho amigo Federico Fellini no autobiográfico “Roma de Fellini / Roma”, de 1972, onde ela se despede de forma característica com um “Ciao, Federico, va dormire va”. Em 1973, ANNA MAGNANI morre com a idade de 65 anos, após uma longa batalha contra o câncer de pâncreas. Ao seu lado, seu filho Lucas e Roberto Rossellini. 

“Desconfiava daquele ar sombrio de rainha dos ciganos, dos longos olhares silenciosos, inquisitivos, das risadas roucas nos momentos mais inesperados. Parecia sempre ressentida, entediada, altiva. E, no entanto, era uma garotinha tímida que atrás do aspecto ameaçador, agressivo, escondia uma ingenuidade, um pudor selvagem, um entusiasmo travesso e o sentimento forte, repleto, de uma verdadeira mulher.”
Federico Fellini

la magnani e o oscar
Seu funeral em Roma, onde ela falece, um esmagador tributo à estrela, no qual personalidades e grandes multidões prestam homenagem à atriz e ao mundo que ela representa. Provoca uma enorme comoção, parando o país. Roma sai às ruas para acompanhar seu enterro e louvar a atriz que, afinal de contas, é o próprio símbolo de sua terra. Para ela foi dedicada uma cratera de 26 km de diâmetro no planeta Vênus. Antes, quando a bordo da nave Vostok 1, em abril de 1961, o cosmonauta soviético - o primeiro homem a viajar pelo espaço - Yuri Gagarin, ao fazer a rotação em volta da Terra, disse: “Saúdo a irmandade dos homens, o mundo das artes, e Anna Magnani.”


ANNA MAGNANI em DEZ FILMES
(por ordem de preferência)

01
MAMMA ROMA
(Idem,1962)

direção de Pier Paolo Pasolini
elenco: Ettore Garofolo e Franco Citti

02
ROMA, CIDADE ABERTA
(Roma Città Aperta, 1945)

direção de Roberto Rossellini
elenco: Aldo Fabrizi e Marcello Pagliero

03
O AMOR
(L'Amore, 1947)

direção de Roberto Rossellini
elenco: Federico Fellini

04
BELÍSSIMA
(Bellissima, 1951)

direção de Luchino Visconti
elenco: Walter Chiari e Tina Apicella

05
A CARRUAGEM de OURO
(Le Carrosse d'Or, 1952)

direção de Jean Renoir
elenco: Odoardo Spadaro

06
A FÚRIA da CARNE
(Wild Is the Wind, 1957)
 

direção de George Cukor
elenco: Anthony Quinn, Anthony Franciosa e Joseph Calleia

07
INFERNO na CIDADE
(Nella Città l'inferno, 1959)

direção de Renato Castellani
elenco: Giulietta Masina, Renato Salvatori e Saro Urzi

08
A ROSA TATUADA
(The Rose Tattoo, 1955)

direção de Daniel Mann
elenco: Burt Lancaster e Marisa Pavan

09
ANGELINA, a DEPUTADA
(L'onorevole Angelina, 1947)

direção de Luigi Zampa
elenco: Nando Bruno e Ave Ninchi

10
ANITA GARIBALDI
(Camicie Rosse, 1952)

direção de Goffredo Alessandrini e Francesco Rosi
elenco: Raf Vallone, Alain Cuny, Jacques Sernas
e Serge Reggiani

GALERIA de FOTOS

 
 

maio 01, 2016

************************* O MESTRE do SUSPENSE



 
O britânico Sir ALFRED HITCHCOCK (1899 - 1980. Londres / Reino Unido) dirigiu seu primeiro filme em 1925, um drama criminal intitulado “O Jardim dos Prazeres / The Pleasure Garden, nos estúdios UFA, na Alemanha. Consagrado como narrador de histórias de suspense, era fascinado por temas como troca de identidade, transferência de culpa, repressão sexual, obsessão e voyeurismo. Sua carreira se prolongou por cerca de 50 anos e fruto dela são clássicos como “Os 39 Degraus / Thirty Nine Steps” (1935) e “A Dama Oculta / The Lady Vanishes” (1938), rodados na Inglaterra, e “Janela Indiscreta” (1954) e “Psicose / Psycho” (1960), realizados em Hollywood. Ele é, possivelmente, o mais conhecido dos cineastas, cujo nome, por si só, resume um gênero cinematográfico. Possuidor de um estilo próprio, combinando criatividade e apurado domínio da narrativa, conduzia suas histórias com zelo, sem dar sinais de falta de imaginação. Casou-se com Alma Reville em 1926, permanecendo juntos o resto de sua vida. Alcançou fama internacional ainda na Inglaterra, com thrillers do porte de “O Homem Que Sabia Demais / The Man Who Knew Too Much” (1934). Em 1939 aceitou a proposta do produtor David O. Selznick (“...E o Vento Levou / Gone with the Wind”) para rodar cinco filmes em Hollywood por 800 mil dólares. O primeiro seria “Titanic, descartado e trocado por “Rebecca, a Mulher Inesquecível” (1940), resultando num estrondoso sucesso.

hitchcock e a esposa alma reville
Trabalhou com Selznick até 1947, entre empréstimos para alguns estúdios e muitos conflitos. Nestes primeiros anos hollywoodianos realizou o seu filme predileto, “A Sombra de Uma Dúvida / Shadow of a Doubt” (1943). Narra a história de um assassino sedutor que visita seus parentes numa pacata cidade, despertando a suspeita de uma sobrinha esperta. Como produtor independente nos anos 1950, ALFRED HITCHCOCK lançou obras-primas, sintetizando suas mais bem-sucedidas experiências cinematográficas.

Na época, sua popularidade atingiu o máximo, favorecida pelos elogios da crítica francesa (especialmente os redatores da revista “Cahiers du Cinema”) e as constantes aparições nas tevês de todo o mundo. Em 1955, iniciou com êxito a série televisiva de episódios de meia-hora “Alfred Hitchcock Apresenta”, enriquecendo com ela. No seu maior sucesso no cinema, “Psicose”, a cena do assassinato no chuveiro ainda hoje é imitada. Os últimos anos de sua carreira assinalam raros filmes e vários projetos não concluídos. HITCHCOCK nunca ganhou o Oscar, mesmo concorrendo cinco vezes: “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (1940), “Um Barco e Nove Destinos / Lifeboat” (1944), “Quando Fala o Coração / Spellbound” (1945), “Janela Indiscreta” (1954) e “Psicose” (1960). Em 1968 levou o Oscar especial pela trajetória nas telas.

Ao morrer, em 1980, estava prestes a iniciar “The Short Night”, inicialmente previsto para Catherine Deneuve e Walter Matthau, e por fim acordado com Liv Ullmann e Sean Connery. Celebrado como um dos maiores artesãos do cinema, incensado pela crítica e reconhecido como influência por vários diretores, ele marcou profundamente a cultura cinematográfica. Seus filmes não apenas sobrevivem intactos ao tempo, mas mantêm o interesse de espectadores das mais diversas idades e formações. A oportunidade de conhecer ou rever suas obras não deve ser perdida. 

  DEZ FILMES de HITCH
(por ordem de preferência)

01
PACTO SINISTRO
(Strangers on a Train, 1951)

Elenco: Farley Granger, Robert Walker e Ruth Roman. Num trem, um psicopata aborda um campeão de tênis, propondo uma troca de assassinatos.

02
Os PÁSSAROS
(The Birds, 1963)

Elenco: Rod Taylor, Tippi Hedren, Suzanne Pleshette e Jessica Tandy. Numa pequena cidade costeira, sem motivo aparente mulher é atacada por pássaros agressivos.

03
INTERLÚDIO
(Notorious, 1945)

Elenco: Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains e Louis Calhern. A filha de um espião tem como missão contatar com um antigo amigo de seu pai, cuja casa no Brasil serve de esconderijo a nazistas. Termina casando com ele, correndo perigo.

04
INTRIGA INTERNACIONAL
(North by Northwest, 1959)

Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint e James Mason. Um publicitário confundido com agente secreto passa a ser perseguido.

05
LADRÃO de CASACA
(To Catch a Thief, 1955)

Elenco: Cary Grant, Grace Kelly e Jessie Royce Landis. Na Riviera Francesa, ladrão de joias aposentado é acusado injustamente de uma nova onde de roubos.

06
SABOTADOR
(Saboteur, 1942)

Elenco: Priscilla Lane, Robert Cummings e Otto Kruger. Um mecânico de avião injustamente acusado de sabotagem se envolve numa rede de espionagem.

07
Um CORPO que CAI
(Vertigo, 1958)

Elenco: James Stewart, Kim Novak e Barbara Bel Geddes. Inspetor é encarregado por amigo de vigiar sua bela mulher cujo comportamento faz temer que se suicide.

08
DISQUE M para MATAR
(Dial M For Muder, 1954)

Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings. Um jogador de tênis sem dinheiro, temendo que sua esposa rica o abandone, planeja matá-la pela herança.

09
REBECCA, a MULHER INESQUECÍVEL
(Rebecca, 1940)

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders e Judith Anderson. Viúvo casa-se, mas a recordação da falecida inferniza a vida da nova esposa.

10
JANELA INDISCRETA
(Rear Window, 1954)

Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey e Thelma Ritter. Fotorepórter, ao quebrar a perna, bisbilhota a vida dos vizinhos, testemunhando um assassinato.

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