dezembro 07, 2010

*********** SALA VIP: "A NOITE AMERICANA"



UM PROBLEMA DE AMOR

Com A NOITE AMERICANA (La Nuit Américaine – França/ Itália, 1973), François Truffaut nos relembra, pelo menos, duas coisas. A primeira é que, provavelmente, nenhum cineasta transpareceu tanto amor pelo cinema como ele. Já a segunda é a – nada nova – certeza de que um autor pode fazer o mesmo filme várias vezes sem soar repetitivo.

Temos aqui boa parte dos percalços que podem acontecer em uma filmagem, influenciada por seres animados e inanimados, racionais e irracionais. A tendência é o completo caos, só que Truffaut encara a tendência ao caos em A NOITE AMERICANA da mesma maneira que ele aborda as relações humanas. Com a sempre presente dose de melancolia, humor e carinho, ele volta a se mostrar não somente um apaixonado pelas mulheres, mas também um cuidadoso observador dos relacionamentos de seus personagens. O adendo é que o protagonista daqui não é seu alter-ego Antoine Doinel (embora Jean-Pierre Léaud sempre traga semelhanças), mas sim sua eterna amante: o cinema.

Quando Alphonse (Léaud) frisa à namorada que “existem 37 cinemas na cidade e você está pensando em comer?”, quando o diretor Ferrrand (interpretado pelo próprio Truffaut) diz “o cinema reina”, pode-se falar em romantização. Mas ela, potencializada pelo humor, não atrapalha. Por outro lado, se sabor agridoce, muitas vezes com maior tendência amarga, mais de uma vez acomete os personagens (como costuma acontecer nos filmes de Truffaut sobre “eles”), o cinema passa também por obstáculos semelhantes. A diferença é que “os filmes são mais harmoniosos que a vida”, o que Truffaut nos leva à crer não somente através da palavra, mas pela câmera, de quem cuidava tão bem.

A regra de que, muitos defendem, a centelha do prazer só existe no primeiro filme ou no início de carreira, não valia para Truffaut. Obras-primas como “Os Incompreendidos (1959) e Jules e Jim (1962), por exemplo, de nada adiantaram. Em A NOITE AMERICANA, como em toda a sua carreira, ele se mostrou um apaixonado pela vida, um dependente do cinema.

Texto de LEANDRO AFONSO GUIMARÃES

jean-pierre aumont e valentina cortese em "a noite americana"

A NOITE AMERICANA
LA NUIT AMÉRICAINE
(1973)

País: França e Itália
Gênero: Comédia
Duração: 115 mins.
Cor
Produção: Marcel Berbert (Les Fils Du Carrosse/PIC)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard
e Suzanne Schiffman
Fotografia: Pierre-William Glenn
Edição: Yann Dedet e Martine Barraqué
Música: Georges Delerue
Cenografia: Damien Lanfranchi (d.a.)
Vestuário: Monique Dury
Elenco:
Jacqueline Bisset (“Julie Baker”), Valentina Cortese (“Séverine”),
Dani (“Liliane”), Alexandra Stewart (“Stacey”),
Jean-Pierre Aumont (“Alexandre”), Jean Champion (“Bertrand”),
Jean-Pierre Léaud (“Alphonse”), François Truffaut (“Ferrand”),
Nathalie Baye (“Joelle”) e David Markham (“Dr. Nelson”)

Nota: ***** (ótimo)

Prêmios:
Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira;
BAFTA de Melhor Filme, Melhor Direção
e Melhor Atriz Coadjuvante (Cortese);
Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz Coadjuvante (Cortese)
da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos EUA;
Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz Coadjuvante (Cortese)
do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York;
Melhor Filme do Sindicato Francês dos Críticos de Cinema.

8 comentários:

Octavio Caruso disse...

Maravilhoso!!! Truffaut é um dos meus diretores favoritos, um grande ídolo. A trinca perfeita: "Noite americana", Jules e Jim e Incompreendidos. Filmes pra se levar para uma ilha deserta...

Marcelo C,M disse...

Vi esse filme a pouco tempo atraz e é um dos melhores de François Truffaut (só perde para Os Incompreendidos).

E pensar que eu conheci esse diretor atuando em Contatos Imediatos de 3ºGrau

annastesia disse...

O meu favorito de Truffaut. E eu adoro a cara de maluco de Jean-Pierre Léaud.

Jamil J. Landim disse...

Nunca fui fã de Truffaut. Sei que tem gente que adora os filmes dele, mas, particularmente, acho que o cara vinha rolando ladeira abaixo desde “Jules e Jim”. Só o amei de verdade quando ele fez “O Último Metrô”. Foi um deslumbramento. É uma obra-prima de invenção, inclusive técnica. Um hino ao teatro. Mas é um Truffaut que não parece Truffaut. Já “A Noite Americana” me parece datado, muito anos 1970. Vale por Valentina Cortese e Jean-Pierre Aumont.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Você está sendo radical, Jamil. Esqueceu de "A História de Adele H.", "A Noiva Estava de Preto", "Um Só Pecado"? São belos filmes.

Nilton Carlos disse...

Agora, de valer: penso que um dos melhores faroestes que vi foi O homem que matou o facínora. Se a memória não me falha, de John Ford. É um gênero que gosto muito, desde a minha muita antiga infância. Mas aproveito para lhe parabenizar pelo seu trabalho. E lhe desejar um Natal perfeito. Com um abraço afetuoso, Nilton Lavigne.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também gosto de western, Nilton. Era o gênero favorito de meu falecido pai. Eu, criança, costumava assistir na tevê com ele os grandes westerns. Ah, O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA é realmente de John Ford. Fantástico!

Márcio Sallem disse...

Machucou ler o comentário falando que o François Truffaut ia de ladeira abaixo. Acho que vou recomendá-lo o meu especial rs.

Este, para mim, é o seu melhor filme, comunhão perfeita de sentimento e técnica, contando dois filmes em um só de maneira eficiente a partir da própria natureza dos seus intérpretes.