maio 31, 2022

**************** DAVID LEAN: ÉPICO e ROMÂNTICO


 
Há três filmes de David Lean que me influenciaram. Um é Lawrence da Arábia, meu favorito. O outro, A Ponte do Rio Kwai. Mas quando vi Doutor Jivago, achei-o uma obra-prima. Portanto, estes são os três que costumo rever antes de realizar meus filmes.
STEVEN SPIELBERG
(1946. Cincinnati, Ohio / EUA)
 
Sempre quis fazer filmes que gostaria de ver quando fosse ao cinema. Adoro bons filmes. E o fundamental para poder fazer um é contar uma boa história que tenha bons personagens. Talvez por isso tenha dirigido apenas 16 longas-metragens. Passei parte da vida lendo histórias, escolhendo cuidadosamente projetos e trabalhando em roteiros.
DAVID LEAN
 
 
Para diretores como Steven Spielberg, Francis Ford Coppola ou Bernardo Bertolucci, DAVID LEAN (1908 - 1991. Croydon, Surrey, Inglaterra / Reino Unido) é uma referência fundamental. A obstinação do cineasta britânico, numa busca inabalável pela perfeição, resultou em épicos arrebatadores e dramas íntimos. Suas imagens fazem parte da história do cinema pelo senso inspirado de contar histórias. Seu excepcional talento pictórico e dramático, a grandiloquência e sofisticação técnica, a densidade psicológica, a construção realista dos personagens e a montagem precisa, impressionaram o mundo. Por causa do perfeccionismo, realizou apenas 16 filmes, mas conseguiu o respeito e a admiração da crítica e do público. “Gosto de uma boa história, bem consistente, com começo, meio e fim. A maioria dos filmes novos não têm construção dramática. E devo dizer que gosto de uma boa construção dramática. Gosto de me emocionar quando vou ao cinema”, afirmou o cineasta. Ele construiu uma carreira marcada pela busca de qualidade. Descrito como bastante frio e obsessivo, mergulhava de corpo e alma em uma filmagem. Tinha pouca paciência com os atores e estava sempre em conflito com seu ator favorito, Alec Guinness, com quem rodou cinco filmes e cuja carreira lançou.

david lean nos anos 40
Possuía um domínio profundo das técnicas cinematográficas, interessado, sobretudo, em contar uma história e comunicar sentimentos. “Gosto de manter um controle rígido sobre todos os elementos de um filme. Acho que ser diretor é isso: estimular o talento dos outros e extrair deles todas as coisas que imaginou quando estava trabalhando no roteiro. Nesse sentido, acho que sou um bom ditador”, disse numa entrevista. 

Ele construiu um estilo próprio e uma perspectiva de mundo única, desenvolvendo uma linguagem de planos gerais grandiosos e elaborados movimentos de câmera. Lutava para fazer os filmes a seu modo e sem interferências. Nascido filho de um contador no elegante subúrbio londrino de Croydon, cresceu como o mais velho de dois irmãos em uma rigorosa família que olhava o cinema com desaprovação. Sempre que podia, ele se refugiava no cinema local, onde se entusiasmava com os filmes silenciosos norte-americanos, impressionando-se fortemente com “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse / The Four Horsemen of the Apocalypse” (1921) e “Mare Nostrum” (1926), ambos de Rex Ingram, diretor que admirava. 

Em 1927, aos 19 anos, embarcou na carreira cinematográfica, depois de um ano sem sucesso na firma de contabilidade de seu pai. Foi contratado sem remuneração no Gaumont Studios, de Londres, onde sua principal funções era servir chá. Depois de curto período de tempo neste e em outros serviços, incluindo assistente de câmera, tornou-se o terceiro assistente de direção. Queria aprender tudo e começou a assistir ao trabalho na sala de montagem. Em 1930, foi nomeado editor-chefe e logo se tornou o editor mais bem pago da Inglaterra. Da edição, voltou a atenção para a direção. Recebeu várias propostas para dirigir filmes, porém rejeitou-as, temendo que produções medíocres prejudicassem o seu futuro. Finalmente a oportunidade esperada surgiu, quando o consagrado teatrólogo de comédias sofisticadas, Noel Coward, resolveu realizar “Nosso Barco, Nossa Alma” e ofereceu a DAVID LEAN o cargo de co-diretor.

omar sharif e david lean em 1965
Em estilo semi-documentário e tom patriótico, a história de um destroier da Marinha Britânica, desde a sua construção até seu torpedeamento durante a Segunda Guerra Mundial, e dos homens que nele serviam. Concorreu ao Oscar nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Na Inglaterra, foi considerado o longa mais popular do ano. A segunda parceria de Coward-Lean, “Este Povo Alegre”, da peça de Coward, mostra o cotidiano num lar suburbano entre as duas guerras. Evitando o sentimentalismo e o clima de teatro filmado, a crônica familiar de DAVID LEAN foi um êxito na Inglaterra em 1944.
 
Depois da comédia “Uma Mulher do Outro Mundo”, baseada também em peça de Coward, dirigiu “Desencanto”, um dos filmes britânicos românticos mais populares de todos os tempos. Narrando um frustrado romance com sinceridade e sutileza, através de flashbacks e em espaços confinados, o diretor realizou uma obra-prima intimista, recebendo indicação para o Oscar de Melhor Diretor e outra, juntamente com Coward e Havelock-Allan, para o de Melhor Roteiro. Em Cannes, levou o Prix de Critique. Encorajado pelo sucesso, com a Cineguild produziu adaptações de romances de Charles Dickens: “Grandes Esperanças” e “Oliver Twist”.
 
Para o papel título de “Oliver Twist” selecionaram – entre 1.500 candidatos – John Howard Davies. Ao lado do melodrama, o aspecto social foi abordado, evocando-se condições desumanas, a miséria e a sordidez da Londres do século dezenove. Seu filme seguinte, “A História de uma Mulher”, baseado num romance de H. G. Wells, trata das dificuldades afetivas de um triângulo amoroso. Durante a filmagem, o diretor (então casado com Kay Walsh, sua segunda esposa – a primeira foi Isabel Lean, que lhe deu um filho, Peter) apaixonou-se por Ann Todd. Eles se divorciaram de seus respectivos companheiros e se casaram no ano seguinte. DAVID LEAN se casaria pela quarta vez com Leila Matkar, pela quinta vez com Sandra Hotz e pela sexta vez com Sandra Cooke. Apesar de casado, morou muitos anos com Barbara Cole.

lean, sophia loren e o oscar
Novamente com Ann Todd fez “As Cartas de Madeleine”, mas o drama fracassou. Voltaria aos estúdios no final de 1951 quando, a convite de Alexander Korda, rodou “Sem Barreira no Céu”, cuja verdadeira força está nas cenas aéreas fotografadas por Jack Hildyard. Voltou à comédia com “Papai é do Contra”. Cheia de sátira e sentimento, foi o Melhor Filme do Ano da British Film Academy e tem excelente performance de Charles Laughton, como o dono beberrão de uma loja de calçados. Rodado em Veneza, “Quando o Coração Floresce” inaugurou a carreira internacional de DAVID LEAN.
 
Ultrapassando o filme turístico, retrata a evolução de uma mulher que descobre o amor. Katharine Hepburn, em comovente desempenho, refletindo toda a luta interior entre o desejo e o medo de uma secretária de meia-idade frustrada, domina completamente o drama num papel sob medida para seu talento. Foi candidata ao Oscar de Melhor Atriz. “A Ponte do Rio Kwai” marcou a entrada triunfal do cineasta no superespetáculo. O autor do romance que serviu de base para o filme, Pierre Boulle, havia sido procurado pelo cineasta francês Henri-Georges Clouzot e por Alexander Korda. Sam Spiegel, porém, foi quem assinou o contrato, investindo três milhões e meio de dólares na produção. Com locações no Ceilão, a produção levou três anos em preparo. Só a ponte, onde se dá o clímax da narrativa, levou oito meses para ser construída. O roteiro, assinado por Boulle – mas, na realidade, escrito por Carl Foreman e Michael Wilson, ambos então na Lista Negra comunista de Hollywood – traz uma mensagem pacifista, criticando não só a guerra como também o espírito militar exacerbado. O talento do diretor foi finalmente reconhecido com o Oscar. O segundo veio em 1962 com “Lawrence da Arábia”, o longa suntuoso pela qual DAVID LEAN ficou conhecido pelo resto de sua carreira.

lean nos anos 40
Ele trouxe intensidade para o projeto, que levou três anos para ser produzido e mais de um ano para ser filmado. Superprodução espetacular e, ao mesmo tempo, o retrato de um homem, uma figura histórica complexa e ambígua. Agente secreto, líder militar, agitador, exibicionista, sádico, masoquista, homossexual. Para o papel de Lawrence foi anunciado Marlon Brando, Cary Grant, Kirk Douglas e Albert Finney, mas terminou com Peter O’Toole (então com 28 anos) que se tornou um astro. 12 milhões de dólares foram investidos no filme rodado na Jordânia, Espanha, Egito, Damasco, Jerusalém e Marrocos. Conquistou sete Oscar. O produtor Sam Spiegel disse em entrevista: “Em toda a minha carreira não trabalhei com ninguém que se aproximasse da capacidade de David Lean de colocar imagens na tela”.
 
O próximo assunto a interessar o diretor – “por sua boa história de amor” - foi “Dr. Jivago”, o volumoso romance de Boris Pasternak, laureado com o Prêmio Nobel. Traça a trajetória de Yuri Jivago (Omar Sharif, depois de cogitados Paul Newman, Max Von Sydow e Burt Lancaster), médico e poeta, na Rússia do começo do século vinte, casado, que se apaixona por uma enfermeira também casada. Cinco anos depois, DAVID LEAN voltou à atividade, desta vez usando um argumento original de Robert Bolt, sobre uma jovem em remota aldeia irlandesa durante a Primeira Guerra Mundial. A Filha de Ryan, drama à maneira de Thomas Hardy, foi mal recebido, mas levou dois Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (John Mills) e Melhor Fotografia (Freddie A. Young).
 
Na década de 1970, tentou filmar um remake de “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty” (1936), um sonho que acalentava há anos, mas não deu certo. Inativo por 14 anos, finalmente rodou um clássico da literatura inglesa, “Passagem para a Índia”, de E. M. Foster.  Nos mostra um drama psicológico entrelaçado com a difícil convivência entre colonizadores e colonizados. Obteve 11 indicações para o Oscar (Lean concorreu em três categorias) e conquistou os de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Trilha Sonora.  Em 1990, o American Film Institute (AFI) o premiou com o Lifetime Achievement Award.  Em 1999, o British Film Institute fez uma lista com os 100 melhores filmes britânicos. Cinco de DAVID LEAN ficaram entre os trinta primeiros e três entre os cinco primeiros colocados. Ele morreu aos 83 anos de idade, de um câncer na garganta. Estava filmando “Nostromo”, do romance de Joseph Conrad. Provavelmente, seria mais uma grande obra de um cineasta para quem o cinema era fonte de prazer e expressão de beleza.

david lean, alec guinness e sessue hayakawa

TODOS os FILMES de DAVID LEAN
(por ordem de preferência)
 
01
DESENCANTO
(Brief Encounter, 1945)

elenco: Celia Johnson, Trevor Howard e Stanley Holloway
 
Médico e dona de casa se conhecem em uma estação de trem. Ambos são razoavelmente felizes em seus casamentos. Passam a se encontrar todas as quintas-feiras, surgindo uma paixão, apesar de saberem que este amor é impossível.
 
02
A PONTE do RIO KWAI
(The Bridge on the River Kwai, 1957)

elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins e Sessue Hayakawa
 
Na Segunda Guerra Mundial, soldados ingleses se tornam prisioneiros em um campo de concentração japonês. Este grupo é escolhido para construir uma ponte sobre o rio Kwai, mas um norte-americano que é prisioneiro do mesmo campo, decide destruí-la.
 
03
DOUTOR JIVAGO
(Doctor Zhivago, 1965)

elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Alec Guinness, Tom Courtenay, Siobhan McKenna, Ralph Richardson, Rita Tushingham e Klaus Kinski
 
Durante e após a Revolução Russa, um médico e poeta casado tem um envolvimento com enfermeira que se torna o grande amor da sua vida.
 
04
GRANDES ESPERANÇAS
(Great Expectations, 1946)

elenco: John Mills, Valerie Hobson, Jean Simmons, Martita Hunt e Alec Guinness
 
Criança humilde convive com senhora amargurada pela perda do seu amor. Quando cresce, recebe de um patrocinador misterioso uma chance para viver em Londres.
 
05
LAWRENCE da ARÁBIA
(Lawrence of Arabia, 1962)

elenco: Peter O'Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, Jose Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy
 
Em 1916, na Primeira Guerra Mundial, tenente do exército britânico, admirador do deserto e da vida beduína, se oferece para ajudar os árabes a se libertarem dos turcos.
 
06
OLIVER TWIST
(Idem, 1948)

elenco: John Howard Davies, Robert Newton, Alec Guinness e Francis L. Sullivan
 
Órfão sofrido foge para Londres, onde acaba se unindo a um bando de delinquentes liderados por um vigarista que usa os garotos para cometer pequenos roubos.
 
07
A HISTÓRIA de uma MULHER
(The Passionate Friends, 1949)

elenco: Ann Todd, Trevor Howard e Claude Rains
 
Em busca de segurança financeira, jovem abandona o homem que ama e casa com um rico mais velho. Anos depois, reencontra seu antigo namorado.
 
08
ESTE POVO ALEGRE
(This Happy Breed, 1944)

elenco: John Mills, Celia Johnson e Robert Newton
 
Após a Primeira Guerra Mundial, família operária se muda para subúrbio inglês. Até a Segunda Guerra, o cotidiano deles compõe variação de alegrias e infelicidades.
 
09
A FILHA de RYAN
(Ryan's Daughter, 1970)

elenco: Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard, John Mills e Christoper Jones
 
Na Primeira Guerra Mundial, em cidade irlandesa, deficiente mental expõe para todos que mulher casada tem caso com um oficial britânico, provocando revolta nos habitantes.
 
10
QUANDO o CORAÇÃO FLORESCE
(Summertime, 1955)

elenco: Katharine Hepburn, Rossano Brazzi e Isa Miranda
 
Norte-america en Veneza, apaixona-se por italiano. Sua alegria é abalada quando descobre que ele é casado, mas decide encarar as adversidades.
 
11
PASSAGEM para a ÍNDIA
(A Passage to India, 1984)

elenco: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox e Alec Guinness
 
Duas inglesas fazem uma viagem pela Índia nos anos 1920, imersa em intensos problemas raciais. Um médico local lhes serve de guia e, em visita às grutas de Marabar, um incidente se transforma em acusação de estupro.
 
12
As CARTAS de MADELEINE
(Madeleine, 1950)

elenco: Ann Todd, Norman Wooland, Ivan Desny e Leslie Banks
 
No século XIX, uma poderosa e rica família muda-se para uma casa nova. Uma das filhas, menina dos olhos do pai, envolve-se com um jovem humilde.
 
13
NOSSO BARCO, NOSSA ALMA
(In Which We Serve, 1942)

elenco: Noël Coward, John Mills, Bernard Miles, Celia Johnson e Michael Wilding
 
Análise psicológica dos sentimentos e reações de grupo de náufragos, enquanto esperam pelo resgate que talvez não chegue a tempo.
 
14
PAPAI é do CONTRA
(Hobson's Choice, 1954)

elenco: Charles Laughton, John Mills e Brenda de Banzie
 
Alcoólatra viúvo, dono de sapataria que tem uma boa clientela, calunia a filha mais velha para evitar que ela se case e abandone a administração do negócio familiar.
 
15
SEM BARREIRA no CÉU
(The Sound Barrier, 1952)

elenco: Ralph Richardson, Ann Todd, Nigel Patrick e Denholm Elliott
 
Piloto se casa com a herdeira de um magnata da aviação. O sogro está obcecado em romper a barreira do som com seu novo modelo a jato. As habilidades do rapaz facilitam a sua aceitação, sendo que sua esposa passa a temer ficar viúva a qualquer momento.
 
16
Uma MULHER do OUTRO MUNDO
(Blithe Spirit, 1945)

elenco: Rex Harrison, Constance Cummings, Kay Hammond e Margaret Rutherford
 
Depois de uma sessão de espiritismo, um escritor é atormentado pela visita de sua ex-mulher falecida. No entanto, sua atual esposa se recusa a acreditar nele.


abril 30, 2022

******* GÉRARD PHILIPE: um ASTRO, um MITO




Quando o ator não está atuando, 
ele se sente doente, deprimido, inquieto.
                                                         GÉRARD PHILIPE
 
Altura: 1,83 m
Olhos: castanhos
Cabelos: castanhos claros
 
 
Um dos atores mais populares e versáteis da Europa, cujas brilhantes atuações no palco e na tela estabeleceram sua reputação. Bonito como um deus, comprometido, carismático, ele morreu jovem, com apenas trinta e seis anos, e o tempo o transformou em um mito. A sua arte é o retrato dos anos 1950. Desde seu primeiro papel, em 1943, até sua última aparição nas telas, GÉRARD PHILIPE (1922 - 1959. Cannes / França) encarnou o herói ideal da França, em uma carreira iluminada. Ele escondeu de todos a tragédia que o atingiu na juventude: a condenação de seu pai pelos tribunais, em 1945, por colaborar com o nazismo, forçado ao exílio na Espanha para escapar de uma sentença de morte.  Um episódio doloroso. O ator nasceu nos Alpes-Maritimes. Em 1940, teve um encontro decisivo no Parc Hôtel Palace, em Grasse, dirigido por seu pai, com o cineasta Marc Allégret, refugiado como muitos artistas na Côte d'Azur. Este descobridor de talentos notou o jovem. No final de uma audição, ele o aconselhou a se matricular no Centre des Jeunes du Cinema, em Nice, e no Jean Wall, em Cannes. 
 
Em 1942, GÉRARD PHILIPE estreia no teatro e dois anos depois atua em seu primeiro filme, dirigido por Marc Allégret. Convidado para Paris, interpreta um anjo em “Sodoma e Gomorra”, uma performance que o torna uma estrela da noite para o dia, sendo notado pela crítica e elogiado por Jean Cocteau e René Clair. Seu sucesso no palco levou a ofertas de filmes e, em poucos anos, fama internacional. Marlene Dietrich viu uma de suas apresentações em Paris e tentou persuadir Ernst Lubitsch a fazer uma versão cinematográfica de “Der Rosenkavalier”, com ela como a condessa envelhecida, mas ainda adorável, e o ator francês como o amante mais jovem. 

A fama cinematográfica não diminuiu o entusiasmo de GÉRARD PHILIPE pelo palco. Ele criou papéis memoráveis em “Calígula” (1945), de Albert Camus; “O Príncipe de Hombourg” (1951), de Heinrich von Kleist; “Lorenzaccio” (1952), de Alfred de Musset; “Ruy Blas” (1954), de Victor Hugo, e “Richard II (1954), de Shakespeare. Foi aplaudido em “El Cid”, de Corneille, no Festival de Avignon, em 1951. No Théâtre National Populaire, dirigido por Jean Vilar, aderiu aos dogmas do grupo: uma aventura coletiva sem estrelato, marcada pela simplicidade a serviço de um público de todas as classes sociais, apresentando-se em subúrbios e províncias, em salas improvisadas, para performances acompanhadas de debates. Em 1951, casou-se com Nicole Fourcade. Jornalista, cineasta e etnóloga, ela acompanha o marido em suas viagens, realizando filmagens, apresentações teatrais e participando de festivais de cinema. O ator era recebido em todos os lugares como uma figura notável da cultura francesa e aproveitava para explorar os contornos políticos e sociais do lugar. O casamento deles foi uma intensa história de amor. Tiveram dois filhos. Com o pseudônimo de Anne Philipe, escreveu sobre o marido em “Souvenirs” (1960) e “Le Temps d'un Soupir” (1963). 
 
Em 1953, GÉRARD PHILIPE afasta-se dos papéis românticos, partindo para personagens complexos: um médico alcoólatra em “Os Orgulhosos / Les Orgueilleux” (1953), um almofadinha em “As Grandes Manobras”, um cínico empregado de loja em “As Mulheres dos Outros/ Pot-Bouille” (1958), o fraco secretário de “Os Ambiciosos / La Fièvre Monte à El Pao” (1959), entre outros. Gravou em discos textos literários de François Villon, Arthur Rimbaud, Paul Éluard e “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. Em 1956 co-dirige com Joris Ivens o filme “As Aventuras de Till / Les Aventures de Till L'Espiègle”, um projeto sonhado por muitos anos, mas que não obteve êxito. 

O mistério e a aura o associam a atores como James Dean. Havia algo em sua atuação que era maduro e infantil ao mesmo tempo. Em vida era muito alegre, adorava fazer rir os que o rodeavam, uma atitude quase de um eterno adolescente. Seu eterno sucesso se deve ao fato de que ele foi tão bom nas telas quanto no palco, fazendo malabarismos com os dois mundos como poucos. Outra razão é a vastidão de sua filmografia e performances teatrais que ele realizou em um tempo muito curto. Em 1958, retornando ao Théâtre National Populaire, interpretou seu autor favorito, Alfred de Musset, em “Les Caprices de Marianne” e “On ne Badine pas avec l'amour”. Ator hipnótico, politicamente comprometido, ativista pela defesa de sua profissão, fundou o Sindicato Francês de Artistas (SFA). Além do astro de cinema que encantava multidões, era conhecido como generoso e discreto, bom pai de família, marido apaixonado, amigo leal, profissional dedicado à sua arte. No entanto, os diretores da Nouvelle Vague não gostavam dele. François Truffaut parece ter tido especial antipatia pela sua persona nas telas. Ele escrevia sobre o ator coisas como: “terror dos bons diretores de cinema”, “comprometido com personagens melancólicos e tuberculosos de olhar marejado”. Especula-se que essa atitude antagônica era causada por divergências ideológicas.
 
Teatro Gérard Philipe
Uma fadiga repentina invadiu GÉRARD PHILIPE na primavera de 1959. Ele normalmente era a própria vitalidade. Na época, fazia planos para rodar uma versão cinematográfica de “O Conde de Monte-Cristo”. Estudava também a possibilidade de interpretar “Hamlet” nos palcos. Uma constante dor no ventre e um cansaço contínuo criavam indagações, mas não preocupação excessiva. Tinha acabado de voltar do México, onde trabalhou com Buñuel em “Os Orgulhosos”. A indisposição era atribuída aos hábitos alimentares em Acapulco. Hospitalizado, os médicos descobriram um tumor no fígado. Morreu dias depois de uma embolia brutal.
 
Manchetes em todo o mundo anunciaram seu fim. Partiu em plena glória e está enterrado em uma cova simples em um pequeno cemitério em Ramatuelle, perto da costa do Mar Mediterrâneo. Em 1961, seu retrato apareceu em um selo postal comemorativo francês. Em 1995, o governo francês lançou uma moeda de 100 francos com a imagem do ator. Além disso, escolas e teatros foram nomeados em sua homenagem, como o Collège Gérard Philipe, em Cogolin, e um teatro de Berlim, Alemanha. Eu vi a maioria dos seus trinta filmes. Ele é espetacular. Um dos monstros sagrados do cinema.


DEZ FILMES de GÉRARD PHILIPE
(por ordem de preferência)
 
01
Os AMANTES de MONTPARNASSE
(Les Amants de Montparnasse, 1958)

direção de Jacques Becker
elenco: Lilli Palmer, Anouk Aimée, Lila Kedrova e Lea Padovani
 
02
Uma PEQUENA PRAIA TÃO BONITA
(Une si Jolie Petite Plage, 1949)

direção de Yves Allégret
elenco: Madeleine Robinson, Jean Servais, Jane Marken e Julien Carette
 
03
CONFLITOS DE AMOR
(La Ronde, 1950)

direção de Max Ophüls
elenco: Anton Walbrook, Simone Signoret, Serge Reggiani, Simone Simon, Daniel Gélin, Danielle Darrieux, Fernand Gravey, Jean-Louis Barrault e Isa Miranda
 
04
À SOMBRA do PATÍBULO
(La Chartreuse de Parme, 1948)

direção de Christian-Jaque
elenco: Renée Faure, María Casares, Lucien Coëdel e Louis Salou
 
05
A BELEZA do DIABO
(La Beauté du Diable, 1950)

direção de René Clair
elenco: Michel Simon, Nicole Bernard e Paolo Stoppa
 
06
FANFAN la TULIPE
(Idem, 1952)

direção de Christian-Jaque
elenco: Gina Lollobrigida, Marcel Herrand e Geneviève Page
 
07
As GRANDES MANOBRAS
(Les Grandes Manoeuvres, 1955)

direção de René Clair
elenco: Michèle Morgan, Jean Desailly, Brigitte Bardot, Lise Delamare e Magali Noel
 
08
As LIGAÇÕES AMOROSAS
(Les Liaisons Dangereuses, 1959)

direção de Roger Vadim
elenco: Jeanne Moreau, Annette Stroyberg e Jean-Louis Trintignant
 
09
ADÚLTERA
(Le Diable au Corps, 1947)

direção de Claude Autant-Lara
elenco: Micheline Presle e Jacques Tati
 
10
JULIETA ou a CHAVE dos SONHOS
(Juliette ou La Clef des Songes, 1951)

direção de Marcel Carné
elenco: Suzanne Clouthier

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a casa do ator