junho 07, 2020

***** HARRY BAUR – ASSASSINADO pela GESTAPO



Um dos atores mais lendários do cinema francês. Com um corpo imponente, coroado com uma cabeça grande, um nariz forte, bolsas sob os olhos, uma voz profunda e poderosa, ele criou personagens expressivos, eternizando imagens de intensidade, força, robustez e sensibilidade. A estatura gigantesca exaltava um magnetismo inefável e seu rosto podia expressar amizade, perigo, dureza, piedade ou violência com uma ligeira mudança de expressão. Fã de carteirinha do carismático HARRY BAUR (1880 – 1943. Paris / França), nos últimos dias assisti a três filmes protagonizados por ele: “Pinga-Fogo” (1932), “O Golem / Le Golem” (1936) e “O Assassinato de Papai Noel” (1941). Encantado com o seu talento, resolvi homenageá-lo, afinal hoje em dia poucos lembram da sua reputação e estima mundial.

Monstro sagrado do cinema nas décadas de 1930 e 1940, o ator brilhou inicialmente no teatro. Começou antes da Primeira Guerra Mundial, ganhando fama nos palcos parisienses ao atuar em peças de Sacha Guitry ou Tristan Bernard. Sua carreira cinematográfica se iniciou no cinema mudo, aparecendo no último filme da mítica Sarah Bernhardt: “La Voyante” (1924). Atuou em mais de 40 longas, marcando época como Ludwig van Beethoven em “O Grande Amor de Beethoven” e como Jean Valjean em “Os Miséraveis” (1934), a melhor versão da obra-prima de Victor Hugo.

Filho de pais católicos da Alsácia, ele teve seu primeiro êxito no cinema em 1931, interpretando um banqueiro judeu em “A Tragédia de Um Homem Rico”. Em entrevista afirmou: “Depois desse papel, não haverá ninguém que acredite que eu sou católico!”

Um sucesso tardio, tinha 51 anos de idade, mas nunca mais deixou de brilhar.  No mesmo ano, perdeu o filho de 20 anos e a primeira esposa numa viagem à Argélia. Durante a ocupação alemã na França, sem desistir de atuar e negando-se a fugir para Hollywood, deixou-se levar por relacionamentos perigosos, misturando-se com nazistas, anti-semitas e colaboracionistas. Foi a sua tragédia.

Aos sessenta anos, no auge da popularidade, foi obrigado a atuar em dois filmes para a Continental-Films, uma empresa financiada pelo capital alemão, mas sediada nos Champs-Elysées, em Paris. Como outros artistas, frequentava as recepções dos invasores. No entanto, os jornais anti-semitas o acusaram de ser judeu e maçom. Defendeu-se publicando uma nota desmentindo o boato. Partiu para Berlim em setembro de 1941, onde filmou “Sinfonia de Uma Vida / Symphonie eines Lebens” (1943). Entre as estrelas francesas, foi o primeiro a atuar na Alemanha durante a II Guerra Mundial. Com um contrato de seis meses, aprendeu alemão e se deixou fotografar em Nuremberg, na multidão, ouvindo um discurso de Adolf Hitler.

Durante as filmagens, a esposa de HARRY BAUR, Rika Radifé, atriz e diretora de teatro, termina presa pela Gestapo acusada de espionagem. O esforço do ator para garantir sua libertação não caiu bem. Ao retornar à França, na primavera de 1942, foi denunciado novamente como judeu e ordenada sua prisão no dia 30 de maio. 

A Gestapo, furiosa, perguntava como um judeu conseguiu enganá-la e até fazer um filme na Alemanha. O famoso ator passou por uma cruel detenção de quatro meses. Além de tortura mental e dos constantes interrogatórios, sofreu espancamentos, incluindo um de doze horas. Proibido de receber roupas, encomendas ou visitas, ficou também privado de remédios quando adoeceu. Sua vila foi requisitada pelos alemães e uma valiosa coleção de pinturas desapareceu para sempre.

Após perder 37 quilos (pesava 100), debilitado e moralmente arruinado, HARRY BAUR foi libertado em setembro de 1942. Muito fraco, tentou se curar, mas morreu meses depois em condições misteriosas. O funeral ocorreu na igreja de St. Philippe du Roule e foi enterrado na Cimetière Saint-Vincent, em Montmartre, onde seu túmulo ainda atrai visitantes. A morte provocou uma grande manifestação pública de descontentamento. Na época, circularam falatórios imprecisos. Diziam que era um colaborador, um espião inglês, que teria morrido em um campo de concentração ou sob tortura na Alemanha. Na libertação, injustamente, lembrariam dele principalmente pela participação na indústria cinematográfica alemã. Sua esposa, Rika, sobreviveu aos maus-tratos nazistas. Em 1953, ela assumiu o Theatre des Maturins, em Paris, e o administrou por décadas.

O norte-americano Rod Steiger, vencedor do Oscar, citou HARRY BAUR como um de seus atores favoritos, garantindo que ele exerceu uma grande influência em seu ofício. Dez anos após sua morte, o governo francês o homenageou em grande estilo, com a presença de celebridades como Sacha Guitry e Maurice Chevalier. Durante o evento, o cineasta Julien Duvivier, que dirigiu o ator em sete filmes, declarou: “Sua inteligência era vasta, afiada. Seu conhecimento cultural nunca teve culpa. Ele tinha um senso dramático admirável. Suas observações, opiniões e críticas sempre foram relevantes. Baur nunca deixou de me surpreender. Ele tinha qualidades inesperadas, expressões absolutamente originais. Ele sempre foi Harry Baur, mas também sempre foi o personagem da história de uma maneira surpreendente ”.


DEZ FILMES de HARRY BAUR
(por ordem de preferência)

Os MISERÁVEIS
(Les Misérables, 1934)

Direção de Raymond Bernard
Elenco: Charles Vanel, Jean Servais e Florelle

Um CARNÊ de BAILE
(Un Carnet de Bal, 1937)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Marie Bell, Françoise Rosay, Louis Jouvet,
Pierre Blanchar, Raimu e Sylvie

PINGA FOGO
(Poil de Carotte, 1932)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Robert Lynen e Catherine Fonteney

O ASSASSINATO de PAPAI NOEL
(L'assassinat du Père Noël, 1941)

Direção de Christian-Jaque
Elenco: Renée Faure, Marie-Hélène Dasté, Raymond Rouleau
e Fernand Ledoux

A TRAGÉDIA de um HOMEM RICO
(David Golder, 1931)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Paule Andral e Jackie Monnier

Um GRANDE AMOR de BEETHOVEN
(Un Grand Amour de Beethoven, 1936)

Direção de Abel Gance
Elenco: Annie Ducaux, Jany Holt, Jane Marken
e Jean-Louis Barrault

RASPUTIN, a TRAGÉDIA IMPERIAL
(La Tragédie Impériale, 1938)

Direção de Marcel L'Herbier
Elenco: Marcelle Chantal, Pierre Richard-Willm e Jany Holt

ASSASSINO sem CULPA
(Crime et Châtiment, 1935)

Direção de Pierre Chenal
Elenco: Pierre Blanchar, Madeleine Ozeray, Sylvie
e Catherine Hessling

VOLPONE
(Idem, 1941)

Direção de Maurice Tourneur
Elenco: Louis Jouvet, Charles Dullin e Fernand Ledoux

10º
A CABEÇA de um HOMEM
(La Tête d'un Homme, 1933)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Valéry Inkijinoff, Alexandre Rignault e Gina Manès


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