janeiro 09, 2012

******************** O CLÃ HUSTON


anjelica huston 
Muitas famílias de artistas foram bem sucedidas em Hollywood - os Barrymore (John, Ethel, Lionel, Diana, John Drew e Drew), os Fonda (Henry, Jane, Peter e Bridget), Minnelli-Garland (Vincent, Judy e Liza), Farrow-O’Sullivan (John, Maureen e Mia), Curtis-Leigh (Tony, Janet e Jamie Lee), Chaplin (Charles, Geraldine e Josephine), Redgrave (Michael, Rachel Kempson, Vanessa, Lynn, Corin, Tony, Natasha e Joely Richardson), Rossellini-Bergman (Roberto, Ingrid e Isabella), Coppola (Itália, Francis Ford, Sofia, Talia Shire e Nicolas Cage), Bridges (Lloyd, Jeff e Beau), Sutherland (Donald e Kiefer) etc. -, numa complexa teia de relações íntimas e profissionais. Mas o clã HUSTON, com mais de 80 anos fazendo cinema, ocupa uma posição especial. Num fato inédito, pai, filho e neta levaram o Oscar. Danny, filho de John, também tem atuação louvável na indústria cinematográfica. Já Tony, seu meio-irmão e o mais velho dos filhos do diretor, fez o papel do neto do patriarca dos Bruttenholm em “A Lista de Adrian Messenger / The List of Adrian Messenger” (1963), foi assistente de direção em “Wise Blood” (1979) e escreveu o formidável roteiro de “Os Vivos e os Mortos / The Dead” (1987), concorrendo ao Oscar. No entanto, terminou por desistir do cinema. Admirando o talento dramático dessa família, conto aqui um pouco da trajetória impecável dos HUSTON.

O PAI
WALTER HUSTON
(1883-1950)

Nascido em Toronto, Canadá, onde estudou arte dramática, começou no teatro, mudando-se para Hollywood no finalzinho dos anos 20, quando atores teatrais eram recrutados para filmes sonoros. Impressionou com sua forte interpretação como o presidente Abraham Lincoln em “O Libertador / Abraham Lincoln” (1930), de D. W. Griffith, seguida por atuações fortes e seguras, especialmente em “Fogo de Outono / Dodsworth” (1936), de William Wyler, no qual repetiu o papel que fizera na Broadway e concorreu ao Oscar de Melhor Ator. Ao longo dos anos 40, desempenhou uma série de excelentes papéis em filmes como “O Homem Que Vendeu a Alma / The Devil and Daniel Webster” (1941), de William Dieterle, conseguindo a segunda nomeação para o Oscar de Melhor Ator; e “A Canção da Vitória / Yankee Doodle Dandy” (1942), de Michael Curtiz, que lhe proporcionou a nomeação para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

walter , john e o oscar
Em “O Tesouro de Sierra Madre / The Treasure of the Sierra Madre” (1948), de seu filho John, interpretou um garimpeiro envelhecido e arrebatou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Na entrega do prêmio, declarou que havia dito ao filho, muitos anos antes, que se algum dia ele se tornasse cineasta não se esquecesse de arrumar um bom papel para ele. Antes havia feito uma rápida aparição em “O Falcão Maltês / The Maltese Falcon” (1941), que marcou a estréia do jovem Huston na direção. Ele faleceu sem conhecer os netos.

O FILHO
JOHN HUSTON
(1906-1987)

Excêntrico e aventureiro, estudou pintura, trabalhou algum tempo como jornalista e se interessou por escultura, cavalos, boxe, jogo e caça, além de fumar charutos e beber em excesso. Em 1933, embriagado, atropelou e matou a atriz Diva Tosca, companheira do ator brasileiro Raul Roulien. Considerado o diretor que melhor retratou o universo dos fracassados, escreveu roteiros para a Warner Brothers na Hollywood dos anos 30/40, entre eles, “Jezebel / Idem” (1938), “Juarez / Idem” (1939), “O Último Refúgio / High Sierra“(1941) e “Sargento York / Sergeant York” (1941). Chegou à direção com “O Falcão Maltês / The Maltese Falcon” (1941), que projetou Humphrey Bogart, seu amigão e ator predileto. Com esse filme se tornou um dos mestres do Film Noir, tendo dirigido ainda outro clássico do gênero: “O Segredo das Jóias / The Asphalt Jungle” (1950), com uma jovem Marilyn Monroe no elenco. Autor de alguns dos melhores documentários sobre a Segunda Guerra Mundial, com seu pai Walter filmou “O Tesouro de Sierra Madre", uma parábola sobre a ganância humana que lhe rendeu o Oscar de Melhor Direção e Melhor Roteiro. Seguiram-se longas de qualidade ímpar.

walter e john
Em 1951, com Bogart e Kate Hepburn, rodou em locação no Congo um de seus maiores sucessos, “Uma Aventura na África / The African Queen”. Ainda nos anos 50, surpreendeu a indústria do cinema com a utilização de lentes especiais para contar a história de Toulouse-Lautrec em “Moulin Rouge / Idem” (1952). Colocou Orson Welles no papel do pastor que profetiza a tragédia em um púlpito em forma de proa de navio no sombrio “Moby Dick / Idem” (1956). Depois de alguns filmes menores, reconquistou a credibilidade com “Cidade das Ilusões / Fat City” (1972), “O Homem Que Queria Ser Rei / The Man Who Would Be King” (1975) e “À Sombra do Vulcão / Under the Vulcano” (1984). Bastante doente, filmou com sua filha Anjelica “Os Vivos e os Mortos”, adaptado por seu filho Tony de um conto de James Joyce. Reverenciado como um dos mais completos diretores da história do cinema, como ator ficou conhecido por títulos como “O Cardeal / The Cardinal” (1963), em que obteve uma nomeação para o Oscar do Melhor Ator Coadjuvante; “Chinatown / Idem” (1974) e “O Vento e o Leão / The Wind and the Lion” (1975). Huston escreveu a sua autobiografia em 1980, intitulada “Um Livro Aberto”. Casou-se cinco vezes, um deles com a atriz Evelyn Keyes (a esposa de Tom Ewell em "O Pecado Mora ao Lado / The Seven Year Itch" (1955), de Billy Wilder).

A NETA
ANJELICA HUSTON
(1951)

Ela só se estabeleceu como atriz após os 30 anos de idade. Nascida em Los Angeles, enquanto seu pai filmava na África, passou sua infância na Irlanda. Aos 18 anos foi escalada como protagonista de “Caminhando com o Amor e a Morte / A Walk with Love and Death” (1969), um trabalho de seu pai que não foi bem recebido. Partiu para uma carreira de modelo e se casou com Jack Nicholson, seu marido por 17 anos. Depois de papéis minúsculos em dramas de Elia Kazan e Bob Rafelson, recebeu um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e diversos outros prêmios importantes como a noiva vingativa Maerose Prizzi em “A Honra do Poderoso Prizzi / Prizzi's Honor” (1985), embarcando em papéis cada vez mais interessantes, especialmente em “Os Vivos e os Mortos” (John Huston, 1987), “Jardins de Pedra / Gardens of Stone” (Francis Ford Coppola, 1987), “Os Imorais / The Grifters” (Stephen Frears, 1990) – como Lilly Dillon, uma mulher sensual que ganha a vida em vigarices, recebendo uma nomeação para o Oscar de Melhor Atriz - e “Crimes e Pecados / Crimes and Misdemeanors” (Woody Allen, 1989). Contudo, o papel que lhe trouxe mais celebridade foi o de Morticia Addams, matriarca duma família insólita em “A Família Addams / The Addams Family” (1991) e “A Família Addams II / Addams Family Values” (1993), uma adaptação cinematográfica de uma série televisiva que fez furor nos anos 60. A partir daí, passou a ser presença constante em filmes independentes ou telefilmes.

 O NETO
DANNY HUSTON
(1962)

Nascido na Itália, começou como assistente de direção de seu pai e em 1988 dirigiu a comédia “O Elétrico Mr. North / Mr. North”, baseado numa fábula de Thornton Wilder e com Robert Mitchum, Lauren Bacall e Anjelica Huston no elenco. Passa-se nos anos 20, contando a história de um jovem que causa sensação quando se espalha o boato de que é capaz de fazer curas milagrosas. Aos 32 anos estreou como ator em “Despedida em Las Vegas / Leaving Las Vegas” (1995), nunca mais parando de atuar, aparecendo tanto em filmes independentes como em grandes produções, entre eles, “21 Gramas / 21 Grams” (2003), “O Aviador / The Aviator”, “O Jardineiro Fiel / The Constant Gardener” (2004) e “Maria Antonieta / Marie Antoinette” (2006). Mais recentemente, interpretou Poseidon em “Fúria de Titãs / Clash of the Titans” (2010). Divorciado da atriz Virginia Madsen, casou-se com Katie Evans, que terminou por cometer suicídio em 2008.

walter huston
john huston
anjelica huston
danny huston
***


ESTRÉIA

“ABISMO PRATEADO” 
(Karim Ainouz, 2011)

O novo filme do premiado diretor brasileiro Karim Ainouz (dos ótimos “Madame Satã”, 2002; “O Céu de Suely”, 2006, e  “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, 2010) nos leva a acompanhar a dentista Violeta (Alessandra Negrini), que, após receber uma mensagem de celular, inicia uma saga pelas ruas do Rio de Janeiro. Inspirado na canção “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque, acompanhamos justamente o processo de mudança de atitude, de desapego, que se segue a um grande sofrimento. Essa mudança se deve à nova relação como o mundo que a personagem estabelece a partir do processo e da série de acasos que se passam após ela receber a fatídica mensagem. Esse dia que se passa na tela, reduzido a menos de duas horas, manipulado pelo diretor, se baseia nas experiências e emoções de sua protagonista, e não em sua decorrência natural. Assim como a magnífica orquestra de sons urbanos e naturais criada. Com isso, é a caótica mente da protagonista que emerge na tela a partir da confluência de ruído e imagem. A contemplação é essencial para a experiência, e sua mixagem com os barulhos e ruídos cria o universo do filme. Um universo em que todos os tipos de pessoas são obrigados a conviver, sufocados pelos prédios que escondem o mar, e onde ninguém parece ter o seu lugar. Ainouz mostra como domina seu ofício, criando alusões imagéticas a todo o momento sobre o desespero de Violeta e a vida corriqueira, urgente e que necessita de atenção redobrada, pois a plenitude não está no que é palpável. Para Violeta, agora uma transeunte à procura de sua identidade, restam as canções e memórias. Exibido na Quinzena dos Realizadores - a mostra tem como objetivo descobrir novos diretores do mundo inteiro - no Festival de Cannes, levou o prêmio Coral de Melhor Atriz no recente “33º Festival de Cinema de Havana”, em Cuba. O roteiro é da romancista Beatriz Bracher, de “Os Inquilinos”, e quem protagoniza a trama é a excelente Alessandra Negrini. É uma experiência um tanto quanto inusitada (e ousada), uma quase punhalada no coração. A canção “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque, surge cantada no final por Barbara Eugênia e carrega em sua letra todo o significado que permeia o longa.

32 comentários:

Iza disse...

Olá, como vai ? Eu adorei seu blog. Sou fã de cinema antigo. Já estou seguindo. Não conhecia essa família. Na verdade só conhecia a Anjelica Huston. Os outros, não.

http://vintageiz.blogspot.com

Abraços!!!

Tunin disse...

Sempre trazendo os "grandes" do cinema!
Bom domingo.
Abraços.

Pedrita disse...

não sabia que os huston eram vários. beijos, pedrita

As Tertulías disse...

Interessantíssimo!!!!!!!! Adori! (Li uma vez que John Huston, na juventude, atropelou e matou a esposa de brasileiro em Hollywood... ele era um ator... Nao me lembro do nome... John estava bebado - o pai conseguiu "abafar" o escandalo... Voce conhece esta estória???

Maxx disse...

Excelente postagem. Abç.

Andressa Vieira disse...

Parabéns por mais essa postagem, Nahud. E eu que só conhecia a Anjelica.. ai ai. Muito a aprender ainda.

Sergio Andrade disse...

Meu clã preferido do cinema!

Estou louco pra ver o novo filme do Ainouz.

Bom 2012, meu amigo!

Gilberto Carlos disse...

Grande lembrança sobre o clã Huston. Adoro a Angelica Huston e todos os seus filmes.

Quanto a Abismo prateado quero muito assistir. Olhos nos olhos é uma música belissima.

Maxwell Soares disse...

É um clã no mais puro conceito. Excelente inicio de ano.

linezinha disse...

Excelente post Antonio,eu não sabia que a Anjelica teve um relacionamento de tantos anos com o Nicholson,eles tiveram filhos?

Fábio Henrique Carmo disse...

Também não sabia que Angelica tinha sido casada com Jack Nicholson. Ah, e o patriarca Walter mereceu mesmo o Oscar por "O tesouro de Sierra Madre". Bela atuação. Grande post! Abraço!

Karla Hack dos Santos disse...

Pense em um clã de respeito!
Eu sempre gostei da Anjelica...

;D

Ah... voltei das férias!

pinguim disse...

Gostei imenso desta tua entrada sobre a família Houston; e desconhecia que Danny era filho de John.
Acho a Angélica uma actriz fabulosa.

J. BRUNO disse...

O legal é perceber que a trajetória do clã se confunde com a própria história do cinema!

Muita coisa n post que eu não sabia, adoro estes teus textos de cunho quase enciclopédico sobre o cinema!

Parabéns por mais esta ótima postagem companheiro!

Ótima semana e forte abraço!

M. disse...

Feliz ano novo querido amigo! Felicidades sempre! Amei a postagem.

Luiz Santiago disse...

Gosto de todos eles! Mas só sabia do John e da Angelica Huston, não sabia dos outros!!! UAU!!!

Alexandre Benício disse...

Olá Nahud! Adorei seu blog, como amante do cinema que sou! Grande! Vamos manter contato, sou também jornalista cultural, escritor e ator aqui em Natal. Abraço.

disse...

Uma prova irrefutável de que talento, às vezes, é hereditário. Deve ter sido o máximo pai e filho ganhando o Oscar na mesma noite!
Abraços!

Darci Fonseca disse...

Obrigatório "Lonesome Dove" (Pistoleiros do Oeste), seis horas de brilhante cinematografia e anjelica está maravilhosa. darci - CINEWESTERMANIA

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Sem dúvidas Uma grande família, John Huston com certeza o maior dela...

Abração

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Obrigado, Iza. Apareça sempre.
Abraços,

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Conheço essa história, Ricardo (As Tertúlias). Dê uma lida. Está neste texto.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pois é, Linezinha, Nicholson e Anjelica viveram muito tempo juntos, mas nunca tiveram filhos.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Com certeza, Fábio. Walter Huston está fabuloso em O TESOURO DE SIERRA MADRE. Ele me surpreende cada vez mais. Vi um dia desses ALMAS EM FÚRIA, de Anthony Mann, e ele também está incrível.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Bacana, Karla. Seja bem vinda!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Com todo prazer, Alexandre. Apareça sempre. Abraços.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Ainda não vi PISTOLEIROS DO OESTE, Darci. Valeu a dica.

Jamil disse...

Ainda não assisti O Abismo Prateado, mas considero Ainouz um dos nossos melhores cineastas. E a Negrino é atriz de respeito.

Jamil disse...

A Anjelica em Os Imorais tem o seu maior momento. Que filme, que atriz.

tozzi disse...

O walter Huston é um pouco over, não? De John, gosto muito, mesmo os seus filmes menores. Já Caan merecia uma carreira mais intensa.

annastesia disse...

Família de imenso talento. Huston pai foi uma figura e tanto. Gosto demais dele em O homem que vendeu a alma.Huston filho é responsável por grandes preciosidades do cinema: O segredo das jóias, O homem que queria ser rei, Os vivos e os mortos, Relíquia macabra e outros não tão preciosos mas que gosto muito (À sombra do vulcão, O diabo riu por último e A honra do poderoso Prizzi). Huston neta, além do talento, tem sofisticação, charme e elegância raros. Está ótima em Os imorais e Misterioso assassinato em Manhattan. Huston neto, apesar da curta carreira (e vida), participou de boas produções e poderia ter seguido o legado.
Parabéns pela idéia e pelo texto Antonio!

Elisandra Pereira disse...

Dá uma olhadinha em um post que eu fiz sobre as maiores famílias do cinema. Meu intuito foi enumerar os membros que trabalham de alguma forma, seja atuando ou nos bastidores:
http://os10maiores.blogspot.com.br/2012/02/as-10-maiores-familias-do-cinema.html