maio 05, 2011

************ SALA VIP: “BODAS DE SANGRE”


cristina hoyos
BODAS DE SANGUE

Para Cristina Hoyos

Que beleza é essa que tanto me incomoda?
Que olhar de tâmara – sâmaras que se semeiam –
transborda dos cântaros de tua íris?
O que anunciam teus inquisidores e translúcidos olhos?

Tudo em ti é duplo, senhora do amor bruxo.
De tuas mãos multiplicam-se os gestos e as bênçãos
e com tuas mãos dizes mais que cem mil bocas juntas
e essas mesmas mãos prenunciam a beleza de tuas ancas.

Mas, mais do que tudo, o que impera em ti
são esses milagres que são tuas tetas,
dois punhais que a cada instante furam minha paz
e que me ensinaram a amargar a verdadeira sede.

Ah Cristina Hoyos, deusa de Espanha,
vem bailando em nuvens e em versos de Garcia Lorca,
vem com teus punhais para a minha peixeira de 12 polegadas,
pois as nossas bodas só podem ser de sangue.

BAILADOR GITANO

Para Antonio Gades

Com a exuberância das cores,
com movimentos de galhardia e soberba,
com todo ímpedo, arrojo e charme,
desponta o esplendoroso pavão.

Nos olhos intensos, a paixão a se dizer
e, nas asas das mãos, o vôo.

Com a arrogância do galo, com sua bravura,
com seus punhais afiados, ele é o lutador.
Pula e impera – sapateia –
e todos o vêem e todos tentam,
mas só ele – o galo de sangue de fogo.

Ele é de uma nobre delicadeza,
mas de fortaleza maior.
De seus dedos estalam os tempos
e nascem todos os ritmos
e, senhor dos gestos, inventor de passos,
advinha a beleza.

É o formoso animal,
assim como um cavalo,
não um cavalo, mas o cavalo
que cava a poeira do juízo final
e inspira as ancas das fêmeas.
Exala o másculo, o mítico.

Ele é o início e o fim
- o touro e o toureiro –
o bailador gitano.

Poemas de JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO,
do livro “A Terceira Romaria


A PAIXÃO ANDALUZA SEGUNDO SAURA

Tragédia do lendário Federico García Lorca adaptada ao ballet flamenco pelo magistral coreógrafo Antonio Gades, BODAS DE SANGRE foi o primeiro musical da carreira do cineasta espanhol Carlos Saura, com direção artística de Gades e como sua acompanhante no papel da noiva, Cristina Hoyos, uma das melhores bailarinas folclóricas de todos os tempos. Filme de 1981, deu partida ao capítulo inicial da aclamada e não planejada trilogia sauriana da arte do canto e do bailado flamenco andaluz, seguindo-se as afortunadas “Carmen” (1983) e “El Amor Brujo” (1986). Poucas sensações geram tanto contentamento quanto a de estar convicto de testemunhar nesta obra um revigorante marco estético-narrativo. Uma história contada dentro de outra (narra o ensaio geral da companhia de ballet de Gades sobre a peça de Lorca), por meio de montagem rítmica, câmera esguia e fotografia luminosamente profunda. Tudo enquadrado com estonteante precisão e beleza, num show de movimentos harmônicos de corpos. A câmera se converte em espectador e ator do drama, se embriaga de animação e acompanha e interpreta cada um dos estados anímicos dos personagens. Sua naturalidade de incessante movimento e ritmo enlouquecido faz com que os momentos estáticos se resumam em pura dor, num magnífico ensaio de cine-ballet, numa original intenção de plasmar a realidade profunda da Espanha, utilizando uma de suas expressões mais tradicionais: o flamenco. Sem cenas típicas da dramaturgia cinematográfica, sem paisagens, quase sem diálogos, bebemos a dança e as imagens da paixão andaluza. O corpo de dança do hipnotizante Antonio Gades aflora os sentimentos. Impulso renovador no cinema musical e momento especial da fértil filmografia de Saura, resultou num tremendo êxito mundial. Mais adiante o realizador continuaria retratando a dança em filmes tão notáveis como “Sevillanas” (1992), “Flamenco” (1995), “Tango” (1998), “Salomé” (2002). Quiçá BODAS DE SANGRE tenha sido o mais aclamado.

antonio gades
BODAS DE SANGRE
Idem
(1981)

País: Espanha
Gênero: Musical
Duração: 72 mins.
Cor
Produção: Emiliano Pedra (Filmes do Estação)
Direção: Carlos Saura
Roteiro: Antonio Gades, Alfredo Mañas e Carlos Saura
Adaptação da de Federíco Garcia Lorca
Fotografia: Teodoro Escamilla
Edição: Pablo González del Amo
Música: Emilio de Diego
Cenografia: (d.a.); (déc.)
Vestuário: Francisco Nieva
Elenco:
Antonio Gades (“Leonardo”), Cristina Hoyos (“A Noiva”),
Juan Antonio Jiménez, Pilar Cardénas,
Carmen Villena, Pepe Blanco e Marisol.

Nota: **** (muito bom)


15 comentários:

Luis Alfredo disse...

Caro Antonio,
O seu poema "Bodas de Sangue" é preciosos; bem traduz toda a sensualidade do flamenco. O flamenco era para mim mãos, pernas, expressões faciais e gestos. Após ler o poema, inclui ancas e peitos. Valeu! Notar que a foto de Cristina Hoyos é rubro-negra. Grande abraço.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Luis, o poema não é meu, e sim do poeta-amigo alagoano José Inácio Vieira de Melo.
Abração,

Luiz Santiago disse...

EU AMO ESSE MUSICAL!

Jamil disse...

Para quem ama a Espanha e a dança, a trilogia de Saura é perfeita.

Jamil disse...

Como sabe, moro em Barcelona, e já tive a alegria de ver Cristina Hoyos em cena. Você nunca chegou a entrevistá-la no tempo em que viveu por aqui?

Marta Scarpa disse...

Ah, o flamenco, que show virtuoso e cigano tão emocionante. Assisti um tablado flamenco quando estive em Córdoba. Belíssimo.

GIANCARLO TOZZI disse...

Prefiro os dramas políticos de Saura dos anos 70, da parceria dele com a Geraldine Chaplin.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Os dramas políticos de Saura também são muito bons.

Juca Ferreira disse...

Ao ler este blog, fiquei embevecido.Nos anos 80 assisti em Sao Paulo todos os musicais de Saura.Queria fazer uma viagem à Espanha somente para conseguir seus filmes.Mas tive sorte.Consegui com uma pessoa de Joao Pessoa todos os filmes dele.Hoje passo as tardes assistindo seus filmes no lugar dos enlatados americanos, ao contrário de seus filmes cheios de emoção, beleza e memória.Me sinto realizado.Grato Juca

José Maria disse...

Gostaria de saber se Saura, esse fenômeno cinema espanhol dos anos 70, ainda vive e em que país ele vive, também o que tem feito.

Lúcia Helena Godoy disse...

Poemas preciosos.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Saura continua vivíssimo, José Maria. Aos 79 anos está cheio de projetos e filmou recentemente IO, DON GIOVANNI (2009) e FLAMENCO, FLAMENCO (2010).

Rita Santana disse...

Um mergulho belíssimo em Lorca, na Espanha, na poesia passional de Zé Inácio!Deu vontade de dançar, tocar minhas castanholas, assistir aos filmes, tudo. Encantador, Antônio!

Toninho Luz disse...

Poxa!Vc perguntar se curto o blog é mais ou menos a mesma coisa que vc perguntar se o sorvete de chocolate misturado com passas ao rum com licor de cereja melecando tudo por cima é bom...rsrsrsrr
É uma delícia!! Fotos e textos geniais! Som de primeira e melhor, feito por um amigo bacana!!
Odeio elogiar , (acho puxa-saquismo) mas vc me obriga a mudar conceitos ...rsrsr
Longa vida ao blog e á vc!!
Obrigado pelo privilégio!!
Abraço bom!!

annastesia disse...

Sou fascinado por essa trilogia do Saura. Esse filme então... uma loucura! Antonio Gades é hipnotizante e a força de Cristina Hoyos é impressionante. Um dos grandes exemplares da filmografia do Señor Carlos.