abril 06, 2011

*********** BRIGITTE HELM – A VAMP ALEMÃ



Assisti “Atlântida/ L’Atlantide” (1932) aos 13 anos de idade, na Cinemateca Walter da Silveira, em Salvador, apaixonando-me pela heroína fatal interpretada por BRIGITTE HELM (1906-1996). Na história, dois oficiais franceses perdidos no deserto do Saara são acolhidos numa cidadela misteriosa, onde conhecem a rainha Antinéa e ficam loucamente seduzidos por ela. Ao longo de sua carreira, a bela atriz alemã encarnaria inúmeras outras femmes fatales, fazendo dela uma das estrelas mais populares da Alemanha do final do cinema mudo e primeiros anos do falado. Ela faz parte de um privilegiado grupo de atrizes ícones da década de 20, de Louise Brooks a Greta Garbo. Verdadeira lenda por causa de seu duplo papel - a mocinha mística que prega a chegada de um Messias e o robô - no clássico de ficção-científica "Metrópolis/idem" (1927), de Fritz Lang, na sequência fez mais de 30 filmes. Mesmo nunca estando totalmente à vontade como atriz, ultrapassou sem problemas a transição do cinema mudo para o falado, mas de forma inesperada se aposentou em 1935. Nascida em Berlim, filha de um oficial prussiano, tinha 18 anos quando sua mãe enviou suas fotos para a roteirista e esposa de Lang, Thea von Harbou, que encantada com a beleza enigmática da mocinha conseguiu um teste para ela, resultando em um contrato de dez anos com a poderosa produtora UFA (Universum Film AG). 

"metrópolis"
Mundialmente conhecida por "Metrópolis", sabe-se hoje que as filmagens foram problemáticas, com a atriz sofrendo queimaduras graves na cena da fogueira e arriscando a vida suspensa em sets altíssimos. Ela ficou tão traumatizada pela experiência que pelo resto da vida evitou falar sobre o filme, chegando a negar que tivesse aparecido nele. A produção complexa levou 310 dias para ser finalizada (numa época em que muitos filmes eram rodados em menos de uma semana), mas o perfeccionismo de Fritz Lang criou uma obra visualmente maravilhosa, ficando na história do século 20 e influenciando a arquitetura moderna. Valorizado pela fotografia de Karl Freund, retrata uma grande metrópole do futuro, onde operários quase escravos vivem em condições miseráveis nos subterrâneos, operando máquinas 24 horas por dia para manterem funcionando a suntuosa cidade. O filho do chefão local, um milionário, descobre a injustiça e tenta corrigi-la tomando o lugar de um dos explorados. Mas há um cientista (louco, claro) que criou uma espécie de robô (Helm, super sexy) para pregar a destruição de tudo. Ao estrear na Alemanha, já sob o domínio do nazismo, o esperado filme acabou sendo um fracasso de bilheteria, inclusive por causa de seu alto custo calculado naquela época em 168 milhões de marcos.

Posteriormente, a atriz foi muitas vezes escolhida para interpretar heroínas más ou sedutoras, como nas duas versões dos notáveis "Mandrágora/Alraune", a muda de 1928 dirigida por Henrik Galeen e a falada de 1930, de Richard Oswald. O enredo fala sobre uma prostituta inseminada com o esperma de um criminoso enforcado, gerando uma filha que adulta passa a matar todos os homens que se apaixonam por ela. No melodrama de guerra “O Amor de Jeanne Ney/Die Liebe der Jeanne Ney” (1927), o mestre G. W. Pabst destacou a personalidade misteriosa da intérprete, que tem um desempenho assustador como uma cega. Dando continuidade a uma carreira impecável, BRIGITTE HELM atuou em “Crise/Abwege” (1928), também de Pabst, solidificando seu talento. Ainda em 1928, fez “L’Argent/idem”, de Marcel L'Herbier, adaptado do romance homônimo de Emile Zola e um dos monumentos da filmografia francesa do período, que reconcilia as ambições do cinema de arte com as características de uma super-produção. Trata-se da história de um banqueiro à beira da falência, que aposta tudo o que tem na invenção de um novo modelo de avião, provocando deliberadamente o pânico na Bolsa de Valores. Com uma extraordinária fotografia, a câmara sempre em movimento, notáveis cenários e um elenco precioso (Jules Berry, Antonin Artaud etc.), esse filme é um dos pontos culminantes da arte de um importante realizador. Outro brilhante desempenho de Helm aconteceu como uma típica aristocrata que se apaixona por um pobre soldado na obra-prima de Hanns Schwarz, "Die Wunderbare Luge der Nina Petrowna" (1929). 

No seu primeiro filme falado, o musical “A Voz do Meu Coração/Die Stadt Singende” (1930), de Carmine Gallone, tinha como partner o cantor lírico Jan Kiepura. Mas tanto esse, como outros sonoros - “Gloria/idem” (1931), o inglês “O Danúbio Azul/The Blue Danube” (1932), “Ouro/L'Or (1934) etc. - não tiveram o mesmo prestígio artístico de seus melhores filmes mudos. Na ocasião, o seu relacionamento com o UFA passou a ser conflituoso. Embora  o estúdio tenha feito dela uma estrela e aumentasse gradualmente o seu salário, ela não se conformava com os papéis que lhe eram oferecidos, considerando-os superficiais. Entretanto, errou feio ao rejeitar ser a cantora de cabaré Lola-Lola de “O Anjo Azu/Der Blaue Engel” (1930), de Josef von Sternberg, abrindo caminho para o estrelado internacional de Marlene Dietrich. Helm também foi a primeira escolha de James Whale para o célebre clássico de terror “A Noiva de Frankenstein/Bride of Frankenstein” (1935), mas ela se recusou a ir para a América do Norte. No auge da fama, declarou que não se importava com sua carreira, preferindo ser uma comum dona de casa, cozinhando e educando filhos.


Suas opiniões públicas anti-nazistas e a ascendência judaica do seu segundo marido, o industrial Hugo von Kuenheim, tornaram impossível que continuasse a trabalhar no cinema alemão, na época totalmente controlado por Adolf Hitler. Em 1935, não renovou seu contrato com a UFA. Também influenciaram sua decisão as críticas negativas sobre os seus filmes mais recentes e reportagens sensacionalistas na imprensa sobre seus vários acidentes de trânsito (por um deles foi condenada a curta pena de prisão). A Condessa Gertrud Chiltern na comédia “Um Marido Ideal/Ein Idealer Gatte” (1935), baseado na famosa peça de Oscar Wilde, foi a despedida de BRIGITTE HELM do cinema. Tímida e modesta, ela mudou-se com o marido para a Itália e depois a Suíça, afastando-se totalmente do mundo cinematográfico, recusando inúmeras propostas de filmes, peças teatrais e aparições na tevê, além de nunca ter dado entrevistas depois da aposentadoria precoce, num eterno anonimato. Teve quatro filhos. Faleceu em Ascona, na Suiça, aos 90 anos. 














15 comentários:

M. disse...

Antonio,

Na primeira foto ela me lembrou a Marlene Dietrich! Exclente post!

Luiz Santiago disse...

OLHA ESSA MULHER!!!

Caramba, não sabia que era ela em Metropolis! Muito bom!

E que fotos são essas, hein! Perfeito!

Marcelo C,M disse...

Amei ela em Metropoliz, ela passava uma grande doçura. Fiquei com pena quando soube que ela sofreu nas filmagens mas do modo que eu conheço Fritz Lang, com certeza ela ficou marcada para o resto da vida

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pois é, M., ela realmente tem algo de Dietrich. Não é à toa que foi a primeira escolhida para O ANJO AZUL.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Marcelo, o Fritz Lang era um gênio, um dos meus cineastas preferidos, mas também era um tirano, jogava duro nas filmagens.

Jamil disse...

Dela só conheço Metrópolis, mas checando sua filmografia fiquei entusiasmado com o número de grandes diretores com os quais trabalhou: Gallone, Pabst, Galeen, Oswald, L'Herbier etc.
O post está lindo, Antonio. Como sempre refinado e informativo.

Rubi disse...

Nossa!
Mas que olhar *-*
Ainda não a conhecia, quando vi a primeira foto, pensei que fosse a Leila Hyams.

Parabéns pela seleção de imagens, e por nos informar sobre esta belíssima mulher!

GIANCARLO TOZZI disse...

Que deusa! Muito atraente. Para completar foi sábia o suficiente para não se vender ao nazismo como Emil Jannings (de O Anjo Azul) ou a Thea von Harbour (de Metropolis). Antonio, sugiro um post sobre atores europeus que fugiram do nazismo.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Boa idéia, Giancarlo. Aguarde. Realmente foi uma pena o fantástico Jannings ter abraçado a ideologia nazista. Freou uma bela carreira internacional.

linezinha disse...

ótimo post Antônio,assisti Metropolis e não conhecia sobre a vida da Brigitte

Dario Mattos disse...

Maravilha!

Marta Scarpa disse...

Uma mulher deslumbrante. Pena que não foi para Hollywood dando continuidade a sua carreira.

annastesia disse...

Ótima lembrança Antônio. Temos que celebrar nomes importantes do cinema mundial e que não fazem parte das listas costumeiras. Lembro de Helm em O amor de Jeanne Ney (assisti há muitos anos atrás). E as fotos são lindíssimas!

Amanda Ortiz disse...

Eu amo Brigitte Helm e adorei a pesquisa , eu sou apaixonada por ela e se um dia eu pudesse escolher alguém para conhecer do outro lado seria ela , te amo Brigitte♥

OscLord's Empire disse...

Ela era linda, muito parecida com uma mulher que amei muito, mas assim como a brigitte helm se foi pela eternidade o meu sonho romântico também se foi junto, sinto muito se não é o melhor comentário, mas a semelhança me atordoa, ela foi ícone e sua saída do cinema foi porque ela deve ter encontrado o que veio procurar aqui.