Caros Amigos

dezembro 12, 2011

SALA VIP: “A BESTA HUMANA” e “DESEJO HUMANO”


broderick crawford 
O escritor francês Émile Zola, considerado o fundador do naturalismo, em um dos seus romances mais conhecidos, A BESTA HUMANA (1890), examina as características psicológicas dos homicidas e apresenta um detalhado retrato dos trabalhadores de uma ferrovia francesa do século 19 (a exemplo do que fizera genialmente com os mineiros em “Germinal”, 1885). A personagem principal é Jacques Lantier, um maquinista na linha Paris-Le Havre. Ele sofre de enxaquecas e tem fortes impulsos assassinos. Só se sente bem na sua locomotiva, a "Lison". Por infelicidade, conhece a inescrupulosa Séverine, cujo marido Roubaud, subchefe da estação de Le Havre, acaba de matar um homem que a havia seduzido ainda adolescente, e tornam-se amantes. Séverine sugere a Lantier eliminar o seu próprio marido, um tipo rude e alcoólatra. Fascinante no tocante ao estudo da natureza humana, o livro explicita como a tecnologia industrial contribuiu para a degeneração moral e a desumanização da sociedade. É também um típico folhetim com enredo trepidante, teorias biológicas e sociológicas embutidas nas ações dos personagens e um conjunto de assassinatos que chocam e fascinam o leitor. Poucas obras de Zola apresentam tamanha multiplicidade de ações e intriga tão cheia de surpresas e reviravoltas, podendo ser encarada como uma narrativa policial ou como um mergulho no universo das pulsões subterrâneas e das paixões mais avassaladoras, aquelas que levam os seres à violência e ao crime. 

simone simon e jean gabin
O cinema não poderia desprezar esse argumento atraente, dramático e realista. Em 1938, no período dourado do cinema francês, o mestre Jean Renoir (1894-1979) - que já havia filmado outra obra de Zola, “Naná / Idem” (1926) -, adaptou A BESTA HUMANA com Jean Gabin como Lantier, Simone Simon como Séverine e Fernand Ledoux como Roubaud. Como todas as versões literárias do cineasta francês, não se trata de uma simples publicidade para o livro ou uma “tradução certinha” para o cinema, mas uma legítima e imperdível obra de arte. Saudado na ocasião do seu lançamento como um retrato real da vida humilde dos operários ferroviários (o crítico francês Georges Sadoul chegou a atribuir às primeiras cenas do filme um caráter estritamente documental), apresenta um comovente e fenomenal Gabin – talvez o maior ator do cinema francês - como Lantier. Já a chatinha Simone Simon não convence plenamente como mulher fatal, enquanto Ledoux encarna o marido traído tradicional com sentimento. Às vezes o filme é confuso ou mesmo dispersivo, como no episódio em que intervém a jovem namorada do estranho mocinho, que desaparece a seguir, sem jamais voltar, mesmo depois da confissão de amor de um Lantier alucinado. Sem nada sofrer com a passagem do tempo – oito décadas desde o seu lançamento -, o poético A BESTA HUMANA deixa na memória do público relações amorosas trágicas e imagens de locomotivas que seguem sob os trilhos, barulhentas e iluminadas, entre lapsos de trevas e silêncios desconcertantes.

gloria grahame e glenn ford
Dezesseis anos depois, o mestre do expressionismo alemão Fritz Lang (1890-1976) refilmou essa história de frustrações, adultério e crime. Transformado num cruel film-noir passado numa cidade do meio-oeste dos Estados Unidos, DESEJO HUMANO é uma das melhores obras da fase norte-americana do cineasta. O triângulo amoroso formado por Glenn Ford (o maquinista “Jeff Warren”), Gloria Grahame (a infiel “Vicky Buckley”) e Broderick Crawford (o marido “Carl Buckley”) é um dos mais contundentes do cinema - personagens decaídos que se despedaçam entre si em um universo asfixiante de apartamentos simplórios e estações de trem, de linhas ferroviárias com traçados retilíneos e restritivos, que são como uma espécie de imagem de seus próprios destinos. A desordem conjugal, os abusos sentimentais, o sentimento de culpa e a traição mantêm alto o nível de tensão da trama. O tratamento visual, a iluminação e o sofisticado jogo de claros-escuros do diretor de fotografia Burnett Guffey também se destacam. Se o início de DESEJO HUMANO e A BESTA HUMANA (de Renoir) coincidem, ao nos mostrar a mesma inexorável marcha do trem, o drama de Lang termina por caminhar noutra direção ao evitar a linha básica do romance de Zola: a referência à influência patológica da hereditariedade como o veículo do trágico. O personagem Lantier, no romance e no filme de Renoir, é um psicopata, trazendo no sangue a maldição de gerações envenenadas pelo álcool. O Lantier de Lang é apenas um homem solitário, que acaba de voltar da guerra da Coréia, seduzido por uma fêmea ardente e esperta. 


gloria e glenn
Sombrio e expressionista (contrapondo-se ao naturalismo de Renoir), austero e cerebral, frio e violento, DESEJO HUMANO (o diretor não gostava do título, retrucando: “que outro tipo de desejo existe?”) se insere num gênero específico do cinema, o policial noir, em que Lang rodou um dos seus mais belos filmes, “Almas Peversas / Scarlet Street” (1945). A grande personagem da história é Vicky Buckley, a habitual “femme fatale”, um papel que era para ser de Rita Hayworth, mas que a excelente Gloria Grahame faz muito bem, dando-lhe os matizes de provocada inocência e subterrânea perversidade. Enganando todos os homens em cena (o marido bêbado, o amante rico e o novo amante maquinista), ela não deixa de ser uma vitoriosa, mesmo que morra asfixiada pelas mãos do esposo no final. Já o personagem de Broderick Crawford foi pensado para Peter Lorre, mas este terminou por recusar, nunca perdoando a tirania do diretor durante as filmagens do clássico “M, O Vampiro de Dusseldorf / M” (1931). Perseguido pela censura e elogiado pelos críticos, o magistral DESEJO HUMANO é relato absorvente e de impressionante morbidez. No entanto, não saberia dizer se essa é a melhor versão do folhetim de Zola. A de Renoir também é espetacular. Além disso, sou suspeito, tenho verdadeira veneração por Fritz Lang. 

jean renoir
A BESTA HUMANA
La Bête Humaine
(1938)
de Jean Renoir

País: França; Duração: 100 mins; P & B; Produção: Robert Hakim e Raymond Hakim (Paris Film Production); Roteiro: Jean Renoir; Fotografia: Curt Courant; Edição: Suzanne de Troeye e Marguerite Renoir; Música: Joseph Kosma; Cenografia: Eugène Lourié (d.a.); Vestuário: Laure Lourie; Elenco: Jean Gabin (“Jacques Lantier”), Simone Simon (“Séverine Roubaud”), Fernand Ledoux (“Roubaud”), Blanchette Brunoy, Gérard Landry, Jenny Hélia e Colette Régis

Nota: ***** (ótimo)

jean gabin e simone simon
jean gabin

fritz lang
DESEJO HUMANO
Human Desire
(1954)
de Fritz Lang

País: EUA; Duração: 91 mins.; P & B; Produção: Lewis J. Rachmil (Columbia Pictures); Roteiro: Alfred Hayes; Fotografia: Burnett Guffey; Edição: Aaron Stell; Música: Daniele Amfitheatrof; Cenografia: Robert Anderson (d.a.); William Kiernan (déc.); Vestuário: Jean Louis; Elenco: Glenn Ford (“Jeff Warren”), Gloria Grahame (“Vicki Buckley”), Broderick Crawford (“Carl Buckley”), Edgar Buchanan, Kathleen Case e Peggy Maley

Nota: ***** (ótimo)

glenn ford e gloria grahame
glenn ford e gloria grahame

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CINE-JORNAL

OS 50 ANOS DE “BONEQUINHA DE LUXO”

“Bonequinha de Luxo / “Breakfast at Tiffany’s” (1961), a comédia romântica mais charmosa de todos os tempos, completou 50 anos este final de ano (estreou no Brasil em 13 de novembro de 1961). Tudo começou quando a Paramount Pictures decidiu que queria um projeto moderno, que falasse dos novos tempos e novos costumes. Seus executivos se encantaram com uma novela de sucesso publicada pelo polêmico Truman Capote em 1958. O estúdio comprou os direitos, mas logo terminou por perceber que era impossível filmá-lo dentro dos padrões morais que Hollywood adotava. Começando pela mocinha Holly Golightly, uma garota que tenta ascender socialmente em Nova York graças aos favores de homens ricos. Seu grande sonho é dar um golpe, casando-se com um deles. Até um milionário brasileiro (o ator espanhol José Luis de Vilallonga) entra na sua lista de pretendentes. O hábil roteirista George Axelrod teve que praticamente reescrever o argumento, tentando encontrar estruturas que fossem moralmente palatáveis para o público da época. Claro que ficou menos ousado que o romance, mas não é menos eficiente em sua combinação de comédia inteligente, drama de costumes e história de amor. A crueza e o cinismo de escritores como Truman Capote só seriam aceitos pelo cinema comercial quase uma década depois, após John Schlesinger propor algo semelhante em “Perdidos na Noite / Midnight Cowboy” (1969). Dirigido pelo eficiente Blake Edwards - aqui em seu melhor momento -, todo o elenco de “Bonequinha de Luxo” está em estado de graça: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Mickey Rooney e Martin Balsam. Mas segundo Capote, a atriz perfeita para interpretar Holly Golightly teria sido Marilyn Monroe. Ela chegou a ser convidada para o papel, mas recusou, temerosa do efeito que uma personagem que praticamente se prostituía teria sobre sua carreira, que àquela altura já balançava. O filme venceu dois Oscars: Melhor Canção (“Moon River)” e Melhor Trilha Sonora para Henri Mancini. Também foi indicado ao prêmio em outras três categorias: Melhor Atriz (Audrey Hepburn), Melhor Direção de Arte e Melhor Roteiro Adaptado. Audrey levou o David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira e concorreu ao Globo de Ouro na categoria Atriz de Comédia/Musical.


28 comentários:

Astroterapia Junguiana disse...

Gosto de passar aqui, porque sempre estou aprendendo um pouco da mente desse gênios do cinema. Emile Zola era Ariano talvez essa briga interna ele conseguia exterioriza-la. Quem bom fico feliz que ele tenha colocado isso pra fora de uma forma menos nociva para si. Cynthia

Por que você faz poema? disse...

Zola, Renoir, Lang
Ótima postagem!

M. disse...

Oi Antonio! Que excelente texto você escreveu. Necessito muito ver este filme. Abraço e ótima semana.

Darci Fonseca disse...

Antonio
Simone Simon era exatamente o que você disse. Sabe, amigo, ter nascido há mais tempo permite certos prazeres que os jovens como você não tiveram como ter visto, no lançamento em São Paulo, Audrey Hepburn desfilar sua elegância em N.Y., na Tiffany's, ouvir "Moon River" nesse filme delicado e delicioso. Desculpe o saudosismo, mas essa imagem é preciosa nas minhas lembranças.
Um abraço - Darci

Marcelo C,M disse...

Fica meio difícil imaginar atualmente, Bonequinha de Luxo estrelado por Marilyn Monroe, que felizmente, isso não aconteceu, já que nunca a considerei uma boa atriz. Felizmente, o papel acabou caindo no colo de Audrey Hepburn que, apesar de ter iniciado a carreira com papeis de boa moça, se saiu muito bem num papel que exigia certa ambigüidade, mas ao mesmo tempo uma inocência, meio que perdida ao longo dos anos, e por esses e outros motivos, que fazem desse filme, um dos melhores momentos de Hepburn no cinema, mesmo no fato do filme ter envelhecido em alguns aspectos (como no caso de terem colocado um ator não japonês, fazendo um, de uma forma caricata e de muito mau gosto).

Mary Franco de Carvalho disse...

Amo ler tudo que vc publica, mas, O Falcão Maltês é minha paixão!

Alain disse...

Parabéns, seu blog é muito bom.
Abraços,
Alain.

João Roque disse...

Uma das coisas que mais aprecio aqui neste teu blog é a tua capacidade de conjugar situações: filmes entre si, géneros, realizadores e como hoje, adaptações cinematográficas de obras literárias importantes.
Fascinante!

Mario disse...

Las dos películas que mencionas suenan interesantes, tanto Lang como Renoir son grandes directores, Zola también es un novelista de importancia. Habrá que verlas. Saludos.

Rodrigo Mendes disse...

Gosto da fase americana de Lang. "Human Desire" é um ótimo filme.

E parece que os anos não passarão, sobretudo para quem experimentou o filme na época. "Bonequinha de luxo" será um filme amado eternamente.

Abs.

Tunin disse...

Muito bom o texto. Abraços.

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Ótimo Post, Não conhecia esses filmes mas seu texto me despertou interesse em assisti-los.

Bonequinha de Luxo, 50 anos? o que dizer? Quanto mais velho, melhor? ..... kkkkk

Abração

Rato disse...

Pessoalmente nunca considerei "Breakfast at Tiffany's" um bom filme. Apenas mediano, até porque os anos foram bastante crueis para com ele. Não fosse o tema "Moon River" e algumas imagens "de marca" da Audrey Hepburn e o filme teria já caído no mais profundo dos esquecimentos.
Prefiro recordar a actriz em outros papeis, como em "Férias em Roma", "Sabrina", "Ariane" ou "My Fair Lady", por exemplo.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Imagino, Darci, imagino. Deve ter sido uma sensação única ver BONEQUINHA DE LUXO pela primeira vez e em uma tela grande.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Maluquice de Truman Capote, Marcelo. Marilyn Monroe como Holly daria outro ritmo ao filme e boa parte do charme dele desapareceria. Além disso, ela correria o perigo de ser literalmente engolida pela talentosa Patricia Neal.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Não deixe de vê-los, Mario. São grandes filmes.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Tem razão, Rato. Vi "Breakfast at Tiffany's" nos anos 80, lembro que fiquei muito empolgado, achei uma obra-prima. Voltei a vê-lo ano passado e foi diferente. Mas vale por Audrey, Capote, Neal, Mancini e o retrato de uma época. É um bom filme.

disse...

Gosto muito de adaptações de livros para o cinema. E, quando a história é boa, ela vira filme várias vezes, como aconteceu com este livro de Zola. Vi Broderick Crawford recentemente no italiano "A Trapaça" e ele estava sensacional.
Abraços!

tozzi disse...

Conheço a versão de Lang. Noir puro. Uma pena que Lorre não aceitou o papel do marido cornudo.

tozzi disse...

Acho Boinequinha de Luxo subestimado. A maior prova é que quase todos os outros filmes de Blake Edwards são ruins - exceto Vício Maldito e Vitor ou Vitória. Felizmente ele não colocou sua esposa Julie Andrews no papel central. O filme é TODO de Audrey.

Jamil disse...

Não conheço a versão de Renoir, mas a de Fritz Lang é brilhante.

Jamil disse...

Por que será que nunca lembra de Patricia Neal quando recordam Bonequinha de Luxo? Mesmo num pequeno papel, ela está maravilhosa, e tão elegante quanto a Audrey.

Rubi disse...

Desejo Humano é um dos meus filmes preferidos do Fritz Lang. Incrível como ele conseguiu se destacar tanto nas produções alemãs quando nas norte-americanas.

- Ahh Bonequinha de Luxo, quanto tempo já se passou, não?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Concordo com você, Lê, o Crawford dá um show em A TRAPAÇA. A cena final é estarrecedora.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Uffa... Felizmente, Tozzi, já pensou a Julie Andrews como Holly?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também acho, Jamil. Todas as vezes que vi BONEQUINHA DE LUXO ficava torcendo para que Patricia Neal surgisse logo em cena.

José Simões Filho disse...

parabéns pelo blog excelente sobre film noir

Erika Passos disse...

adoro seu blog, maior sucesso.