dezembro 08, 2010

************************ADEUS, CARO MONICELLI

 



O lúcido e irônico cineasta MARIO MONICELLI (1915 - 2010. Viareggio / Itália) considerado um dos mestres da comédia à italiana, morreu no mês passado aos 95 anos. Ele suicidou-se saltando da janela do quarto andar do hospital San Giovanni, em Roma, onde estava internado devido a um câncer de próstata em fase terminal. Com uma carreira prolífica e extremamente irreverente, não é de se espantar que saia de cena desta maneira, surpreendendo a todos de forma trágica e com uma atitude totalmente inusitada. Filho de um crítico teatral e jornalista, comunista ferrenho, até o final de 1940 colaborou em cerca de 40 filmes, às vezes como roteirista, outras como diretor-assistente. O começo oficialmente registrado de seu trabalho ocorre em 1949, em parceria com Steno, em “Totó Procura Casa / Totó Cerca Casa”, já começando a imprimir seu particular estilo narrativo, simples, mas eficaz e funcional.  
 
Em 1953, inicia a carreira solo, que seria marcada por vários êxitos. O primeiro deles é considerado a semente da tradicional “commedia all'italiana”, um gênero que floresceria nas duas décadas seguintes: “Os Eternos Desconhecidos / I Soliti Ignoti” (1958). Em 1959, lança outra obra-prima, A Grande Guerra / La Grande Guerra, ganhando o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, e rendendo sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A segunda viria em 1963, com Os Companheiros / I Compagni”. MARIO MONICELLI também produziu para o teatro e a televisão, mas ficou conhecido principalmente pelos 65 filmes. Sempre crítico, tinha o raro dom de fazer um cinema com conteúdo que diverte. Era o humor negro levado ao excesso, ao limite da ironia e do escárnio. Em contrapartida, podia ser terno, doce e melancólico, sempre com um olhar compreensivo em relação aos personagens ridículos e patéticos. 





dezembro 07, 2010

************ LA MOVIDA: LUZ, CÂMERA... ¡ACCIÓN!

antonio banderas e carmen maura em a lei do desejo

 
 
Os céus de Madri que enfeitiçaram Goya e Velázquez também são uma dádiva para cineastas. Muitos deles mostraram sua arquitetura e contrastes em várias obras-primas. Entretanto, a força criativa do cinema madrileno foi especialmente intensa durante a MOVIDA, a liberação cultural e sexual embalada pelas drogas que seguiu a transição democrática dos anos 1970 e início dos 80. A palavra movida significa agitação, mas é também uma gíria para “tráfico de drogas”, “avião”. Essa rebelião boêmia da classe média contra a organização social que vigorava até recentemente, assumiu uma postura nacionalista e assimilou valores tradicionais espanhóis sob excêntrica roupagem. Talvez o centro das manifestações cinematográficas da Movida tenha sido o Cine Alphaville, que mudou de nome, recentemente, para Golem. Este cinema ainda na ativa, inaugurado em 1977 (quando a transição pacífica para a democracia e a liberdade estava assegurada), incluía nas primeiras sessões ícones underground e as mais transgressoras obras espanholas da época, como “Arrebato / Idem” (1980), de Iván Zulueta, uma colagem febril de clichês de horror, vistos pela perspectiva paranóica do protagonista. 

O antigo Alphaville continua exibindo filmes engajados, ostentando o impressionante recorde de dez anos de sessões noturnas de “Labirinto de Paixões / Laberinto de Pasiones” (1982), co-produzido pelo próprio cinema. Esse filme de Pedro Almodóvar é uma farsa absurda e melodramática que tem como personagens uma ninfomaníaca chamada Sexilia (Cecilia Roth), um terrorista muçulmano gay, Sadec (Antonio Banderas), e o filho do ditador do fictício país Tiran, Riza Niro (Imanol Arias). Além de Almodóvar, Fernando Trueba, Fernando Colomo, Manuel Iborra e o já citado Zulueta foram cineastas emblemáticos da época. Assim como nos filmes urbanos, a Movida foi documentada na revista “La Luna”, na música alternativa (Alaska y los Pegamoides, Los Zombies, Parálisis Permanente, Nacha Pop, Los Secretos, Ejecutivos Agresivos, Gabinete Caligari, Los Zombies etc.), nas fotografias de Alberto García-Alix e Gorka de Duo, na pintura de El Hortelano e Miguel Trillo, na moda fashion de Ágatha Ruiz de la Prada, no graffite de Juan Carlos Argüello «Muelle», na literatura da Tertulia de Creadores e em programas de TV apresentados pela atriz Carmen Maura e Paloma Chamorro. 

Carmen, a primeira musa de Almodóvar, atuou junto à cantora punk Alaska em “Pepa, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão / Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón” (1980), um melodrama escatológico sobre a solidariedade feminina. Pepi (Maura) e Bom (Alaska) tentam libertar a masoquista Luci (Eva Siva) de seu casamento com um policial que a respeita demais para bater nela. Luci torna-se groupie de uma banda punk, o que desencadeia os ciúmes do marido, que passa a surrá-la inconscientemente, conduzindo a um final feliz. Boa parte das cenas foram filmadas na lendária boate Rock-Ola (um local escuro, extravagante e encardido, abarrotado de glams, punks e roqueiros). Os abusos de drogas e a Aids terminaram por degradar o clima despreocupado da Movida. As drogas haviam sido o principal estímulo para o modo de vida desses artistas irreverentes (em “Que Fiz Eu Para Merecer Isto? / ¿Qué he Hecho YO para Merecer Esto!! (1984), o filho traficante de Gloria/Carmen Maura, dona-de-casa que cheira cola, aconselha a mãe a não se envolver com drogas mais pesadas). Infelizmente, a boate Rock-Ola, um dos pontos de encontro da época, tornou-se um supermercado. Outros ícones também se foram, como a discoteca Carolina, que se tornou uma loja de roupas. Apesar disso, o Alphaville (agora, Golem) e os clubes El Penta, La Vía Láctea e El Sol resistem. 

Chueca, onde Almodóvar filmou “A Lei do Desejo / La Ley del Deseo” (1987), hoje é o bairro da moda conhecido como o Soho de Madri. A MOVIDA MADRILENA, um fenômeno único, hoje definitivamente morto, em definitivo, representou uma época criativa de liberação, rebeldia e diversão de uma geração que estava despertando. Época em que os jovens espanhóis se viram livres da ditadura de Franco e descobriram as drogas, a boêmia, o sexo livre e a chamada contracultura.

fábio mcNamara e pedro almodóvar

************* SALA VIP: "A NOITE AMERICANA"




Um PROBLEMA de AMOR

Com A NOITE AMERICANA (La Nuit Américaine – França/ Itália, 1973), François Truffaut nos relembra, pelo menos, duas coisas. A primeira é que, provavelmente, nenhum cineasta transpareceu tanto amor pelo cinema como ele. Já a segunda é a – nada nova – certeza de que um autor pode fazer o mesmo filme várias vezes sem soar repetitivo. Temos aqui boa parte dos percalços que podem acontecer em uma filmagem, influenciada por seres animados e inanimados, racionais e irracionais. A tendência é o completo caos, só que Truffaut encara a tendência ao caos em A NOITE AMERICANA da mesma maneira que ele aborda as relações humanas. Com a sempre presente dose de melancolia, humor e carinho, ele volta a se mostrar não somente um apaixonado pelas mulheres, mas também um cuidadoso observador dos relacionamentos de seus personagens. O adendo é que o protagonista não é seu alter-ego Antoine Doinel (embora Jean-Pierre Léaud traga semelhanças), mas sim sua eterna amante: o cinema.

Quando Alphonse (Léaud) frisa à namorada que “existem 37 cinemas na cidade e você está pensando em comer?”, quando o diretor Ferrrand (interpretado pelo próprio Truffaut) diz “o cinema reina”, pode-se falar em romantização. Mas ela, potencializada pelo humor, não atrapalha. Por outro lado, se sabor agridoce, muitas vezes com maior tendência amarga, mais de uma vez acomete os personagens (como costuma acontecer nos filmes de Truffaut sobre “eles”), o cinema passa também por obstáculos semelhantes. A diferença é que “os filmes são mais harmoniosos que a vida”, o que Truffaut nos leva à crer não somente através da palavra, mas pela câmera, de quem cuidava tão bem. A regra de que, muitos defendem, a centelha do prazer só existe no início de carreira, não valia para Truffaut. Obras-primas como “Os Incompreendidos (1959) e Jules e Jim (1962), por exemplo, de nada adiantaram. Em A NOITE AMERICANA, como em toda a sua carreira, ele se mostrou um apaixonado pela vida, um dependente do cinema.

Texto de LEANDRO AFONSO GUIMARÃES

jean-pierre aumont e valentina cortese

A NOITE AMERICANA
LA NUIT AMÉRICAINE
(1973)

País: França e Itália
Gênero: Comédia
Duração: 115 mins.
Cor
Produção: Marcel Berbert (Les Fils Du Carrosse/PIC)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard
e Suzanne Schiffman
Fotografia: Pierre-William Glenn
Edição: Yann Dedet e Martine Barraqué
Música: Georges Delerue
Cenografia: Damien Lanfranchi (d.a.)
Vestuário: Monique Dury
Elenco
Jacqueline Bisset (“Julie Baker”), Valentina Cortese (“Séverine”),
Dani (“Liliane”), Alexandra Stewart (“Stacey”),
Jean-Pierre Aumont (“Alexandre”), Jean Champion (“Bertrand”),
Jean-Pierre Léaud (“Alphonse”), François Truffaut (“Ferrand”),
Nathalie Baye (“Joelle”) e David Markham (“Dr. Nelson”)

Nota: ***** (ótimo)

Prêmios
Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira;
BAFTA de Melhor Filme, Melhor Direção
e Melhor Atriz Coadjuvante (Cortese);
Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz Coadjuvante (Cortese)
da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos EUA;
Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz Coadjuvante (Cortese)
do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York;
Melhor Filme do Sindicato Francês dos Críticos de Cinema.