junho 19, 2026

*************** CATHERINE DENEUVE, a MUSA FRIA

 



O que eu amo nela é seu mistério.
Ela se presta admiravelmente a papéis
que envolvem um segredo, uma vida dupla.
Acrescenta ambiguidade a qualquer situação,
a qualquer cenário, porque dá a impressão
de esconder pensamentos secretos.
FRANÇOIS TRUFFAUT
(1932 – 1984. Paris / França)
 
Bela como a morte,
sedutora como o pecado
e fria como a virtude.
LUIS BUÑUEL
(1900 - 1983 Calanda / Espanha)
 
Altura: 1,68m
Cabelo: castanho-claro
Olhos: azuis
Apelidos: A Donzela de Gelo, a Esfinge, Cath
Há atrizes que não foram feitas para Hollywood, mas foram destinadas para o mundo. Universalmente aclamada como uma das grandes damas do cinema francês, eu a entrevistei no auditório da FNAC, em Barcelona, Espanha, 2002, numa concorrida coletiva de imprensa, abarrotada de jornalistas, fotógrafos e convidados. Ela promovia a comédia musical, cheia de suspense, “Oito Mulheres”. A entrevista sincera e contundente foi publicada em jornais no Brasil e Portugal, e faz parte do meu livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”. Ao vivo, a francesa CATHERINE DENEUVE (1943. Paris / França) também é deslumbrante, mas arredia. Entre a comoção e a timidez, tive a convicção de estar diante de um deusa. Corpo enxuto. Passos curtos e rápidos, equilibrados em saltos altíssimos. Vestia um Saint-Laurent negro, pulseira de diamantes, cabelo arrumado, 59 anos impecáveis. A estrela madura e elegante, que um dia a revista “Look” batizou como “a atriz mais bela do mundo”, conservava o fascínio de diva.

Atualmente aos 82 anos e com uma carreira de quase sete décadas no cinema, possui mais de 130 filmes no currículo, entre dramas, comédias e musicais. Vi cerca de 50 deles. Ganhou inúmeros prêmios, foi capa das mais badaladas revistas e tornou-se o modelo de Marianne, a figura que representa a República francesa. Continua na ativa e diz que não se preocupa com a idade, tentando “envelhecer da maneira mais graciosa possível”. Nasceu em plena Segunda Guerra, descende de uma linhagem artística, uma das quatro filhas de atores de teatro. Quando rodou seu primeiro filme,
“Amores de Colegiais / Les Colégiennes”, lançado em 1957, não havia completado 14 anos de idade. Creditada como Catherine Dorléac, começou a usar profissionalmente o sobrenome de solteira de sua mãe em 1960. Depois de pequenos papéis, conheceu o diretor Roger Vadim, ex-marido de Brigitte Bardot. Com apenas 17 anos, e ele 32, se apaixonaram. Ela tingiu os cabelos de loiro para agradar o amante, que lhe deu um papel principal em uma adaptação de Marquês de Sade, “O Vício e a Virtude / Le Vice et la Vertu” (1963).

Sua icônica imagem sofisticada a eternizou como musa gélida. A consagração veio no musical clássico “Os Guarda-chuvas do Amor”, indicado a cinco Oscars. A partir daí, seguiu uma carreira de sucessos. Jacques Demy voltou a escalá-la para “Duas Garotas Românticas / Les Demoiselles de Rochefort” (1967), ao lado de sua irmã mais velha, Françoise Dorléac. Naquele mesmo ano, Françoise faleceria em um acidente de carro na Riviera Francesa, com apenas 25 anos. Extremamente próximas, CATHERINE DENEUVE ficou devastada. Sua trajetória no cinema é magnífica, tendo trabalhado com cineastas importantes como François Truffaut, Luis Buñuel, Roman Polanski, Jean-Pierre Melville, André Téchinè, Mauro Bolognini, Agnès Varda, Jacques Demy, Mario Monicelli, Lars Von Trier, Manoel de Oliveira e muitos outros. Atua com uma combinação de frieza e ternura que estremece, capaz de transmitir emoções infinitas através do olhar. No impactante thriller “Repulsa ao Sexo” (1965), ela entregou uma performance arrepiante como uma paranoica sexualmente reprimida.

Voltou a ser sensação como uma dona de casa entediada que realiza suas fantasias sexuais trabalhando como garota de programa à tarde em uma obra-prima do espanhol Buñuel,
“A Bela da Tarde” (1967), com Jean Sorel, Pierre Clémenti e Michel Piccoli. Na época, namorava o cineasta François Truffaut, que convenceu Buñuel a lhe dar o papel principal no filme. Ela entregou uma atuação discreta, perfeita para a trama escandalosa. É a frieza e o controle absoluto que tem sobre suas emoções que a tornaram ideal para o personagem de Séverine. Pouco depois outra inesquecível atuação em um papel duplo ao lado de Jean-Paul Belmondo em “A Sereia do Mississipi” (1969), uma espécie de apoteose de sua persona de “bela dama de gelo”. Musa do estilista Yves Saint-Laurent, que a vestiu em vários filmes, também foi o rosto do Chanel Nº 5 na década de 1970, impulsionando as vendas do perfume. Nos Estados Unidos, a imprensa a elegeu como “a mulher mais elegante do mundo”, onde atuou sem muito êxito em dois filmes. Na década de 1970, não encontrou papéis do mesmo calibre dos que fez nos anos 1960.

Em 1980, brilhou no magnífico
“O Último Metrô”, como uma atriz casada com o proprietário judeu de um teatro, na Paris ocupada pelos infames nazistas. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1983, fez muito sucesso como uma vampira lésbica no cult de horror “Fome de Viver”. Em 1992, nova performance extraordinária, ao lado de Vincent Perez no épico “Indochina”, recebendo sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz e seu segundo Prêmio César. Ela estrelou diversos longas excelentes de André Téchiné. Em 1998, ganhou a Copa Volpi de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Veneza por sua atuação como a viúva de um joalheiro em “Place Vendôme”. Dois anos depois, surpreendeu como uma operária que serve de apoio à cantora islandesa Björk no melancólico musical “Dançando no Escuro”. Ela havia assistido a “Ondas do Destino / Breaking the Waves” (1996), também de Lars Von Trier, e ficou tão impressionada que escreveu ao diretor pedindo um papel em um de seus próximos projetos. Ele aceitou, e sua atuação comprovou ainda mais que ela era muito mais do que um rosto bonito.

Em 2002, outro triunfo com
“Oito Mulheres”, ao lado de um cintilante elenco de estrelas. Em 2005, publicou “À Sombra de mim Mesma / Close Up and Personal: The Private Diaries of Catherine Deneuve”, no qual escreve sobre suas experiências durante as filmagens de “Indochina” e “Dançando no Escuro”. Com mais de 60 anos, assinou um contrato com a MAC Cosmetics em 2006 e, um ano depois, outro contrato de modelo para a Louis Vuitton. Em 2009, CATHERINE DENEUVE estreou seu centésimo filme, “A Garota do Trem / La Fille du RER”, de André Téchinè, continuando a trabalhar como atriz, muitas vezes realizando dois ou três filmes por ano. “Quando não estou filmando, me sinto vazia”, confessa. Ela gosta dos diretores que arriscam, os auteurs mais auteurs. Recebeu poucos prêmios, mais dos honoríficos, dos de reconhecimento por sua extraordinária carreira, que dos competitivos. Na vida privada, passa fins de semana no campo, praticando jardinagem e se energizando com a natureza. São alguns de seus prazeres, assim como ir ao cinema frequentemente e assistir séries de TV francesas.

Sempre se falou de sua juventude eterna, de seu tratamento facial com fio de ouro, ou do extremo cuidado de seu cabelo, mas ela jamais exagerou nas cirurgias e por isso está tão bem. Reina no cinema europeu há mais de 60 anos. Havia outras atrizes com talento em sua geração e intérpretes mais jovens quiseram destroná-la, mas CATHERINE DENEUVE sobreviveu e triunfou durante toda essa longa trajetória. Não se fazem mais estrelas como ela. Não se trata apenas de sua beleza, ela tem a rara habilidade de parecer perfeitamente natural enquanto domina a tela, e consegue atuar com facilidade tanto em comédia quanto em drama, às vezes transitando entre os dois gêneros em um único filme sem parecer menos do que autêntica. Avó de Milo (1997) e Anna (2003), vendeu seu castelo nos arredores de Paris e reside no luxuoso bairro de Saint-Germain-des-Prés, na capital francesa. Em novembro de 2019, sofreu um AVC, mas sem sequelas graves. Mais de seis décadas após sua estreia cinematográfica, CATHERINE DENEUVE continua sendo uma diva reservada, uma mulher encantadora, uma atriz cortejada.


Os AMORES de CATHERINE
 
ROGER VADIM
(1928 - 2000. Paris / França)

O cineasta francês foi seu primeiro grande amor. Mesmo contra a vontade de sua família, o relacionamento durou de 1960 a 1965. Filmaram o erótico “Vício e Virtude / Le Vice et la Vertu” em 1963 e tiveram um filho, Christian Vadim (nascido no mesmo ano).

 
DAVID BAILEY
(1938. Londres / Reino Unido)
 
Casou-se em 1965 com esse famoso fotógrafo britânico, um dos nomes mais conhecidos da Swinging London, em Londres, com Mick Jagger e sua irmã Françoise Dorléac como testemunhas. Se separaram dois anos depois, mas o divórcio só foi oficializado em 1972.
 
MARCELLO MASTROIANNI
(1924 - 1996. Fontana Liri / Itália)

Durante as filmagens de “Tempo de Amor / Ça n'arrive qu'aux Autres”, (1971) iniciou um romance com o ator italiano casado, morando sob o mesmo teto até 1975. Filmaram juntos vários filmes e dessa união nasceu a atriz Chiara Mastroianni em 1972.

 
FRANÇOIS TRUFFAUT
(1932 - 1984. Paris / França)

Ele a dirigiu em dois filmes. O primeiro deles, “A Sereia do Mississipi / La Sirène du Mississipi” (1969), ao lado de Jean-Paul Belmondo. Na vida real, se tornaram um casal. Quando ela inesperadamente o abandonou, ele caiu em uma longa depressão profunda.

 
OUTROS AMORES
catherine e hallyday
Também se relacionou amorosamente com o empresário Bertrand de Labbey, que permaneceu seu agente; o cinegrafista Hugh Johnson; o magnata do Canal+ Pierre Lescure, com quem manteve uma relação de amizade - os filhos dela o consideram seu padrasto. Durante seus 20 e 40 anos, teria namorado os atores Sami Frey, Clint Eastwood, Franco Nero, Burt Reynolds e John Travolta, bem como os diretores Roman Polanski, Jerry Schatzberg e Milos Forman. Há rumores de um breve caso com o apresentador de TV Carlos Lozano. Uma biografia de Johnny Hallyday, escrita por Gilles Lhote, afirma que o famoso cantor manteve um affair secreto com ela durante anos.

 
“Tive muita sorte. Atrizes com mais talento
desapareceram muito antes. Vivo rodeada
de amigos diretores e roteiristas que me apoiam.
O cinema é minha segunda natureza.”

CATHERINE DENEUVE
 
oito mulheres”, de françois ozon
15 FILMES de CATHERINE DENEUVE

01
Os GUARDA-CHUVAS do AMOR
(Les Parapluies de Cherbourg, 1964)
direção de Jacques Demy
elenco: Nino Castelnuovo e Anne Vernon

 
02
REPULSA ao SEXO
(Repulsion, 1965)

direção de Roman Polanski
elenco: Ian Hendry e Yvonne Furneaux

 
03
A BELA da TARDE
(Belle de Jour, 1967)
direção de Luis Buñuel
elenco: Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page.
Pierre Clémenti, Françoise Fabian, Macha Méril,
Francisco Rabal e Georges Marchal

 
04
TRISTANA, uma PAIXÃO MÓRBIDA
(Tristana, 1970)

direção de Luis Buñuel
elenco: Fernando Rey e Franco Nero

 
05
EXPRESSO para BORDEAUX
(Un Flic, 1972)

direção de Jean-Pierre Melville
elenco: Alain Delon, Richard Crenna e Riccardo Cucciolla

 
06
O ÚLTIMO METRÔ
(Le Dernier Métro, 1980)
direção de François Truffaut
elenco: Gérard Depardieu, Jean Poiret, Andréa Ferréol,
Paulette Dubost e Heinz Bennent

 
César de Melhor Atriz
David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira
 
07
FOME de VIVER
(The Hunger, 1983)
direção de Tony Scott
elenco: David Bowie e Susan Sarandon

 
08
A CENA do CRIME
(Le Lieu du Crime, 1986)

direção de André Téchiné
elenco: Danielle Darrieux e Wadeck Stanczak

 
09
TOMARA QUE SEJA MULHER
(Speriamo che sia Femmina, 1986)

direção de Mario Monicelli
elenco: Liv Ullmann, Giuliana de Sio, Philiphe Noiret,
Giuliano Gemma, Bertrand Blier e Stefania Sandrelli

 
10
INDOCHINA
(Indochine, 1992)
direção de Régis Wargnier
elenco: Vincent Perez, Linh-Dan Pham, Jean Yanne,
Dominique Blanc e Andrzej Seweryn

 
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz
César de Melhor Atriz
 
11
MINHA ESTAÇÃO PREFERIDA
(Ma Saison Préférée, 1993)

direção de André Téchiné
elenco: Daniel Auteuil, Marthe Villalonga 
e Chiara Mastroianni
 
12
Os LADRÕES
(Les Voleurs, 1996)

direção de André Téchiné
elenco: Daniel Auteuil, Laurence Côte, Benoît Magimel,
e Ivan Desny

 
13
PLACE VÊNDOME
(Idem, 1998)

direção de Nicole Garcia
elenco: Emmanuelle Seigner e Jacques Dutronc

 
Melhor Atriz no Festival de Veneza
 
14
DANÇANDO no ESCURO
(Dancer in the Dark, 2000)

direção de Lars von Trier
elenco: Björk, David Morse, Joel Grey,
Jean-Marc Barr e Udo Kier

 
15
OITO MULHERES
(8 Femmes, 2002)
 
direção de François Ozon
elenco: Fanny Ardant, Emmanuelle Béart, Danielle Darrieux,
Virginie Ledoyen e Isabelle Huppert
 
Melhor Atriz do European Film Awards
 
catherine e yves saint-laurent
“Catherine Deneuve é o cinema francês.”
MARTIN SCORSESE
(1942. Nova Iorque / EUA)
 
françoise dórleac e catherine
FONTES
“Cathenine Deneuve: un Certain Rêve Éveillé” (1981)
de Françoise Gerber
 
“Deneuve, l'Affranchie” (2007)
de Bernard Violet
 
“A Portrait of Catherine Deneuve” (2022)
de Chris Wade
 

CINEMA FRANCÊS NESTE BLOG
 
01
CINEMA FRANCÊS sob OCUPAÇÃO NAZISTA
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02
O CORAÇÃO PARTIDO de ROMY SCHNEIDER
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03
CRIMES à FRANCESA - 20 FILMES
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04
A DIVINA SARAH BERNHARDT
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GÉRARD PHILIPE: Um ASTRO, um MITO
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06
HARRY BAUR – ASSASSINADO pela GESTAPO
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07
MICHÈLE MORGAN – a LENDA DOURADA
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08
REALISMO POÉTICO FRANCÊS
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09
SIMONE SIGNORET - um LUGAR ao SOL
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10
13 CINEASTAS FRANCESES ESQUECIDOS
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No Festival de Cannes 2026, aos 82 anos

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