maio 17, 2011

****** KENJI MIZOGUCHI: A ARTE DA INDIGNAÇÃO


"contos da lua vaga"
Impregnado da mais contundente indignação, o japonês KENJI MIZOGUCHI (1898-1956) forjou sua carreira de cineasta a partir do trauma de ver a fortuna da família jogada aos ares e a irmã vendida a uma casa de gueixas. Perseguindo os sentimentos em estado de pureza: a honra, o dever, a lealdade, o amor e a justiça, poucas vezes o cinema fundiu num autor tamanho rigor formal com igual medida de intransigência moral. Nele, a noção de sacrifício decorre naturalmente da necessidade de purificação, único meio que suas personagens encontram para superar a corrupção humana. Ele viveu um importante período de transição no mundo cinematográfico, passando da fase do cinema mudo para o falado, e do branco-e-preto para o colorido. De seus filmes da fase muda se destacam algumas obras-primas e já se notam algumas características que iriam nortear as suas obras mais importantes: a ênfase nas emoções consideradas tipicamente japonesas, a influência do expressionismo alemão, o interesse pelas mulheres reprimidas, seus sacrifícios e sabedoria.

ayako wakao e kenji mizoguchio
Em 1897, platéias do Japão tomaram conhecimento de uma nova forma de entretenimento, através da demonstração do sistema de projeção de filmes da Vitascope, empresa norte-americana.O primeiro filme produzido no Japão foi o documentário de curta-metragem “Geisha no Teodori”, em 1899. Enquanto no mundo inteiro o cinema era mudo, no Japão os filmes eram parcialmente sonorizados com a presença do benshi, uma pessoa que reproduzia os diálogos do filme, interpretando as vozes dos vários personagens durante a projeção – uma espécie de dublador ao vivo. Os filmes japoneses desse período em geral retratavam aventuras de samurais injustiçados, e o principal expoente dessa época era o trabalho do lendário KENJI MIZOGUCHI. O terremoto de 1923, o bombardeio de Tóquio durante a Segunda Guerra Mundial, assim como os efeitos naturais do tempo e da umidade nas frágeis películas destruíram a maior parte dos filmes realizados no período. Mas é na fase do sonoro que surgem as obras mais significativas de MIZOGUCHI. Já no período posterior à Segunda Guerra, destacam-se os filmes que tiveram a atriz Kinuyo Tanaka no papel principal, como em “Oharu, a Vida de uma Cortesã/Saikaku Ichidai Onna” (1952), onde alcançou a excelência de sua arte. Essa obra, uma tragédia de cunho realista, que narra a história de uma mulher fortemente dominada pelo sistema feudal, possui uma estrutura narrativa marcadamente impregnada por uma visão oriental, silenciosa e sugestiva, expressada através de uma linguagem que o marcou: o método onde a câmara se fixa longamente numa tomada, aumentado a dramaticidade através da plástica. Este filme conquistou o prêmio de direção no Festival de Veneza, no ano de 1952.

"utamaro e suas cinco mulheres"
Considerado um dos cineastas mais importantes, KENJI MIZOGUCHI morreu em 1958, aos 58 anos de idade, vencido pela leucemia. Dirigiu o primeiro filme em 1923, realizando mais de 80 títulos, sendo seu maior sucesso, “Contos da Lua Vaga/Ugetsu Monogatari” (1953), brilhante e poética reconstituição do passado, numa visão clara e realista que aponta os prolongamentos do sistema feudal no Japão contemporâneo. É um dos meus filmes favoritos. De grande beleza visual, premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1953, tem como protagonista a formosa e excelente Machiko Kyo (de “Rashomon”, de Akira Kurosawa). O cinema de KENJI MIZOGUCHI tem uma força própria, diferente, por exemplo, do de Yasujiro Ozu e Akira Kurosawa, citando os dois mais famosos diretores do cinema japonês.  Seu estilo é clássico, com tomadas longas e sem close-ups, e uma preocupação humanista. Principalmente para quem está acostumado ao vigor narrativo de Kurosawa, assistir aos filmes de Mizoguchi significa abrir uma janela diferente para a percepção oriental de temas universais, experimentando uma sensação de excesso, uma opressão inelutável, um determinismo dramático. É que ele não consegue conter sua vocação inflexível na regeneração do homem. Tantas décadas passadas, a integridade de sua mensagem humanista ainda causa impacto, numa época em que se evidencia a falência das ideologias e da solidariedade.

"a princesa yang kwei fei"
10 FILMES DE MIZOGUCHI

AS IRMÃS DE GION/Gion no Shimai (1936)
Com: Isuzu Yamada e Yoko Umemura

CRISÂNTEMOS TARDIOS/Zangiku Monogatari (1939)
Com: Shotaro Hanayagi e Kakuko Mori

MULHERES DA NOITE/Yoru no Onnatachi (1948)
Com: Kinuyo Tanaka e Sanae Takasugi

PAIXÃO ARDENTE/Waga Koi wa Moenu (1949)
Com: Kinuyo Tanaka e Mitsuko Mito

OHARU – A VIDA DE UMA CORTESÃ/
Saikaku Ichidai Onna (1952)
Com: Kinuyo Tanaka e Toshiro Mifune

CONTOS DA LUA VAGA/Ugetsu Monogatari (1953)
Com: Machiko Kyo e Masayuki Mori

OS AMANTES CRUCIFICADOS/Chikamatsu Monogatari (1954)
Com: Kazuo Hasegawa e Kyoko Kagawa

O INTENDENTE SANSHÔ/Sansho Dayu (1954)
Com: Kinuyo Tanaka e Yoshiaki Hanayagi

A PRINCESA YANG KWEI FEI/Yokihi (1955)
Com: Machiko Kyo e Masayuki Mori

RUA DA VERGONHA/Akasen Chitai (1956)
Com: Ayako Wakao e Machiko Kyo

machiko kyo
--------------------------------------------

O QUE ESTÁ FAZENDO

ROMAN POLANSKI

O novo filme do cineasta Roman Polanski, “Carnage”, baseado na peça “God of Carnage”, ainda não foi finalizado e está sendo esperado com ansiedade, depois do sucesso de “O Escritor Fantasma”. Os protagonistas são John C. Reilly, Kate Winslet, Jodie Foster e Christoph Waltz. Na adaptação da peça, premiada com um Tony em 2009, escrita por Yasmina Reza, Nancy (Winslet) e Alan (Waltz) são os pais de uma criança de 11 anos que sofreu bullying em um playground e Penélope (Foster) e Michael (Reilly) vivem os pais do menino, de mesma idade, que praticou o ato. O convite para uma conversa amigável entre os dois casais acaba em briga. A peça se passa inteiramente no apartamento onde eles se reúnem. “God of Carnage” esteve em cartaz em 2009 na Broadway e em Londres, com James Gandolfini, Marcia Gay Harden, Jeff Daniels e Hope Davis no elenco. Reza se juntou a Polanski na adaptação do roteiro. O filme pode chegar aos cinemas ainda este ano.

24 comentários:

Darci Fonseca disse...

Olá, Antonio
Beleza de texto sobre Mizoguchi. Difícil resistir assistir a filmes dele depois de ler o que você escreveu.

Marcelo C,M disse...

É, o cinema do japão não se vive apenas de Kurosawa.

Novo filme de Roman Polanski com Christoph Waltz no elenco? Depois do genial Escritor Fantasma espero de tudo com relação a esse filme e de uma interpretação magistral de Waltz.

Alice Oliveira disse...

Muito obrigada pela visita!

Ainda não conhecia o Mizoguchi...quero ver os filmes ^^

http://rebucomcafe.blogspot.com

beijinhos

disse...

Olá, Antonio! Taí mais uma personalidade do cinema que conheci através de seu blog. Hoje preciso de uma ajuda: vi em seu perfil que você é também autor de vários livros. Estou para publicar um livro infanto-juvenil e gostaria de alguns conselhos sobre a procura de editoras para publicação e publicação independente.
Abraços, Lê

Rubi disse...

É sempre bom vir a seu blog, principalmente quando leio sobre grandes nomes do cinema que ainda não conhecia. Vou procurar alguns filmes da lista. Afinal de contas, informação nunca é demais, principalmente quando envolve cinema haha.

Até mais!

Cefas Carvalho disse...

Amigo, de Mizoguchi só havia assistido ao "Contos da lua vaga". Depois do post vou garimpar lá na Sétima Arte mais alguns filmes do cineasta. Abração.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pois é, Marcelo, estou ansioso à espera desse filme que tem no elenco duas atrizes que amo: a Kate e a Jodie.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Mande o seu e-mail, Lê. Tenho algumas dicas.
Beijos

Kley disse...

Contos da Lua Vaga é formidável. Vou ver essa semana O Intendente Sancho.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

O INTENDENTE SANSHO é muito bom também, Kley. Vc vai gostar.

Alma em Flor disse...

Excelente o blog.

A-D-O-R-O!

Vertigo et Moira disse...

saudades de um tempo ao qual nao pertenci...

Jamil disse...

O Mizoguchi é de longe superior a Ozu e Kurosawa.

Jamil disse...

Vamos ver se Polanski acerta desta vez. O Escritor Fantasma nunca foi um grande filme.

Emílio José disse...

Antonio Júnior
Assisti Contos da Lua Vaga através da Tv Cultura nos anoa 90 em Ilhéus captado por antena parabólica.A cópia não era de boa qualidade,eu estava com muito sono.Porém as imagens e a forma de narrar bem como a trilha sonora me encantaram tanto que eu tenho receio de rever e perder esta fantasia.

Eu e Neuzamaria retornamos para Vitória-ES.
Abraço.

Emilio Suzart

GIANCARLO TOZZI disse...

Jamil se equivoca. Mizoguchi é melhor que Ozu, um cineasta chatíssimo, mas jamais supera Kurosawa.

Neuzamaria Kerner disse...

Oi, Nahud Jr.

Há muito tempo que ouço falar em Contos da Lua Vaga e ainda não tive a oportunidade de assistir. Só pelo título, tão poético, tenho certeza de que vou gostar. Agora vendo tantos comentários sobre o Mizoguchi, já vou procurar o filme.

abração
Neuzamaria

Jamil disse...

Pelo visto o senhor Giancarlo não conhece a obra de Mizoguchi.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pode revê-lo tranqüilamente, Emílio. Vc vai adorar.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Não sei se Mizoguchi é melhor ou não que Kurosawa, caros Jamil e Giancarlo. Ambos são grandes realizadores. Em relação Ozu não posso opinar, sou suspeito, já que nunca gostei dos poucos filmes dele que vi.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Jamil, também achei O Escritor Fantasma bem fraquinho.

JAVI disse...

Maravilloso Mizoguchi. Un cine precioso y de ritmo diferente al que solemos ver por Europa y América. Saludos y gracias por ir dejando comentarios en mi blog.

linezinha disse...

ainda não vi nenhum do Mizoguchi excelente matéria Antonio!

M. disse...

E eu que não assisti nenhum desses filmes japoneses!