agosto 11, 2011

*********** UMA FILMAGEM À FLOR DA PELE


clark gable e marylin monroe
Por trás de uma história sobre cavalos selvagens, o poético OS DESAJUSTADOS/The Misfits (1960) fala sobre liberdade e mudança de costumes. Com excelente roteiro do dramaturgo Arthur Miller – vencedor do Prêmio Pulitzer - e notável realização de John Huston, conta ainda com uma extraordinária coincidência de talentos como protagonistas: Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift. Mas nos bastidores da rodagem sobraram problemas procedentes tanto dos árduos cenários escolhidos por Huston quanto das circunstâncias pessoais de seus intérpretes. De contorno dramático, regiam os caprichos, crises e doenças da deusa loura; o colapso físico e psicológico de Clift, numa evidente decadência reforçada por álcool e drogas; e o esforço bruto pouco recomendado para um ator veterano como Gable, conhecido como o “Rei de Hollywood”. Além disso, o calor e a poeira do deserto Black Rock, em Nevada, eram insuportáveis, numa condição bastante incomum para estrelas de primeira grandeza.


Arthur Miller e Marilyn eram casados, mas se divorciaram em plena filmagem. Ele havia escrito o roteiro depois que sua mulher sofreu um aborto em 1957 - que a impediria de ficar grávida novamente - e para que pudesse provar aos chefões dos estúdios o talento dramático dela. A questão é que Marilyn estava completamente alucinada e causou muitas dificuldades. Sempre chegava tarde, o que não era nada divertido para os demais, e o filme se arrastava, estourando o orçamento. "Ela tomava remédios para dormir e para despertar de manhã... Parecia estar desnorteada na maior parte do tempo. Mas quando era ela mesma, podia ser maravilhosamente competente. Não estava atuando, não simulava as emoções, era algo real", disse Huston.


O argumento fala de uma divorciada desiludida, Roslyn Tabor (Marilyn Monroe), que fica amiga de um caubói envelhecido (Clark Gable), um mecânico de coração partido (Elli Wallach) e um cansado cavaleiro de rodeios (Montgomery Clift). Apesar do estilo de vida imediatista, Roslyn experimenta pela primeira vez a liberdade, animação e paixão. No entanto, seu inocente idealismo entra em choque com o realismo cínico do grupo. Traduzindo visualmente essa história, John Huston já era na ocasião um profissional que tinha no currículo algumas das produções mais importantes da história do cinema. Com experiência e capacidade, retirou do elenco desempenhos à flor da pele. Os personagens de Monroe, Clift e Gable são, cada um ao seu modo, retratos dos próprios atores. Todos eles estavam no seu momento final. Monroe morreria em 1962, de overdose, depois de usar e abusar de tranquilizantes misturados com álcool. Clift não conseguiu superar seu processo de autodestruição e morreu de ataque cardíaco, em 1966, aos 45 anos. Gable partiria no final de 1960, também de enfarto, três dias depois de encerradas as filmagens. Durante o trabalho, ele dava sinais de cansaço, e seu  sorriso de galã, algumas vezes, era quase uma caricatura de si mesmo. Juntando a própria narrativa e o drama pessoal dos atores envolvidos, OS DESAJUSTADOS ficou marcado como um filme melancólico, ao mesmo tempo em que apresenta um realismo cru, selvagem, em que os horizontes do deserto de Nevada não significam mais caminhos abertos, e sim a solidão inevitável de todos os seres humanos frente a um mundo que transformavam e civilizam, mas não compreendem. 

clift, monroe e gable

Aos 59 anos, vindo da comédia "Começou em Nápoles/It Starded in Naples" (1960), Clark Gable esforçava-se para manter a imagem viril que perdurava desde a primeira metade dos anos 30. Quando convidado para o papel do durão ex-cowboy Gay Langland, não pensou duas vezes, incentivado também pelo salário de 750 mil dólares e uma percentagem nas rendas. O contrato estipulava que, caso as filmagens excedessem as 16 semanas previstas, ele receberia um adicional de 48 mil dólares por semana de trabalho. Com os problemas causados por Marilyn, o filme se atrasou tanto que Gable ganhou um milhão e 250 mil dólares. Exultante, chegou a dizer que OS DESAJUSTADOS era seu melhor filme desde "...E o Vento Levou/Gone with the Wind" (1939). Parecia que interpretava a si mesmo, tal a similaridade entre a trama e sua própria natureza. Empenhou-se ao máximo, recusando dublês para as cenas finais, onde doma um cavalo selvagem, sendo arrastado por ele durante muito tempo. Essas cenas arriscadas e extenuantes provocaram sua morte precoce. Profeticamente, há um momento no filme em que diz para Marilyn/Roslyn: "Querida, todos nós haveremos de morrer um dia, queiramos ou não. Morrer é tão natural como viver. Quem tem medo de morrer, tem medo de viver". O longa não foi um sucesso comercial no lançamento, mas os críticos elogiaram o roteiro e a interpretação do trio de astros. Nove famosos fotógrafos (Henri Cartier-Bresson, Cornell Capa, Eve Arnold, Ernst Hass, Bruce Davidson, Erich Hartmann, Dennis Stock, Elliott Erwitt e Inge Morath) registraram de forma pudica ou indiscreta, fria ou apaixonada, tudo o que ocorreu nos sets, resultando em imagens fantásticas que correram (e correm) o mundo. Fotografias capazes de expressar o abalo emocional de atores que transferiram para seus personagens todo o peso existencial que os afligia na época da rodagem.


gable, huston, monroe, clift, wallach, 
miller e russell metty
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O QUE ESTÁ FAZENDO

EDSON SOARES

O cineasta potiguar Edson Soares deu início às filmagens do drama de época "Nova Amsterdam - Terra do Sol Banhada de Sangue", que narra violentos episódios da história do Rio Grande do Norte, os massacres ocorridos em Cunhaú e Uruaçu, duas comunidades rurais da Capitania do Rio Grande, no século XVI, durante a dominação holandesa no Brasil. Baseado em fatos reais, entre a ficção e o documentário, as primeiras cenas foram filmadas no mês passado, às margens do rio Potengi, em Natal, e seguem até outubro. No elenco, a atriz paraibana Marcélia Cartaxo, famosa pela Macabéa de "A Hora da Estrela" (1985), baseado em romance de Clarice Lispector, que lhe rendeu vários prêmios, inclusive o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim. Além de atuar no filme, a atriz ministrou uma oficina de interpretação para os atores locais. Ela fará a tia da protagonista. Também já foram confirmados para compor o elenco, Alcione Mazzeo, os belgas Hervé Joseph Degoux e Isaac Frankental, o alemão Frank Duesberg, o argentino David Medvedovsky, além dos artistas potiguares Titina Medeiros, Iury Valcárcio, Yuri Magalhães, Abel Araújo, Giovanny MacGregory, Rosinaldo Luna, Giovanna Araújo e Enio Ewerton. O protagonista será interpretado pelo ator natalense Daniel Jesus, enquanto a atriz para o papel da mocinha ainda será selecionada por meio de testes. O enredo narra a história de Bernarda e Rafael, jovens apaixonados e dispostos a enfrentar um período de disputas por terras, honra, poder e fé. “Ela é filha única de um casal de colonos portugueses. Ele é o filho do capataz de um engenho conhecido por Ferreiro Torto. No confronto sangrento entre índios tapuios e potiguares, holandeses protestantes e portugueses católicos, explode a paixão deles. Tentando sobreviver em meio ao derramamento de sangue, os dois jovens presenciam os acontecimentos históricos que marcariam o período da ocupação holandesa no Rio Grande do Norte”, explica o diretor. Com uma produção de baixo orçamento e rodado em 35mm, o filme terá como locações o fabuloso Forte dos Reis Magos, em Natal, e os municípios de Macaíba, São Gonçalo do Amarante, Canguaretama e Goianinha, onde foi montada uma cidade cenográfica. O título, “Nova Amsterdam”, vem do nome da cidade do Natal durante o período da colonização holandesa. Produzido pela Engady Cine Vídeo, tem roteiro e direção de Edson Gomes, cujo primeiro projeto cinematográfico foi “Caldeirão do Diabo” (2004), rodado na então Penitenciária João Chaves e contando a história verídica de três assassinos. Ele também dirigiu dois curtas em 2005, “Rosário do Seridó” e “Sangue Suor e Lágrimas”.

31 comentários:

As Tertulías disse...

Oba... sou o primeiro desta vez?

Querido Antonio,
maravilha de postagem - como sempre! O interessante é que "Os desajustados" realmente NAO pertence à lista dos meus favoritos... e voce me deu vontade de reve-lo. Sim, reve-lo com outros olhos... mais pacientemente, com mais "olhos abertos" para certos detalhes! Voce é um... Danado! :-) Sabia????
Obriogado por este presente: vou rever no fim-de-semana e depois conto aqui o que vi (pois agora estou certo que vou ver algumas coisas pela primeira vez!)
Abracao
Ricardo

Gilberto Carlos disse...

Adoro Montgomery Clift e Marilyn Monroe, mas infelizmente ainda não assisti a esse clássico. Tenho que corrigir essa falha logo. Abraços...

alan raspante disse...

Grane filme! Assisti esses dias e fiquei impressionado com a grandiosidade. Um filme muito bonito, simples e poético!

Marcelo C,M disse...

Sinceramente não vi esse filme ainda, mas pelas cenas, da para ver que foi o melhor desempenho de Marilyn Monroe, que nunca achei uma atriz muito versatil.

Mais uma caçada para achar esse filme.

Hugo disse...

Este é um clássico que ainda não assisti.

Uma falha que preciso corrigir.

Abraço

Sergio Andrade disse...

Adoro esse filme. Como quase tudo que o Huston fez, aliás.

pinguim disse...

Sou da opinião do Ricardo: não sou fã de "Os Inadaptados"; ficou muito marcado pela sua maldição...

linezinha disse...

adoro o filme! melancólico,belo,poético e real,além da excelente atuação do trio principal destaco a do Wallach que tb estava ótimo.

Faroeste disse...

Mesmo Os Desajustados não sendo um filme tão maldito quanto Sangue de Barbaros, ele não deixa de ser um filme com marcas. Mesmo os falecimentos tendo se dado distantes um do outro (tres dias, um ano e cinco anos respectivamente), aquele esforço que Gable faz no filme foi inadequado para sua idade. Estava visível que tudo aquilo lhe iria trazer este ou aquele problema. Infelizmente, lhe trouxe o pior.
Porém, trata-se de uma obra imperdivel, por todo o seu conteudo, principalmente as interpretações.
jurandir_lima@bol.com.br

Edivaldo Martins disse...

APESAR DE TODOS OS PROBLEMAS, TRATA-SE DE UM GRANDE FILME. Eu sempre que posso faço uma ardilosa brincadeira com os amigos fazendo a seguinte pergunta: QUAL O FILME QUE CLARK GABLE FAZ O PAPEL DE GAY?É claro, trata-se de uma pergunta capciosa e mesmo para quem é cinéfilo a pergunta é muito dificil. No Texto do Nahud está a resposta...

Pedro Ferreira de Freitas disse...

A familia de Gable culpa Huston pela morte do ator, motivada pelas condições a que foi submetido durante as filmagens. Outro problema nas filmagens foram as reclamaçoes de que a Sra Monroe não tomava banho com a frequencia desejada. Li isso!

EDSON SOARES disse...

OI ANTONIO JÚNIOR.

MUITO OBRIGADO PELA DIVULGAÇÃO.

QUALQUER INFORMAÇÃO, PODE LIGAR PRA MIM.

PARABÉNS PELO BLOG!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

É um bom filme, Ricardo (Tertúlias). Com fotografia magnífica, belas atuações e todo o contexto maldito que o envolve.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Marcelo, a Marilyn é simplesmente Marilyn em OS DESAJUSTADOS. A Marilyn real, sofrida, angustiada, perdida... Acho que a sua melhor interpretação foi a Cherie de NUNCA FUI SANTA.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Sabia da falta de higiene da minha musa, Pedro, mas não do rancor da família de Gable. O que eu li é que o ator fez as cenas arriscadas por pura teimosia.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Por nada, Edson. Boa sorte para o seu filme.

disse...

Mais uma prova de que algumas histórias de bastidores são tão ou mais fascinantes que o roteiro do filme que está sendo rodado.

Jamil disse...

Concordo com o comentário acima. Esse filme é deprimente: a Marilyn tá gorda e meio desequilibrada; o Clift dá pena - nem de longe lembra o talento e a beleza de Um Lugar ao Sol; e o Gable exibe uma fadiga visível. O filme parece vingança de um intelectual, de um homem de teatro (ou seja, Arthur Miller), arruinando a imagem de estrelas que amamos.

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Antonio!

Esse filme é impressionante e sua resenha faz jus à qualidade dele. É espantoso como, neste caso, a ficção imita a realidade. Ver Marilyn tão bem como atriz dramática neste que é o último filme de sua carreira sempre me faz lamentar por ela ter partido tão cedo. Porém, não acredito que ela (ou Monty e Gable) seriam capazes de dar essa entonação dramática caso não estivessem enfrentando dramas análogos. E trágico, mas ao mesmo tempo deixa patente o paradoxo do cinema, mundo de faz-de-conta que às vezes se entranha demais na realidade, acabando por defini-la e fazê-la novamente alimentar a arte.

Bjs e parabéns pelo post. A propósito, você teria mais dessas fotos da produção do filme? As duas que escolheu são ótimas.
Dani

.C de Cinema disse...

Grande filme, que não vejo há alguns anos. É um Huston legítimo: aventureiro, mas desencantado.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Tenho outras imagens, Dani.
Abraços,

GIANCARLO TOZZI disse...

É uma junção muito louca. Três protagonistas com estilo de interpretação completamente diferente um do outro, e não é que deu certo? Antonio, você se esqueceu de outros grandes que estão no filme: Thelma Ritter, Eli Wallach e Estelle Winwood.

GIANCARLO TOZZI disse...

Vi parte desse "Caldeirão do Diabo". O filme não é ruim, é péssimo, totalmente amador. Como é que esse cara com esse passado tem coragem de filmar um épico histórico? Já tô vendo tudo. Vai ser um carnaval.

M. disse...

Oi Antonio,

Adorei saber estas curiosidades, que todos se foram tão rápido! Só restou a obra. Abraços!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Realmente, Giancarlo, todos os três são grandes e se destacam neste filme. Mesmo a pequena participação de Winwood é bastante especial. Porém, a idéia do texto é falar dos problemas físicos e emocionais dos três protagonistas.
Abração,

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Não vi CALDEIRÃO DO DIABO, Giancarlo, portanto não posso fazer qualquer julgamento. Mas alguns bons diretores tiveram estréias decepcionantes.

Daniele Moura disse...

Antonio,
gostaria de te parabenizar pelo artigo, muito bem escrito!
Conheço bem a história do backstage de Os Desajustados, graças aos vários livros que já li sobre Marilyn. O que eu posso te dizer é que pra mim o único filme em que Gable realmente atuou foi esse. Ele construiu um personagem nesta produção, diferente de seus tantos outros filmes onde ele era sempre o mesmo: o mesmo olhar cínico para as mulheres, as mesmas reações de raiva e os outros inúmeros estados de emoção que ele sempre repetia. Me desculpem os fãs de Gable, mas isso é o que penso. Também gosto dele, de seus filmes, trajetória em Hollywood, mas sobre a atuação de Gable, eis uma coisa a qual não pude fechar os olhos. Por que, em tantos anos de carreira, ele não fez o mesmo esforço como fez com este personagem e batalhou para deixar de ser visto como o "rei de Hollywood" e ser visto hoje como , de repente um grande ator? Assistindo ao filme, concluímos que ele poderia, sim. Não se arriscar sem dublês, é claro, mas a carga dramática em que teve no filme de John Houston é fora de série e ele poderia ter trabalhado isso antes. Mas ele mesmo dizia que não se considerava um ator e sim um astro.
Abraços
Dani

Marta Scarpa disse...

não gostei desse filme, percebe-se claramente o pano de fundo angustiado e real. o sorriso de marilyn aqui é a coisa mais triste do mundo, coitadinha.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Sei que muita gente vai se irritar com a gente, Daniela, mas é isso mesmo, concordo com você, atores como Gable - que por sinal gosto muito - assumiam uma máscara, uma pose única, um tipo imutável...Ele nunca arriscava.

Rubi disse...

Adoro esse filme e já perdi as contas de quantas vezes o assisti.
Gable e Monroe estão simplesmente fantásticos; embora eu seja suspeita pra falar hahaha.

annastesia disse...

Quarteto fantástico: Marilyn, Gable, Monty e Huston. Um filme muito triste, mas belo.