outubro 10, 2012

*********** OLIVIA e JOAN - IRMÃS & INIMIGAS



 
Raras irmãs alcançaram o estrelato no cinema. Lembro-me de Lillian e Dorothy Gish (anos 10 e 20); Norma e Constance Talmadge (anos 20); Constance e Joan Bennett (anos 30 e 40); Eva e Zsa Zsa Gabor (anos 50); Catherine Deneuve e Françoise Dorléac (anos 60); Vanessa e Lynn Redgrave (dos anos 60 em diante). Mais recentemente, Natasha e Joely Richardson; Patricia e Rosana Arquette; Jennifer e Meg Tilly. No entanto, as mais famosas irmãs estrelas de cinema de todos os tempos são OLIVIA DE HAVILLAND (1916. Tóquio / Japão) e JOAN FONTAINE (191. Tóquio / Japão). Irmãs e inimigas mortais. Para entender essa rivalidade, li o bem documentado “Sisters: The Story of Olivia de Havilland e Joan Fontaine” (1984), de Charles Higham. Nunca apreciei nenhuma delas, embora saiba que são excelentes atrizes. De Havilland, em contraste com sua imagem pública comportada e boazinha, sempre teve um temperamento inflexível e brigão. Fontaine, insossa e sofisticada, em cena parece estar repetindo o mesmo personagem: a vítima apaixonada, frágil e desorientada.


Elas sempre tiveram uma relação difícil, começando na infância, quando Olivia teria rasgado uma roupa de Joan, forçando-a a costurá-la novamente. A rivalidade e o ressentimento resultam também da percepção de Joan em relação ao fato de Olivia ser a filha favorita da mãe delas, a atriz Lillian Augusta Ruse. JOAN FONTAINE, certa vez, declarou: “Lamento, mas não me lembro de um ato de bondade de minha irmã durante toda a minha infância. Em 1933, quando ela tinha 17 anos, jogou-me na laje da piscina e pulou em cima de mim, fraturando a minha clavícula”. Segundo o biógrafo Higham, OLIVIA DE HAVILLAND nunca conseguiu dividir a atenção maternal com a irmã, além disso ela se via como a mais bonita e a mais talentosa, chegando a fazer um testamento, em uma de suas brincadeiras de criança, deixando a sua beleza para a sua irmã, “que nada possui”. Nos estudos, no entanto, Joan se destacava.


Ambas vencedoras do Oscar, com estrelas na Calçada da Fama de Hollywood e aclamadas por seus papéis em filmes maravilhosos dos anos 30, 40 e 50, OLIVIA DE HAVILLAND foi a primeira a se tornar atriz, estreando na comédia “Esfarrapando Desculpas / Alibi Ike” (1935). Enquanto sua carreira decolava, através de clássicos de aventuras ao lado de Errol Flynn (com quem fez oito filmes), como “Capitão Blood / Captain Blood” (1935), “A Carga da Brigada Ligeira / The Charge of the Light Brigade” (1936) e “As Aventuras de Robin Hood / The Adventures of Robin Hood (1938), Joan desenvolvia um “complexo de Cinderela” e se via como coitadinha. Para piorar as coisas, sua mãe exigiu que mudasse seu sobrenome para Fontaine, evitando uma possível associação com Olivia, e proibiu-a de aceitar um interessante contrato com a Warner Bros., “porque é o estúdio de sua irmã”A sorte de JOAN FONTAINE mudou numa festa na casa de Charlie Chaplin, onde jantava sentada ao lado do produtor David O. Selznick, que terminou a convidando para um teste para “Rebecca, a Mulher Inesquecível”. Disputando com Vivien Leigh, entre outras, ela saiu vitoriosa, mudando os rumos da carreira marcada por papéis pequenos em clássicos como Rua de Gualidade/ Quality Street(1937), As Mulheres / The Women (1939) e Gunda Dim / Idem (1939). 


Em 1942, elas foram nomeadas para o Oscar de Melhor Atriz. Joan indicada pela atuação em “Suspeita”, de Alfred Hitchcock, e Olivia por “A Porta de Ouro / Hold Back the Dawn”, do elegante Mitchell Leisen. Joan acabou levando a estatueta. O biógrafo Charles Higham descreveu os eventos da cerimônia de premiação, afirmando que Joan avançou empolgada para receber seu prêmio, rejeitando as tentativas da irmã cumprimentá-la. Olivia acabou se ofendendo com essa atitude. Depois, Joan declararia: “Quando foi anunciado o meu nome como vitoriosa, percebi que Olivia teve vontade de dar um salto e me agarrar pelos cabelos”. Anos mais tarde, em 1947, seria a vez de Olivia ganhar o Oscar, pela atuação no melodrama “Só Resta uma lágrima”. O prêmio era para ser dado por Joan Crawford, mas a Academia, talvez acreditando que não poderia haver melhor cenário para a reconciliação das irmãs, substituiu-a em cima da hora por Joan. Esta, chamou a irmã para subir ao pódio. Mas quem esperou um abraço fraternal de reconciliação, enganou-se, Olivia se recusou a apertar a mão da irmã, numa comentada saia-justa. Segundo o biógrafo, na ocasião Joan fez um comentário leviano sobre o então marido de Olivia, ofendendo-a. Ela evitou os cumprimentos por este motivo.


Elas muitas vezes disputaram os mesmos homens e papéis. JOAN FONTAINE foi a primeira a se casar – com o popular astro do cinema britânico Brian Aherne -, gerando novo atrito entre elas. Na festa de casamento, o namorado de OLIVIA DE HAVILLAND – o bilionário Howard Hughes - dançou com a noiva e tentou seduzi-la, procurando convencê-la a desistir do casamento e se casar com ele. Olivia se chocou, culpando a irmã pela situação humilhante. No caso de “... E o Vento Levou”, Joan foi considerada muito chique para o personagem e Olivia ganhou o papel da doce e simplória Melanie Hamilton, mas na disputa pelo cobiçado papel da versão de Alfred Hitchcock para o romance de Daphne du Maurier, “Rebecca”, Joan se saiu vitoriosa.


A relação entre as irmãs continuou a deteriorar-se após os incidentes na cerimônia do Oscar. Em 1975, aconteceria algo que faria com que elas deixassem de se falar definitivamente: segundo Joan, Olivia não a convidou para um ritual religioso em homenagem a mãe delas recentemente falecida. Mais tarde, Olivia afirmou que tentou comunicar Joan, mas ela se encontrava muito ocupada para atendê-la. Charles Higham também diz que Joan tem uma convivência distante com suas próprias filhas, talvez porque tenha descoberto que elas sempre mantiveram uma amizade secreta com a tia Olivia. Ainda hoje as irmãs se recusam a falar publicamente sobre sua delicada situação, apesar de JOAN FONTAINE ter comentado em entrevista que muitos boatos a respeito delas surgiram dos “cães de publicidade” do estúdio.


Ocasionalmente, uma rara trégua acontece entre elas. Em 1961, passaram o Natal juntas no apartamento de Joan, em Nova York, mas a noite terminou em briga. Oito anos depois, Joan recebeu um pedido de ajuda de OLIVIA DE HAVILLAND, então adoentada e em dificuldades financeiras. “Deixei um gordo cheque”, lembra Joan. Mas os ressentimentos e a mesquinha antipatia continuaram. Quando a mãe morreu de câncer, deixou sua herança para os filhos de Olivia e nada para as filhas (uma delas, adotiva) de Joan. Vingativa, Joan lançou em 1978 a autobiografia “No Bed of Roses” (Nenhum Mar de Rosas), que segundo um dos seus ex-maridos – William Dozier – não contém nenhuma verdade, fazendo um retrato cruel da irmã, inclusive descrevendo-a como venenosa. No 50 º aniversário do Oscar, em 1979, Olivia e Joan tiveram que ser colocadas em extremidades opostas no palco, evitando um bate-boca público. Nos bastidores, nem se cumprimentaram. Dez anos mais tarde, na mesma cerimônia, haviam reservado para elas quartos vizinhos em um hotel, mas Joan exigiu mudança imediata. Quando o presidente Nicolas Sarkozy conferiu o prêmio de maior prestígio da França, a “Légion d'Honneur”, para Olivia, Joan ignorou o evento.


Curiosamente, JOAN FONTAINE e OLIVIA DE HAVILLAND são umas das poucas atrizes da era de ouro de Hollywood que ainda estão vivas. Já perto dos 100 anos de idade, ricas, lúcidas  e bem de saúde, podemos dizer que passaram a vida toda como ferrenhas inimigas. Elas não trocam uma palavra há décadas e parece pouco provável que voltem a se encontrar ou falar novamente. Tornou-se a mais amarga e longa rivalidade de Hollywood, uma fonte de sofrimento para seus familiares e de constrangimento para os seus amigos e colegas. Joan, quatro vezes casada e divorciada, mora com seus cinco cachorros numa mansão na Califórnia. Olivia, duas vezes divorciada, vive em Paris. Numa entrevista recente, perguntaram a Joan se elas ainda se reconciliariam, e ela respondeu honestamente: “Melhor não”, continuando: “Minha irmã Olivia é uma mulher muito peculiar. Quando éramos jovens, eu não tinha permissão para conversar com seus amigos. Agora, eu não estou autorizada a falar com seus filhos e eles são proibidos de me ver. Essa é a natureza dessa mulher. Já me acostumei e atualmente já não me incomoda”.


MELHORES ATUAÇÕES de OLIVIA
(por ordem de preferência)

01
Na COVA das SERPENTES
(The Snake Pit, 1949)
direção de Anatole Litvak
elenco: Mark Stevens, Leo Genn e Celeste Holm

Melhor Atriz do National Board o Review
Melhor Atriz da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York
Taça Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza

02
TARDE DEMAIS
(The Heiress, 1949)
direção de William Wyler
elenco: Montgomery Clift, Ralph Richardson e Miriam Hopkins

Oscar de Melhor Atriz
Globo de Ouro de Melhor Atriz-Drama
Melhor Atriz da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York

03
...E o VENTO LEVOU
(Gone With the Wind, 1939)
direção de Victor Fleming
elenco: Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard,
Thomas Mitchell e Hattie McDaniel

04
SÓ RESTA uma LÁGRIMA
(To Each His Own, 1946)
direção de Mitchell Leisen
elenco: John Lund

Oscar de Melhor Atriz

05
ESPELHOS D’ALMA
(The Dark Mirror, 1946)
direção de Robert Siodmak
elenco: Lew Ayres e Thomas Mitchell


MELHORES ATUAÇÕES de JOAN
(por ordem de preferência)

01
REBECCA, a MULHER INESQUECÍVEL
(Rebecca, 1940)
direção de Alfred Hitchcock
elenco: Laurence Olivier, George Sanders e Judith Anderson

02
CARTA de uma DESCONHECIDA
(Letter from an Unknown Woman, 1948)
direção de Max Ophuls
elenco: Louis Jourdan

03
SUSPEITA
(Suspicion, 1941)
direção de Alfred Hitchcock
elenco: Cary Grant e Sir Cedric Hardwicke

Oscar de Melhor Atriz
Melhor Atriz da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York

04
ALMA sem PUDOR
(Born to be Bad, 1950)
direção de Nicholas Ray
elenco: Robert Ryan, Zachary Scott, Joan Leslie
e Mel Ferrer

05
Na VORAGEM do VÍCIO
(Something to Live For, 1952)
direção de George Stevens
elenco: Ray Milland e Teresa Wright
 
GALERIA de FOTOS
 
 
 

outubro 07, 2012

***** VOCAÇÃO RELIGIOSA: a BATINA no CINEMA

max von sydow em “o exorcista”

 
A figura do padre tem sido bem tratada pela Sétima Arte ao longo de sua história, apesar da diferença de estilos e temas desenvolvidos por realizadores de várias partes do mundo. O olhar tem sido muito plural, mas de uma forma geral são filmes que têm apresentado com seriedade e sensibilidade aos sacerdotes, discutindo celibato, fé, segredos de confissão, atividades religiosas, tentações carnais, pedofilia, política e causas humanitárias. Hoje, talvez, existem menos obras cinematográficas dando destaque a figura do padre. No entanto, nota-se a preocupação dos diretores de evidenciar um olhar mais profundo sobre o mistério e o ministério do sacerdote.

No cinema clássico, temos muitos exemplos de ASTROS de BATINA. Nem todos convencem. Mas dois deles, como reverendos, levaram o Oscar: Spencer Tracy em “Com os Braços Abertos” (1938) e Bing Crosby em “O Bom Pastor” (1944). O sucesso de Crosby foi tão grande que no ano seguinte ele repetiria o papel em “Os Sinos de Santa Maria / The Bells of Saint Mary” (1945), ao lado de Ingrid Bergman. O que você pensa sobre filmes com padres como protagonistas? A origem deste post veio de “As Chaves do Reino”, drama com carismática atuação de Gregory Peck como um clérigo que dirige uma missão religiosa na China, enfrentando uma série de problemas. Maravilhado, preparei esta lista com dezoito atores que interpretaram padres no cinema.

ALDO FABRIZI
Don Pietro Pellegrini em
ROMA, CIDADE ABERTA
(Roma, Città Aperta, 1945)
direção de Roberto Rossellini


BING CROSBY
Padre Chuck O’Malley em
O BOM PASTOR
(Going My Way, 1944)
direção de Leo McCarey


CLAUDE LAYDOU
Padre de Ambricourt em
O DIÁRIO de um PADRE
(Journal d’un Curé de Campagne, 1951)
direção de Robert Bresson


FRANK SINATRA
Padre Paul em
O MILAGRE dos SINOS
(The Miracle of the Bells, 1948)
direção de Irving Picel


GREGORY PECK
Padre Francis Chisholm em
As CHAVES do REINO
(The Keys of the Kingdom, 1944)
direção de John M. Stahl


HENRY FONDA
O Fugitivo em
DOMÍNIO de BÁRBAROS
(The Fugitive, 1947)
direção de John Ford


JEAN-PAUL BELMONDO
Padre Léon Morin em
LÉON MORIN, PADRE
(Léon Morin, Prêtre, 1961)
direção de Jean-Pierre Melville


JOHN MILLS
Padre Michael Keogh em
A HISTÓRIA de um HOMEM MAU
(The Singer Not the Song, 1961)
direção de Roy Ward Baker


MAX VON SYDOW
Padre Merrin em
O EXORCISTA
(The Exorcist, 1973)
direção de William Friedkin


MONTGOMERY CLIFT
Padre Michael Logan em
A TORTURA do SILÊNCIO
(I Confess, 1953)
direção de Alfred Hitchcock


OLIVER REED
Urbain Grandier em
Os DEMÔNIOS
(The Devils, 1971)
direção de Ken Russell


OMAR SHARIF
Padre Francisco em
A VOZ do SANGUE
(Behold a Pale Horse, 1964)
direção de Fred Zinnemann


PAT O’BRIEN
Padre Jerry Connolly em
ANJOS da CARA SUJA
(Angels with Dirty Faces, 1938)
direção de Michael Curtiz


PAULO JOSÉ
O Padre em
O PADRE e a MOÇA
(1966)
direção de Joaquin Pedro de Andrade


RICHARD BURTON
Reverendo Dr. T. Lawrence Shannon em
A NOITE do IGUANA
(The Night of the Iguana, 1964)
direção de John Huston


ROBERT DE NIRO
Padre Des Spellacy em
CONFISSÕES VERDADEIRAS
(True Confessions, 1981)
direção de Ulu Grosbard


SPENCER TRACY
Padre Flanagan em
COM os BRAÇOS ABERTOS
(Boys Town, 1938)
direção de Norman Taurog


TREVOR HOWARD
Padre Rollins em
A FILHA de RYAN
(Ryan’s Daughter, 1970)
direção de David Lean


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VOCAÇÃO RELIGIOSA: FREIRAS no CINEMA