janeiro 26, 2011

***** O ITALIANO "VINCERE" É O MELHOR DO ANO!



Finalmente terminei minha lista dos MELHORES FILMES lançados nos cinemas brasileiros em 2010. Foi uma tarefa árdua, não pela imensidão de excelentes obras, muito pelo contrário, mas pela dificuldade de encontrar dez deles convincentes e capazes de figurar numa lista dos melhores do ano. Ainda mais porque as coqueluches do momento não raro se revelam atraentes, superficiais e esquecíveis, caso do arrasa-quarteirão “A Rede Social” ou da comédia previsível “Minhas Mães e Meus Pais” (sustentada principalmente no talento de Annette Bening).

No ano passado, o lendário Clint Eastwood decepcionou com “Invictus”, Polanski não surpreendeu com o sem fôlego “O Escritor Fantasma” e Woody Allen não trouxe nada de novo com “Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos” e “Tudo Pode Acontecer”. Como cinéfilo, compreendo que um novo filme de Allen é sempre um privilégio e que ele se reinventa no mesmo, mas desde o charmoso e tenso “Match Point – Ponto Final”, um thriller de 2005 com a abominável Scarlett Johansson como protagonista, que não me encanto com nenhum filme de sua lavra.

"Toy Story 3" e "Tropa de Elite 2", dois grandes sucessos de bilheterias, são ousados, bem feitinhos e merecem ser vistos – ficando por aí. “A Estrada” despontou como um título cheio de possibilidades, mas é por demais pesado, sombrio. O evidente é que 2010 foi um ano fraco para o cinema. Ainda assim, fiz um balanço do que foi visto nos cinemas brasileiros, concluindo que cada vez menos se pode confiar no julgamento dos críticos, que inclusive têm errado terrivelmente ao premiar banalidades. E o pior, muitas vezes são seguidos pelo público nesses equívocos.

Sem mais, vamos à lista, em ordem de mérito:

(01)
VINCERE (idem), Itália/França, de Marco Bellocchio

Entre o melodrama e o épico histórico, a reconstrução da juventude do sórdido líder fascista Benito Mussolini (Felippo Timi). A história, revelada em livro há pouco tempo, destaca a primeira mulher (Giovanna Mezzogiorno) do futuro ditador. Rejeitada pelo marido quando ele alcança o poder, passa a persegui-lo e ele termina por interná-la num sanatório. O politizado Bellocchio reafirma sua vitalidade, enquanto Mezzogiorno – atualmente a melhor atriz do cinema italiano - nos brinda com uma poderosa performance.


(02)
A ILHA DO MEDO (Shutter Island), EUA, de Martin Scorsese

Desconforto e apreensão numa fantástica aula de cinema. Dois delegados federais chegam até uma prisão isolada numa ilha, que funciona como sanatório para doentes mentais, atrás de um fugitivo que teria escapado do lugar. Suspense sombrio com um elenco impecável, reforçando o cinema grandioso, versátil e inesgotável do mestre Scorsese.


(03)
A FITA BRANCA (Das Weisse Band), Alemanha/Áustria/França/Itália, de Michael Haneke


Palma de Ouro no Festival de Cannes, austero e insólito, reflete sobre as origens do nazismo numa sociedade rígida, preconceituosa e extremamente rigorosa nos seus códigos educacionais. A ação se passa pouco antes da Primeira Guerra Mundial, numa aldeia alemã protestante, onde crianças e adolescentes são vítimas de estranhos incidentes que tomam a forma de um ritual punitivo. Destaque para a fotografia claustrofóbica em preto e branco de Christian Beger.


(04)
BAARIA – A PORTA DO VENTO (Baaria), Itália/França, de Giuseppe Tornatore


Saga poética e nostálgica, embalada pela bonita trilha de Ennio Morricone, onde Tornatore recorda-se da juventude numa região siciliana, através do acompanhamento de seu personagem alter-ego desde os anos 30. Resulta em um painel admirável sobre quatro décadas da história italiana.


(05)
UM HOMEM SÉRIO (A Serious Man), EUA/Inglaterra/França, de Ethan e Joel Coen


Uma história em que o tom cômico anda de mãos dadas com a gravidade. Densos e espirituosos, céticos e cinicos, os irmãos Coen mais uma vez traduzem a crise do homem comum, da família e da própria nação norte-americana. Como sempre, sem qualquer tipo de pregação ou conclusão moral. Sobra talento.


(06)
EDUCAÇÃO (An Education), Inglaterra/EUA, de Lone Scherfig

Com roteiro firme do escritor inglês Nick Hornby e atuação certeira da novata Carey Mulligan, o filme é cativante, exaltando o charme da Inglaterra da década de 1960. Conta como uma estudante brilhante, que tem pressa de viver a vida adulta, conhece um homem elegante e mais velho, modificando irresponsavelmente o seu cotidiano.


(07)
DIREITO DE AMAR (A Single Man), EUA, de Tom Ford


O título nacional estúpido felizmente não compromete este longa elegante e delicado, baseado em um romance do ótimo e esquecido britânico Christopher Isherwood, que causou polêmica ao ser lançado, em 1964. Tudo acontece num dia de um professor universitário, homossexual, que se vê no limite da sua vida ao digerir a recente morte do companheiro, com quem viveu por 16 anos. Colin Firth brinda o público com uma comovente atuação.


(08)
A ORIGEM (Inception), EUA/Inglaterra, de Christopher Nolan

O inglês Nolan acerta outra vez nesta inovadora criação sobre como viajar no cérebro das pessoas para inserir sonhos ou capturá-los. Com um elenco de peso, tendo o excelente Leonardo DiCaprio como pilar, une entretenimento e reflexão. Um pouco confuso, é certo, mas plenamente vigoroso.


(09)
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de sus Ojos), Argentina/Espanha, de Juan José Campanella

O filme mais visto desde sempre no seu país de origem, conquistou o Oscar de Melhor Produção Estrangeira. Romântico e político, esse suspense policial reafirma o talento do novo cinema argentino. Fala de um ex-funcionário público que resolve escrever um livro quando se aposenta. O tema que ele escolhe para o seu livro é um caso criminal que mais marcou a sua carreira. Carismática presença em cena de Ricardo Darín e sensível direção de Campanella.


(10)
O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS (The Imaginarium of Doctor Parnassus), Inglaterra/Canadá/França, de Terry Gilliam

Surrealismo e deslumbre visual nesta delirante epopéia cinematográfica. Filme-sonho, de devaneios sinistros, uma viagem ao criativo subconsciente de seu criador Terry Gilliam, marcado pelo refinamento e humor ácido, e contrariando a lógica do cinema atual.

MENÇÃO HONROSA: “Minha Terra África” (White Material), França/Camarões, de Claire Denis

Praticamente desconhecida no Brasil, a cineasta Claire Denis trata aqui dos fantasmas da colonização francesa em um país africano, onde uma fazendeira branca (soberba Isabelle Huppert) labuta para colher café em meio a uma guerra civil que ameaça dizimar sua família. Nada didático ou panfletário, já que o cinema da autora está mais interessado em transmitir uma experiência do que em explicar uma realidade.


PRÊMIO ESPECIAL: “A Suprema Felicidade”, Brasil, de Arnaldo Jabor

O retorno de Jabor quase trinta anos depois de “Eu Sei Que Vou Te Amar” foi massacrado pela crítica. Concordo que não é uma obra-prima, mas o resultado é significativo e valorizado pela interpretação sensacional de Marco Nanini. Nostálgico, inquieto e fragmentado, narra de forma não linear a infância e adolescência no Rio de Janeiro de um personagem de classe média. Fique de olho na belíssima fotografia de Lauro Escorel.

felippo timi e giovanna mezzogiorno em "vincere"

21 comentários:

Raildon Lucena disse...

Boa lista! Ainda não tive a oportunidade de ver Vincere, mas já ouvi falar bastante desse filme. Parabéns pelo blog!

Danielle disse...

Também adorei a lista! Concordo com o pódio de Vincere, que é um escândalo de bom. Desses apenas não vi "A fita branca", que perdi no cinema. Gostei muito dos demais que você apontou, com exceção de Baária, que, sinceramente, não entendi, portanto eximo-me de fazer qualquer julgamento crítico sobre ele. O último visto foi White Material. Também não conhecia a diretora, mas fui seduzida pela linguagem do filme. E que atuação a de Isabelle Hupert, não?

Bjs, Antonio, e até logo!
Dani

Marcelo C,M disse...

Que coias, de todos da sua lista, só faltou para me assistir Vincere, mas não foi por falta de querer. Ele foi exibido em poucas salas em Porto Alegre e muito distante em horarios inapropiados. Havia ganhado uma promoção para assistir a dois filmes de graça no festival do cine Borbon, mas acabei assistindo na epoca Reflexões de Um Liquidificador.

Espero eu ver logo esse filme nas locadoras.

JAMIL J. LANDIM disse...

A sua lista é quase perfeita. Não gosto de “Baaria” e “A suprema felicidade”. Sempre tive certa antipatia pelo cinema de Jabor e Tornatore. Jabor fala demais, mistura diversos gêneros em um mesmo filme e termina se perdendo. Tornatore é meloso, apelativo.

“A rede social” tecnicamente é uma maravilha, visualmente bonito, mas tenho certeza que não resistirá à prova do tempo. É um sucesso passageiro.

Kleber Godoy disse...

Olá, rapazz...

Obrigado por passar em nosso espaço. Gostei muito daqui também.

Esta lista, interessante... mistura filmes de 2010 e de 2009, sendo que entendi que foram as estréias de 2010 no Brasil...

Me deu uma vontade louca de rever Direito de Amar...

Voltaremos sempre aqui... e ficamos
abertos às suas visitas em nosso espaço também...

Abraços... e até breve...

Daniel disse...

Parabéns, merecidamente, o blog está cada vez melhor.
Gostei do filme "A Origem" figurar na sua lista de melhores de 2010, os críticos parecem que não gostaram muito do longa.

Daniel

NEUZAMARIA KERNER disse...

AMADO, SERÁ QUE ESSA SELEÇÃO DOS MELHORES DE 2010 JÁ TEM EM LOCADORA?

BEIJINHOS E SEU BLOG ESTÁ CADA VEZ MAIS 10

Neuzamaria Kerner

www.neuzamariakerner.blogspot.com

Por que você faz poema? disse...

A suprema felicidade e A Ilha do medo jamais entrariam na minha lista, o primeiro é péssimo (principalmente o elenco) e o segundo é um suspense onde o "mistério" fica evidente antes do meio da sessão. Entraria na lista, ao menos a minha: Tropa 2, O Profeta, Pecado da Carne e Um Doce Olhar.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Kleber, realmente alguns filmes são de 2009 (Educação e O Segredo dos Seus Olhos, por exemplo), mas foram exibidos no Brasil em 2010.
Abraços e grato pelo comentário.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Por que vc faz poema?, não vi "O Profeta", "Pecado da Carne" ou "Um Doce Olhar". Só listei filmes que assisti. Também acho "A Suprema Felicidade" um filme mediano - daí o Prêmio Especial -, mas foi um acontecimento, pois representou a volta de Jabor. Já "A Ilha do Medo" acho uma maravilha. Claro que no meio do filme já se sabe do mistério, mas o que importa? Nunca veja qualquer filme de olho no the end.

Abração

Giancarlo disse...

Encontrei o seu blog através da indicação de um amigo também cinéfilo. É de tirar o chapéu. Tô besta.

O meu filme do ano é A Fita Branca. Já O Segredo dos Seus Olhos achei uma bobagen, muito meloso.

inha bastos disse...

Otimas indicações,alguns ja vi outros não,como A FITA BRANCA por ex,e o de Jabor irei ver em breve...Seu Blog é muito bom,parabéns!

gabriel disse...

Ótima lista, concordo em boa parte. Deles, ainda não vi Vincere, A Fita Branca e Um Homem Sério, mas com certeza vou ver, o primeiro pela temática que vem me surpreendendo e os outros dois tanto pela história quanto pelos diretores. Não conhecia o Minha Terra África, mas Isabelle Huppert é sempre uma pedida excepcional.
Abraços.

Fabiane Bastos disse...

Não curto muito seleções de 10+, gosto e interpretação são coisas muito pessoais e relativas.

Na verdade, a melhor coisa nesse tipo de lista, é aproveitar as sugestões de outros amantes do cinema.

O que chamou minha atenção, são os títulos em si. Sinta-se um privilegiado por assisti-los em seu ano de lançameneto. Para a maioria dos brasieliros, mesmo em DVD, a maioria dos títulos são quase inacessíveis.

Paulette disse...

É vc que cria esses textos maravilhosos?

Kley disse...

Meu favorito de 2010 é A Origem. Nolan tem surpreendido a cada trabalho que faz.

Alvaro disse...

Siempre es dificil hacer las listas de las mejores del año.

Saludos.

Leandro Afonso Guimarães disse...

Para mim maior ausência é O ESCRITOR FANTASMA, que consegui ver duas vezes no cinema (nas três semanas espaçadas que ficou em Salvador, pelo que me lembro). Na primeira, em meio à elegância quase hipnótica de Polanski, saí em êxtase contido. Na segunda, tanto roteiro como resultado final pareceram ainda melhores.

Com relação ao A SUPREMA FELICIDADE, também não entendi tamanha birra. Tá certo que Jabor contribuiu com postura pouco aceitável ao tentar defender seu filme, mas ele - o filme em si - me passou um frescor além do formol saudosista.

annastesia disse...

Gostei da lista, mas não colocaria Parnassus, o filme do Jabor e dos Coen entre os meus 10 melhores. Aliás, achei esse filme dos Coen bem fraco e olha que sou fã deles. Vincere realmente é poderoso. Gostei muito.

Miguel C. disse...

Orgulho-me de ter visto grande parte destes filmes! Faltam-me um ou outro, que tenho de urgentemente ver de modo a por-me a par da sua qualidade.
Parabéns pelo top 10.

Cumprimentos,
Miguel C.

siby13 disse...

Uma bela lista.
Gosto muito de ver Giovanna Mezzogiorno e seus filmes. Uma das atrizes da atualidade que mais admiro.
Parabéns pela matéria. :)