junho 05, 2011

****************** SALA VIP: “INFÂMIA"


audrey hepburn e shirley macLaine 
TODO MUNDO ESTÁ FALANDO

Em uma escola particular, uma aluna chateada (Karen Balkin), inventa para a sua avó (Fay Bainter) que duas professoras (Audrey Hepburn e Shirley MacLaine) mantêm um relacionamento amoroso. A partir daí a rotina das acusadas muda drasticamente. O namorado de uma delas (James Garner) lhe dá apoio, mas aos poucos ele vai demonstrando insegurança, devido ao grande escândalo. A menina é neurótica, problemática, o que poderia fazer com que ela tenha inventado essa história, mas os fatos posteriores mostram que ela não está completamente errada.

O excelente diretor William Wyler refilma uma obra dele próprio, de 1936, baseada na peça da escritora norte-americana Lillian Helman. É um texto forte, maduro, bem avançado para a época, com toques psicológicos, tratando de um assunto que até então era raro nos cinemas no início dos anos 60: o homossexualismo. INFÂMIA é daqueles filmes que, se caísse em mãos de um diretor qualquer, resultaria em algo frio, esquemático, sem grande profundidade dramática. Mas Wyler não é um diretor qualquer, e sim um dos maiores gênios do cinema, que sabe conduzir como ninguém grandes atores em uma grande história, sem nunca se perder. Quando situamos esse filme em seu ano de produção (1961), percebemos que é uma obra que está além de seu tempo, porque diferentemente de alguns filmes da época que apenas contêm algumas conotações homossexuais, INFÂMIA apresenta uma gama de situações e conseqüências relacionadas diretamente ao homossexualismo. Para o expectador mais atento, ele verá de antemão que uma das professoras acusadas, Martha Dobie (MacLaine), apresenta uma atração no mínimo estranha, pela sua colega de profissão, ainda que nunca demonstre uma maior aproximação. A menina que cria toda a polêmica, é manipuladora e obsessiva, mas consegue tornar crível toda a situação, fazendo com que sua avó em certo momento diga para as acusadas: “Uma criança jamais inventaria tais coisas”. O que Wyler quer de fato mostrar não é se a menina está ou não inventando tudo, mas fazer um painel sobre duas vidas destruídas por algo que elas não vivem, afinal de contas, uma delas (Hepburn) está de casamento marcado. As acusadas se isolam no agora abandonado lugar de trabalho, e ali são alvos do desprezo das pessoas daquela cidade.

lillian hellman
O que Wyler não pôde fazer na primeira versão (lembrando que nos anos 30 vigorava o Código Hays, que censurava obras com teor homossexual, entre outros), ele conseguiu fazer em sua versão de 61, indo mais a fundo no texto de Lillian Hellman (que já foi casada com o famoso escritor Dashiell Hammett, autor de obras como “O Falcão Maltês” e “A Ceia dos Acusados”, que viraram filmes de grande sucesso) apoiado em duas extraordinárias atrizes nos papéis principais. Lembrando que, Audrey Hepburn em seu primeiro grande filme em papel principal: “A Princesa e o Plebeu”, foi dirigida por Wyler. Esse conto de fadas metropolitano deu o Oscar para Hepburn e lhe abriu as portas para uma das carreiras mais brilhantes em Hollywood, em filmes como “Sabrina”, “Cinderela em Paris”, “Uma Cruz à Beira do Abismo”, “Bonequinha de Luxo”, “Charada” e “Minha Bela Dama/My Fair Lady”, entre outros. Shirley MacLaine também teve uma bela carreira, começando em um filme de Alfred Hitchcock: “O Terceiro Tiro”, fazendo posteriormente entre outros, os aclamados “Deus Sabe Quanto Amei”, “Se Meu Apartamento Falasse”, “Irma La Douce”, “Muito Além do Jardim” e “Laços de Ternura” (de 1983, que lhe deu o Oscar de Melhor Atriz). James Garner, muito jovem, faz o namorado de Hepburn, e Fay Bainter que interpreta a avó da menina, ganhou um Oscar de melhor atriz por “Jezebel” (1938), dirigido por Wyler.

audrey e shirley
William Wyler foi um diretor de carreira brilhante, muito requisitado por produtores e atores, todos queriam trabalhar com ele, porque sabiam que seus filmes eram sinônimos de qualidade. Foi ele quem ajudou a tornar Bette Davis uma das maiores estrelas do cinema, com filmes como “Jezebel” e “A Carta”. Em 1942, dirigiu o premiado “Rosa de Esperança”; em 1946 faria “Os Melhores Anos de Nossas Vidas” que lhe deu seu segundo Oscar de direção, mas ainda foi premiado mais uma vez nessa categoria, pelo épico “Ben-Hur” (1959, primeiro filme a levar 11 estatuetas da Academia). Wyler dirigiu em 1939 a melhor versão de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Em INFÂMIA, podemos perceber que o isolamento das duas professoras acusadas, e o preconceito que elas vivem, se assemelha bastante com a situação vividas pela mãe e irmã do personagem principal em “Ben-Hur”, no qual estando com lepra, se isolam no vale dos leprosos, em uma das seqüências mais emocionantes da história do cinema. INFÂMIA é um filme no qual não há saída fácil, não procura solucionar os problemas, deixando que as duas personagens vão em busca de explicações do qual não há respostas, culminando em um final trágico. Indicado aos Oscars de atriz coadjuvante (Bainter), Direção de Arte, Figurino, Fotografia e Som. Imperdível para quem busca um filme denso e atemporal.

Texto de KLEY

INFÂMIA
THESE THREE
(1962)

País: EUA
Gênero: GLS/Drama
Duração: 107 mins.
P & B
Produção e Direção: William Wyler (United Artists)
Roteiro: John Michael Hayes
Adaptação da peça de Lillian Hellmann
Fotografia: Franz F. Planer
Edição: Robert Swink
Música: Alex North
Cenografia: Fernando Carrere (d.a.)
Vestuário: Dorothy Jeakins
Elenco: Audrey Hepburn (“Karen”), Shirley MacLaine (“Martha”),
James Garner (“Dr. Cardin”), Miriam Hopkins (“(“Lily Mortar”),
Fay Bainter (“(“Amelia Tilford”), Karen Balkin
e Veronica Cartwright

Nota: **** (muito bom)


-----------------------------------------

CONFIDENCIAL

BIOGRAFIAS REVELADORAS


Li recentemente biografias sobre dois mitos de Hollywood de Hollywood que passam a limpo (ou a sujo) suas vidas com o mesmo mote: o sexo. Tanto “Boulevard of Broken Dreams”, de Paul Alexander, quanto “Grace”, de Robert Lacey, são relatos minuciosos da vida sexual de James Dean e Grace Kelly. A biografia do astro de “Juventude Transviada” pega um pouco mais pesado, relatando em detalhes as experiências homossexuais de Dean desde sua adolescência, quando perdeu a virgindade com um pastor protestante. Já o livro sobre a princesa de Mônaco faz uma verdadeira lista dos amantes colecionados por Grace. Entre dezenas, ela levou pra cama Gary Cooper, Clark Gable, William Holden e Frank Sinatra.
  

18 comentários:

Tiago Vitória disse...

Olá António!

Muito obrigado pelo comentário, o meu blog tem estado um bocado parado mas espero voltar a ele em breve (:

Não conhecia o teu espaço mas fiquei surpeendido, visualmente está muito agradável e os textos bastante interessantes.

Cumprimentos cinéfilos!

Rato disse...

Nunca tive oportunidade de ver este filme. Mas tenho bastante interesse até porque estão aí duas das minhas actrizes preferidas de sempre.
Finalmente parece que você acertou com o logotipo aí de cima do "Falcão Maltês" - muito mais ligeiro e apelativo. Te aconselho a não mudar tão depressa, está óptimo assim. O papel de fundo é que parece continuar a "enguiçar" um pouco a visualização, quando se faz o blogroll.

Abraço
O Rato Cinéfilo

Ruby disse...

Já assisti e tenho esse filme, porque coleciono clássicos antigos. Essa garotinha é odiável, não conhecia esse gênero GLS, apesar de achar que o filme não chega a ser classificado assim, até porque esse sentimento é apenas por parte de uma delas que só se revela ao final, mas é triste o drama, o conflito vivido por Martha, um bom filme que deveria ter mais reconhecimento, como muitos bons clássicos em P&B.
Sim vc pode utilizar minhas fotos do Tumblr quando quiser, é uma honra, porque seu blog é maravilhoso e fala do admiro muito, old hollywood.

Marcelo C,M disse...

vi esse filme a pouco tempo e realmente se nos colocarmos nos anos sessenta, iremos perceber como esse filme deve ter sido a frente daquele tempo conservador.

Daniele Moura disse...

Eu sou louca pra assitir este filme. Vou baixá-lo assim que puder ou comprá-lo. Grande texto falando da história de Wyller e sobre o filme.
Abço,
Dani
www.telaprateada.blogspot.com

Kley disse...

Antonio, te agradeço de coração. Fiquei muito feliz por isso. É uma recompensa ter uma postagem publicada em um blog de projeção tão grande. Sou admirador nº 1 de seu blog.
Um grande abraço!

Andressa Vieira disse...

Nossa... preciso ver esse filme. Adorei o novo design Nahud. Seu blog cada vez com qualidade mais admirável. Beijos.

J J MERGULHADOR disse...

muito bom esse blog

Miguel Arruda disse...

Parabéns Antonio, seu trabalho é excepcional.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Não deixe de vê-lo, Dani. É muito bom, com uma grande atuação de Shirley MacLaine. Gosto também da primeira versão com a Merle Oberon e a Miriam Hopkins, embora nem de longe se toque no tema lésbico.
Tudo de bom.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Eu é que agradeço, Kley. O seu texto é lúcido e bem escrito. Vamos combinar novas colaborações.
Abraços.

Jamil disse...

A Shirley tá demais nesse filme. Ela é uma miraculosa atriz. Esse filme é incrível, revela de forma lúcida a hipocrisia humana.
Parabéns para o Kley.

Malu Barros disse...

Quem me dera pudesse assistir a todos esses MARAVILHOSOS filmes.

GIANCARLO TOZZI disse...

Miriam Hopkins é uma das minhas atrizes preferidas. Ela tem uma participação muito especial nesta obra tensa de William Wyler. Vale lembrar que na versão dos anos 30 ela fazia o mesmo papel da Shirley.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também tenho Miriam Hopkins no meu rol de favoritas. Ela é extraordinária. Em breve, postarei algo sobre ela, Giancarlo.

Marta Scarpa disse...

Essas histórias de Dean e Grace já são bastante conhecidas, né?

As Tertulías disse...

Um filme sensibilíssimo... Lembro-me de "Senhoras" comentando em voz baixa sobre esse filme...

"These Three" é o título do filme com Merle Oberon, Miriam Hopkins e Joel McCrea, este é "The children's hour" (está "These Three" como o original de "Infamia" no seu texto...).

Linda escolha - vOu rever um dia desses... AMO Fay Bainter como a avó...

Eli disse...

Adorei esse filme, a personagem de Veronica Cartwright (que fez a irmã do protagonista de "Os Pássaros" e a filha de Daniel Boone, no seriado clássico dos anos 60) me deu nos nervos!