janeiro 19, 2011

*********** RACISMO NA MECA DO CINEMA


"uma cabana no céu"
No principio da história do cinema, os negros foram excluídos das telas. A discriminação racial era constrangedora, resultando num tratamento dispensado aos negros absurdamente ofensivo. Tomemos como exemplo o épico "O Nascimento de Uma Nação" (1915), do pioneiro cineasta D.W. Griffith. Embora seja considerada uma obra capital no desenvolvimento da sétima arte, responsável, inclusive, pela estrutura do cinema moderno tal como ele é até hoje, apresenta um conteúdo despudoradamente racista. Griffith enaltece o Ku Klux Klan, sinistra organização criada para aterrorizar e trucidar negros que viviam no Sul dos Estados Unidos. Anos depois, ele admitiu que intencionalmente o seu filme "cria um sentimento de repulsa em pessoas brancas, especialmente mulheres brancas, contra os homens de cor".

harry belafonte e dorothy dandridge
em "carmen jones"
Inicialmente, os personagens negros não eram realmente interpretados por negros, e sim por brancos com os rostos pintados de preto. A partir dos anos 20, quando as organizações de defesa dos direitos civis proliferaram nos EUA, os atores negros começaram a aparecer com maior freqüência, embora desempenhando apenas pequenos papéis, geralmente de criados, escravos, vagabundos, músicos ou figuras engraçadas. De relevante nesta época, somente dois musicais, ambos com elenco totalmente negro: o célebre “Hallelujah” (1929), de King Vidor, e “Uma Cabana no Céu” (1943), de Vincente Minnelli, filme que revelou a formosa e talentosa Lena Horne, falecida no ano passado. Mas algo de realmente importante na luta contra o racismo em Hollywood aconteceu em 1939, quando Hattie Mc Daniel ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua simpática Mammy em "... E o Vento Levou". Foi uma vitória inesquecível.

A Segunda Guerra Mundial permitiu mudanças nas estruturas da sociedade. O negro agora era representado também como valente soldado, como no documentário produzido pelo exército norte-americano “The Negro Soldier” (1944), de Stuart Heisler. No final dos anos 1940 e nos 1950, surgiram vigorosos libelos cinematográficos contra o racismo, tais como “O Mundo Não Perdoa” (1949) de Clarence Brown, “O Que a Carne Herda” (1949) de Elia Kazan, "Clamor Humano” (1949) de Mark Robson, e “Acorrentados” (1958) de Stanley Kramer, entre outros. Os personagens negros deixaram de ser figuras subservientes ou de segundo escalão, dando espaço para duas grandes estrelas: Dorothy Dandridge e Sidney Poitier.

Dandridge afirmava que a cor de sua pele era sempre levada em conta quando se pensava em seu nome para um papel importante. Ela confessou sua frustração por ser obrigada a convencer os estúdios de sua capacidade como atriz, tão somente pelo fato de ser negra. Poitier, que foi o primeiro negro a ganhar o Oscar de Melhor Ator, em sua autobiografia revela o constrangimento sofrido para conseguir um dos papéis principais de “Adivinhe Quem Vem Para jantar”, um filme que questionava exatamente os preconceitos raciais. Ele foi convidado a jantar com os atores Spencer Tracy e Katharine Hepburn, protagonistas do drama sobre um negro que namora uma branca. Seus anfitriões fizeram, ao vivo, um teste para saber sobre as habilidades do comportamento do ator em uma "reunião social de brancos". Até mesmo Tracy e Hepburn, tidos nos meios artísticos como pessoas liberais e sem preconceitos, não desejavam assumir riscos em suas carreiras.


(Fonte: "Slow Fade to Black: The Negro in Americam Film, 1900 - 1942", de Thomas Cripps)

GRANDES ATRIZES NEGRAS


LOUISE BEAVERS
(1902-1962)

Antes de estrear no cinema, ela era governanta de Leatrice Joy, estrela do cinema mudo. Apareceu em mais de 160 filmes, dos anos 1920 até a década de 1950, na maioria das vezes como um estereótipo de criada bondosa, matrona, subserviente e com grandes risadas. Sua mais notável interpretação foi Delilah Johnson, a governanta da primeira versão de “Imitação da Vida” (1934). A história trata da relação fraterna entre duas mulheres, uma branca e outra negra, bem como, dos problemas que elas enfrentam com suas respectivas filhas. Esse filme do mestre John M. Stahl é historicamente significativo, afinal na época a discriminação racial era muito forte. Nunca mais a carismática Louise Beavers conseguiu outro papel de destaque. Morreu de um ataque cardíaco aos 60 anos.


DIAHANN CARROLL
(1935-)

Vinda de uma família pobre, ela abandonou os estudos para seguir uma carreira de cantora. Tornou-se uma das raras modelos negras que se destacaram nos anos 1950, foi amante de Sidney Poitier por dez anos, gravou vários discos, estrelou com sucesso a sitcom “Júlia”, fez em “Dinastia” a primeira vilã negra das séries norte-americanas e interpretou Norma Desmond na Broadway no musical “Sunset Boulevard”. Ela também ganhou em 1962 o prestigiado prêmio teatral Tony por seu trabalho em “No Strings” e foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por “Claudine” (1974). No cinema, brilhou em “Carmen Jones” (1954), “Porgy e Bess” (1959), “Paris Vive à Noite” (1961) e “O Incerto Amanhã” (1966). Recentemente lançou sua autobiografia.



DOROTHY DANDRIDGE
(1922-1965)


Conhecida pela beleza e sensualidade, foi a primeira atriz negra indicada ao Oscar de protagonista - por sua atuação em “Carmem Jones” (1954). Estreou no cinema com apenas 15 anos, na comédia “Um Dia Nas Corridas” (1937), contracenando com os irmãos Marx. Amante do diretor Otto Preminger, nos anos 1950 viveu o auge de sua carreira como atriz, soberba em “A Ilha dos Trópicos“ (1957) e “Porgy e Bess” (1959). Investimentos mal-sucedidos levaram-na a afundar em dívidas e no álcool. Quando a encontraram morta por overdose de barbitúricos, em seu apartamento em West Hollywood, sua conta bancária registrava apenas US$ 2,14. Tinha 42 anos.  


hattie com olivia de havilland e vivien leigh 
em "...e o vento levou"
HATTIE McDANIEL
(1895-1952)

Seus personagens eram alegres, leais e assexuados. No curso de sua carreira, apareceu em mais de 300 filmes, tendo seu nome aparecido nos créditos de apenas 80 deles. Quase sempre interpretando empregadas, certa vez, disse: "Por que devo reclamar enquanto ganho 700 doláres por semana sendo uma empregada nas telas? Se não fosse nas telas, ganharia sete dólares por semana sendo uma de verdade.". Em “A Mulher Que Soube Amar”  (1935) enfureceu o público branco racista pelo papel de uma atrevida e desbocada empregada doméstica. Foi por um personagem parecido, o de Mammy em “… E o Vento Levou(1939), que ela recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, tornando-se a primeira negra a receber tal honra. Sua performance em “Nascida Para o Mal” (1942) também é lembrada por sua interpretação dramática de uma dona de casa cujo filho é acusado injustamente por um atropelamento. Destacou-se em “Desde Que Você Partiu” (1944) e “A Canção do Sul” (1946). Lésbica, teve romances tórridos com duas estrelas belíssimas: Tallulah Bankhead e Claudette Colbert. McDaniel faleceu aos 57 anos. Tinha como desejo ser enterrada no Cemitério de Hollywood, juntamente com alguns de seus parceiros do cinema, mas o dono se recusou a permitir que uma negra fosse enterrada em seu cemitério.


JUANITA MOORE
(1922-)

Nomeada para o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pela segunda versão de “Imitação da Vida" (1959), ela começou a atuar na década de 1950. Fez mais de 30 filmes, entre eles “Uma Viúva em Trinidad” (1952), “Testemunha do Crime” (1954) e “Abby” (1974), além de inúmeras séries para a TV. Ainda viva, semi-aposentada, apareceu pela última vez no cinema na comédia “Duas Vidas” (2000), ao lado de Bruce Willis.


CICELY TYSON
(1933-)

Indicada ao prêmio Oscar de Melhor Atriz graças à sua performance no drama “Sounder – Lágrimas de Esperança”, também é lembrada por “O Pássaro Azul” (1976) e pela minissérie “Raízes”, transmitida em 1977 pela ABC. Recebeu três prêmios Emmy: dois em 1974 e o último em 1994. Foi esposa do trompetista e compositor de jazz Miles Davis. Começou em peças off Broadway, até alcançar o sucesso como Portia no longa “Por Que Tem Que Ser Assim?” (1968). Mas fez poucos filmes, por se recusar a interpretar papéis que não valorizam a mulher negra. Ela é uma das mais talentosas atrizes que já apareceram na tela.

jeanne crain e ethel waters em
"o que a carne herda"

ETHEL WATERS
(18961977)


Cantora de blues, em 1933 participou de um filme satírico intitulado “Rufus Jones para o Presidente”. Em 1942, repetindo o seu papel nos palcos, fez Petúnia no musical de sucesso “Uma Cabana no Céu”, da Metro-Goldwyn-Mayer. Com “O Que a Carne Herda” (1949) foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Em 1950, ganhou o New York Drama Critics Award por sua performance na peça “Cruel Desengano”. Repetiu seu papel na versão cinematográfica de 1952, dirigida por Fred Zinnemann. Depois estrelou a série de televisão “Beulah”. Fez outros bons filmes, como “Seis Destinos” (1942) e “A Fúria do Destino” (1959), mas nunca deixou de reclamar dos papéis degradantes que os atores negros eram obrigados a fazer. Depois que perdeu suas jóias e toda a sua economia num assalto, teve a saúde abalada. Morreu aos 80 anos, vivendo de favor na casa de um jovem casal que cuidava dela.

9 comentários:

IAPERI ARAÚJO disse...

IRMÃOZINHO:
Queria que vc escrevesse alguma coisa sobre a nossa conterranea Rejane Medeiros. Ela é um icone para nós potiguares, pela sua atuação no cinema nacional e internacionl. Tá esquecida, mas precisa ser lembrada. Meu abraço e parabens.

Iaperi

Octavio Caruso disse...

Bem lembrado amigo. Eu sou um que não consigo apreciar o trabalho de Griffith em "Nascimento de uma Nação", exatamente por este seu conteúdo vergonhoso! Eu sei que sua importância foi fundamental para a evolução do cinema como forma de arte, mas não consigo gostar.
Um filme que acho muito curioso sobre o tema é: A Cor da Fúria,com o Poitier e o Travolta. Pena que não saiu em dvd no Brasil ainda!

JAMIL J. LANDIM disse...

Realmente, os primeiros atores negros a aparecer em Hollywood só recebiam papéis subalternos, profundamente estereotipados. Não existia oportunidade nenhuma. Em resumo, o grande problema é que Hollywood tinha medo de investir milhões de dólares em uma produção destacando atores negros e enfrentar o racismo.

As duas primeiras estrelas negras no cinema, Poitier e Dorothy Dandridge, deixaram marcas até certo ponto. Poitier nunca me convenceu, com aquela única expressão na cara. Dorothy, diva negra de corpo escultural, que embalou os sonhos molhados de muitos marmanjos, teve uma carreira muito curta, de poucos filmes. Uma pena.

Danielle disse...

Oi, Antonio!

A desumana segregação racial à qual foram submetidas nos impediu de conhecer trabalhos de artistas incríveis. Não conheço todas as atrizes que você apontou. Sei, no entanto, que a Lena Horne foi preterida em uma porção de filmes, pois não podia contracenar com artistas brancos. O mesmo parece ter acontecido com Dihanna Carroll, linda e grande cantora. Como Hollywood demorou para eliminar essa mancha de sua história - fiquei besta com as recordações de Poitier sobre Hepburn e Tracy.

Bjs
Dani

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Iaperi, sugestão anotada. Lembro de Rejane Medeiros em "Soledade", só não sabia que é potiguar. Já estou preparando um post sobre musas do cinema brasileiro.
Grato pela visita

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Octavio, eu também não consigo "engolir" NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO. Assisti até o fim com uma certa repulsa e só não risquei Griffith para sempre por gostar muito de Lillian Gish, que fez tantos filmes fantásticos com ele.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Dani, eu também fiquei de boca aberta com a atitude de Tracy e Hepburn. Quem diria?

Zelia Possidônio disse...

Todo sucesso do mundo!! Feliz 2011Bjs

Rubi disse...

Estava eu pesquisando pelo teu blog, quando encontrei este post super interessante. Sou fã do trabalho de Hattie McDaniel, inclusive, você chegou a assistir Show Boat (1936)? Ela se mostrou uma artista completa!