fevereiro 19, 2017

*************** MARÍLIA – TALENTO a TODA PROVA



A primeira vez que vi de pertinho MARÍLIA PÊRA (Rio de Janeiro, RJ. 1943 - 2015) ela se preparava para uma cena do filme “Tieta do Agreste”. O olhar da estrela mirava um tanque metálico cheio d’água no outro extremo da praça, e depois se perdeu no horizonte sem árvores. Com o roteiro entre os dedos, murmurava falas. Nos arredores, Zezé Motta, curiosos e a voz mansa de Carlos Diegues pedindo atenção. A atriz de pouco mais de 50 anos teve a difícil missão de encontrar um caminho próprio para a seca e algo cômica Perpétua, figura do universo amadiano, vivida na TV com talento e popularidade por Joana Fomm. Havia visto a atriz anteriormente em “Elas por Elas” (1989), um musical em que ela se desdobra em várias cantoras brasileiras; e, mais adiante, a conheceria nos bastidores de “Mademoiselle Chanel” (2004), trabalhando na produção do espetáculo em Salvador.

Caminhando entre técnicos e figurantes, insistindo para entrevistar Sonia Braga, eu passei os olhos por aquela expressividade magra, sentada, ausente, os dedos apertando o manuscrito. “Uma mulher inesquecível. Ela é uma sacerdotisa”, escrevi no bloco de notas. “Tieta” foi arrasado pela crítica, mas ela ganhou prêmios no Festival de Cinema de Cuba e na Associação Paulista de Críticos de Arte. O ano era 1995, e essa mulher magnética, famosa no teatro e na televisão, já tinha currículo dos bons no cinema: “O Rei da Noite”, “Bar Esperança, o Último que Fecha” (Hugo Carvana, 1982), “Anjos da Noite”, “Dias Melhores Virão” etc. Nos anos seguintes, atuaria em alguns bons filmes: “Jenipapo”, “Central do Brasil”, “O Viajante” (Paulo César Saracceni, 1998) etc. Sempre fulgurante.

Passados 22 anos, MARÍLIA PÊRA não está entre nós. Morreu em dezembro de 2015, vítima de câncer no pulmão. Deixou um legado de personagens inesquecíveis, como a prostituta Suely em “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, que simboliza muito bem o talento do cinema nacional. Uma figura de ficção que fez história. A atriz foi comparada à Anna Magnani. Levou prêmios internacionais, entre eles o de Melhor Atriz da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos Estados Unidos, chegando pertinho do míope tio Oscar. Em “O Viajante”, uma versão do romance inacabado de Lúcio Cardoso – notável escritor injustamente esquecido -, ela se destaca como uma madura viúva de pequena cidade do interior mineiro, apaixonada por um desconhecido ambíguo.

Ela é uma das maiores atrizes do Brasil, gigantesca no teatro, cinema e tevê. Antes dela, somente Cacilda Becker apropriou-se de tal comoção frente ao talento. Resplandecente, o universo artístico da carioca MARÍLIA PÊRA, filha de uma tradicional família de atores que trabalhava na Companhia Henriette Morineau, começou na infância, no palco. Entrou em cena pela primeira vez aos quatro anos de idade, em “Medéia”, a tragédia de Eurípedes. Trabalhou muito tempo como bailarina, fazendo parte do balé fixo da TV Tupi do Rio, dançando em programas como “Grande Teatro Tupi”, “Teatrinho Trol”, “Espetáculos Tonelux” e em revistas musicais como “De Cabral a JK” (1959). A primeira aparição em telenovelas foi em “Rosinha do Sobrado”, na Rede Globo, em 1965 e, em seguida, em “A Moreninha”.

francisco cuoco e marília
em “o cafona”
Anos 1980, época das densas minisséries “Quem Ama não Mata” (1982), de Euclides Marinho, direção de Daniel Filho, e “O Primo Basílio” (1988), lembrando Eça de Queiróz. Na década anterior, carimbou sua presença em clássicos da história da tevê brasileira: “Beto Rockfeller” (1968), “Super Plá” (1969), O Cafona” (1971), “Bandeira 2” (1971) e “Uma Rosa com Amor” (1972). Tempos de Joana Martini, Shirley Sexy, Noeli, Serafina Rosa. Voltou às telenovelas em 1987 na engraçada “Brega e Chique”. Ninguém resistiu ao escracho. Na pele de Rafaela, fez bastante sucesso. Anos depois, diria que essa foi a telenovela que mais gostou de fazer. Ela voltaria a interpretar Rafaela no remake “Ti-Ti-Ti” (2011), escrito por Maria Adelaide Amaral. Na minissérie “JK” (2006) fez a ex-primeira dama do Brasil Sarah Kubitschek.

Em plena ditadura, ela causou polêmica com espetáculos rebeldes do naipe de “Roda Viva” (1968), sendo espancada por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que invadiram o teatro onde a peça era encenada. Chegou a ser presa e obrigada a correr nua por um corredor polonês. Foi presa uma segunda vez, visto que era tida como comunista, quando policias invadiram a sua residência. Conquistou a crítica e o público definitivamente com o êxito de “Fala Baixo Senão Eu Grito” (1969). A abominável professora de “Apareceu a Margarida” (1973), de Roberto Athayde, rendeu o Prêmio Molière. Repetiu esse célebre espetáculo em 78, 94 e 95. 

Em 1987 encarnou Dalva de Oliveira em “A Estrela Dalva”; em 1996 foi a mitológica Maria Callas em “Master Class”, dirigida por Jorge Takla, e em 1998, com direção de Moacyr Góes, a nelsonrodriguiana prostituta Geni de “Toda Nudez Será Castigada”. Além disso, nos palcos interpretou Carmen Miranda em diversas ocasiões – “O Teu Cabelo não Nega” (1963), “A Pequena Notável” (1966), “A Tribute to Carmen Miranda” (1975), apresentada em Nova York, “A Pêra da Carmen” (1986 e 1995) e “Marília Pêra canta Carmen Miranda” (2005).

A expressividade mapeia o corpo enxuto e o rosto admirável de MARÍLIA PÊRA, tal qual uma Kay Kendall, uma Rosalind Russell, uma Arletty ou uma Marisa Paredes. Em “Brava Gente: A Cabine” (2002) sensibiliza Antonio Fagundes com um largo sorriso enamorado. Nessa história de amor, nada parece inverossímil ou excessivo, afinal a atriz desenha sua interpretação em gestos cúmplices. No chato “Dias Melhores Virão” rouba a cena como a dubladora Marialva. O mesmo aconteceu na enfadonha “Meu Bem Querer” (1998). A vilã Custódia supera sem máculas a telenovela, graças a reputação e habilidade da atriz. A Pupi de “O Rei da Noite” é outro momento seu de qualidade. Ela e Paulo José são a alma desta comédia à italiana. A atriz se conecta muito bem com Paulo José; e também com Marco Nanini. Há uma química perfeita entre eles. Foi maravilhoso vê-los em cena tantas vezes.

Em 2013, fez “Pé na Cova”, interpretando Darlene, uma suburbana maquiadora da funerária do ex-esposo Ruço (Miguel Falabella). Antes do seriado, a amizade com Miguel Falabella já havia rendido papéis no seriado “A Vida Alheia” (2010), no filme “Polaroides Urbanos” (2008), onde interpreta duas irmãs gêmeas, e na telenovela “Aquele Beijo” (2011), todos escritos por ele. No carnaval de 2015, ela foi homenageada pela Escola de Samba Mocidade Alegre, de São Paulo. Em agosto do mesmo ano, foi a grande homenageada do Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu o Troféu Oscarito. MARÍLIA PÊRA casou-se pela primeira vez aos dezessete anos, com o músico Paulo Graça Mello, morto num acidente de carro em 1969. Aos dezoito, foi mãe de Ricardo. Mais tarde, foi casada com o ator Paulo Villaça, seu parceiro em “Fala Baixo Senão Eu Grito”, e com Nelson Motta, com quem teve as filhas Esperança e Nina. Era casada, desde 1998, com o economista carioca Bruno Faria. 

Ela atuou em 26 filmes, desde a estreia como a ingênua Rosinha de “O Homem que Comprou o Mundo” (1968), de Eduardo Coutinho. Revelou-se uma presença soberana, uma das artistas mais completas do Brasil: além de interpretar, era cantora, bailarina, diretora, produtora e coreógrafa. Trabalhou em mais de 50 peças e cerca de 40 novelas, minisséries e programas de televisão. Entre os trabalhos favoritos na TV, no entanto, MARÍLIA PÊRA escolhia as minisséries: “O Primo Basílio” (1988), em que interpretou a vilã Juliana, e “Os Maias” (2001). Morreu aos 72 anos.

FILMOGRAFIA SELECIONADA
(por ordem de preferência)

01
PIXOTE: A LEI DO MAIS FRACO
(1981)

de Hector Babenco
com Fernando Ramos da Silva, Jardel Filho, 
Rubens de Falco, Elke Maravilha, 
Tony Tornado e Beatriz Segall

02
ANJOS DA NOITE
(1987)
de Wilson Barros
com Zezé Motta, Antônio Fagundes, Marco Nanini,
Chiquinho Brandão e Guilherme Leme

03
CENTRAL DO BRASIL
(1998)

de Walter Salles
com Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, 
Othon Bastos, Otávio Augusto 
e Matheus Nachtergaele

04
MIXED BLOOD
(1984)

de Paul Morrissey
com Richard Ulacia e Linda Kerridge

05
AMÉLIA
(2001)
de Ana Carolina
com Béatrice Agenin, Camila Amado,
Marcélia Cartaxo e Cristina Pereira

06
O REI DA NOITE
(1975)
de Hector Babenco
com Paulo José, Vick Militello, Cristina Pereira
e Yara Amaral

07
O VIAJANTE
(1998)
de Paulo César Saraceni
com Jairo Mattos, Leandra Leal 
e Paulo César Pereio

08
JENIPAPO
(1995)
de Monique Gardemberg
com Otávio Augusto, Patrick Bauchau, Júlia Lemmertz
e Ana Beatriz Nogueira

09
DIAS MELHORES VIRÃO
(1990)

de Carlos Diegues
com Paulo José, Zezé Motta, José Wilker
e Paulo César Pereio

10
TIETA DO AGRESTE
(1996)

de Carlos Diegues
com Sonia Braga, Chico Anysio, Cláudia Abreu,
Zezé Motta e Jece Valadão

GALERIA de FOTOS

 
 
 
 
 

20 comentários:

Zelci Rigatti disse...

Muito conpetente foi uma pena ela ter partido

Fran Lopes disse...

Os mitos não morrem,viajam,mas foi uma pena essa viagem em volta de Marília.Perdemos um dos maiores talentos sutis da televisão,teatro e cinema brasileiro!

Alice Dias disse...

Maravilhosa!

Nadia Junqueira disse...

Uma das maiores atrizes no nosso cinema, teatro e TV. Conheci Marília em "Apareceu a Margarida", na década de 1960, em São Paulo. Um "presente" bem no dia do professor (15/10).

Maria Regina Lima disse...

Insubstituível

Marília Menezes disse...

Grande estrela.

Eduardo Cabús disse...

O toque de ironia que ela imprimia em todas as personagens que ela interpretava era uma registro constante. Esse ,foi sem duvida o toque que diferenciava Marilia Pera das demais atrizes e atores.Nela sempre este presente o outro lado da personagem. Foi exatamente esse toque que fez dela a mais completa atriz brasileira. Marilia mostra a personagem em 3d.

Zezé Bezerra disse...

Saudades eternas!

Dolores Correia Vieira disse...

Grande atriz ! Saudades

Marina Martinelli disse...

Diva!

Zelci Rigatti disse...

Insubstituivel fas muita falta que esteja feliz onde estiver

Luduvice Jose disse...


Ah!!!!!!!!!! MARÍLIA. SEMPRE MARÍLIA!!!!!!!!!!!!!!!

Maria Regina Lima disse...

Insubstituível...estrela com brilho próprio e inesquecível!!!

Maria Jose Saffi Boso disse...

Foi otima ate o fim . Luz para ela , que que tantas alegrias e emocoes deu ao nosso povo.

Maria Jose Saffi Boso disse...

Foi otima ate o fim . Luz para ela , que que tantas alegrias e emocoes deu ao nosso povo.

Pedro Henrique de Brito disse...

Reinou soberana

Lue Portugal disse...

Amo! Eterna! Glamorosa! Que te conheceu, nunca te esquecerá. Grande Marília Pera!!!

AlphaSolangen Goncalves disse...

Que falta essa gde atriz nos faz!!!

Arthur Hoffmann disse...

Poucas no Brasil podem ser comparadas a Marília... Talvez Dina Sfat, talvez Renata Sorrah... Quem mais?!!

Lue Portugal disse...

Eterna!