março 06, 2011

************** BOM MESMO É CARNAVAL!


leila diniz em "amor, carnaval e sonhos"
O rei do carnaval brasileiro tem sua origem na mitologia grega. Momo, filho do Sol e da Noite, é conhecido como o deus da sátira, do sarcasmo, do culto ao prazer e ao entretenimento, do riso, da pilhéria, da malícia, etc. Como comandante da folia do carnaval brasileiro, surgiu em 1932, no Rio de Janeiro, e no cinema na mesma época, no semi-documentário “A Voz do Carnaval”, primeiro filme falado produzido pela Cinédia e dirigido por duas das maiores personalidades do cinema brasileiro, Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, que estreou às vésperas do CARNAVAL de 1933, mostrando cenas de desfiles de corso e batalhas de confete entre os ranchos e os cordões, registradas com som direto nas ruas do Rio. O filme marcou a estréia no cinema da pequena notável Carmen Miranda, que canta “Moleque Indigesto”, de Lamartine Babo e “Good-bye, Boy”, de Assis Valente. Infelizmente, pelo que se tem notícia, não existe nenhuma cópia preservada de “A Voz do Carnaval”. Porém, o primeiro cinegrafista a registrar o carnaval num filme montado e exibido comercialmente foi Antônio Serra, que em 1909 apresentava "Pela Vitória dos Clubes Carnavalescos". Sete anos depois, Eduardo Neves realizou "Pierrô & Colombina", mesmo título que Louis Delao daria a um filme em 1919.


Em 1935, Ademar Gonzaga e Wallace Dowey, cineasta norte-americano que viveu durante anos no Brasil, faria "Alô, Alô Carnaval", com Carmen Miranda, Francisco Alves, Aurora Miranda, Almirante, Heloísa Helena e Lamartine Babo cantando os grandes sucessos da época. Luís de Barros, um dos mais atuantes cineastas brasileiros até os anos 50, em vários filmes registrou o CARNAVAL. Por exemplo, em 1944, com "Berlim na Batucada", com Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, entre outros, cantando. Seria, entretanto, os anos 50 que ganhariam muitos filmes em torno do carnaval. Assim, após o êxito de "Carnaval no Fogo", que Watson Macedo realizou para a Atlântida em 1949, seguiu-se "Carnaval Atlântida", em 1952, direção de José Carlos Burle. Watson Macedo voltaria a explorar o mesmo esquema em "Carnaval em Marte" (1955), com Anselmo Duarte amando Ilka Soares (que viria a se tornar sua esposa), enquanto desfilavam números musicais com Angela Maria, Linda Batista, Emilinha Borba, Cauby Peixoto, entre outros. Em 1954, Paulo Wanderley dirigiu "Carnaval em Caxias", no qual o político Tenório Cavalcanti era satirizado na interpretação de José Lewgoy. Os paulistas também atacaram de carnaval e foi para a Maristela que Ademar Gonzaga dirigiu "Carnaval em Lá Maior", em cujo elenco musical estavam Ataúlfo Alves, Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Isaurinha Garcia e Nelson Gonçalves. Esgotado o ciclo das chanchadas carnavalescas, nem por isto a festa deixou de motivar comédias como "Carnaval Barra Limpa", que J. B. Tanko realizaria em 1967, tão ingênua quanto "De Pernas Pro Ar" (1957), de Vítor Lima. O mesmo Tanko, em 1962, já havia feito "Bom Mesmo é Carnaval". Eventualmente, houve quem visse motivações para filmes mais sérios como Wilson Silva faria em "Depois do Carnaval" (1958), famoso por apresentar cenas de nudismo, ou Paulo César Sarraceni em 1972 com "Amor, Carnaval e Sonhos".

Dentro da filmografia carnavalesca há pelo menos dois momentos especiais. A sensível adaptação que Carlos Hugo Christensen fez do conto de Aníbal Machado, "A Morte da Porta Estandarte", como um dos episódios de "Esse Rio Que Eu Amo" (1962), e a alegórica visão política que Cacá Diegues deu em 1974 em "Quando o Carnaval Chegar", que além de homenagear a época das chanchadas, trouxe ainda Chico Buarque como ator, ao lado de Maria Bethania e Nara Leão. Nas últimas décadas, o CARNAVAL tem sido tema de filmes pretensiosos, mas espremendo-se os tamborins do celulóide, um fato é evidente: o carnaval ainda não teve o seu grande filme.

Celebrando dias fogosos do reinado de Momo, listei alguns filmes que abordam a divertida e delirante festa pagã.

ALÔ, AMIGOS (1942)
de Norman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Hamilton Luske e Bill Roberts
O turista norte-americano Pato Donald conhece os pontos turísticos do Rio de Janeiro e aprende a sambar com Zé Carioca. Na trilha, canções clássicas como "Aquarela do Brasil".


CARNAVAL EM FOGO (1949)

de Watson Macedo
Com: Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, José Lewgoy e Eliana Macedo
No hotel Copacabana Palace, hospeda-se uma quadrilha que aguarda a chegada do chefe, um bandido internacional, preparando-se para assaltar turistas durante o carnaval. Quando a polícia entra em ação, a confusão se instala nesta famosa chanchada da Atlântida.

DEPOIS DO CARNAVAL (1958)
de Wilson Silva
Com: Miguel Torres, Anilza Leone e Wilson Grey
Moça pobre, que trabalha em uma loja de discos, fica dividida entre seu namorado e os bailes de carnaval de que tanto gosta.



ORFEU NEGRO (1959)
de Marcel Camus
Com: Breno Mello, Marpessa Dawn e Léa Garcia
Baseado na peça de Vinicius de Moraes, em pleno carnaval carioca um respeitado músico se apaixona por uma jovem recém-chegada do interior, despertando ciúmes numa passional porta-bandeira.

ESSE RIO QUE EU AMO (1962)
de Carlos Hugo Christensen
Com: Jardel Filho, Odete Lara, Tônia Carrero e Hugo Carvana
Quatro histórias que tem como pano de fundo o carnaval carioca.


GAROTA DE IPANEMA (1967)

de Leon Hirszman
Com: Márcia Rodrigues, Adriano Reis, Arduíno Colassanti e Irene Stefânia
Inspirado na famosa canção da Bossa-Nova, de Tom e Vinicius, fala de garota incerta quanto ao seu futuro. Durante o carnaval, ela encontra uma resposta para as suas dúvidas e uma promessa de tempos mais autênticos e felizes.

AMOR, CARNAVAL E SONHOS (1972)
de Paulo César Sarraceni
Com Arduíno Colassanti, Ana Maria Miranda, Leila Diniz e Hugo Carvana
Em pleno carnaval, garota solitária conhece o amor na figura de um malandro.


QUANDO O CARNAVAL CHEGAR (1972)
de Carlos Diegues
Com: Chico Buarque de Hollanda, Nara Leão, Maria Bethânia, Hugo Carvana e José Lewgoy
O empresário de um grupo de cantores sem sucesso consegue um contrato para que ele se apresente em uma homenagem a um rei que chegará à cidade para o carnaval. Discussões internas e romances inesperados impedem que o espetáculo se realize.


DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (1976)

de Bruno Barreto
Com: Sonia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça
Malandro sedutor morre em pleno carnaval. Sua bela e fogosa viúva casa novamente, mas o espírito do falecido interfere.




A LIRA DO DELÍRIO (1978)
de Walter Lima Júnior
Com: Anecy Rocha, Cláudio Marzo, Paulo César Pereio e Tonico Pereira
Dois momentos na vida de um grupo de personagens cariocas. No bloco carnavalesco “A Lira do Delírio” eles vivem o êxtase e a violência. Fora do carnaval, cruzam-se num cabaré da Lapa.


RIO, CARNAVAL DA VIDA (1978)
de Leon Hirszman
Documentário que focaliza o carnaval carioca, à procura do seu significado e dos motivos culturais que promovem a liberação dos padrões vigentes, levando o povo a explodir em uma enorme festa.

ÁGUIA NA CABEÇA (1983)
de Paulo Thiago
Com Hugo Carvana, Zezé Motta, Christiane Torloni e Tereza Raquel
Bicheiro que manipula políticos, provoca uma onda de violência onde a corrupção impera.

REI DO RIO (1985)
de Fábio Barreto
Com: Nuno Leal Maia, Nelson Xavier, Milton Gonçalves e Andréa Beltrão
Dois amigos que enriquecem explorando o jogo do bicho se tornam rivais na luta pelo poder.


ORFEU (1999)
de Carlos Diegues
Com: Toni Garrido, Patrícia França, Murilo Benício, Zezé Motta e Milton Gonçalves
Popular compositor de escola de samba se apaixona por jovem recém-chegada à favela em que vive. Quando ela é vitimada por uma briga entre traficantes, ele decide oferecer sua própria vida para ter a amada de volta.


Ó PAÍ, Ó! (2007)
de Monique Gardenberg
Com: Lázaro Ramos, Wagner Moura, Matheus Nachtergaele e Dira Paes
Num animado cortiço do Pelourinho, no coração de Salvador, último dia de carnaval, um grupo de amigos se diverte com muita criatividade e sensualidade.


zé carioca em "alô, amigos"

9 comentários:

Jamil disse...

Leila para sempre Diniz. Aquela que, no dizer do poeta, o grande Drummond, “libertou as mulheres de sua geração”. Uma mulher que viveu como um furacão no Brasil dos anos 60, morrendo tragicamente num desastre de avião. Ela merece um post, Antonio. É a nossa Marilyn.

GIANCARLO TOZZI disse...

Você finalizou bem o texto: "o carnaval ainda não teve o seu grande filme". Assisti muitos dos filmes citados e só gosto de Dona Flor e A Lira do Delírio, e em Dona Flor o carnaval não é importante para a narrativa. Fiquei com vontade de assistir ao filme de Carlos Hugo Christensen, um bom diretor que nunca é lembrado.

Júnia Lemos disse...

Adorei as postagens
desta semana no
blog
beijos

Jerome Tarantino disse...

Excelente blog.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também admiro Leila, Jamil, embora tenha visto poucos filmes dela. Era uma mulher à frente do seu tempo. Post prometido.
Obrigado pela constância.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Concordo com você, Giancarlo, mas acrescentaria mais um filme da lista: a animação de Walt Disney, ALÔ, AMIGOS. É bem simpático. De Christensen, aprecio O MENINO E O VENTO e A INTRUSA. Já ESSE RIO QUE EU AMO daria um belo remake com 4 diretores diferentes. Já pensou?

BELVEDERE BRUNO disse...

Trabalho maravilhoso!
Bjs
Bel

Marcelo C,M disse...

Com Certeza Alo Amigo é bem simpatico, assim como a sua continuação Você Ja Foi a Bahia?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

VOCÊ JÁ FOI A BAHIA? é muito divertido e bem realizado, Marcelo. Preciso escrever um dia desses sobre Walt Disney.