setembro 06, 2014

************ A PODEROSA JOAN CRAWFORD


Uma das atrizes mais importantes e glamourosas de todos os tempos. Carreira de quase cinco décadas no cinema, teatro e televisão. A imagem que ela projeta na tela é a de mulher forte, decidida, topa qualquer parada. Não é apenas faz-de-conta. Na vida real, JOAN CRAWFORD (1904 - 1977) era assim. De temperamento facilmente irritável, capaz do melhor e do pior, rival eterna de Bette Davis, sua carreira foi polêmica e produtiva. Acusada de ir aos castings com produtores e cineastas vestida apenas com um casaco de peles, nada mais por baixo; e de rápida e fulgurante carreira na indústria pornô underground, ela estava longe de ser uma estrela comportada. 

Atriz de altíssimo nível, uma das melhores. Começou na época do mudo e foi das poucas atrizes que sobreviveu ao difícil teste do sonoro. Nasceu Lucille Le Seur, no Texas, filha de pais separados. Em 1925 chegou à Hollywood, assinando contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer e trocando seu nome por um de maior apelo ao público. Media 1'65 e lançaria a moda do uso de ombreiras. 


Na M-G-M atuou em inúmeros filmes ao longo dos 18 anos de contrato, integrando-se muito bem ao sistema do estúdio. Inicialmente tentaram extorquir dinheiro de Louis B. Mayer, alegando que tinham um filme pornográfico da atriz. A chantagem fracassou quando o estúdio garantiu que não era possível provar que a atriz em cena era JOAN CRAWFORD. O incidente consta em várias biografias da atriz. No início dos anos 1930, cansada da imagem de melindrosa, ela decidiu mudar. Queria lábios grossos. E o olhar passaria a ser sua marca registrada.

Durante esta década foi uma das mais populares estrelas da M-G-M, atuando em muitas ocasiões com Clark Gable. Eles fizeram oito filmes juntos, sempre provocando faíscas sensuais. Em 1932, no elenco de estrelas do mítico “Grande Hotel”, a atriz partiu para a guerra com a divina Greta Garbo, que reagiu e tentou substituí-la. Como vingança, Joan tocava bem alto os discos de Marlene Dietrich no seu camarim, apenas para Garbo ouvir.


Com a carreira sem grandes sucessos, caiu em desgraça, sendo considerada veneno de bilheteria. Logo foi contratada pela Warner Brothers, onde atuou em famosos melodramas. Graças à interpretação em “Almas em Suplício”, de Michael Curtiz, ganhou o Oscar que tanto sonhava, derrotando Ingrid Bergman, Gene Tierney, Jennifer Jones e Greer Garson. No filme, um drama noir, interpreta uma mulher de negócios, ambiciosa, que se sacrifica por uma filha que a rejeita. Concorreu a cinco prêmios da Academia. 

JOAN CRAWFORD seria ainda indicada duas vezes ao Oscar de Melhor Atriz: em 1947, por “Fogueira de Paixões”; e em 1952, por “Precipícios D'Alma”. Ela casou-se quatro vezes. Os três primeiros casamentos com atores: Douglas Fairbanks Jr., Franchot Tone e Philip Terry; o quarto, com o empresário Alfred Steele, maior acionista da Pepsi Cola e de quem ela ficou viúva em 1959, exercendo por vários anos o cargo de presidente do conselho da empresa. Apesar desses casamentos, afirmou em entrevista que o homem de sua vida foi Clark Gable, de quem foi amante por muitos anos. 

Ao se casar com Douglas Fairbanks Jr., filho de Douglas Fairbanks e enteado de Mary Pickford, considerados a realeza de Hollywood, ela não foi aprovada pela família e demorou um bom tempo para ser convidada a frequentar a mansão Pickfair. O charmoso Franchot Tone foi seu segundo marido. Os dois casaram-se em 1935 e ficaram juntos por quatro anos. Na década de 1960 retomaram a amizade e ele mudou-se para a casa da atriz, que cuidou dele até sua morte, em 1968, aos 63 anos.

joan e douglas fairbanks jr.
a mansão de joan
A estrela não teve filhos biológicos, adotando quatro, dois dos quais excluídos de seu testamento, Christina e Christopher. Quando Christina decidiu se tornar atriz, ela exigiu que a mesma mudasse seu sobrenome. Christine se negou. JOAN CRAWFORD teve problemas com a filha durante toda a vida. Após sua morte, em 1977, vítima de câncer, Christine publicou “Mamãezinha Querida / Mommie Dearest”, que se tornou best-seller. Descreve o comportamento abusivo da mãe. O livro deu origem ao filme de mesmo nome com Faye Dunaway no papel de Joan. 

A atriz gastava horas respondendo às cartas dos fãs, escrevendo-lhes e mandando autógrafos. Incentivava os filhos a participarem dessa atividade, além de doarem seus presentes para instituições de caridade. Eles lavavam as louças e faziam atividades domésticas. Segundo Joan, os filhos tinham que aprender que a vida não era nada fácil. Christina considera um abuso por parte da mãe, eles não tinham necessidade de fazer serviço doméstico, tinham muitos empregados.

Autoritária, complicada e sempre profissional, ela perdeu papéis importantes - em filmes de sucesso como “A Um Passo da Eternidade / From Here to Eternity” (1953), de Fred Zinnemann. Ao insistiu que seu figurino fosse desenhado por Sheila O'Brien, a Columbia a substituiu por Deborah Kerr.


Nessa altura, era notória sua rivalidade com Bette Davis. As duas ficaram imortalizadas por suas atuações nas telas  e desentendimentos fora delas. Elas nunca se gostaram, e apesar de terem muito em comum, viviam dando declarações de mau gosto sobre a outra. Bette, com experiência no teatro, costumava dizer que JOAN CRAWFORD, que tinha sido corista antes de atuar, não tinha talento e baseava sua carreira na beleza. Dor-de-cotovelo, a beleza não era o forte de Bette. A verdade é que ambas eram excelentes atrizes, cada uma à sua maneira. 

Davis sempre foi a mais linguaruda. De sua autoria são estas frases sobre a rival: “Eu sou tão boa em interpretar malvadas porque eu realmente não sou uma… é por isso que a Srta. Crawford sempre interpreta as boazinhas”;“Ela já dormiu com todos os astros da M-G-M, exceto a Lassie”. Em 1962, dividiram a tela. “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” se tornou um grande sucesso, marco histórico e verdadeira relíquia. Foi o último papel de destaque da atriz, embora continuasse atuando até 1972. 

Com o sucesso de “Baby Jane”, Robert Aldrich planejou uma sequência, novamente com as duas. Elas assinaram contratos e após poucos dias de filmagens, Joan passou mal e teve de ser internada. Quando souberam que ela não poderia voltar ao set, resolveram substituí-la. Nas fotos publicitárias, Bette fez questão de aparecer segurando uma Coca-Cola, irritando a rival, acionista da Pepsi. 

Em 10 de Maio de 1977, aos 73 anos, Joan faleceu. Bette declarou na ocasião: “Não se deve falar mal de quem já se foi, só se deve falar coisas boas, como: Que bom, Joan Crawford morreu!”. Essa rivalidade não era marketing para promover seus filmes, o ódio era recíproco. Permanece como uma das maiores adversidades da história do cinema.

Viciada em cigarros e bebida, JOAN CRAWFORD se afastou do cigarro e da bebida durante um bom tempo, ao praticar a Cientologia. Os vícios voltaram com força e ela chegava a tragar um litro de vodka por dia. Consequentemente, os problemas de saúde aumentaram. Ela tinha transtorno obsessivo compulsivo, lavava as mãos a cada 10 minutos e seguia os hóspedes em sua casa, limpando tudo o que tocavam, especialmente maçanetas e peças de porcelana. 

Nunca fumava um cigarro se não fosse ela mesma quem abrisse o pacote. Durante os últimos anos de vida voltou a trabalhar para a Pepsi-Cola, antes de se retirar definitivamente a Nova York, morrendo reclusa em casa, doente de câncer de pâncreas. Escreveu dois livros de memórias: “Um Retrato de Joan (1962) e “My Way of Life (1971). Sua força de vontade, bem como a incrível capacidade de se reinventar, encantava o público, especialmente as mulheres, vendo nela a encarnação da independência feminina.

ann blyth e joan em almas em suplício

OS 10 MELHORES FILMES DE JOAN
(por ordem de preferencia)

(01)
AS MULHERES
(The Women, 1939)
de George Cukor
(Metro-Goldwyn-Mayer)

 (02)
ACORDES DO CORAÇÃO
(Humoresque, 1946)
de Jean Negulesco
(Warner Bros.)

(03)
FOGUEIRA DA PAIXÃO
(Possessed, 1946)
de Curtis Bernhardt
(Warner Bros.)

(04)
ALMAS EM SUPLÍCIO
(Mildred Pierce, 1945)
de Michael Curtiz
(Warner Bros.)

(05)
FOLHAS MORTAS
(Autumn Leaves, 1956)
de Robert Aldrich
(William Goetz Productions)

(06)
O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?
(What Ever Happened To Baby Jane?, 1962)
de Robert Aldrich
(Warner Bros. / Seven Arts)

(07)
PRECIPÍCIOS D’ALMA
(Sudden Fear, 1952)
de David Miller
(Joseph Kaufman Productions) 

(08)
UM ROSTO DE MULHER
(A Woman’s Face, 1941)
de George Cukor
(Metro-Goldwyn-Mayer)

(09)
GRANDE HOTEL
(GRAND HOTEL, 1932)
de Edmund Goulding
(Metro-Goldwyn-Mayer)

(10)
PECADO DA CARNE
(Rain, 1932)
de Lewis Milestone
(United Artrists)


CONFISSÕES DE JOAN CRAWFORD

“Qualquer pessoa no mundo terá levado a sua bofetada. De qualquer maneira, seja dos homens ou do destino, ninguém confessará que a recebeu com prazer, mas, eu devo dizer que sinto uma profunda gratidão por todos aqueles que me esbofetearam. Deram-me ânimo para reagir em meu próprio proveito. Foram-me, grandemente, úteis. Ainda guardo – sem rancor – a lembrança da primeira vez que senti minhas faces vermelhas e todo meu corpo agitado por incrível ressentimento. Contava, então, meus nove anos. Estudava no convento-escola de Santa Agnes, em Kansas City, quando aconteceu que a minha mãe e o meu padrasto se separaram. Ela me explicou que, se quisesse continuar os estudos, teria que ganhar dinheiro para custeá-los. O fato não me preocupou de verdade. Não tinha medo do trabalho nem muita vontade de instruir-me, embora disso me tenha arrependido mais tarde, procurando remediar a minha negligência quando possível. Naquele momento, porém, a minha maior preocupação era ganhar com que viver. Empreguei-me como garçonete. Passei a servir mesas, lavar pratos e arrumar quartos. E durante um certo tempo continuei estudando. Mas, aconteceu que, aos poucos, as atitudes dos meus colegas em relação a mim se modificaram. Ao saberem qual era o meu trabalho, foram evitando a minha companhia. Senti-me desprezada e socialmente posta de lado. Naquele tempo isto significou para mim a primeira bofetada. Chorei muito, e acredito que tenha desejado morrer. Mas... quanto aprendi desta primeira amarga experiência! Admito que o caso influa até hoje na minha reserva quanto às novas amizades e na descrença em relação ao próximo. Mas, na época, após o impacto, senti uma grande vontade de trabalhar, para tornar-me alguém que pudesse ser cortejada, invejada e tivesse o direito de escolher os que mereciam o nome de verdadeiros amigos.


Minha infância foi passada quase na pobreza. Ainda bastante jovem, trabalhei em lojas de liquidação e nos corpos de coros de teatros, mas jamais pensei em ir para Hollywood, porque eu nunca tivera gosto para vestir-me. Como sentia inveja das estrelas de cinema, sempre com modelos tão bonitos e tão elegantes... O destino da gente já vem traçado, e apesar da minha falta de esperança, um dia achei-me em Hollywood. Tudo parecia um sonho. Nos velhos tempos de Hollywood, como tantas outras jovens, tinha papéis tão pequenos que mais pareciam trabalhos de extras. Uma vez reclamei ao assistente do produtor, perguntando-lhe o que deveria fazer para desenvolver minha carreira no cinema. “Que tem feito você mesma para melhorar sua aparência?”, perguntou-me ele. Senti-me esmagada. Foi talvez uma das bofetadas mais violentas que recebi. Estava certa de que o estúdio se sentia satisfeito comigo. Que estava errado comigo? Mas ele não tinha motivos para me ofender, e isto me desesperava. Fiz dieta e cheguei a perder nove quilos, ficando reduzida a 66. Pedi conselhos ao maquilador e ao cabeleireiro, e segui, fielmente, tudo que indicaram. Entreguei-me, também, aos figurinistas. Estava agora no caminho, tinha melhorado minha aparência, mas comecei a compreender também que precisava de mais instrução. Atirei-me ao estudo com todas as minhas energias. Pela primeira vez, descobri o valor da boa música e da literatura.


Estive com a Metro durante muitos anos e fiz vários filmes de sucesso, quando o estúdio anunciou a produção de “Uma Alma livre”. Queria ser a protagonista, mais do que em qualquer outro filme de minha carreira. Disso isso a Louis B. Mayer. “Joan, você é uma das nossas estrelas mais valiosas, porém, você ainda não tem a experiência necessária como atriz dramática para interpretar esse papel”, ele respondeu. Procurei sair do seu escritório antes que começasse a chorar, mas as lágrimas não esperaram até eu chegar em casa. Senti-me insultada como atriz. Hoje compreendo que foi uma das melhores bofetadas que recebi em minha carreira. Porque o meu trabalho fora, tão profundamente, ferido, que trabalhei, arduamente, em meus filmes subseqüentes. Percebo que, na verdade, não estava apta para o papel que foi dado à Norma Shearer. Mas a bofetada mais severa que senti, por certo, foi quando não fazia um filme havia dois anos, antes de interpretar “Almas em suplício”. Parte do tempo estive sob contrato... esperando. Outra parte passei sentada por minha própria conta, pois, voluntariamente, deixara de receber o salário, para aguardar uma boa história. Durante aqueles dias desanimadores, aprendi o valor da humildade e da gratidão, e a rezar com mais fervor.


A minha vida particular é só minha, e tenho aprendido muito à minha custa, ou melhor, à custa das bofetadas que tenho levado. Mas, graças a Deus, sou feliz, porque sem pai e sem mãe para me guiar, lágrimas e reflexões não me faltaram após cada látego, para me ensinar a lutar e a alcançar o que desejo.”

(Fonte: “O Cruzeiro”, agosto de 1955)

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18 comentários:

Paulo Caires disse...

Magnífico. Só não posso concordar com uma lista dos melhores filmes de Joan Crawford que não conste "A história de Esther Costello", "Flamingo Road" e "Os desgraçados não choram".

Janice Adja disse...

Cada qual com seus problemas e transtornos. Vejo que a vida é cruel para todos.
Beijos!!

Fábio Franco disse...

Joan Crawford foi uma boa atriz,toda a oportunidade que surgiu ela pegou com as duas mãos.
Seus olhos azuis reluzentes sedutores e enigmáticos,seduziu muitos diretores e atores no tempo de ouro do cinema.

Pena que ele teve uma vida com complicada com os filhos.

E valeu por ter voltado ao antigo ofalcaomates.blogspot.com.br.

Eddie Lancaster disse...

...MAIS UMA VEZ PARABÉNS NAHUD POR ESTA GRANDE POSTAGEM CONCERNENTE A GRANDE ESTRELA JOAN CRAWFORD, NÃO ME IMPORTANDO, É CLARO, COM AQUILO QUE ELA FEZ OU NÃO FEZ FORA DAS TELAS.
NOS DEZ MAIS, PODERIA TER CONSTADO O GRANDE WESTERN JOHNNY GUITAR DE NICHOLAS RAY!

Eddie Lancaster disse...

...MAIS UMA VEZ PARABÉNS NAHUD POR ESTA GRANDE POSTAGEM CONCERNENTE A GRANDE ESTRELA JOAN CRAWFORD, NÃO ME IMPORTANDO, É CLARO, COM AQUILO QUE ELA FEZ OU NÃO FEZ FORA DAS TELAS.
NOS DEZ MAIS, PODERIA TER CONSTADO O GRANDE WESTERN JOHNNY GUITAR DE NICHOLAS RAY!

Carlos Teixeira disse...

Linda!!!

Dimas Oliveira Júnior disse...

Maravilha

Cybele Nascimento disse...

Diva!

Fernando Sobrinho disse...

Fantástica ! Sou fã dela !

Theo Cschafke disse...

Vi quase todos seus filmes! ela era imbativel e com a outra eram terriveis!

CARLA MARINHO disse...

Maravilhosa demais!

Chico Lopes disse...

Do pouco que conheci dela, gostei. Figura muito marcante, bigger than life, perfeita pro cinema.

Sibely Vieira Cooper disse...

Jóia rara... Amo.

Eliene Medeiros disse...

Lindissíma, e muito expressiva. Fatalmente bella...!!!!

Rafael Saffiotti disse...

Minha "avó artística" hoje e sempre

Paulo Caires disse...

quem concorda com a lista dos melhores filmes apresentados lá ? não constam "flamingo road", "Os desgraçados não choram" e nem "Esther Costello", 3 dos meus preferidos

Angelo Proença disse...

espetáculo de sangue é ótimo,o meu favorito!

Jô Barreto disse...

era uma mulher livre!