julho 31, 2026

*** A ARTE TRANSCENDENTAL de CARL Th. DREYER

o vampiro (1932)
 


Dreyer não usava a câmera de forma decorativa;
cada enquadramento estático servia para enclausurar
ou libertar a alma do personagem
de acordo com sua retidão moral.
FRANÇOIS TRUFFAUT
(1932 – 1984. Paris / França)
 
A arte de Carl Th. Dreyer
começa a se desenrolar exatamente
no ponto em que a maioria dos diretores desiste.
PAULINE KAEL
(1919 – 2001. Petaluma, Califórnia / EUA)
Quando penso no grande diretor dinamarquês CARL Th. DREYER (1889 – 1968. Copenhague / Dinamarca), os primeiros filmes que me vem à cabeça são “A Palavra” – uma história profunda e perturbadora –, da década de 1950, e “O Martírio de Joana D’Arc”, drama histórico mudo que conta o sofrimento da mártir francesa com closes espetaculares e exasperantes. Os dois foram escolhidos pelo Vaticano, em 1995, entre os cinco melhores de todos os tempos na categoria “religião”. No entanto, o trabalho dele que mais me encanta é o medieval “Dias de Ira”, uma obra-prima inesquecível para rever inúmeras vezes. Mestre do expressionismo e do minimalismo espiritual, ele é um dos cineastas mais importantes da história do cinema, conhecido por sua abordagem inovadora à narrativa fílmica. Seus filmes questionam temas como fé, moralidade e dor humana. Utiliza cenas longuíssimas com a câmera parada, os atores olhando a maior parte do tempo para a frente, conversando sem olhar uns para os outros. A sensação é estranhíssima – são filmes esquisitos, autênticos e espetaculares ao mesmo tempo.

Considerado o maior cineasta dinamarquês, ele influenciou Ingmar Bergman, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Gabriel Axel e Lars Von Trier, entre outros. Sua filmografia apresenta obras fortes e necessárias para os amantes da sétima arte. Entretanto, em tempos em que o cinema é tratado apenas como entretenimento, seus filmes são cada vez mais deixados de lado. Sendo assim, acredito que seja necessário divulgá-los, uma vez que eles ajudaram – e muito – a moldar o cinema. A obra de CARL Th. DREYER bebe do expressionismo alemão, evidente na utilização de sombras, iluminação e composição para criar atmosferas dramáticas. Ele se inspirou em diretores como Fritz Lang e F.W. Murnau, e incorporou elementos de sua estética em sua própria obra. Explorava questões de fé e religiosidade, de moralidade e espiritualidade, acreditando na fé como uma força poderosa que pode modificar a vida das pessoas. Seguramente motivado pela sua própria educação cristã rigorosa e pela cultura religiosa da Dinamarca.

A representação da mulher na sua filmografia é complexa e profunda, desenvolvendo personagens femininas fortes e independentes, que são capazes de tomar decisões e agir de acordo com suas próprias convicções. Mestre da composição e da iluminação, a utilização dramática da luz e da sombra é uma das características mais distintivas de sua criação
rica em metáforas. A importância da literatura é evidente em sua adaptação cinematográfica de obras literárias, refletindo a complexidade e a profundidade de escritores como August Strindberg e Edgar Allan Poe. A solidão e o isolamento são importantes para ele, narrando personagens que estão isolados ou solitários, lutando para se conectar com os outros. Retrata a solidão e o isolamento como uma condição humana universal. Diretores célebres como Federico Fellini e François Truffaut viam CARL THEODOR DREYER como uma figura mítica e um dos fundadores da linguagem cinematográfica, prestando-lhe homenagens públicas do seu domínio visual e espiritual.


Filho bastardo de um fazendeiro dinamarquês e de sua empregada sueca, ele passou seus primeiros anos em vários lares adotivos antes de ser adotado pelos Dreyer. De infância infeliz, pois não sentia o amor de seus pais adotivos (especialmente a mãe). Criado com severidade e com valores luteranos, educou-se em interpretações rígidas da fé. Ele só soube de sua verdadeira origem na idade adulta. Na escola foi considerado um aluno brilhante. Após o término dos estudos, afastou-se da família e se tornou jornalista, fundando, em 1910, o jornal
“Riget”. A experiência no jornal o levou a ter relações amigáveis com uma empresa de aviação. O conhecimento técnico que adquiriu sobre aviação fez com que colaborasse com a Nordisk Film, passando a se interessar pelo cinema. Começou escrevendo títulos e legendas, e em 1913 assinou um contrato com essa produtora para escrever roteiros. Em 1914, seu nome já aparecia nos créditos em “Abaixo as Armas / Ned med Vaabnene”, baseado em uma novela de Bertha Von Suttner.

Em 1919 realizou seu primeiro filme como diretor, intitulado “O Presidente / Præsidenten”. Nele, CARL Th. DREYER ousou ao dispensar vários ornamentos do cenário e o uso de maquilagem, buscando naturalidade e realidade. Ele teve a coragem em expor rostos e corpos sem artifícios românticos. Com filmes considerados sombrios, desde sua primeira fita tratava de temas difíceis, como a responsabilidade da separação dos pais no amadurecimento dos filhos, a idealização do auto sacrifício e a opressão feminina. Quando a Nordisk desistiu dos seus projetos, ele tentou produtoras alemãs, suecas e dinamarquesas para seus próximos filmes. Com a boa repercussão da comédia “A Queda do Tirano / Du skal ære din Hustru”, assinou contrato com uma produtora francesa para dirigir “O Martírio de Joana d'Arc”, de 1928, o seu filme mais conhecido. Em 1934, co-roteirizou e começou “Mudundu”. Devido à uma doença, teve que abandonar o filme exótico de aventura, renomeado como“L'esclave Blanc” e lançado dois anos depois.

Na década de 1930 e 1940, realizou uma série de curtas-metragens. Nesse período, os dinamarqueses iam ao cinema apenas como entretenimento, buscando diversão, exatamente o que seus filmes não proporcionavam. “A Palavra”, de 1955, consagrou sua carreira, sendo considerado por muitos sua obra máxima. Trata-se de um filme sobre fé e milagre, através de uma perspectiva muito peculiar, conduzido pelas teorias do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard. Durante toda sua trajetória vitoriosa, ele foi considerado pelos produtores e atores como um perfeccionista fanático, um profissional difícil de trabalha. A atriz Renée Falconetti, traumatizada com as filmagens de “O Martírio de Joana D´Ar”, nunca mais fez outro filme. “Tive propostas para Hollywood, mas não as aceitei. Acabei o trabalho num estado de nervos inimaginável. Sofri muito. Foram cinco meses de tortura. Às vezes brigávamos. Acabada a cena, era obrigada a recolher-me a uma casa de campo a que só o Sr. Dreyer tinha ingresso. Falava-me constantemente, incutindo-me a obra que realizaria. Era-lhe uma ideia fixa”.

Para realizar a cena da fogueira em
“Dias de Ira”, amarraram Anna Svierkier no alto de uma escada de madeira e, sem combinar com ela, foi deixada lá, enquanto o resto do elenco e da equipe almoçavam. Quando voltaram, a atriz estava suando intensamente, como CARL Th DREYER planejara. Ele enfrentou problemas com financiamento de filmes, gerando intervalos sem filmar — retornou ao jornalismo em 1932, trabalhando 11 anos na imprensa. Tentou, sem sucesso, uma adaptação cinematográfica de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; um documentário sobre a África; e um épico histórico sobre Mary Stuart. Antes de falecer, declarou que gostaria de filmar “A Paixão de Cristo”, inclusive concluindo o roteiro. Para sobreviver, trabalhou como gerente de cinema em 1952. O seu legado é vasto e duradouro, sua filmografia continua seduzindo cineastas. Um verdadeiro pioneiro do cinema, retratou a complexidade, a angústia existencial, o vazio e a profundidade da experiência humana. Seus filmes são estudos lentos e densos da psicologia de criaturas vivenciando crises extremas. Um cinema para cinéfilos.

“É a partir da rotina diária
de fazer filmes que se aprende o ofício.”

CARL THEODOR DREYER
 
DEZ FILMES de DREYER
(por ordem de preferência)
 
01
DIAS de IRA
(Vredens Dag, 1943)

elenco:  Thorkild Roose, Lisbeth Movin, Sigrid Neiiendam

e Centeio Preben


Ao regressar à sua aldeia natal, o filho de um pastor apaixona-se pela jovem madrasta, que não tarda a corresponder a essa paixão. A sogra suspeita do amor proibido do casal, empenhando-se em denunciar essa relação que considera diabólica. Ambientado no século XVII, explora a hipocrisia e o fanatismo religioso. Estreou em Copenhague durante a ocupação nazista. CARL Th. DREYER sempre negou como sendo análogo à perseguição de judeus. No entanto, a conselho de amigos, deixou a Dinamarca com o pretexto de vender a obra em mercados estrangeiros e passou o resto da II Guerra Mundial na Suécia. Para a revista “The New Yorker”, um dos melhores filmes já feitos.
02
A PALAVRA
(Ordet, 1955)

elenco:
Henrik Malberg, Preben Lerdorff Rye, Birgitte Federspiel

e Ejner Federspiel


Uma família rural cujo filho mais velho se dedica intensamente ao estudo religioso e é visto como louco. Seu sobrinho, abalado com a morte da mãe, pede a ele a impossível tarefa de ressuscitá-la. O religioso decide atender ao pedido, e por causa da fé, do amor e da crença, a morta abre os olhos. Segunda versão da famosa peça de Kaj Munk.
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Veneza
 
03
O MARTÍRIO de JOANA D´ARC
(La Passion de Jeanne d’Arc, 1928) 

elenco:
Renée Jeanne Falconetti, Eugène Silvain, André Berley,

Maurice Schutz e Antonin Artaud

 
Camponesa condenada à morte por ter liderado o povo francês do exército invasor inglês, afirma que foi inspirada por Jesus e São Miguel. Capturada pelos ingleses, torturada, julgada por heresia e, por fim, queimada viva. Uma obra-prima do cinema mudo, famosa por seus close-ups comoventes, pela atuação de Renée Falconetti e pelo roteiro baseado nos documentos históricos do julgamento real. A “Sight and Sound” o classificou como um dos dez maiores filmes em suas listas de 1952, 1972, 1992 e 2012.
04
O VAMPIRO
(Vampyr, 1932) 

Elenco: Julian West, Maurice Schutz, Rena Mandel e

Sybille Schmitz

 
As estranhas aventuras de um jovem que estuda o mal e os vampiros. Sonhador, a diferença entre o real e o irreal torna-se ínfima para ele. Obcecado com aparições sobrenaturais, visita uma antiga pousada, encontrando evidências de vampiros. Uma obra de terror psicológico onírico, utilizando técnicas inovadoras de luz e sombras. Primeiro filme falado de CARL THEODOR DREYER, colocou em cena atores amadores, apenas Sybille Schmitz e Maurice Schutz eram profissionais. Para se alcançar a estética estranha, que dá a sensação de se estar em um sonho, uma fina gaze foi colocada na lente como filtro. Herbert Matthews, crítico de cinema do “The New York Times”, o descreveu como “alucinante, mantendo os espectadores alucinados em um pesadelo”.
05
GERTRUD
(Idem, 1964)

elenco:
Nina Pens Rode, Bendt Rothe, Ebbe Rode

e Baard Owe


Em uma sociedade elegante de artistas e intelectuais, uma senhora idealista, que deseja o amor incondicional, finda seu casamento ao se apaixonar por um compositor. Por fim, decide-se por uma vida celibatária em Paris, dedicando-se ao aperfeiçoamento da mente. O último longa do diretor, focado na busca incansável de um amor absoluto e intransigente. Pode ser considerado, com alguma boa vontade, um verdadeiro libelo feminista. Vaiado no Festival de Cannes, atualmente é considerado uma obra-prima.
 
06
MIKAEL
(Idem, 1924) 

elenco:
Benjamin Christensen, Walter Slezak e Nora Gregor

 
07
A NOIVA de GLOMDAL
(Glomsdalsbruden, 1926) 

elenco: Einar Sissener, Tove Tellback e Stub Wiberg
 
08
ERA uma VEZ
(Der var engang, 1922)

elenco:
Clara Pontoppidan, Svend Methling e Peter Jerndorff

 
09
PÁGINAS do LIVRO de SATANÁS
(Blade af Satans Bog, 1920)

elenco: Helge Nissen, Halvard Hoff e Jacob Texiere

 
10
Os ESTIGMATIZADOS
(Die Gezeichneten, 1922)

elenco:
Polina Piekowskaja, Wladimir Gaidarow, Thorleif Reiss,

Adele Reuter-Eichberg e Richard Boleslawski
 
“Não são as coisas da realidade
que o diretor deve estar interessado,
mas o espírito dentro ou por trás delas.
O realismo em si não é arte.”

CARL THEODOR DREYER
 
FONTES
01
“Diretores Mundiais de Cinema, Volume Um, 1890-1945” (1987)
de John Wakeman
 
02
“Carl Theodor Dreyer and Ordet: My Summer with the Danish” Filmmaker” (2012)
de Jan Wahl
 
03
“O Estilo Transcendental no Cinema: Ozu, Bresson, Dreyer” (1972)
de Paul Schrader
 
04
“My Only Great Passion: The Life and Films of Carl Th. Dreyer” (2000)
de Jean Drum e Dale D. Drum
 
05
“The Films of Carl-Theodor Dreyer” (1981)
de David Bordwell
 
“Ao filmar os poros, as rugas e as lágrimas reais
sob luz dura, o diretor transformou o cinema documental
em uma experiência mística profunda.”

FRANÇOIS TRUFFAUT
 
SOBRE DREYER
CARL TH. DREYER - THE MAN AND HIS WORK
https://www.carlthdreyer.dk/en/carlthdreyer/films 
 
 

Nenhum comentário: