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junho 26, 2016

******************* O INDOMÁVEL STEVE McQUEEN


Um astro atormentado, irreverente, extremamente autêntico. Talvez o anti-herói mais memorável da história do cinema. A sua carreira não foi muito longa, a sua vida também não. Mas ambas foram vividas intensamente. 

Conhecido em Hollywood como “The King of Cool” (algo como “O Rei da Descontração”), ele se definia como “cínico, rebelde e nada bonito”, e sempre procurou personagens obcecados por um ideal, nada românticos, sem o estereótipo do galã. Apontado no início da carreira como o substituto de James Dean e Marlon Brando, o lendário STEVE McQUEEN (Beech Grove, Indiana, 24 de março de 1930 — Ciudad Juárez, México, 7 de novembro de 1980) se diferencia pela mistura de erotismo, sensibilidade e coragem. Chegou a ser o ator mais bem pago do mundo na década de 1970. Raramente utilizava dublês, sendo ele mesmo que dirigia os veículos em perigosas cenas. Em “Fugindo do Inferno (1963), na endiabrada corrida de motocicleta, perseguido pelos nazistas, realmente é ele pilotando. Apenas o famoso salto por cima da barreira de arame farpado foi executado por um dublê, já que a seguradora não permitiu tal risco.

Nasceu numa fazenda. Abandonado pelo pai, criado por um tio agricultor e uma mãe de presença inconstante, ele teve uma adolescência turbulenta, convivendo com vagabundos e delinquentes. Conheceu diversos padrastos pouco simpáticos e constantes cenas de pancadaria doméstica. Passou dois anos num reformatório da Califórnia. Aos quinze anos abandonou definitivamente a família para ser carregador, empregado de posto de gasolina e vendedor. Tinha razões para se sentir revoltado e negligenciado. No entanto, anos depois, quando a mãe indiferente morreu, compareceu no funeral e foi a única vez que chorou em público.

Alistou-se na Marinha em 1947, onde esteve vários anos, sendo despromovido de cabo a soldado devido ao seu comportamento desordeiro. Passou mais de um mês na cadeia, antes de ser desmobilizado. Em 1952, fez uma audição no Actors Studio, de Lee Strasberg. Das duas mil pessoas que tentaram ser admitidas nesse ano apenas ele e Martin Landau foram aprovados. O aspirante estreou na Broadway em 1955, num pequeno papel na peça “Cárcere sem Grades / A Hatful of Rain”. Participou de diversas séries de TV. Entre 1958 e 1961 estrelou “Procurado: Vivo ou Morto”, faroeste de sucesso para a CBS, que rendeu noventa e quatro episódios. Ao longo das filmagens, ele aperfeiçoou a técnica de sacar rápido e de se mover com destreza, além de revelar carisma e vigor. Durante a rodagem adquiriu a reputação de pessoa difícil. O ator Don Gordon reparou na impopularidade do colega e disse-lhe, ouvindo como resposta: “Estou aqui para trabalhar, não para ser um sujeito simpático.”.  

Começou no cinema numa participação minúscula em “Marcado pela Sarjeta / Somebody Up There Likes Me” (1956), estrelado por Paul Newman, então seu amante. Newman se apaixonou perdidamente pelo novato, desenvolvendo uma relação de amor e ódio que nunca seria muito bem resolvida. Em 1974, ao contracenarem em “Inferno na Torre / The Towering Inferno”, o modo como os nomes surgiriam nos créditos gerou calorosas discussões – ambos queriam aparecer primeiro – e foi adotada a solução de colocá-los lado a lado, um ligeiramente acima do outro. A história cabulosa está na biografia não autorizada de Paul Newman, “The Man Behind the Baby Blues” (2009), de Darwin Porter.

Em 1958, STEVE MCQUEEN teve seu primeiro papel protagonista no cult de terror “A Bolha Assassina / The Blob”. Porém, o filme que o converteu em astro foi o campeão de bilheterias “Fugindo do Inferno”. Típico durão hollywoodiano, versão anos 1960 de Humphrey Bogart e outras lendas do passado, ele era um solitário por natureza e sua insociabilidade atingiu o ápice entre 1974 e 1978, quando preferia ficar trancado em casa, drogando-se e bebendo cerveja. Rejeitou convites milionários para atuar em “Apocalypse Now / Idem” (1979), de Francis Ford Coppola, e trabalhar ao lado de Sophia Loren. Recusou também “Perseguidor Implacável / Dirty Harry” (1971), “Operação França / The French Connection” (1971), “Um Estranho no Ninho / One Flew Over the Cuckoo’s Nest” (1975) e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau / Close Encounters of the Third Kind” (1977).

Tinha tamanho desprezo pelo meio cinematográfico que se desligou totalmente de Hollywood, reconhecendo que fazia filmes por dinheiro e que estava pouco ligando para festas, glamour, entrevistas e premiações. Foi nomeado apenas uma vez ao Oscar, por “O Canhoneiro do Yang-Tsé”, perdendo para Paul Scofield em “O Homem que Não Vendeu sua Alma / A Man for All Seasons”. Ao receber a notícia que concorria ao Globo de Ouro por “Papillon”, respondeu: “Não estarei presente na cerimônia. Se eu ganhar, mandem o prêmio pelo correio.”.

Inúmeras biografias retratam a vida e a carreira de STEVE McQUEEN. Todas documentam o seu lado negro. Mas acabam por se render às evidências: havia sensibilidade debaixo da fachada rude. Um dos seus biógrafos, Marshall Terrill, afirma que o ator “era várias pessoas numa só. Honesto, desonesto, amável, odioso, modesto, presunçoso, inteligente, maduro, infantil… Era capaz de jurar amor eterno à esposa e ter um caso logo a seguir. Era mesquinho com os amigos, mas extremamente generoso com estranhos. Falava sobre os perigos das drogas, mas não conseguia evitá-las. Os paradoxos sempre me fascinaram e ele era o derradeiro paradoxo”. Chad McQueen, o seu filho, reconhece que o pai não estava muito presente, mas sempre o tratou bem, “já que decidira que os filhos não teriam a mesma infância dele”.

Poucos gostavam dele. Insuportável e competitivo, “roubava” filmes deliberadamente. Andava com as mulheres de atores. Tinha tudo o que muitos não tinham. Semeava invejas. Abusava do álcool e das drogas. Nas filmagens de “Sete Homens e Um Destino” (1960) teve sérios problemas com Yul Brynner. No drama “Papillon” (1973), em disputa acirrada com Dustin Hoffman, aconselhou ironicamente ao colega a ter cuidado com as armadilhas fáceis da droga. “Não é da tua conta”, respondeu Dustin, irritado, concluindo: “Você bebe cerveja e fuma marijuana como um louco, não é grande exemplo.”. Rodando “Crown, o Magnífico” (1968), chamava Faye Dunaway, pelas costas, de “Done Fadeway” (esquecida, acabada).

Outro inimigo foi Bruce Lee, que lhe deu lições de artes marciais e tinha um despeito terrível dele. A ambição de Lee era ser o “Steve McQueen asiático”. Quando alcançou o sucesso, escreveu uma mensagem arrogante: “Vê, sou mais famoso do que você!”. O ator rebateu enviando a Lee uma foto autografada, dizendo, “para Bruce, o meu fã número um”. A resposta foi um telefonema histérico do oriental, com o seu inglês macarrônico: “Steve, I kill you, I kill you!”.

Apaixonou-se pela velocidade aos 4 anos de idade, quando ganhou um triciclo. Atuar era sua profissão, mas o que STEVE McQUEEN gostava mesmo era de pilotar. Sua paixão pela velocidade era tanta que chegava ao ponto de pedir para seu mecânico ler os roteiros de filmes que recebia e mostrar apenas os mais interessantes. Possuía uma coleção de mais de 100 motos e carros raros, dentre eles clássicos como Triumph, Jaguar, Mini Cooper, Ferrari e Porsche. Em 1984, a coleção foi leiloada, atingindo valores astronômicos. Não era apenas um amante e conhecedor de motocicletas e carros, mas principalmente um talentoso piloto e motociclista. Além disso, criou e patenteou um novo banco “concha” e um sistema para largadas de corridas de arrancada, conhecido como transbrake.

Sua vida sentimental foi complicada. Casou-se três vezes, a primeira com a cantora e dançarina Neile Adams, com quem teve dois filhos, e depois com a atriz Ali MacGraw, seu maior amor, que conheceu durante as filmagens de “Os Implacáveis” (1972), e por último com Barbara Minty. Ao se apaixonar por STEVE McQUEEN, a atriz Ali MacGraw pediu o divórcio ao então marido, o poderoso produtor Robert Evans. Foi um escândalo. Evans tinha grandes planos para a esposa. Havia reservado para ela os papéis principais de “O Grande Gatsby / The Great Gatsby” e “Chinatown / Idem”, ambos de 1974. Revoltado, boicotou a estrela e ela nunca mais conheceu o sucesso. O casamento com McQueen não durou muito. Em 1978 eles se separaram.


Apesar de episódios bissexuais no início da carreira, ele era um mulherengo incurável. No entanto, ao contracenar com Natalie Wood em “O Preço de um Prazer” (1963), resistiu às investidas da atriz, já que era amigo do marido dela, Robert Wagner. Natalie tinha por hábito conquistar todas as co-estrelas com quem trabalhava, e dizem que anos mais tarde compensou a oportunidade perdida.

O ator esteve na famosa lista negra da seita “A Família”, do assassino Charles Manson. Ele salvou-se da morte em 1969, na noite em que adeptos do fanático assassinou Sharon Tate e mais três pessoas, em casa de Roman Polanski. Amigo da atriz, combinara visitá-la, mas, à última hora, desmarcou o encontro. Teria sido a quinta vítima. Quando tomou conhecimento do assassinato, comprou uma arma, que sempre levava com ele dia e noite.


Durante a sua vida, STEVE McQUEEN deu polpudas somas a instituições de caridade. Preocupava-se com crianças sem lar e agia com discrição, através de intermediários. Só depois da sua morte se soube que dera milhões de dólares para ajudar os desfavorecidos. Na época em que era o ator mais bem pago do mundo, uma instituição de solidariedade convidou diversas celebridades para um evento de angariação de fundos. Nenhuma apareceu, a não ser ele, que chegou de moto, perfeitamente descontraído.

O seu fim foi amargo. Perdeu a batalha contra uma forma rara de câncer do pulmão, provocada pela exposição ao amianto. Escondendo a doença, tentou todo o tipo de terapias alternativas. A doença minou o seu corpo. Os olhos azuis ficaram acinzentados. Faleceu vítima de ataque cardíaco, depois de uma operação numa clínica em Juarez, no México, em 7 de novembro de 1980, aos 50 anos. As suas cinzas foram espalhadas no Oceano Pacífico.


A ÚLTIMA ENTREVISTA

Durante as filmagens do thriller “Caçador Implacável / The Hunter” (1980), o seu derradeiro filme, foi entrevistado por um estudante, Richard Kraus, para o jornal colegial “The Federalist - UCLA’s Daily Bruin”. Confira.

Encontrei-o na filmagem de uma cena. Quando ela acabou, ele viu-me no meio da multidão e disse a todos que ia fazer uma pausa. Sentamos-nos numa escada. O mais estranho foi que a equipe de filmagem formou um grupo à nossa volta, assistindo à entrevista, já que sabiam que ele nunca as dava.

Quando terminamos, ele perguntou se podia continuar. Pôs o braço em redor do meu ombro e acompanhou-me por um corredor, longe de todos, e falou-me sobre a importância de viver e aprender. Foi um momento especial.

Qual foi o seu primeiro filme?

(Antes de responder, alguém gritou, “A Bolha Assassina”, e Steve ficou embaraçado) Não falemos disso. Não quero falar desse filme. Próxima pergunta.

Planeja fazer mais filmes num futuro próximo?

Isso é uma grande interrogação. Quando terminar este, gostaria de me sentar a tomar o café da manhã descansado, para variar, e logo se vê. Gostaria de fazer um filme de ação/aventura. Gosto de variar. Gostei de “O Preço de um Prazer”, uma comédia. Diverti-me fazendo “O Canhoneiro do Yang-Tsé”, que era essencialmente um drama, e também “Bullitt”, um filme de ação. Por isso, vê que gosto de papéis diferentes. O meu primeiro filme foi “A Bolha Assassina”… Fiz papel de rapazinho. Foi quando tinha uns 25. Nasci tarde para o mundo da representação.

E qual foi o seu passado?

Meti-me em muitas confusões quando era garoto, coisas que, nos dias de hoje, ninguém ligaria. Roubos, bebida e drogas. Embora, na época, drogas não fossem consideradas coisas más.

Ser famoso interfere na sua vida privada?

Sim. O mais importante é termos a nossa identidade, mas nunca descurarmos a obscuridade. É essa a chave, mas o dinheiro faz-me sentir bem.

Tem estado sob o olhar do público nos últimos anos, mas, mesmo quando faz filmes, não dá entrevistas. Por que esse silêncio?

Para começar, não tenho nada a dizer. Além disso, acho que a imprensa é uma enrolação. Mas tenho um certo respeito pela juventude, e foi por isso que concordei em dar esta entrevista para o seu jornal.

Quando foi entrevistado pela última vez?

Uma década... Foi há 10 anos. Já nem me lembro quem me entrevistou.

Que conselho daria a jovens que querem ser atores?

É muito “caro” ser ator, custa tempo e dinheiro. Não aconselho ninguém a sê-lo. Sou um dos que teve sorte. Mas se decidir ser ator, prepare-se para desistir de todo o resto e de viver uma vida sã. Isso inclui comer e dormir em condições. Deve “ver” a vida para que possa retirar-lhe as camadas e usá-la no trabalho. Aprender coisas na rua ajudou-me muito no meu trabalho. Não sou um ator acadêmico. Tem também de estar preparado para ser rejeitado cinco vezes por dia. Aí entra a importância da família. A família dá a força de uma rocha.

Quem eram os seus ídolos de adolescente?

Bom, acho que você não lembraria de nenhum deles.

Mas os professores também leem o nosso jornal.

Mas isto não é para os professores. É para os alunos.


10 FILMES de STEVE McQUEEN
(por ordem de preferência)

01
BULLITT
(Idem, 1968)
de Peter Yates
com Robert Vaughn e Jacqueline Bisset


02
PAPILLON
(Idem, 1973)
de Franklin J. Schaffner
com Dustin Hoffman e Victor Jory


03
A MESA do DIABO
(The Cincinnati Kid, 1965)
de Norman Jewison
com Ann-Margret, Karl Malden, Tuesday Weld,
Edward G. Robinson e Joan Blondell



04
Os IMPLACÁVEIS
(The Getaway, 1972)
de Sam Peckinpah
com Ali MacGraw e Ben Johnson



05
O PREÇO de um PRAZER
(Love with the Proper Stranger, 1963)
de Robert Mulligan
com Natalie Wood



06
CROWN, o MAGNÍFICO
(The Thomas Crown Affair, 1968)
de Norman Jewison
com Faye Dunaway


07
FUGINDO do INFERNO
(The Great Escape, 1963)
de John Sturges
com James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson
e James Coburn


08
O GÊNIO do MAL
(Baby the Rain Must Fall, 1965)
de Robert Mulligan
com Lee Remick e Don Murray


09
O CANHONEIRO do YANG-TSÉ
(The Sand Pebbles, 1966)
de Robert Wise
com Richard Attenborough e Candice Bergen


 10
SETE HOMENS e um DESTINO
(The Magnificent Seven, 1960)
de John Sturges
com Yul Brynner, Eli Wallach, Charles Bronson
e James Coburn

setembro 11, 2015

............ KUROSAWA, o IMPERADOR JAPONÊS


Descendente de um clã de samurais, AKIRA KUROSAWA (1910 - 1998) trabalhou na juventude como ilustrador de revistas, desenhando anúncios publicitários. Em 1936, iniciou a carreira cinematográfica como roteirista e assistente de direção, até dirigir, em 1943, “A Saga do Judô / Sugata Sanshiro”. O sucesso se dá com um emblemático filme de época: “Rashomon” (1950), levando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e impulsionando de maneira arrebatadora o ofício do cineasta. Filme divisor de águas do cinema japonês. Até vencer o Festival de Veneza de 1951, o Japão era uma nação exótica para o Ocidente. Foi ele quem abriu as portas para o cinema e, por que não, para a cultura do país. Nesta obra admirável e inovadora, brilha Toshiro Mifune, o rosto do cinema de Kurosawa. Considero o melhor filme do mestre e um dos melhores de sempre.

toshiro mifune
A parceria Kurosawa-Mifune seria uma das mais profícuas colaborações de diretor-ator da história do cinema, um exemplo de entrosamento hábil, estilo John Ford-John Wayne ou Bette Davis-William Wyler. Fizeram juntos 16 filmes. Infelizmente, a dupla chegaria ao fim em 1965: a filmagem de “O Barba Ruiva / Akahige”, o último filme em preto e branco do diretor, demorou dois anos, e Mifune não podia atuar em outros trabalhos durante a produção, o que o levou a dificuldades financeiras, e tinha suas próprias opiniões sobre a interpretação do personagem, surgindo daí a ruptura definitiva entre ele e AKIRA KUROSAWA. Fim de uma sociedade que se havia iniciado com “O Anjo Embriagado / Yoidore tenshi”, considerado por muitos como “o primeiro filme de Kurosawa”. O próprio diretor admitia que este fosse o primeiro que ele poderia chamar de “meu filme”. O rompimento entre ator e cineasta se tornaria inevitável. 

Tempos depois, quando Toshiro Mifune obteve consagração mundial por sua participação como Lord Yoshi Toranaga na minissérie televisiva “Shogun / Idem” (1980), uma co-produção Japão-EUA, comentários irônicos do diretor japonês gelaram ainda mais a relação. Uma espécie de “reconciliação” ocorreria em 1993, durante os funerais de um amigo comum, após tímida troca de olhares, os dois se abraçaram com olhos marejados. A intimidade, porém, nunca mais seria retomada. A história desse rompimento artístico e humano inspirou um livro, The Emperor and the Wolf / O Imperador e o Lobo, de Stuart Galbraith IV. Sem Mifune, a obra de Kurosawa, literalmente, mudou de rosto.

Oitavo e último filho de uma família de classe média de Tóquio, AKIRA KUROSAWA estudou artes plásticas e teve forte influência do irmão Heigo no gosto pela literatura e cinema – ele era narrador de filmes mudos no começo do século passado, mas com o advento dos filme sonoros, ficou desempregado e se suicidou, um episódio que deixou marcas no diretor. Ele disse diversas vezes que foi muito influenciado por cineastas norte-americanos como John Ford, William Wyler, Frank Capra, Howard Hawks e George Stevens. Chegou a citar o italiano Michelangelo Antonioni, mas não como uma influência e sim como “um diretor muito interessante”. No que diz respeito a influências japonesas lembra enfaticamente Kenji Mizoguchi, dentre todos os seus conterrâneos. Mizoguchi cria um mundo puramente japonês, afirmou Kurosawa.

toshiro mifune em os sete samurais” 
Apesar do diálogo amplo com a literatura mundial, Kurosawa tem uma voz extremamente própria. Dono de uma visão universal e essencialmente teosófica, ele resgata a tradição dos samurais e reflete sobre a dor humana, enquanto aborda a ética e a justiça nas relações sociais. A natureza, e a sua preservação, são outra constante em sua obra. Cada filme era para ele um novo desafio, e raramente era fácil. Utilizando um clássico de Dostoiévski, realizou em “O Idiota / Hakuchi” (1951) outro longa impecável. No ano seguinte, lançaria o sensível e triste “Viver”, para alguns o seu melhor trabalho.

Ainda na década de 1950, “Os Sete Samurais” (1954) popularizou mundialmente valentes samurais. É o título mais lembrado, citado e referenciado de AKIRA KUROSAWA, e viria a ser considerado por diversas publicações um dos 100 maiores filmes de todos os tempos. Três anos depois, ele adaptaria o denso “Macbeth”, de Shakespeare, que renasce no Japão feudal de maneira brilhante em “Trono Manchado de Sangue”. Em 1958, fez o vibrante “A Fortaleza Escondida”, inspiração de George Lucas em “Guerra nas Estrelas / Star Wars” (1977). 


O grande sucesso “Yojimbo - O Guarda-Costas / Yôjinbô” (1961) foi reproduzido como o clássico faroeste “Por um Punhado de Dólares / Per Un Pugno di Dollari” (1964), de Sergio Leone. Aliás, esse filme provocou um processo judicial por plágio movido e ganho por Kurosawa. Certa vez perguntaram o que ele pensava das adaptações para faroeste de três de seus filmes – além do já citado, “Sete Homens e Um Destino / Magnificent Seven” (1960), onde John Sturges adaptou “Os Sete Samurais”; e “Quatro Confissões / The Outrage” (1964), quando Martin Ritt se inspirou em “Rashomon”. O cineasta respondeu: “Eu não tenho nada contra adaptações de meus filmes. Mas não acredito que possam ter êxito. O contexto básico é muito distinto. E, sejam quais forem meus pontos de vista, filmes pastiche, de um tipo calculado, não podem nunca ser bons filmes... é, por exemplo, ridículo me imaginar dirigindo um faroeste de Hollywood. Porque eu sou japonês...”

No final da década de 1960, Kurosawa foi para Hollywood realizar um projeto ambicioso: junto com a Fox lançaria um drama de guerra que retrataria o ataque a Pearl Harbour tanto do ponto de vista japonês quanto do norte-americano. Kurosawa escreveu um roteiro que teria 4 horas, e a Fox queria um filme de 90 minutos. Ele desistiu do projeto. O filme acabou saindo, dirigido por Richard Fleischer, Kinji Fukasaku e Toshio Matsuda, com o nome de “Tora! Tora! Tora! / Idem” (1970). Kurosawa, então, entrou em uma crise emocional e criativa, que incluiria uma tentativa de suicídio.

Ele venceria pela segunda vez o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desta vez, em 1975, com “Dersu Uzala”, exatos 25 anos após receber a mesma estatueta por “Rashomon”. É, sem dúvida, um dos seus mais belos filmes. Nos anos 1980, George Lucas e Francis Ford Coppola acabariam co-produzindo dois de seus épicos, “Kagemusha – A Sombra de Um Samurai / Kagemusha” (1980) e “Ran” (1985). “Kagemusha - A Sombra do Samurai” levou a Palma de Ouro em Cannes - prêmio dividido com “O Show Deve Continuar / All that Jazz (1979), de Bob Fosse. Com “Ran”, voltaria a recriar Shakespeare. Uma obra grandiosa, que levou mais de 10 anos para ser realizada e terminou por ser indicada ao Oscar de Melhor Direção. O mestre elegeu Ran como a “obra de sua vida”Os seus últimos filmes (“Sonhos / Dreams”, 1990; “Rapsódia em Agosto / Hachi-gatsu no kyôshikyoku”, 1991; e “Madadayo / Idem”, 1993) são pinceladas intimistas sobre o tempo, a maturidade e a morte. 

Se hoje em dia temos a oportunidade de conhecer a cinematografia oriental, o maior responsável é AKIRA KUROSAWA. Ele abriu as portas do Japão para o mundo, revelando outros importantes cineastas há muito na ativa (Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi etc.). Curiosamente, os seus filmes sempre fizeram mais sucesso no mundo ocidental do que no seu país natal, onde os críticos viam seu estilo único forjado em westerns (ele tem muito de John Ford, e também de “Os Brutos Também Amam Shane”, de George Stevens) e na obra de grandes escritores europeus. Kurosawa transcendeu gêneros, épocas e nacionalidades, mas nunca deixou em segundo plano sua própria cultura, isso é percebido na movimentação dos atores, em sua obsessão por cenários autênticos e na influência do teatro Nô e Kabuki. 

george lucas, kurosawa 
e steven spielberg
Uma das características mais associadas ao seu perfil é o de ser perfeccionista e minucioso. Seu perfeccionismo (reconstruiu até castelos que foram queimados para algumas tomadas de cenas) estava ligado justamente ao fato de participar de praticamente todas as etapas do processo de realização de um filme. Ele não apenas dirigia, mas também escrevia o roteiro, desenhava os personagens e as cenas de batalha - que servia como storyboard na rodagem -, ajudava na fotografia e no posicionamento da câmera.

A linguagem cinematográfica de AKIRA KUROSAWA está profundamente interligada ao sentimento humano. Em seus filmes, o componente reflexivo, sempre está presente, focalizando o homem frente às escolhas éticas e morais. Clássico na forma e romântico na essência, eclético e denso, fundiu a alma japonesa e os valores universais, subordinando o ideal humanista à beleza que jorra em imagens esplêndidas criadas com notável senso plástico. Além de ser um dos melhores cineastas de seu país, influenciou - e influencia até hoje - a produção cinematográfica em todo o mundo. Considerado pela revista “Entertainment Weekly” como o 6º maior diretor de sempre, em 1990 recebeu da Academia um Oscar especial pelo conjunto da obra. O diretor ainda viveu bons momentos até seu último e póstumo filme, “Depois da Chuva / Ame Agaru, de 1999, que foi terminado por seu discípulo Takashi Koizumi. Ele jamais se aposentou. Conviveu até seus últimos dias com o cinema.

mieko arada em “ran” 

TOP 10 KUROSAWA
 (por ordem de preferência)

01
RASHOMON
(Rashômon, 1951)
Um estupro e um assassinato através de várias narrativas, partindo da lembrança de quatro testemunhas: o bandido, o samurai assassinado, a esposa do samurai e um lenhador. Refilmado em 1964 como “Quatro Confissões”, com Paul Newman, Laurence Harvey, Claire Bloom e Edward G. Robinson.

02
TRONO MANCHADO de SANGUE
(Kumonosu-jô, 1957)
Dois samurais têm uma visão de uma senhora em meio a uma floresta. Depois que ela profetiza um ambicioso futuro para um deles, tomam atitudes que fazem com que o que foi profetizado se torne realidade, não importando a quantidade de sangue derramado.

03
DERSU UZALA
 (Idem, 1975)
Um velho caçador ajuda como guia um explorador russo em uma missão pela floresta. Quando se reencontram, tempos depois, o explorador decide levá-lo para sua casa e cuidar dele, mas este sofre um forte impacto entre os diferentes padrões de vida da cidade e das montanhas.

04
A FORTALEZA ESCONDIDA
 (Kakushi-toride no San-akunin, 1958)
Um poderoso homem escolta uma princesa fugitiva, em pleno território inimigo, com a ajuda de dois medrosos desertores da guerra.

05
VIVER
(Ikiru, 1952)
Um idoso burocrata descobre que tem câncer de estômago, em estágio terminal, e utiliza os últimos dias de sua vida vazia para viver intensamente, tentando também tornar melhor a existência dos outros.

06
Os SETE SAMURAIS
(Shichinin no Samurai, 1954)
Uma humilde aldeia precisa se defender de ataques de bandidos. Seus moradores acabam contratando ronins (samurais que não servem a um amo) para ensiná-los a guerrear. Maravilhoso do início ao fim, gerou uma refilmagem ambientada no faroeste, “Sete Homens e um Destino”, um clássico do western com Steve McQueen, Yul Brynner, Charles Bronson e Eli Wallach.

steve mcqueen e yul brynner
07
HOMEM MAU DORME BEM
(Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru, 1951)
No Japão do pós-guerra, um jovem tenta se utilizar de sua posição no coração de uma empresa corrupta para expor os homens responsáveis pela morte de seu pai. Ele tentará investigar sobre um possível assassinato do pai. Obra-prima, um roteiro elegante e a bela música de Sato.

08
RAN
(Idem, 1985)
Chefe da família, já velho, decide dividir seus preciosos bens entre os três filhos, gerando uma sangrenta batalha entre eles.

09
RALÉ
(Donzoko, 1957)
Numa miserável pensão, com diversificados hóspedes, um triângulo amoroso se forma entre o dono da pensão, sua irmã e um ladrão.

10
CÃO DANADO
(Nora Inu, 1949)
Detetive perde a pistola e roda por toda Tóquio em seu encalço. Ele se sentirá culpado por todos os crimes cometidos com pistolas. Perdendo sua pistola, perde também seu lugar na sociedade – torna-se um “danado”. A partir daí, a busca pela arma torna-se uma busca por si mesmo. No processo, acaba se identificando com o universo marginal. O filme denuncia o enfraquecido mundo do Japão pós-guerra, bem como a natureza de uma mente criminosa. Por essa e outras razões, jamais poderia ser classificado como um mero thriller criminal.


STORYBOARDS de KUROSAWA





FONTES

BAZIN, André. O Cinema da Crueldade. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

GALBRAITH IV, Stuart. O Imperador e o Lobo. 

RICHIE, Donald. The Films of Akira Kurosawa. Los Angeles: University of California Press, 3ª ed., 1996.

TESSON, Charles. Akira Kurosawa. Paris: Le Monde/Cahiers du Cinéma, Collection Grandes Cinéastes, 2007.