janeiro 05, 2019

*********************** REALISMO POÉTICO FRANCÊS

jean gabin em “a grande ilusão”


O crítico francês ANDRÉ BAZIN (Angers, França. 1918 - 1958) assim o definiu: “é tudo em verso, ou pelo menos numa prosa invisivelmente poética”.


Algumas cinematografias podem se orgulhar de ter exercido uma forte influência no panorama cinematográfico mundial. A francesa é uma delas. A França não só inventou, como teve o engenho de assumir as rupturas necessárias para projetar o cinema como plena expressão artística. Da escola vanguardista na década de 20 do século passado a Nouvelle Vague, nos anos 60, ela nos deu um dos momentos-chave da sétima arte, o REALISMO POÉTICO FRANCÊS, resultando em fitas influentes como “O Atalante” (1934) ou “A Grande Ilusão” (1937) - psicologicamente densas, esteticamente rebuscadas e sociologicamente atentas. Se não chegou a ser um movimento cinematográfico, foi ao menos um estilo de época, com características bem definidas e que teve enorme influência sobre cinéfilos e cineastas do mundo inteiro.

Hoje em dia a ideia de uma corrente artística anda meio fora de moda, mas a história do cinema parcialmente conduziu-se por tais rebeldes movimentos. Um dos mais intensos e belos, ocorrido entre os anos 30 e 40, guardava proximidade com o naturalismo literário de escritores como Émile Zola. Seus filmes privilegiam a verossimilhança, mas que, por trás dela, escondem uma atmosfera lírica bem particular. Sem um programa preestabelecido, o REALISMO POÉTICO FRANCÊS tentou, de um modo vago e não conceituado, o gesto mágico e paradoxal de ser fiel ao real de forma lírica. Isso é possível? É o caso de checar a filmografia inicial de cineastas como Jean Renoir (1894 - 1979) ou Marcel Carné (1909 - 1996).

arletty
Abandonando o caráter experimental, até então dominante na cinematografia francesa, essa estética valorizou o trabalho de um grupo de realizadores e roteiristas (Charles Spaak, Jacques Prévert etc.), muitos trazidos da literatura e do jornalismo. Atento às mudanças socioculturais, explorou argumentos protagonizados por marginalizados, geralmente da classe operária ou delinquentes, que buscam em vão a ascensão social, imersos em um ambiente cético e pessimista.

“O Atalante” foi o marco zero do REALISMO POÉTICO FRANCÊS, descrevendo, a partir das desventuras de um casal em viagem de lua-de-mel em um pequeno barco, os ambientes populares dos subúrbios das cidades francesas situadas às margens do rio navegado. Nesta obra de Jean Vigo (Paris, França. 1905 - 1934), a técnica relaciona-se com uma consciência questionadora do mundo. De beleza rara, já que desponta de certa rudeza, promove a comunhão entre o naturalismo e algumas das vanguardas do início do século 20 – trazidas à tona com a ânsia criativa de jovem diretor e do fotógrafo Boris Kaufman (famoso mais adiante por filmes como “Sindicato de Ladrões / On the Waterfront” e “12 Homens e Uma Sentença / 12 Angry Men”). Com dois curtas, um média e um longa, Vigo construiu elogiada filmografia, interrompida com a morte precoce aos 29 anos. Ele não teve nenhum tipo de reconhecimento em vida. O jovem viveu intensamente, mas não colheu frutos de seu trabalho. No leito da morte, foi tratado como um ninguém, um pária. Morreu da mesma forma que nasceu, como um rejeitado, um injustiçado indesejado em um mundo conturbado. Acabou vitimado por uma tuberculose que o perseguia desde a infância, gestada no seio das precárias condições de vida.

Jean Renoir foi outro diretor fundamental desta época. A crítica à realidade social, no caso dele, utiliza simultaneamente a ironia e a compaixão ao versar sobre a condição humana, ressaltando a fraqueza dos homens. “Bas-Fonds / Les Bas-Fonds” (1936) e “A Regra do Jogo” (1939), por exemplo, revelam sensibilidade e humanismo através de um cinema engajado. Renoir denuncia o fracasso, a decepção, a tristeza e a fúria, indistintamente em homens bons ou maus, todos moralmente instáveis. A sua excelente fantasia dramática foi uma afronta à tradição cinematográfica do seu tempo, com planos longos e abordagem semidocumental.

marcel carné
Também são protagonistas do REALISMO POÉTICO FRANCÊS, os cineastas Marcel Carné, Jacques Feyder (1885 - 1948), Julien Duvivier (1896 - 1967), Marc Allégret (1900 - 1973), Christian-Jacque (1904 - 1994), Jean Grémillon (1901 - 1959), Marcel Pagnol (1895 - 1973) e Pierre Chenal (1903 - 1990). Carné, em colaboração com o ótimo poeta Jacques Prévert, realizou obras-primas como “Trágico Amanhecer” (1939) e “O Boulevard do Crime” (1945). Notáveis estrelas contribuíram com marcantes performances: Jean Gabin, Arletty, Michèle Morgan, Charles Vanel, Françoise Rosay, Raimu, Marie Bell, Louis Jouvet, Annabella, Vivianne Romance, Dita Parlo, Harry Baur, Jules Berry, Simone Simon, Pierre Brausseur, Jean-Pierre Aumont, Micheline Presle, Pierre Fresnay, Jean-Louis Barrault, Michel Simon, Pierre Renoir e Fernand Gravey .

Os papéis desempenhados no período pela excepcional Arletty (Courbevoi, França. 1898 - 1992) elevam o padrão da representação feminina nas telas, então fortemente atado a estereótipos. Femme fatale e prostituta em “Hotel do Norte” (1938) e “Trágico Amanhecer”, a atriz dota seus personagens de profundidade psicológica, contradições e idiossincrasias. Sua luminosa presença como a Garance no clássico “O Boulevard do Crime”, representa o ápice de sua carreira.

Após esse momento sublime, finalizado em 1945, pelos arroubos dos novos tempos e ofuscado pela influência do Neo-Realismo italiano, o cinema francês procurou um novo caminho que somente surgiu na década de 50. Seus alicerces, teóricos da revista “Cahiers du Cinema”, restabeleceram o conceito de cinema de autor que vigorou na país até o final da década de 20. Mas esta é outra história, caro leitor.

pierre fresnay e erich von stroheim em “a grande ilusão”

DEZ GRANDES FILMES do REALISMO POÉTICO FRANCÊS

01
O ATALANTE
(L’Atalante, 1934)

direção de Jean Vigo
Com Jean Dasté, Dita Parlo e Michel Simon

Ao se casar, garota vai morar no barco do marido. Pouco tempo depois, entediada com a vida a bordo, desembarca em Paris. Irritado com isso, ele a abandona, mas, angustiado pela culpa e pela saudade, cai em depressão, e um dos tripulantes volta à cidade para procurá-la.

02
A QUERMESSE HERÓICA
(La Kermesse Heroique, 1935)

direção de Jacques Feyder
Com Alfred Adam, Françoise Rosay e Jean Murat

Vilarejo francês recebe um duque espanhol e sua tropa para passar a noite. Mulheres dos soldados, no entanto, decidem amenizar as relações com os invasores e instaurar a paz no local.

03
Um CARNÊ de BAILE
(Le Carnet de Bal, 1937)

direção de Julien Duvivier
Com Marie Bell, Harry Baur, Louis Jouvet e Françoise Rosay

Após a morte do marido, viúva relembra paixão da juventude e como teria sido mais feliz se tivesse casado com ele. Ela parte na esperança de encontrá-lo e também outros homens, com quem dançou em um baile, há muitos anos, e marcou sua vida.

04
A GRANDE ILUSÃO
(La Grande Illusion, 1937)

direção de Jean Renoir
Com Jean Gabin, Pierre Fresnay, Erich Von Stroheim e Dita Parlo

Durante a Primeira Guerra Mundial, em um campo de prisioneiros, as dificuldades levam inimigos a se unirem. Os gestos de solidariedade prevalecem sobre o conceito de nacionalidade e de razões políticas. A ligação entre os dois oficiais rivais (magistrais Fresnay e Stroheim) parecem mais fortes que as de soldados de um mesmo exército.

05
A BESTA HUMANA
(La Bète Humaine, 1938)

direção de Jean Renoir
Com Jean Gabin, Simone Simon e Fernand Ledoux

A mulher do chefe de uma estação ferroviária seduz um maquinista para que ele esconda seu envolvimento em um assassinato. Grande momento da dupla protagonista. 

06
CAIS das SOMBRAS
(Le Quai des Brumes, 1938)

direção de Marcel Carné
Com Jean Gabin, Michel Simon, Michèle Morgan e Pierre Brausseur

Um militar desertor se apaixona e encontra problemas em uma cidade portuária.

07
HOTEL do NORTE
(Hotel du Nord, 1938)

direção de Marcel Carné
Com Annabella, Jean-Pierre Aumont, Louis Jouvet, Arletty e Paulette Dubost.

Casal planeja morrer em um hotel, mas ao atirar na namorada, o jovem perde a coragem e foge. Um outro hóspede a resgata e acaba se apaixonando por ela, que não consegue parar de pensar no fugitivo.

08
A REGRA do JOGO
(La Règle du Jeu, 1939)

direção de Jean Renoir
Com Nora Gregor, Paulette Dubost e Marcel Dalio

Aviador que bateu recordes de voo ama a esposa de um aristocrata. Termina sendo convidado para a casa de campo da amada, onde acontece uma sofisticada caçada. Porém, os sorrisos cordiais dos convidados escondem segredos e sentimentos amargos, resultando em um assassinato.

09
TRÁGICO AMANHECER
(Le Jour se Lève, 1939)

direção de Marcel Carné
Com Jean Gabin, Jules Berry e Arletty

Comovente drama da dupla Carné e Jacques Prévert. Um crime em um subúrbio. O suspeito, um operário, permanece só em seu quarto, mas logo será cercado pela polícia.

10
O BOULEVARD du CRIME
(Les Enfants du Paradis, 1945)

direção de Marcel Carné
Com Arletty, Jean-Louis Barrault, Pierre Brausseur e María Casarès

No início do século 19, o mal fadado romance de um mímico com uma formosa atriz, no Boulevard de Templiers, em Paris, por onde circulam ladrões, golpistas e assassinos.

jean renoir

8 comentários:

Marcelo C,M disse...


Para mim o melhor momento do cinema francês foi (para mim) o Nouvelle Vague, porque foi com esse movimento que eu acho que fortaleceu o termo cinema de autor.
17 de fevereiro de 2011 18:07

Luiz Santiago disse...


É uma pena que eu não conheça todos os filmes citados, mas gosto muito do período e louvo a sua iniciativa desses resgates. Para nós cinéfilos de carteiriha, a história do cinema encanta demais.

Abraço

www.cinebuli.blogspot.com
18 de fevereiro de 2011 01:12

Rato disse...


Desta lista só vi 4 filmes: "L'Atalante", "La Grande Illusion", "La Règle du Jeu" e "Les Enfants du Paradis". Não gostei deste último (pelo menos na altura em que o vi), mas os outros três são mesmo fundamentais para se entender este período do cinema francês.
Obrigado, Nahud, pelos títulos originais. Por exemplo, nunca saberia quais os filmes traduzidos como "Trágico Amanhecer" ou "O Boulevard do Crime"
18 de fevereiro de 2011 08:17

Kley disse...


Também não sou muito chegado ao Godard, o acho muito "psico-intelectualóide". Mas sou fascinado pelo Jules e Jim do Truffaut, uma obra-prima inesquecível.
A Regra do Jogo do Renoir é cinema da mais alta qualidade, um verdadeiro mosaico da Sétima Arte.
18 de fevereiro de 2011 22:13

Jamil disse...


Que texto esplêndido (já estão se tornando redundante os meus comentários sobre os seus posts, mas é o que sinto). Um belo post com um ótimo 'garimpo' de sua parte. Adoro o cinema francês, de ontem e de hoje, aprecio o seu carinho com ele....

E repito: Excelente texto!
19 de fevereiro de 2011 02:06

GIANCARLO TOZZI disse...


O cinema francês teve uma longa e distinta existência antes da chegada do Nouvelle Vague em 1959, mas nem se percebe isso ao olhar para os filmes franceses mais antigos lançados em DVD no Brasil. Só Jean Renoir está bem representado. O que um dia foi conhecido orgulhosamente como a "tradição de qualidade" francesa, terminou sendo insultado por François Truffaut no seu famoso artigo de 1954, Uma Certa Tendência do Cinema Francês, publicado no Cahiers du Cinema. Truffaut, um ambicioso crítico de 21 anos, atacou com tal vigor e crueldade que carreiras foram prejudicadas, abrindo o caminho para ele e seus colegas de Cahiers liderarem um novo movimento alguns anos mais tarde. Lido hoje, o seu artigo parece radical, hiperbólico e moralista. Logo ele que amava o antigo cinema norte-americano foi cuspir no antigo cinema de seu próprio país. Patético.
19 de fevereiro de 2011 16:21

annastesia disse...


La grandeur du cinema français. Relembrando e exaltando grandes filmes e grandes mestres da direção e atuação. Renoir, Carné, Gabin, Arletty (esquecida), etc.
Todos os filmes citados de Renoir são os meus favoritos dele, mas aproveito para incluir O crime do Sr. Lange e Boudu salvo das águas. De Carné gosto demais de Os visitantes da noite e de Duvivier, Sedução fatal.
E o interessante é que sempre preferi Zero de conduta à O atalante (algo que muitos consideram um absurdo!).
Très bien Antonio!
19 de fevereiro de 2011 20:08

siby13 disse...


Considero que o melhor e mais poético diretor Francês é JULIEN DUVIVIER. Quem como eu que já teve a sorte e o prazer de ver vários de seus filmes pode garantir a qualidade rara e criativa de um diretor que ama o que faz.
Sou literalmente apaixonada por todas as suas obras e pelo seu modo de conduzir uma história.
Lí certa vez que Truffaut que atacava ferozmente o cinema clássico francês e o realismo psicológico do cinema do passado, muitos anos depois se desculpou por isso e elogiou Duvivier. Ou seja, reconhceu a valiosa contribuição deste maravilhoso diretor.

Viva Duvivier!!!
11 de agosto de 2011 22:13